terça-feira, 11 de agosto de 2009

Traficantes mexicanos preocupam mais os EUA do que os colombianos

Muito pior do que a situação de hoje do tráfico de drogas na Colômbia é o atual estágio envolvendo morte, ineficácia e enorme gasto de dinheiro público no México. A guerra contra o narcotráfico por lá preocupa muito mais Estados Unidos e Canadá do que a polêmica sobre as bases militares que serão cedidas pelo governo de Álvaro Uribe às forças armadas americanas.

Por questões geográficas, a relação entre México e EUA é muito mais intensa. Membro do Nafta (a área de livre comércio da América do Norte que conta com a participação de mexicanos, americanos e canadenses, mas tão longe de ser uma parceria ideal quanto o Mercosul), o México tem o privilégio – e os malefícios – de contar com o mercado consumidor americano para despejar a produção do país. O problema é que isso inclui também o comércio de drogas e armas.

Segundo o londrino Times, os cartéis mexicanos traficam anualmente 39 bilhões de dólares em drogas – cocaína, na maior parte – para os EUA. Os americanos são responsáveis pelo consumo de cerca de 80% das drogas produzidas no México.

Sem a menor dúvida, é o México o maior prejudicado por essas estatísticas. Como o consumo de drogas é proibido nos Estados Unidos e o viciado ainda é tratado como criminoso, não resta outra alternativa às autoridades mexicanas do que combater os traficantes à bala.

E o Estado mexicano vem perdendo esta guerra; em 2008, o número de mortos do lado latino-americano da fronteira chegou a 10 mil, entre juízes, autoridades, policiais e civis. Todos vítimas da violência de organizações criminosas envolvidas na produção e distribuição de drogas.

“Essas condições têm tornado os narcóticos o próximo maior problema da América do Norte. A cada ano, os americanos prendem milhares de pessoas, gastam bilhões de dólares e se recusam sequer a debater questões como legalização, regulamentação e taxação das drogas”, escreve a jornalista Diane Francis, do canadense National Post.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Norte-americanos não entram na pilha, e Lula mostra habilidade de novo

Ao mesmo tempo em que os países sul-americanos se reuniam em Quito para tratar das bases cedidas pela Colômbia aos EUA, em Guadalajara, no México, os líderes norte-americanos realizaram uma cúpula menos formal. Criado pelo presidente Bush, o encontro costuma ter poucos resultados práticos. Mas, por conta deste clima de rivalidade desde que o acordo entre Washington e Bogotá veio a público, existia a possibilidade de uma declaração conjunta sobre o assunto. Ela não veio, muito embora seja quase certo que a polêmica tenha sido abordada durante a reunião entre os presidentes de México, Canadá e Estados Unidos.

Entretanto, os três países emitiram um comunicado acerca de outro tema que interessa ao continente; Obama, Stephen Harper – primeiro-ministro canadense – e o presidente do México, Felipe Calderón, reafirmaram o apoio incondicional ao presidente hondurenho deposto e exilado, Manuel Zelaya.

Pode parece pouco, mas se os três países do norte assumissem qualquer outra posição em relação a Zelaya, existiria a possibilidade de um racha no eixo norte-sul das Américas.

Como a situação por conta das bases na Colômbia fez com que os presidentes sul-americanos subissem o tom e colocassem pela primeira vez os EUA no foco de uma possível crise desde a posse de Obama, a decisão de não polemizar a crise em Honduras foi acertada.

Principalmente, evitou uma exposição ainda maior da política externa americana para o continente. Por outro lado, deixou a Colômbia – cujo presidente, Álvaro Uribe, não foi a Quito – ainda mais isolada. É o governo colombiano que continua a ser o maior alvo de críticas dos líderes sul-americanos.

