terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O Brasil no meio disso tudo

Em entrevista ao programa Fatos & Versões, da Globonews, a jornalista da Folha de São Paulo Eliane Catanhêde declarou que o presidente Lula pode vir a se envolver pessoalmente na resolução do atual conflito entre Israel e o Hamas. Segundo ela, o presidente estaria disposto a ir à região, caso em algum momento haja uma cúpula internacional para discutir a questão.

“Precisamos detectar quem quer os conflitos, colocar essas pessoas numa mesa de negociação junto com as forças políticas que têm influência sobre a Autoridade Palestina, sobretudo no Hamas e no povo de Israel, para que a gente possa começar uma conversação e encontrar uma fórmula para que eles possam viver em paz e cada um desenvolver o seu país”, disse Lula em seu programa de rádio.

No momento, a posição oficial brasileira é chamar as partes ao diálogo. Esta é a diretriz histórica do Brasil em relação ao conflito árabe-israelense. Mais do que isso, é a reafirmação do posicionamento brasileiro de buscar a resolução de conflitos internacionais através da diplomacia. Até aí, nada de novo.

Novidade mesmo foi a polarização do conflito entre os dois principais partidos do país. PT e PSDB emitiram notas oficiais com opiniões divergentes sobre o assunto. O PT pegou mais pesado. Em comunicado assinado pelo presidente da legenda, Ricardo Berzoini, o partido classificou a ação israelense de terrorismo de Estado e comparou a ofensiva às práticas nazistas. Clique
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O PSDB foi no sentido oposto. Ou melhor, entrou em choque direto com o texto petista. Citando as declarações de Berzoini, a nota assinada pelo senador Sérgio Guerra, presidente do partido, diz que o atual conflito no Oriente Médio é complexo demais para ser transformado num roteiro simplório onde o “bem e o mal são claramente identificáveis”. Clique
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Faltando pouco mais de um ano e dez meses para as eleições presidenciais brasileiras, fica absolutamente claro que as duas legendas mais importantes do país vão passar a entrar cada vez mais em conflito – somente de discursos, é claro. Em posição de desvantagem por não estar no poder há dois mandatos, é do PSDB o interesse de chamar a atenção da sociedade para as diferenças entre os partidos.

A atual crise no Oriente Médio é uma dessas oportunidades, na visão do partido. Por dois motivos: agrada aos opositores históricos do PT, que enxergam em seu discurso tendências radicais – e no campo das relações internacionais indiretamente associam o partido às posições de Hugo Chávez –, além de buscar um nicho naqueles que discordam das opiniões do presidente e do governo em relação ao Oriente Médio.

O fato é que a nota do PT causou enorme polêmica, principalmente entre a comunidade judaica brasileira.

Também em comunicado oficial, o presidente da Confederação Israelita do Brasil (CONIB) - órgão representativo das federações judaicas estaduais –, Cláudio Lottenberg, mostrou indignação e deplorou a comparação entre os exércitos nazista e israelense afirmando que os mortos no campo de extermínio “eram pessoas absolutamente desprotegidas, que não carregavam foguetes (...), não detinham conhecimento de técnicas terroristas nem se escondiam atrás de civis, de forma covarde, como os líderes do Hamas”. Clique
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Talvez por isso Lula tenha baixado o tom, numa tentativa de encerrar essa confusão. Em seu programa de rádio, citou pela enésima vez o lugar-comum de que no Brasil judeus e árabes convivem em paz. Particularmente, penso que este exemplo é uma bobagem, até porque são comparações entre situações completamente distintas. Felizmente, apesar das diferenças culturais e religiosas, judeus e descendentes de árabes são cidadãos brasileiros com os mesmos direitos e que jamais disputaram qualquer território.

Crise é oportunidade

O Brasil vem se empenhando em buscar um papel mais ativo internacionalmente. Este é o desejo do governo brasileiro, e não apenas em relação ao Oriente Médio. Neste caso específico, entretanto, a cúpula da administração Lula está diretamente envolvida. O chancelar Celso Amorim está na região e tem conversado com lideranças locais de Israel, países árabes e da própria Autoridade Palestina. A entrega de mantimentos aos palestinos, através da Jordânia, pretende mostrar que o Brasil é solidário aos civis de Gaza e também que o país quer ser levado a sério como possível mediador. Por isso, o envio do funcionário mais alto do escalão brasileiro para realizar esta doação.

