Em setembro de 2007, aviões da Força Aérea Israelense bombardearam um complexo sírio onde supostamente instalações nucleares estariam a ponto de serem construídas. O ataque aconteceu rapidamente, destruiu a infra-estrutura local e causou certa polêmica.
Pouco mais de um ano depois - para ser mais exato, nesta semana - inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) divulgaram as conclusões das amostras colhidas em solo sírio: foram encontrados traços de urânio que já haviam passado por alterações químicas.
Além de revelar a matéria-prima fundamental para pretensões nucleares, o relatório também informa que o grande número de bombas d'água do complexo sírio seriam suficientes para a construção de uma instalação nuclear próxima ao rio Eufrates.
O documento menciona ainda que as autoridades sírias têm negado o acesso dos funcionários da AIEA para a realização de novas inspeções no local do ataque, bem como a outros três pontos onde se acredita que um reator possa ser construído.
Curisamente, havia a possibilidade do início de negociações de paz indiretas entre israelenses e sírios - que com os fatos divulgados nesta semana devem perder força.
O relatório vem a público justamente no momento em aumentam as tensões entre Israel e Irã - cuja cooperação militar com a Síria torna ainda mais complicada a situação israelense na região.
Os acontecimentos desta semana deixam claro como o discurso iraniano anti-israelense está sendo aplicado na prática entre sua própria população.
O empresário de Teerã, Ali Ashtari, foi oficialmente enforcado - se é que se pode chamar assim - depois de "confessar" ter espionado para Israel. Segundo a IRNA, a agência de notícias oficial do Irã, Ashtari teria recebido um empréstimo de agentes israelenses no valor de 50 mil euros.
Hossein Derakhshan, blogueiro iraniano, também foi preso depois de visitar Israel, em 2007. Ele tem cidadania canadense e foi levado a interrogratório logo após chegar à capital iraniana. Segundo o site de notícias Jahan News, ele também "confessou" espionar para Israel.
sábado, 22 de novembro de 2008
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Tendências para 2025
Relatório divulgado nesta sexta-feira pelo Conselho Nacional de Inteligência dos Estados Unidos aponta mudanças em pontos-chave da economia, relações internacionais e poderio militar no mundo. O estudo - cujo nome oficial é Tendências Globais 2025 - procura sugerir caminhos para que o governo americano esteja preparado para lidar com a alteração na dinâmica do eqüilíbrio de forças e também para o surgimento de novas potências planetárias.
Algumas conclusões da pesquisa estão longe de surpreender. É o caso, por exemplo, da decadência da economia americana - mais evidente do que nunca - e da possibilidade concreta de o mundo se tornar multipolarizado devido ao crescimento militar de países como Índia e China, e, até mesmo, de o Brasil ocupar um papel econômico importante num planeta que vai precisar se acostumar à escassez de recursos.
Por mais interessante que sejam essas previsões - aliás, a proximidade de dezembro parece detonar esse aparente instinto humano de tentar adivinhar o futuro, mesmo quando ele surge cercado de rigor científico, como é o caso desta pequisa -, sempre tendo a analisá-las com um certo ceticismo. Afinal, a humanidade é tão criativa, e as mudanças vêm acontecendo com tamanha rapidez, que previsível mesmo é que algum grande acontecimento pré- 2025 desmorone parte das tais tendências divulgadas pelo Conselho Nacional de Inteligência.
Isso já ocorreu antes, afinal esses estudos são realizados a cada cinco anos. E os enganos já foram muitos, como recorda o jornalista da BBC Paul Reynolds.
"Em 1980, Ronald Reagan disputava as eleições presidenciais com Jimmy Carter. Uma das bandeiras de campanha de Reagan era a necessidade de preparar os Estados Unidos, uma vez que o país estava próximo de ser ultrapassado por União Soviética e Japão. Naquela época, o Japão representava uma ameaça à liderança econômica americana semelhante à exercida hoje pela China", escreve.
