sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Bush X McCain

Depois da indiscutível vitória Democrata em todos os aspectos eleitorais, o presidente Bush deixará a Casa Branca ainda sob o impacto de alguns números altamento negativos: além do azar da crise econômica ter dado um nocaute justamente no último round de seu governo, passa para a História como o líder americano a quase bater o recorde de desaprovação interna ostentado por Harry Truman em 1952 (somente 22% de americanos satisfeitos). 

Muito por causa da crise, em setembro deste ano a administração Bush chegou bem perto do último limite de impopularidade; somente 27% dos americanos disseram ao Instituto Gallup apoiarem suas decisões. Foi o pior índice registrado desde que chegou à presidência e fez Bush se unir a Truman e Richard Nixon como os únicos que obtiveram percentual igual ou inferior aos tais 27% de aprovação popular. 

Certamente o recado dado pelas urnas e os índices das pesquisas de popularidade desagradam ao presidente. Mas não necessariamente a derrota de McCain foi pessoalmente ruim para Bush. 

Como deixou claro ao longo de toda a campanha, McCain fez um enorme esforço para desvincular sua imagem à do presidente. E não apenas pela óbvia insatisfação popular com assuntos como crise financeira e guerra do Iraque. 

A biografia política de McCain é marcada por confrontos com Bush que chegaram ao auge em 2004. Além de ter recebido uma proposta direta para mudar de partido, McCain foi sondado por John Kerry para ser seu vice nas eleições presidenciais daquele ano. McCain seria o vice do candidato democrata, algo inédito na política americana. Do outro lado da disputa e que mais tarde seria reeleita, a chapa Bush-Cheney. 

Seguramente, Bush não está rompendo em lágrimas pela derrota de McCain. 

No vídeo abaixo, George W. Bush discursa e dá os cumprimentos oficiais ao presidente eleito e menciona os serviços prestados por John McCain ao país. Também aproveita para dar uma leve alfinetada no slogan de campanha de Obama e para reafirmar sua própria agenda política ao longo desses dois mandatos - o forte investimento em segurança. 

"A longa campanha terminou e agora seguimos em frente como uma única nação.  Estamos começando um período de mudanças em Washington, embora sempre haverá valores que nós nunca vamos mudar. O governo dos Estados Unidos vai permanecer alerta em sua responsabilidade mais importante: proteger o povo americano". 

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A vitória de Obama

O candidato democrata venceu, o mundo comemorou, a Era Bush está prestes a terminar. Obama conta com a simpatia do planeta. Recebeu congratulações até de Rússia e Venezuela - Chávez escreveu que quer voltar a ter boas relações com os Estados Unidos. 

Além do apoio externo - à exceção da Al-Qaeda, que preferia McCain -, dentro de casa o resultado das eleições também foi bastante positivo. No placar final, o fenômeno Obama transferiu sua enorme popularidade a seu partido. Na Câmara e no Senado, os democratas são maioria (56 a 40 e 251 a 172), algo que não acontecia desde 1995, quando Bill Clinton ainda era presidente. 

Depois de oito anos de governo republicano, a rotatividade do poder é bastante natural - para não dizer, esperada. Mas a mudança foi, sem dúvida, acelerada pelo carisma e poder de oratória de Obama, que chacoalhou o cenário mundial apresentando sua candidatura como um fato novo no marasmo da política americana. Com uma carreira meteórica, chega vitorioso nas duas primeiras batalhas que enfrentou: a dura - e muitas vezes desleal - disputa com McCain e o embate contra o sentimento anti-americano no exterior.

Depois de muito tempo, bandeiras dos Estados Unidos foram agitadas nas ruas das capitais européias e não foram queimadas. 

Obama tem agora um cenário altamente favorável para realizar as mudanças que seu slgoan de campanha prometeu e - mais ainda - que o mundo espera dele. Leia aqui a análise do The New York Times sobre a vitória do senador. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A vida dura do próximo presidente americano

É difícil mesmo entender porque a disputa pela Presidência americana é tão acirrada. Ou melhor, qual o sentido de ambicionar ao cargo mais importante do planeta neste exato momento histórico.

Seja quem for o eleito, o próximo presidente vai receber de bandeja uma dívida federal de 1 trilhão de dólares. As últimas notícias mostram a queda de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB) no pior resultado desde o índice negativo de 1,4% no terceiro trimestre de 2001, depois dos atentados de 11 de setembro.