Que ninguém se engane, entretanto, em acreditar que Celso Amorim poderá fazer parte da solução do problema. Isso vai mesmo ficar a cargo de Obama, Sarkozy, Mubarak e autoridades israelenses e palestinas. O Brasil quer marcar presença. Segundo Eliane Catenhêde, Amorim estaria também preparando o terreno para uma possível visita de Lula à região, no caso da realização de uma cúpula internacional. Caso isso se confirme, poderá ocorrer a primeira visita oficial de um presidente brasileiro a Israel.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Pá-de-cal no cessar-fogo proposto pela ONU


Mais uma vez, as esperanças de paz no Oriente Médio foram para o buraco. O curioso, entretanto, é notar que Hamas e Israel parecem ter concordado pela primeira vez desde o início da ofensiva em Gaza: a resolução proposta pela ONU não atende a nenhum dos lados. Por mais que o mundo inteiro torça para que a violência termine, israelenses e palestinos enxergam o atual conflito de maneiras opostas; e, por isso, também divergem sobre a forma como ele deve ser encerrado.

Em entrevista ao canal de televisão do Hezbolah, a Al Manar, o líder político exilado do Hamas, Moussa Abu Marzouk, explicou porque se opõe à proposta das Nações Unidas.

“Esta resolução foi discutida nos corredores da ONU, em Nova Iorque. Nosso movimento não foi consultado. A visão e os interesses de nosso povo não foram levados em consideração”, disse.

Para o Hamas, qualquer decisão internacional só será válida quando Israel acabar com as incursões a Gaza e encerrar o bloqueio ao território.

Além deste fator, há uma profunda divisão interna do grupo. Outros argumentos apresentados para rejeitar a proposta seguem a linha defendida por Muhammad Nasr, conselheiro político do líder exilado na Síria Khaled Meshaal. Segundo a revista alemã Der Spiegel, para Nasr, o Hamas não deve abrir mão de controlar a fronteira entre Gaza e Egito e, menos ainda, reconhecer Israel – mesmo que indiretamente.

De acordo com o veículo alemão, outro negociador do grupo enviado ao Cairo pensa diferente. Imad al-Alami possui uma visão mais conciliatória. Para ele, a proposta costurada por França e Egito não precisa necessariamente ser descartada à priori. Ele promete retornar à mesa de negociações com contrapropostas.

Ao Egito – cuja participação nos esforços de paz vem merecendo elogios da comunidade internacional –, a resolução tampouco agradou. Para o Cairo, existe a justificável sensibilidade envolvendo a perda de parte de sua soberania. O país considera aceitável somente ajuda técnica internacional para combater o contrabando de armas para Gaza.

Ao mesmo tempo, mesmo se o Egito aceitasse a presença de tropas estrangeiras em seu território, haveria uma dificuldade logística fundamental. Segundo diplomatas europeus, dentre os membros da OTAN (a aliança militar entre Europa e Estados Unidos), somente a Turquia se mostrou disponível a enviar soldados para o patrulhamento da fronteira entre Gaza e Egito.

No último vértice deste complexo triângulo, Israel apresentou outras razões para não acatar a resolução da ONU. Para o governo israelense, a ofensiva só pode terminar quando o Hamas interromper o lançamento de mísseis sobre o sul do país e após o estabelecimento de mecanismos capazes de garantir o fim do contrabando de armas do Deserto do Sinai para Gaza.

“Israel atuou, atua e vai atuar somente de acordo com suas considerações, a necessidade de segurança de seus cidadãos e o direito de auto-defesa”, informou um comunicado divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O começo do fim; e mísseis libaneses sobre o norte de Israel

Ao mesmo tempo em que envia dois altos funcionários para negociar um cessar-fogo no Egito, o governo de Israel sustenta que a ofensiva em Gaza ainda não terminou. Nesta quinta-feira, esta foi a mensagem transmitida pelo primeiro-ministro, Ehud Olmert, e pelo ministro de Defesa, Ehud Barak.

“A decisão sobre como deixaremos claro que a tranqüilidade no sul está garantida ainda se encontra em aberto. Não terminamos de dar as ordens a nosso exército para concluir todo o trabalho necessário de forma a atingir este objetivo”, disse Olmert.

Como escrevi outras vezes, ao contrário do ocorrido na Segunda Guerra do Líbano, em 2006, existe uma real estratégia israelense para vencer este conflito. Mais ainda, Israel definiu metas mais modestas aos olhos do mundo e de seus próprios cidadãos.