Para variar, Lula foi mais inteligente do que todo mundo. Evitou declarações estomacais e se sobressaiu em meio à repetição de slogans ideológicos. Simplesmente, o presidente brasileiro sugeriu que a discussão seja tratada de forma mais séria, incluindo o presidente americano nas conversas. E adivinhem quem vai ser o interlocutor de Obama?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Brasil pode capitalizar a partir de polêmica sobre bases americanas na Colômbia

Mais uma vez, a maré das relações internacionais acaba de ascender novamente o Brasil ao posto de porta-voz da razoabilidade na América do Sul. Em meio a discursos apaixonados, ameaças de guerra e grande polêmica por conta das bases americanas na Colômbia, caberá a Lula exercer – sempre com grande satisfação, é claro – o papel de apaziguador oficial do continente.

De fato, o barulho em torno da decisão colombiana de ceder bases para uso militar norte-americano me parece um tanto exagerado. Muito embora seja justo o olhar atento dos demais países por conta da interferência dos EUA no combate ao narcotráfico.

A posição oficial brasileira, exposta hoje diretamente ao presidente colombiano, é deixar claro que os países do continente devem tratar de seus assuntos de segurança sem necessidade de intervenção externa.

E a verdade é que, além de suas próprias forças armadas, os Estados sul-americanos criaram a Unasul, órgão que existe justamente para tratar de questões militares e de segurança.

Por outro lado, a cessão das bases colombianas aos EUA é uma questão interna e decidida bilateralmente entre Washington e Bogotá. A discussão é grande não apenas por conta da decisão de Álvaro Uribe, mas porque resgata a memória coletiva dos vizinhos, inclusive do Brasil.

Historicamente, não faz muito tempo que os Estados Unidos tratavam os países do continente como irmãos mais novos e um tanto incapacitados para decidir sobre o próprio futuro. Foi assim durante os diversos casos de apoio expresso ou furtivo a golpes militares que derrubaram governos de tendência popular legitimamente eleitos. E este é o trauma absolutamente justificado que volta a se manifestar e novamente num momento em que líderes populares dão as cartas em boa parte dos países da região.

Soma-se a isso a péssima relação entre EUA e Venezuela e as farpas trocadas entre Chávez e Uribe – aliás, em boa parte por conta da proximidade entre Colômbia e Estados Unidos.

Em entrevista ao Terra Magazine, o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Ricardo Caldas lembra que a Colômbia tem um grande ônus diplomático por contar com apoio financeiro e logístico americano. O país deixa de ser visto como representante dos demais Estados sul-americanos. E, aí sim, o Brasil pode ocupar esta lacuna:

O Brasil tem um ganho indireto. Ele passa a ser de fato um mediador entre a Colômbia, que pertence a um grupo conservador, ligado aos EUA, e o grupo de esquerda, com Venezuela, Bolívia...”

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Parabéns, Putin!

No próximo final de semana, o atual primeiro-ministro, ex-presidente e futuro presidente Vladimir Putin completa dez anos ocupando postos de comando do governo russo. Entre muitas polêmicas e acusações de estar por trás do assassinato de dissidentes, ele é a personificação da liderança linha-dura que se perpetua no poder apesar de muitas e importantes vozes de oposição interna e, principalmente, externas.

Para comemorar a data, nada melhor do que uma nova polêmica. Segundo informação do New York Times, dois submarinos nucleares do país têm patrulhado a costa leste americana nos últimos dias. Como é típico da administração Putin, seu apadrinhado político e atual presidente, Dmitri Medvedev, ligou para o presidente dos Estados Unidos... Para desejar feliz aniversário a Obama. Ele preferiu nem tocar no assunto.

O que causa grande curiosidade é entender como Putin se mantém a frente da estrutura de poder. A revista Stratfor, especializada em análises internacionais, publicou um excelente artigo em que especula sobre o assunto.

Ao contrário de seus antecessores, Putin não tem como origem simplesmente a burocracia ou a política; é um (ex-)agente da KGB, órgão que conseguiu manter o enorme território soviético relativamente estável. E este foi o pulo-do-gato de Putin: ele escolheu (ex-)membros do aparato de segurança da URSS para ocupar os principais postos da alta cúpula do Kremlin.