O próximo governante americano terá em suas mãos a situação econômica mais grave dos Estados Unidos em 80 anos. O preço da gasolina caiu, mas esta não é uma novidade a ser comemorada. Ocorre devido à queda no consumo, e as rodovias registraram redução no tráfego de 3,6% em relação ao ano passado.

No campo das relações externas, os desafios são enormes. Por menos piores que tenham sido as últimas estatísticas de baixas americanas no Iraque, o efetivo militar dos Estados Unidos enfrenta grande dificuldade para controlar a situação no Afeganistão. No total, até o final do dia 3 de novembro, 4.775 soldados americanos perderam suas vidas nas duas ofensivas.

Além disso, a diplomacia e os serviços de segurança dos Estados Unidos terão de lidar com a possibilidade de um Irã nuclear, a retomada das sensíveis relações com a Rússia, a crescente onda de terrorismo na Índia e no Paquistão, a ameaça econômica e militar da China, a provável sucessão na Coréia do Norte, além de encontrar uma maneira de frear a influência de Chávez na América Latina e suas alianças com Síria, Irã e Rússia. E, é claro, a tentativa de costurar um acordo de paz definitivo entre israelenses e palestinos.

Curiosamente, esses dilemas podem ser colocados diante de Obama, cujo perfil internacionalista se contrapõe ao do atual presidente George W. Bush. Vale lembrar, entretanto, que foram os atentados de 11 de setembro os responsáveis por forçar este último a se aventurar além das fronteiras. Para refrescar a memória, Bush não tinha qualquer interesse de se tornar um grande estadista ou fazer um governo marcado pela política externa - como de fato ocorreu.

Apesar disso tudo, a Presidência americana é disputadíssima. Até porque, a oportunidade de mostrar trabalho é enorme. Portanto, quem conseguir resolver metade das complexas questões que o momento apresenta, terá feito seguramente um ótimo governo e poderá terminar este primeiro mandato com um índice de popularidade semelhante ao de Bill Clinton, que, em 2001, deixou a Casa Branca respaldado por uma taxa de aprovação de 67%.

domingo, 2 de novembro de 2008

O continente que não existe

Cerca de um milhão de pessoas foram deslocadas de suas casas na República Democrática do Congo. Não é a primeira vez que grandes populações africanas estão prester a sofrer massacres. E não será a última seguramente.

A África é o maior continente do planeta. Mas poderia ser o menor. Talvez seja mesmo. A morte de milhões de seus habitantes não é, não foi e aparentemente nunca vai ser uma preocupação dos governos dos países mais poderosos do mundo.

A atual crise da República Democrática do Congo - que já foi Congo Belga, Zaire e voltou a ser Congo - mereceu uma certa preocupação da ONU. Para proteger a população civil, a instituição cujo objetivo era garantir a paz no planeta deslocou para o país um efetivo de 17 mil soldados. É deles a missão de impedir mais uma tragédia humanitária.

Irã, Rússia, China, dentre outros nove países, continuam a fornecer armas para a milícia árabe Janjaweed, organização responsável pela morte - até o momento - de cerca de 300 mil negros não-muçulmanos desde 2003 em Darfur, no Sudão. Segundo a ONG britânica Oxfam, mil pessoas são forçadas a abandonar suas casas a cada mês. Mesmo assim, dos 26 mil soldados das forças de paz da ONU previstos para combater a violência na região, apenas um terço foi enviado.

E nenhum país se opõe de fato ao massacre diário em Darfur. Pelo contrário. Afinal, ninguém quer deixar de comerciar com a China ou abre mão de estreitar laços com o Irã. Os discursos são sempre vazios quando se trata de evitar mais um massacre no continente. A cada dia, fica claro que o mundo se lembra da África apenas quando se trata de admirar rostos tristes e sofridos na capa da National Geographic. Biafra, Somália, Ruanda, Serra Leoa, Sudão, Congo e tantos outros são simplesmente nomes de tragédias que o mundo fez muito pouco para evitar.

Abaixo, a reportagem mostra que muitos civis têm atacado os comboios da ONU demonstrando revolta pelo que consideram descaso das Nações Unidas com o genocídio iminente. A ONU argumenta que o papel das Forças de Paz é apenas o de tentar proteger civis, e não se envolver em conflitos diretos com os rebeldes.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Atentado à universidade

Em tempo, vale a informação de que o ataque à Universidade de Navarra foi simplesmente o sexto do ETA à instituição. O primeiro atentado aconteceu em 1979.