Não custa repetir que, para os israelenses, a missão terá sido considerada vitoriosa se: 1 - o lançamento de mísseis sobre suas cidades terminar; 2 - a comunidade internacional for convencida da necessidade do estabelecimento de um cessar-fogo permanente e de uma força militar de diversos países que vigie o Hamas e impeça o contrabando de armas do Egito para Gaza através de túneis.

Ao contrário do conflito de dois anos e meio atrás – quando o governo de Israel aplicou táticas que tinham como objetivo final acabar com o Hezbolah, hoje o Estado Judeu sabe que o Hamas não vai encerrar suas atividades, mesmo com muitos de seus membros mortos. A ambição do país é criar uma maneira de o mundo se sentir responsável, de alguma forma, pela competência com que o grupo será vigiado a partir da próxima trégua entre as partes.

É arriscado e pouco preciso o termo “convivência”, mas creio que ele pode ser usado para definir como Israel pretende se relacionar com o Hamas daqui pra frente – por mais estranho que isso possa parecer. A diferença agora é que os olhos da comunidade internacional irão se voltar, pelo menos por um bom tempo, para as atividades do grupo extremista.

E, por si só, esta terá sido uma grande vitória para o governo israelense que se despede. Afinal, ao menos temporariamente, Olmert, Livni e Barak terão conseguido levar tranqüilidade para os cidadãos do sul do país. Talvez por um período de tempo suficiente para impulsionar a campanha de Livni ou Barak nas eleições de 10 de fevereiro.


Resolução do Conselho de Segurança


A resolução proposta pela ONU mostra alguns aspectos diferentes e que agradaram aos Estados Unidos. Menciona um cessar-fogo permanente e, conforme citado pelo ministro britânico para assuntos exteriores, David Miliband, segurança para os israelenses da região sul do país, e dignidade para os palestinos de Gaza.

Provavelmente, quando a maioria ler este texto, a resolução já terá sido aprovada pelo Conselho de Segurança e poderemos descobrir quais serão as medidas práticas para aplicá-la no cenário da guerra. Mas um detalhe interessante me chamou a atenção. Depois que Miliband encerrou seu pronunciamento aos jornalistas, o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, foi ao microfone e fez um adendo à declaração de seu colega inglês. Ele disse que o objetivo também é prover segurança ao povo de Gaza.

Se as palavras de Moussa de fato forem mais do que retórica vazia, o Conselho de Segurança teria uma excelente oportunidade de mostrar comprometimento com o apaziguamento definitivo da situação. Os moradores de Gaza precisam mesmo de proteção. De preferência, por meio de uma força militar internacional capaz de impedir provocações com mísseis a Israel.

A tranqüilidade no território pode ter um grande significado no futuro da região. Quem sabe, ONU, União Européia, Estados Unidos e os países árabes possam realmente ajudar os palestinos de Gaza a criar instituições sérias e capazes de permitir um ambiente seguro e transparente onde o dinheiro enviado pela comunidade internacional não seja usado para a compra de armamento, mas para o desenvolvimento econômico e social.

Mísseis lançados do Líbano

Os quatro mísseis que caíram no norte de Israel nesta quinta-feira fizeram muita gente prender a respiração, temendo a possibilidade de uma nova frente de batalha e acabando com a possibilidade de qualquer acordo. O Hezbolah se apressou em negar a responsabilidade pelo ataque. A mesma atitude foi tomada pelo governo do Líbano.

O Hezbolah seria capaz de lançar este ataque, mas não teria qualquer temor em se declarar o autor do lançamento desses mísseis. Se não o fez, há pelo menos duas explicações. Para Yoav Stern, jornalista do Haaretz, as eleições libanesas que ocorrem em menos de seis meses poderiam momentaneamente deter as ambições do grupo.

“O Hezbolah não quer se apontado (internamente) como o responsável por mais uma vez acabar com a relativa situação de calma. O grupo não pretende arriscar seus números nas pesquisas de opinião”, escreve.