Mas o atual regime de Moscou é movido por grande paranoia. Segundo as diretrizes, há inúmeros inimigos internos e externos. Além de Ucrânia e Geórgia, ex-repúblicas da URSS e que desafiaram o Kremlin ao se aproximar do ocidente, os demais desafetos são os próprios países ocidentais, o mundo islâmico e a China.

“A Rússia se enxerga também como um país ameaçado internamente: três em cada quatro cidadãos são considerados etnicamente russos, e esses são bem mais velhos que o resto da população. A taxa de natalidade dos ‘não-russos’ é praticamente duas vezes superior”, escreve o analista Peter Zeihan.

É curioso o comunicado divulgado nesta semana por autoridades políticas europeias acerca da beligerância de Moscou em relação à Geórgia. Trata-se de uma análise firme e realista sobre a atual política externa de Putin e Medvedev:

“A Rússia está de volta como um potência revisionista em busca de uma agenda do século 19, mas aplicando métodos e táticas do século 21. Ela nos impede de seguir as nossas próprias experiências históricas. Usa de meios conhecidos e secretos, como boicotes energéticos, subornos e manipulação da mídia de forma a desafiar (os países da) Europa Central e Oriental”. Um resumo dos valores da Administração Putin.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O que será de Hillary Clinton e da Coreia do Norte?

Ao mesmo tempo em que se tornou um sucesso, a operação liderada por Bill Clinton que levou de volta aos Estados Unidos duas jornalistas americanas presas por cruzarem a fronteira norte-coreana levantou algumas hipóteses: até que ponto Hillary Clinton é subestimada e substituída em assuntos importantes da política externa dos EUA? Será que este pode ser um começo de uma aproximação entre Washington e Pyongyang?

No caso dos Clinton, existe de tudo um pouco. Obama e Hillary são divergentes em muitos aspectos, que incluem o diálogo com o Irã, o processo de paz no Oriente Médio e por aí afora.

Bill é um ex-presidente vaidoso. Enviá-lo numa missão importante serve a dois propósitos: ele possui legitimidade internacional capaz de abrir portas – como de fato ocorreu – e mina um pouco da resistência a Obama representada pelo casal, evidente durante as primárias dos Democratas no ano passado.

Como recorda John Delury em artigo publicado na Far Eastern Economic Review, Bill Clinton nem sempre foi recebido com flores na Coreia do Norte. Nos primeiros anos de seu mandato, por pouco os dois países não iniciaram um conflito militar. Mas, com o auxílio do ex-presidente Jimmy Carter, um acordo foi firmado entre as partes em 1994.

São as ironias da política. Sobre uma aproximação com os norte-coreanos, a missão de Bill pode ser o início de uma nova relação. É bom ficar atento, entretanto, porque o líder Kim Jong-il costuma fazer uso deste expediente: ora acena com a possibilidade de um acordo – como aconteceu no ano passado –, ora se afasta e resolve lançar mísseis sobre o Mar do Japão.

Mas, como Pyongyang está precisando de dinheiro, é bem capaz de o dirigente do país decidir se reunir com as potências que tentam ano após ano pagar em troca da interrupção do programa nuclear norte-coreano.

O post de amanhã será dedicado a um dos protagonistas desta novela: a Rússia. Na próxima semana, Putin completa dez anos de poder, envenenando presidentes, sumindo com dissidentes e matando jornalistas.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O atoleiro dinamarquês

Anders Fogh Rasmussen, ex-primeiro-ministro da Dinamarca, assumiu o cargo de secretário-geral da OTAN nesta segunda-feira. Os dilemas da organização – cuja existência fica cada vez mais atrelada à guerra do Afeganistão – são complexos demais para serem resolvidos rapidamente. O dinamarquês sabe disso. E mirou em dois dos grandes – e talvez únicos – objetivos a serem alcançados: simplesmente derrotar o Talibã e dialogar com a Rússia.

O novo dirigente foi ele mesmo eleito sob polêmica. A Turquia era contrária à escolha por conta da grave crise que envolveu dinamarqueses e muçulmanos, em 2005, quando as charges satirizando o profeta Maomé foram publicadas por um jornal da Dinamarca.