Ninguém imaginava, entretanto, que numa garagem do subúrbio um jovem e desconhecido Bill Gates começava a revolucionar o planeta com o surgimento da nova e poderosa indústria dos computadores pessoais.
Voltando às previsões divulgadas nesta sexta-feira, o estudo também aponta a tendência da diminuição do poder da al-Qaeda. Segundo o relatório, isso deve acontecer por três importantes fatores: ideologia inflexível, objetivos estratégicos inatingíveis e dificuldade em se tornar um movimento de massa. De fato, é cada vez maior a impopularidade do grupo no mundo muçulmano.
Além de todos esses argumentos, a eleição de Barack Obama esfriou o discurso anti-americano - a principal luta da al-Qaeda, já que seus membros não admitem qualquer possibilidade de diálogo, acordo, deposição de armas etc. Em boa parte, a perda de popularidade entre os próprios muçulmanos explicaria o desespero da mensagem divulgada nesta semana atacando Obama ao chamá-lo de traidor da causa negra. Não deixa de ser uma tentativa de motivar os radicais ou mesmo radicalizar aqueles que se mostrariam favoráveis a um diálogo com Obama.
De qualquer forma, além das previsões óbvias, o estudo soa mais como um documento curioso para nos surpreendermos daqui a alguns anos quando pudermos checar quantas variáveis apareceram no meio do caminho até 2025. Mas é bem possível que ele sirva de diretriz para certas decisões ou abordagens políticas mais imediatas da Casa Branca.
Algumas conclusões da pesquisa estão longe de surpreender. É o caso, por exemplo, da decadência da economia americana - mais evidente do que nunca - e da possibilidade concreta de o mundo se tornar multipolarizado devido ao crescimento militar de países como Índia e China, e, até mesmo, de o Brasil ocupar um papel econômico importante num planeta que vai precisar se acostumar à escassez de recursos.
Por mais interessante que sejam essas previsões - aliás, a proximidade de dezembro parece detonar esse aparente instinto humano de tentar adivinhar o futuro, mesmo quando ele surge cercado de rigor científico, como é o caso desta pequisa -, sempre tendo a analisá-las com um certo ceticismo. Afinal, a humanidade é tão criativa, e as mudanças vêm acontecendo com tamanha rapidez, que previsível mesmo é que algum grande acontecimento pré- 2025 desmorone parte das tais tendências divulgadas pelo Conselho Nacional de Inteligência.
Isso já ocorreu antes, afinal esses estudos são realizados a cada cinco anos. E os enganos já foram muitos, como recorda o jornalista da BBC Paul Reynolds.
"Em 1980, Ronald Reagan disputava as eleições presidenciais com Jimmy Carter. Uma das bandeiras de campanha de Reagan era a necessidade de preparar os Estados Unidos, uma vez que o país estava próximo de ser ultrapassado por União Soviética e Japão. Naquela época, o Japão representava uma ameaça à liderança econômica americana semelhante à exercida hoje pela China", escreve.
Ninguém imaginava, entretanto, que numa garagem do subúrbio um jovem e desconhecido Bill Gates começava a revolucionar o planeta com o surgimento da nova e poderosa indústria dos computadores pessoais.
Voltando às previsões divulgadas nesta sexta-feira, o estudo também aponta a tendência da diminuição do poder da al-Qaeda. Segundo o relatório, isso deve acontecer por três importantes fatores: ideologia inflexível, objetivos estratégicos inatingíveis e dificuldade em se tornar um movimento de massa. De fato, é cada vez maior a impopularidade do grupo no mundo muçulmano.
Além de todos esses argumentos, a eleição de Barack Obama esfriou o discurso anti-americano - a principal luta da al-Qaeda, já que seus membros não admitem qualquer possibilidade de diálogo, acordo, deposição de armas etc. Em boa parte, a perda de popularidade entre os próprios muçulmanos explicaria o desespero da mensagem divulgada nesta semana atacando Obama ao chamá-lo de traidor da causa negra. Não deixa de ser uma tentativa de motivar os radicais ou mesmo radicalizar aqueles que se mostrariam favoráveis a um diálogo com Obama.