A outra possibilidade é que os mais de 34 mil mísseis que os extremistas detêm hoje – e continuam a recebê-los do Irã – não devem ser usados agora. Eles estão guardados para uma provável retaliação ao mais do que previsível ataque de Israel às instalações nucleares iranianas.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Cessar-fogo à francesa: simplicidade ilusória

Conforme antecipado pelo blog no post de ontem, Sarkozy parece mesmo ter se antecipado a Obama na solução do atual conflito entre Israel e o Hamas. Segundo o Haaretz, o gabinete da presidência francesa divulgou um comunicado nesta quarta-feira comemorando a aceitação por israelenses e palestinos de termos gerais que serviriam de base para um cessar-fogo.

“O presidente está satisfeito por Israel e a Autoridade Palestina terem concordado com o plano franco-egípcio apresentado na noite passada em Sharm El-Sheikh pelo presidente do Egito, Hosni Mubarak”, diz a nota distribuída à imprensa.

Israel não confirma ter aceitado o plano, mas, também em nota, agradeceu ao empenho de Sarkozy e Mubarak. Segundo o comunicado israelense, “Israel expressa gratidão a Egito e França pelos esforços para obter uma solução capaz de acabar com o terrorismo em Gaza e o contrabando de armas (de território egípcio para Gaza através dos túneis)”.

Entretanto, numa leitura mais atenta do texto divulgado pela França é possível observar que o Hamas não é mencionado.

Há duas possibilidades que poderiam explicar essa ausência: ao ser citado, Israel poderia interpretar como se o grupo extremista ganhasse legitimidade internacional, sendo colocado, inclusive, em pé de igualdade com o próprio estado israelense; ao mesmo tempo, a Autoridade Palestina, do presidente Mahmoud Abbas, perderia credibilidade interna, uma vez que o Hamas assumiria a posição de interlocutor palestino.

Como na Segunda Guerra do Líbano, em 2006, a simples participação do Hamas num acordo poderia ser capitalizada como vitória – da mesma forma que o Hezbolah foi promovido de governo informal (ou mais poderoso que o formal) no Líbano a ator regional importante. O grupo passou também a contar com o dobro do armamento que detinha antes do conflito com Israel.

Posição do Hamas

A resposta do Hamas ao comunicado francês foi bastante clara. O grupo não concorda com uma trégua permanente com Israel. É bom deixar claro, no entanto, que existe uma divisão estrutural. As áreas política e militar são praticamente independentes, da mesma forma que não necessariamente existe consenso entre as lideranças baseadas em Gaza e na Síria.

Em entrevista à Associated Press, o líder exilado do Hamas, Moussa Abu Marzouk, declarou que não haverá negociações enquanto houver ocupação. O repórter só não perguntou qual o significado preciso deste termo para Marzouk, já que é sempre bom lembrar que o objetivo final e declarado do Hamas não é simplesmente a criação de um Estado palestino, mas a destruição de Israel – como cláusula expressa na carta de fundação do grupo e jamais retirada do texto.

Além disso, Osama Hamdan, representante do Hamas no Líbano, também declarou à rede de notícias Al-Jazira, do Catar, não aceitar a presença de forças internacionais que possivelmente passariam a monitorar as fronteiras de Gaza, a movimentação do Hamas e o lançamento de mísseis sobre território israelense.

“Rejeito a presença de uma força internacional. As tropas que serão enviadas a Gaza para proteger Israel serão tratadas como exército inimigo”, disse.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Obama x Sarkozy

Existe outra guerra por trás da ofensiva israelense em Gaza: a competição que irá determinar qual o líder mundial tem o maior poder de articulação e, mesmo sem levar Israel e o Hamas à mesa de negociações, será capaz de costurar um cessar-fogo em bases minimamente satisfatórias a ambos os lados.

Se Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos prometendo mudança, até o momento ele manteve um silêncio que constrange seus partidários. Por isso, no campo das negociações – mesmo que até agora infrutíferas – o grande vencedor desta batalha é o presidente francês, Nicolas Sarkozy.

Se os líderes franceses cultivaram desconfiança por parte de Israel e da comunidade judaica nos últimos anos, Sarkozy aos poucos vence esta resistência. Em nenhuma ocasião, o presidente francês questionou a motivação israelense por trás dos ataques ao Hamas. Muito pelo contrário.

Em encontro nesta terça-feira com o presidente sírio, Bashar Assad, em Damasco, Sarkozy pediu maior participação internacional no conflito.

“A pressão deve ser exercida sobre todas as partes envolvidas – inclusive sobre o Hamas –, de maneira a silenciar as armas e promover a paz. Israel quer garantir sua segurança, e os palestinos em Gaza querem a reabertura das fronteiras”, disse.