A “bagagem” não é das melhores para alguém que tem como uma de suas principais atribuições profissionais justamente gerenciar os conflitos entre tropas ocidentais e guerrilheiros radicais islâmicos.

Some-se a isso o fato de a OTAN não conseguir derrotar a resistência. Os extremistas talibãs estão ativos em pelo menos metade do país. Para piorar, em três semanas ocorrem eleições no Afeganistão sob suspeita de fraude antes mesmo de as urnas serem colocadas nos locais de votação.

A situação de impasse não é nada animadora, como mostra análise do New York Times.

“Se (os moradores da região sul, sob amplo controle do Talibã) não puderem votar por questões de segurança, os Pashtuns – maior grupo étnico e bastante próximo ao próprio Talibã – podem se afastar ainda mais do governo central e das forças estrangeiras que o apoiam. No norte do país, existe a possibilidade de ondas de protesto parecidas às ocorridas no Irã, já que os moradores desta região lutam por mudanças e podem julgar que seus votos foram manipulados”.

É este o cenário que Rasmussen deve enfrentar antes mesmo de completar um mês de mandato.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Rússia e EUA partem em busca de aliados no Oriente Médio

Estados Unidos e Rússia estão se degladiando no cenário internacional. Com diferentes objetivos e estratégias, os países têm cortejado aliados em embates indiretos e - é bem provável - desconexos. Acho que vale citar dois sinais recentes e interessantes sobre novos atores e regras do jogo.

Washington vem tentando uma reaproximação com Damasco. Não é segredo pra ninguém como Obama prefere a tática do engajamento à do conflito. Neste caso, a intenção é desarmar não apenas os ânimos, mas também buscar que a Síria exerça por constrangimento um papel ativo no apaziguamento do Oriente Médio.

Para usufruir de maior legitimidade, o presidente americano tem preferido condenar Israel publica e seguidamente por conta da expansão dos assentamentos judeus na Cisjordânia.

Na última semana, o enviado do Departamento de Estado George Mitchell se reuniu com o presidente Bashar Assad em busca de cooperação militar e relaxamento de tensões e sanções impostas pelos EUA principalmente após o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, em 2005.

É bastante claro que a aproximação com a Síria é alvo de polêmica. Para ilustrar, abaixo um trecho do editorial publicado neste domingo pelo Wall Street Journal – veículo que segue linha editorial de oposição à atual política externa da Casa Branca.

“Manter laços estreitos com os xiitas Irã e Hezbolah é um elemento-chave para a sobrevivência política de Assad. Ao contrário do Egito de Anwar Sadat dos anos 1970, o presidente sírio não dá qualquer sinal de que pretende dialogar com Israel e ainda abriga o líder do Hamas em Damasco. Devemos perguntar o que a Administração Obama pode oferecer à Síria que seja capaz de alterar essas premissas”.

Já Moscou se aproxima ainda mais de Teerã. Não é de hoje que os países mantêm diálogos bastante próximos. A Rússia inclusive é fornecedora de material, tecnologia e conhecimento científico que auxilia os iranianos na construção de usinas nucleares.

Na semana passada, ficou bem claro que novos passos estão a caminho para aprofundar a relação. De acordo com a agência de notícias iraniana Mehr News, Rússia e Irã vão conduzir manobras navais conjuntas no Mar Cáspio. O exercício militar será o primeiro entre os dois países e vai envolver navios e helicópteros.

Os objetivos oficiais são aumentar a coordenação, realizar operações de busca e resgate e prevenir a contaminação do mar. É estranho mesmo, mas a manobra tem objetivos simbólicos, como confundir ainda mais a comunidade internacional. Afinal de contas, cada vez fica menos claro por qual lado da balança de poder a Rússia decidiu optar.

Resta saber onde Moscou e Washington vão se enfrentar. No Conselho de Segurança da ONU – em que ambos possuem poder de veto – ou exercendo pressão para evitar – ou incentivar – um conflito de possibilidades catastróficas no Oriente Médio?