De qualquer forma, além das previsões óbvias, o estudo soa mais como um documento curioso para nos surpreendermos daqui a alguns anos quando pudermos checar quantas variáveis apareceram no meio do caminho até 2025. Mas é bem possível que ele sirva de diretriz para certas decisões ou abordagens políticas mais imediatas da Casa Branca.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
A complexidade por trás do anúncio da Autoridade Palestina nos jornais israelenses
Num gesto sem precedentes nos conflitos do Oriente Médio, a Autoridade Palestina publicou nesta quinta-feira um anúncio de página inteira em quatro dos principais jornais israelenses. O texto, escrito em hebraico, busca promover o plano de paz da Liga Árabe apresentado a Israel em 2002.
"Cinqüenta e sete países árabes e muçulmanos irão estabelecer relações diplomáticas com Israel em troca de um acordo de paz completo e do fim da ocupação (dos territórios conquistados pelo Estado Judeu, em 1967)", diz o texto.
É uma jogada de mestre da AP, que busca assim conquistar a maior parte da opinião pública do Estado Judeu -bastante favorável a fim dos conflitos com os palestinos.
Mas, como tudo na região, a situação é bem mais complexa do que parece. Apesar de contar com o apoio de figuras importantes da política mundial, o plano ainda precisa de muitos ajustes. Ele, por exemplo, reivindica o retorno dos refugiados palestinos para o interior do Estado de Israel, não para as fronteiras do futuro Estado Palestino.
O maior empecilho a esta demanda é inerente à própria existência de Israel. A acomodação de 700 mil palestinos hoje dentro de Israel não é simplesmente uma complicação logística, mas, principalmente, inviabiliza o país em sua proposta mais fundamental: ser um Estado Judeu.
Esta nova população alteraria o eqüilíbrio demográfico de Israel e, em alguns anos, a maioria da população do país - devido ao histórico da taxa de natalidade entre a população muçulmana - não seria judia.
Na prática - mais do que questões consideradas fundamentais como o status de Jerusalém ou a devolução das das Colinas de Golan à Síria -, o destino dos refugiados palestinos é o fator que mais complica a assinatura de um acordo de paz.
Israel não pretende deixar de ser um Estado de maioria populacional judaica e, como alternativa, propõe uma compensação financeira a cada família que deixou a região nas Guerras de 1948 e 67. Além disso, argumenta que, da mesma forma que após sua independência recebeu 1 milhão de judeus expulsos dos países árabes e integrou-os à sociedade, os palestinos deveriam fazer o mesmo com aqueles que decidirem retornar para o futuro Estado Palestino.
Sobre a iniciativa da publicação do anúncio, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores israelense, Yigal Palmor, lembrou o controle exercido pela Autoridade Palestina sobre os veículos de imprensa. "Este é um gesto que nunca terá recíproca. Você pode imaginar palestinos permitindo que o governo israelense faça o mesmo?", disse.
Clique aqui para conhecer mais detalhes sobre o plano de paz apresentado pela Liga Árabe em 2002. O link oferece também análises sobre a iniciativa.
"Cinqüenta e sete países árabes e muçulmanos irão estabelecer relações diplomáticas com Israel em troca de um acordo de paz completo e do fim da ocupação (dos territórios conquistados pelo Estado Judeu, em 1967)", diz o texto.
É uma jogada de mestre da AP, que busca assim conquistar a maior parte da opinião pública do Estado Judeu -bastante favorável a fim dos conflitos com os palestinos.
Mas, como tudo na região, a situação é bem mais complexa do que parece. Apesar de contar com o apoio de figuras importantes da política mundial, o plano ainda precisa de muitos ajustes. Ele, por exemplo, reivindica o retorno dos refugiados palestinos para o interior do Estado de Israel, não para as fronteiras do futuro Estado Palestino.
O maior empecilho a esta demanda é inerente à própria existência de Israel. A acomodação de 700 mil palestinos hoje dentro de Israel não é simplesmente uma complicação logística, mas, principalmente, inviabiliza o país em sua proposta mais fundamental: ser um Estado Judeu.