A inteligência do presidente francês é admirável. Ao perceber que a crise no Oriente Médio era mesmo grave, ele abandonou as “férias” no Brasil e se apressou em tomar parte na tentativa de solucioná-la. O tour pelo Oriente Médio já incluiu encontros com líderes de Israel, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, o egípcio, Hosni Mubarak, e, nesta terça, o sírio, Bashar Assad. A próxima escala é Beirute, no Líbano.

O momento não poderia ser melhor para a afirmação da relevância internacional francesa. O país usufrui de grande prestígio com o mundo árabe – acumulado graças a momentos-chave de oposição ao governo Bush, como a invasão ao Iraque – ao mesmo tempo em que Sarkozy se reaproxima de Israel. A França pode sair com o maior capital político deste conflito.

Principalmente por dois fatores: o silêncio de Obama e o desânimo da moribunda administração norte-americana. Bush sabe que não poderá resolver o conflito; enquanto Obama já declarou que “só há um presidente dos Estados Unidos”. Até o dia 20 de janeiro, portanto, o posto de articulador mais importante do mundo está vago. E Sarkozy está aproveitando com inteligência.

Atitudes de Obama

Não se sabe, no entanto, como será o comportamento do próximo presidente americano logo que tomar posse. Existem duas possibilidades: ele manter o atual apoio a Israel ou mudar um pouco o discurso, seguindo a tendência de pesquisas de opinião recentes.

O Instituto Rasmussen mostra que a população americana está dividida sobre a ofensiva israelense. Para 44% dos entrevistados, Israel agiu corretamente ao atacar o Hamas; 41% foram contra. Quando apenas eleitores democratas foram ouvidos, os números mostram um cenário diferente – 31% são favoráveis ao uso da força, enquanto 55% apóiam a solução diplomática.

O papel do Egito

As autoridades egípcias têm mantido diálogos secretos com líderes do Hamas na busca por um cessar-fogo. Segundo o jornal Haaretz, uma fonte do país confidenciou que o chefe da inteligência do Egito, Omar Suleiman, mandou um recado claro para os membros do grupo: caso não cooperem com a possível próxima trégua, os palestinos correm sérios riscos de perderem tudo o que conseg
uiram até hoje.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Israel em luta com o Irã, e Hamas busca legitimidade

Ao contrário do que possa parecer, Israel não mira apenas na destruição da infra-estrutura do Hamas. Há um inimigo muito mais forte, irônico e conhecido por trás da motivação que levou os israelenses a invadirem Gaza: o Irã de Mahmoud Ahmadinejad. Além das declarações do presidente iraniano e da corrida por armamento nuclear, a substituição dos desgovernados Qassam por mísseis Grad de médio e longo alcance evidenciam que novamente Jerusalém e Teerã estão em confronto.

A Segunda Guerra do Líbano, em 2006, já mostrara como o Hezbolah recebera armamento de Síria e Irã. Mas, ao contrário deste primeiro conflito, o atual embate conta com maior legitimidade internacional, inclusive de países árabes.

O silêncio da Arábia Saudita e a inesperada cooperação do Egito demonstram como esses países passaram a acompanhar – mesmo sem muito alarde – com certa satisfação o recado regional que Israel está tentando enviar ao Irã: não será fácil para o país alcançar a supremacia no Oriente Médio – seja ela política ou militar.

De fato, a mensagem agrada muito mais aos dois países árabes do que propriamente a Israel, na medida em que o Estado Judeu sequer conta com legitimidade por parte de Teerã.

Do lado israelense, a estratégia é mostrar que suas forças armadas estão prontas para um eventual – e, de certa forma, previsível – embate direto com os iranianos. Além disso, a intenção é deixar claro que o país não aceitará ser provocado ou atingido pelo Irã de forma indireta e praticamente dentro de seu território.

Nesta segunda-feira, em conferência de imprensa com líderes europeus, a ministra das relações exteriores, Tzipi Livni, declarou que “Israel não está somente exercendo seu direito de autodefesa, como também promove uma campanha regional contra o terror e o extremismo”.

Legitimidade

A atual guerra também se mostra um conflito por legitimidade política. E é justamente isso o que impede um cessar-fogo. Na visão israelense, parar a ofensiva agora e assinar uma trégua com o Hamas é transformar o grupo num importante ator regional.