Um detalhe importante: a Universidade de Navarra foi fundada em 1952 por Josémaria Escrivá, fundador do Opus Dei, corrente católica conservadora cujas práticas são ainda bastante controversas mesmo dentro do catolicismo.

Vale lembrar que o Jornalismo brasileiro está profundamente ligado à Universidade. Ela promove no Brasil o curso master em Jornalismo realizado em São Paulo e freqüentado por profissionais da área que ocupam - em grande parte - cargos de chefia em importantes veículos de imprensa.

Essa estreita relação entre a Universidade de Navarra e a nata do Jornalismo brasileiro já foi alvo de bastante polêmica, justamente pelos elos entre o Opus Dei, a própria Universidade e o diretor do Master em Jornalismo, Carlos Alberto Di Franco.

Para relembrar o caso, clique aqui e aqui

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O terrorismo está mais vivo do que nunca

Sete anos após o Estados Unidos darem início à luta ocidental e global contra o terrorismo, o 30 de outubro de 2008 entra para a História como o dia em que a covardia injustificada dos ataques a civis volta a mostrar sua força.

Muitas vezes equivocadamente interpretado como a luta daqueles que não dispõem de outros meios para levantar bandeiras, defender causas ou demandar decisões políticas, o terrorismo é também associado apenas ao Oriente Médio. Errado, como 30 de outubro vem nos provar novamente.

Indianos e bascos muito provavelmente foram os agentes das ações desta quinta-feira. No caso da Universidade de Navarra, os atentados foram cometidos por europeus, supostamente civilizados e muito possivelmente cristãos.

O terrorismo deve ser repudiado em todas as suas facetas, não apenas a do extremismo islâmico.

Mais ainda, o atentado cometido na Espanha tem um significado bastante profundo. O carro-bomba foi detonado no estacionamento da universidade. Por definição, a universidade é aberta, democrática; é um centro que irradia conhecimento, cultura e, obviamente, tolerância. E são justamente esses os valores que o terrorismo - em todas as suas formas - combate.

Não é a primeira vez que um centro de ensino é atacado. Em 31 de julho de 2002, a Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, sofreu um atentado terrorista que deixou sete mortos e mais de 70 feridos. O ataque matou alunos judeus e árabes e sua autoria foi assumida pelo Hamas.

Sudeste asiático em alta explosiva

As explosões que atingiram o estado de Assam, na Índia, são apenas a ponta do iceberg que engloba todo o sudeste asiático. As 18 bombas que explodiram no nordeste do país nesta quinta-feira mostram a força do terrorismo local. As suspeitas pelo ataque recaem sobre um grupo separatista, mas toda a região parece estar prestes a viver o auge de uma grande agitação política e militar sem precedentes. China, Índia, Irã, Paquistão e Afeganistão estão mais do que nunca no olho do furacão.

O sudeste asiático passou a preocupar o planeta desde que, em 2001, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão após os atentados de 11 de setembro. O objetivo era capturar o confesso autor dos ataques, o terrorista saudita Osama bin Laden. Sete anos depois, ele ainda não foi encontrado, ninguém sabe ao certo seu estado de saúde ou a localização precisa de seu esconderijo.

Enquanto o número de baixas americanas no Iraque vem caindo, a situação no Afeganistão está longe de ser controlada. Os talibãs continuam a dominar vastas áreas no país e o próprio governo americano admite a necessidade de adoção de uma nova estratégia. Por isso escalou o General David H. Petraeus - responsável pela virada no Iraque - para o cargo de Comandante Geral do efetivo no Afeganistão. Para mudar o jogo com os talibãs, ele recomenda "operações de contra-terrorismo, aproximação com a organização tribal local, reconciliação com militantes que não são 'hard-core' e mobilização dos demais Estados da região, incluindo a Arábia Saudita", explicou em entrevista ao The New York Times.

É urgente também a adoção desse tipo de estratégia nos países vizinhos. Índia e Paquistão, principalmente, cada vez mais sofrem com o crescimento de grupos extremistas e ações como as desta quinta-feira que resultaram na morte de mais de 50 pessoas e deixaram outros 150 feridos