Esta nova população alteraria o eqüilíbrio demográfico de Israel e, em alguns anos, a maioria da população do país - devido ao histórico da taxa de natalidade entre a população muçulmana - não seria judia.
Na prática - mais do que questões consideradas fundamentais como o status de Jerusalém ou a devolução das das Colinas de Golan à Síria -, o destino dos refugiados palestinos é o fator que mais complica a assinatura de um acordo de paz.
Israel não pretende deixar de ser um Estado de maioria populacional judaica e, como alternativa, propõe uma compensação financeira a cada família que deixou a região nas Guerras de 1948 e 67. Além disso, argumenta que, da mesma forma que após sua independência recebeu 1 milhão de judeus expulsos dos países árabes e integrou-os à sociedade, os palestinos deveriam fazer o mesmo com aqueles que decidirem retornar para o futuro Estado Palestino.
Sobre a iniciativa da publicação do anúncio, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores israelense, Yigal Palmor, lembrou o controle exercido pela Autoridade Palestina sobre os veículos de imprensa. "Este é um gesto que nunca terá recíproca. Você pode imaginar palestinos permitindo que o governo israelense faça o mesmo?", disse.
Clique aqui para conhecer mais detalhes sobre o plano de paz apresentado pela Liga Árabe em 2002. O link oferece também análises sobre a iniciativa.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
A guerra do mar
O ataque de um navio de guerra indiano a um cargueiro pirata no Golfo de Áden pode ser apenas o início de uma grande confusão militar e jurídica que coloca no centro das disputas internacionais dois universos diferentes: o dos amplamente beneficiados pelo processo de globalização - aí representados por grandes exportadores de petróleo - e os absolutamente excluídos deste sistema - no caso, os piratas da Somália.
No foco da questão, o único fator que poderia levar as grandes potências mundiais a voltar seus olhos para um país africano em guerra ininterrupta há 17 anos cuja metade da população sofre com fome e desemprego: dinheiro. Para ser mais exato, os cerca de 70 milhões de dólares de prejuízo impostos a grandes empresas mundiais desde que, em janeiro deste ano, 91 cargueiros foram seqüestrados.
E isso não deixa de ser interessante. Apesar de alguns analistas tentarem vincular as ações ao terrorismo internacional, não há nenhuma evidência de que haja qualquer ideologia por trás dos seqüestros de navios. Pelo contrário. Na prática, o objetivo desses piratas modernos é bastante simples: ganhar dinheiro com o pagamento do resgate das cargas. E eles têm obtido sucesso, já que as empresas têm menos prejuízo ao pagar a quantia pedida do que perdendo de vez o carregamento.
Não é impossível, entretanto, que organizações terroristas como a al-Qaeda vejam nas ações piratas a possibilidade de conseguir dinheiro para financiar suas atividades. Na própria Somália, rebeldes islâmicos controlam o sul do país desde 2006. Mas os piratas são democráticos nos seqüestros e não parecem estar dispostos a ideologizar o roubo de cargas. Tanto que a ação mais audaciosa aconteceu justamente contra seus irmãos de fé sauditas: o seqüestro do navio Sirius Star.
Além de seus 25 membros, os ladrões estão em poder de 2 milhões de barris de petróleo. O valor total da carga é estimado em impressionantes 100 milhões de dólares.
Mesmo sem esse objetivo, as ações dos piratas serviram para pôr em foco a enorme distância a separar desenvolvidos e esquecidos da economia. Desde 1991, a Somália não tem um governo regular, a guerra civil devastou o país e simplesmente não há qualquer atividade produtiva capaz de gerar emprego. Aliás, por causa dessa baderna de ausência de instituições, os ladrões não são presos na Somália ou levados a julgamento.
O seqüestro de navios e seus tripulantes é absolutamente injustificável, mas não deixa de ser irônico como um grupo de pessoas decidiu se empenhar com um sistema complexo de tecnologia e logística - os piratas monitoram os alvos com GPS, notebooks etc - para subverter e inviablizar um braço bastante importante do comércio mundial.