O impasse ocorre porque obviamente o Hamas não quer abrir mão dos ganhos políticos obtidos em três momentos de importância inquestionável: a retirada israelense de Gaza, em 2005; a vitória nas urnas palestinas, em 2006; e a expulsão da Autoridade Palestina do território, em 2007.

Um acordo entre Israel e Hamas hoje poderia ser interpretado como o maior ganho político do grupo em sua história, da mesma forma como a resolução da ONU que encerrou a Segunda Guerra do Líbano, em 2006, teve uma impacto muito positivo para o Hezbolah diante da opinião pública do mundo árabe.

Por isso também o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, condena os ataques de Israel, mas também faz questão de culpar o Hamas pelo início do novo ciclo de violência.

Segundo o jornal Haaretz, o cenário ideal para Israel hoje seria o seguinte: o fim da ofensiva com um cessar-fogo permanente baseado num novo sistema de monitoramento das fronteiras que impedisse o lançamento de mísseis e o contrabando de armas pelos túneis construídos entre Gaza e Egito. Os encarregados da manutenção da paz seriam Israel, Egito, Autoridade Palestina e os Estados Unidos. O Hamas não seria representado.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Israel inicia ofensiva terrestre

Depois de uma longa semana repleta de expectativa, tensão, mortes e sofrimento, finalmente Israel lançou a ofensiva terrestre em Gaza. Numa operação envolvendo dez mil soldados, forças de engenharia, tanques, Marinha, o Shin Bet e outros serviços de segurança, o ataque acrescenta um fato novo ao objetivo inicial de destruir o máximo possível da infra-estrutura do Hamas.

Se nos primeiros dias o alvo era a capacidade técnica e de mobilização do grupo extremista, agora Israel quer tomar os pontos de onde os foguetes são lançados.

Muito possivelmente bem-sucedida do ponto de vista militar, a operação pode custar muito caro a Israel. O número de vítimas civis deve aumentar, uma vez que devido à complexidade e densidade populacional do território – além da tática de guerrilha aplicada pelo Hamas – é muito difícil a diferenciação entre terroristas e a população regular de Gaza. Ao contrário dos israelenses, os extremistas do Hamas não usam uniformes ou qualquer identificação.

Segundo o jornal Haaretz, os primeiros passos da operação envolveram o bombardeio por aviões da Força Aérea da principal estrada de Gaza, de forma a dificultar a movimentação de membros do Hamas. Antes da entrada das tropas israelenses, a artilharia teria destruído explosivos e minas terrestres colocados pelo grupo ao longo da fronteira.

Do ponto de vista da opinião pública, a mudança de estratégia pode gerar mais críticas a Israel de dois lados distintos. A já assertiva comunidade internacional deve pressionar ainda mais pelo fim da ofensiva; e, dependendo do desempenho do exército e do número de soldados mortos, o público interno do Estado Judeu pode exigir explicações de um já desgastado governo, além de investigações internas da Suprema Corte questionando a competência de Olmert, Barak e Livni a um mês das eleições gerais no país.

Até o momento, pesquisas apontam que o ministro da defesa, Ehud Barak, é o maior vencedor, mesmo se não for o próximo primeiro-ministro: ele traz de volta ao cenário político o Partido Trabalhista, que, de legenda fundadora e de inquestionável importância na história do país, estava relegado à terceira força – atrás de Kadima e Likud.

A incursão terrestre em Gaza não surpreende. Os reservistas já haviam sido convocados e, desde o primeiro dia de ofensiva, Barak deixa claro que Israel não iria se limitar aos bombardeios aéreos. Ele também repetiu inúmeras vezes que os ataques podem durar muito tempo, de maneira a envergar o Hamas ao máximo antes de uma inevitável trégua.

No entanto, as posições entre membros importantes do governo israelense são divergentes. Autoridades de defesa tendem a aceitar um acordo com o Hamas – mesmo que informal.

A ministra da Relações Exteriores e candidata do Kadima nas próxima eleições, Tzipi Livni, é favorável ao fim da hostilidades – mesmo sem encerramento formal dos conflitos – , desde que a situação atual deixe absolutamente claro que Israel responderá com o uso da força a qualquer novo lançamento de mísseis sobre o sul.

Já o primeiro-ministro, Ehud Olmert, prefere um cessar-fogo respaldado pela comunidade internacional. Para ele, o cenário também deveria incluir o monitoramento de organismos multilaterais – como ONU, União Européia etc – das atividades do Hamas durante a próxima trégua.