Para conhecer mais sobre a miséria da Somália com dados completíssimos do The World Fact Book, da CIA, clique aqui.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Novidades no front iraquiano
Curiosamente, o presidente Bush pode estar ajudando o recém-eleito Barack Obama em pelo menos uma das tarefas mais complicadas do futuro governo democrata: a retirada das tropas do Iraque.
O embaixador americano em Bagdá, Ryan Crocker, e o ministro das relações exteriores iraquiano, Hoshyar Zebari, assinaram um acordo que estabelece o dia 31 de dezembro de 2011 como a data-limite para a saída de todas as forças militares americanas do Iraque.
Ainda é cedo para afirmar que em três anos a presença dos Estados Unidos no país será totalmente extinta, até porque o tratado ainda precisa ser aprovado pelo parlamento iraquiano.
Mas é uma mudança radical na posição de Bush, que jamais concordara em estabelecer qualquer data para as tropas se retirarem.
Além disso, consta do acordo um item de grande importância para a geopolítica mundial: o texto deixa claro que o território iraquiano não servirá de base para o lançamento de ataques dos EUA a outros países da região.
Esta é uma mensagem clara ao Irã, que, por sinal, não se pronunciou sobre o acordo.
Mais ainda, as autoridades iraquianas parecem estar satisfeitas com o tratado. Pelo seu conteúdo e também por suas próprias pretensões no governo do país, como descrito na edição eletrônica do The New York Times:
"Em muitos casos, a aprovação (do texto) parece ser uma estratégia adotada pelos líderes do Iraque de forma a garantir sua sobrevivência política. Foram os Estados Unidos os responsáveis por alçar muitos dos atuais membros do governo (iraquiano) ao poder. E, devido à fragil situação de segurança, parte deles ainda vê a necessidade da presença militar americana no Iraque".
Ao mesmo tempo, o Iraque parece cada dia mais estar voltando aos tempos de Saddam. Denúncias dão conta de que o primeiro-ministro, Nuri al-Maliki, vem sistematicamente demitindo inspetores cuja função era combater desvios de verba e corrupção nas esferas do governo.
Em sessão no Congresso Americano, uma testemunha que ocupava o cargo de investigador chefe do governo iraquiano informou que 13 bilhões de dólares foram desviados dos Fundos de Reconstrução do Iraque mantidos pelos EUA.
Para ler a matéria completa sobre os indícios de corrupção no Iraque, clique aqui
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
As notícias nada animadoras que chegam do Congo
O barril de pólvora em que se transformou o Congo dá sinais de que está prestes a ser detonado novamente. Neste domingo, voltaram a ocorrer combates entre as forças do governo e rebeldes leais ao General Laurent Nkunda. Os confrontos acontecem no momento em que havia a possibilidade do estabelecimento de um cessar-fogo.
Como em todo o território africano, as tentativas de acordo são falhas muito por conta da visão eurocêntrica dos mediadores dos conflitos. O fato é que não estão absolutamente claros os motivos que deram início à atual escalada de violência, mas há sinais de que não são muito diferentes das razões por trás das demais guerras responsáveis pela morte de milhões de africanos: diferenças étnicas e interesses econômicos.
É bem provável, entretanto, que o genocídio dos tutsis em Ruanda, em 1994, tenha motivado Nkunda a tomar medidas drásticas para oferecer proteção à etnia agora quando existe um temor de que haja novos enfrentamentos com os Hutus. Longe de ser o mocinho da história - os conflitos internacionais não permitem este maniqueísmo -, Nkunda é acusado de cometer crimes de guerra e contra a humanidade.
De fato, a paz nunca foi estabelecida entre as duas partes, mas, em 2006, a União Européia e a ONU já haviam chegado a uma solução que, do ponto de vista ocidental, soava bastante adequada: determinaram a realização de eleições no Congo. O grande erro é que ambos os organismos internacionais ignoraram que minoria tutsi iria perder nas urnas.
Assim, antes mesmo do pleito, o General Nkunda levou suas forças para a província de Kivu do Norte (palco da violência atual), e os rebeldes passaram a atacar a população civil não-tutsi.
É triste notar como um erro estratégico dos mediadores pode ter sido responsável pela tragédia humana de hoje - um simples equívoco na maneira de examinar a balança de poderes nada convencional dos países da África.
Clique aqui para ler uma breve biografia de Laurent Nkunda publicada pela organização independente Human Rights Watch. O texto lista o histórico de seus crimes, que incluem estupros e assassinatos em massa.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
O Hamas e os Estados Unidos
A edição eletrônica do jornal Haaretz traz uma notícia exclusiva bastante interessante: em 2006, o Hamas teria mandado uma carta aos Estados Unidos acenando com a possibilidade de negociações diretas de paz e um cessar-fogo com Israel.
A carta foi entregue ao diário por um professor americano que se encontrou com o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, meses depois das eleições que levaram o grupo ao poder. A mensagem foi repassada pelo acadêmico a autoridades do governo e ela teria chegado ao conhecimento do presidente Bush.
Entretanto, nunca houve resposta à oferta. A carta foi escrita durante o boicote dos Estados Unidos e União Européia ao governo do Hamas em Gaza - que ainda se mantém devido à recusa do grupo em abrir mão de realizar atentados terroristas e lançar foguetes contra Israel.
O conteúdo da mensagem é bastante genérico, mas mostra uma mínima disposição à negociação - um avanço, levando-se em consideração que os métodos utilizados pelo Hamas apenas reafirmam a posição de sua carta de criação: destruir o Estado de Israel e, sobre seus escombros, fundar uma Palestina islâmica mais ou menos nos moldes do atual Irã.
O texto ditado em árabe por Haniyeh e traduzido para o inglês diz o seguinte: "somos um governo eleito num processo democrático. Estamos tão preocupados com a paz na região, que não nos importamos de termos um Estado palestino nas fronteiras de 1967. Oferecemos uma trégua por muitos anos. Conclamamos os EUA a negociarem diretamente com o governo eleito. O prolongamento desta situação (o boicote) vai encorajar o caos e a violência em toda a região".
Seguramente, o Hamas não estava tão preocupado assim com a paz, muito menos com a estabilidade do Oriente Médio. E é importante notar que o texto não fala de um reconhecimento do Estado de Israel, apenas menciona uma trégua por "muitos anos". Mas esse teria sido o momento para o início de negociações.
O Hamas, sem dúvida, não é o parceiro ideal para a paz. Mas Arafat, antes dos Acordos de Oslo, tampouco era. Assinar um tratado, estabelecer o mínimo de relacionamento e exigir o cumprimento do combinado é a forma pragmática e eficiente de, ao menos, desarmar o discurso e as ações de um grupo como o Hamas.
Hoje o governo Bush está de saída e admite que não haverá mais tempo para a costura de um acordo mais amplo. A secretária de Estado Condolezza Rice esteve na região durante esses anos entre 19 e 22 vezes (há uma divergência entre a quantidade de visitas; 19, segundo jornalistas; 22, de acordo com a embaixada americana em Israel). Não conseguiu nada além de promessas vazias.
E agora a situação está em suspenso por uma série de fatores: a fragilidade do cessar-fogo entre Israel e o próprio Hamas, a transição do governo nos Estados Unidos, as eleições em Israel, e o fim do mandato do presidente Mahmoud Abbas à frente da Autoridade Palestina.
Notícia do jornal árabe publicado em Londres Al-Hayat informa que Obama teria mantido diálogos com membros do Hamas durante a campanha eleitoral. Segundo Ahmed Yusuf, conselheiro do líder do grupo terrorista, houve contatos entre as partes também após a vitória do democrata nas eleições americanas.
Durante a corrida presidencial, Obama deixou claro que só aceitaria negociar com o Hamas se o grupo renunciasse ao terrorismo, reconhecesse o direito de existência de Israel e respeitasse acordos assinados no passado.
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