sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Líbia protagoniza polêmica que não lhe traz nenhum benefício

A justiça da Escócia decidiu libertar o líbio Abdel Basset Ali al-Megrahi, julgado responsável pelo atentado a bomba que explodiu, em 1988, o voo 103 da extinta Pan Am, causando a morte de 270 pessoas. Ele foi solto após cumprir somente oito anos de pena numa decisão polêmica e que ainda vai dar muito pano pra manga. No centro da justificativa para deixá-lo retornar em liberdade para a Líbia, o conceito de “compaixão” pelo fato de o terrorista sofrer de câncer de próstata em estado avançado e estar à beira da morte.

Existe grande controvérsia em torno de todo o caso, até porque o próprio julgamento do líbio foi posto em dúvida algumas vezes. Há suspeitas sobre a idoneidade de todo o processo. Seja como for, a Justiça escocesa manteve sua decisão de considerá-lo culpado. Mas ontem mexeu nesse vespeiro e causou grande sofrimento às vítimas, vibração na Líbia, perplexidade internacional e até uma derrota retroativa do governo Bush.

Ao ser recebido por uma multidão no aeroporto de Trípoli, a capital líbia, Megrahi – que também é ex-agente do serviço de inteligência de seu país – causou arrepios no ex-presidente americano, que descansa em seu conhecido rancho em Crawford, Texas.

A Líbia era, até ontem, o grande “case” vitorioso da política externa Bush, cuja relação com os demais países – ainda mais do chamado “mundo árabe” – sempre foi de mal a pior.

Mas, Bush se orgulhava de ao menos ter conseguido “reabilitar” o Estado controlado com mão-de-ferro por Muamar Kadafi, tendo levado o país de volta à comunidade internacional, inclusive presidindo o conselho de segurança rotativo da ONU (!).

Porém, ao promover a calorosa recepção ao terrorista no aeroporto da capital do país, Kadafi levou a Líbia de volta aos anos 1980, quando gozava do status de inimigo internacional número um, patrocinando atentados e abrigando seus mentores – uma espécie de al-Qaeda armada com aparato de Estado.

É uma reviravolta estranha, uma vez que Kadafi vinha se esforçando nos últimos anos para ser novamente aceito internacionalmente. Seus atos mais recentes mostram bem este movimento: desmantelou o programa nuclear do país, admitiu a responsabilidade governamental pelo próprio atentado contra o avião da Pan Am e pagou compensações financeiras aos parentes das vítimas.

Agora, entretanto, tudo pode começar a se esvair novamente. Obama classificou a libertação do terrorista como um erro. Mas foram as palavras do ministro das relações exteriores britânico, David Miliband, que mostraram bem como a recepção calorosa de Megrahi promovida por Kadafi pode mudar a maneira como a Europa irá se relacionar com a Líbia a partir desta confusão toda.

“A maneira como o governo líbio vai atuar nos próximos dias será bastante importante para moldar a opinião mundial sobre a aceitação do país na comunidade dos Estados civilizados”, diz.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Eleições para tranquilizar o ocidente

Ao invadir o Afeganistão, em 2001, os Estados Unidos buscavam uma resposta aos atentados de 11 de Setembro. Varrer a al-Qaeda do país era uma forma de preencher a lacuna da opinião pública americana, uma vez que o governo de George W. Bush não tivera êxito em impedir que os terroristas atacassem Nova Iorque e o Pentágono. Hoje, oito anos depois, o Talibã – que abrigara Osama Bin Laden – não é mais parte da administração oficial. Mas, ainda assim, continua a ser um ator importante e destrutivo.

Ao patrocinar eleições, fica claro que a aliança ocidental comandada pelos Estados Unidos não tem apenas a missão de impedir que a al-Qaeda ou os talibãs retomem o controle do Afeganistão. Existe a intenção de criar uma rede de instituições. Um governo central, burocrático e democrático – até onde isso é possível – é apenas uma parte deste esforço.

Até que ponto, entretanto, a missão inicial teve seus objetivos desvirtuados? Apesar de nobres, o fato de este ser o primeiro pleito eleitoral no país diz bastante sobre as tradições políticas locais.

Sem a menor dúvida, a realização de eleições livres, supostamente limpas e diretas é sim uma tremenda vitória num local onde mulheres são impedidas de ir à escola.

Mas, sob custos cada vez mais elevados – de vidas civis afegãs e de soldados da coalizão, além dos financeiros, é claro –, o objetivo inicial de simplesmente expulsar o Talibã do governo e seus aliados da al-Qaeda já deixou de existir. Há tempos, o que OTAN, EUA e UE pretendem é recriar o Afeganistão das cinzas. À maneira ocidental. E, por mais justo que isso seja, trata-se de uma maneira de apaziguar a consciência de líderes governamentais por invadir um outro país.

E todo este processo eleitoral é parte disso. É uma maneira de dar a contrapartida visível aos contribuintes americanos e europeus que financiam com vidas e dinheiro esta ofensiva. Ela é sim louvável, mas não necessariamente afegã, como bem mostra artigo publicado por Jeremy Shapiro, diretor do Centro de Pesquisas sobre EUA e Europa do Instituto Brookings.

“Os ocidentais afirmam com frequência que o processo de construção de um Estado no Afeganistão será comandado por lideranças locais de acordo com os valores afegãos. A história mostra, entretanto, que uma eleição não é parte desses valores. De toda forma, elas (as eleições) não são um elemento negociável de nosso esforço de criação de instituições”, escreve.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Chegou a hora de Mubarak ajudar

Um dia depois do presidente Barack Obama se encontrar com o aliado egípcio Hosni Mubarak, o jornal Haaretz publica a declaração de uma fonte do Cairo afirmando que o líder americano prometeu apresentar seu plano de paz para o Oriente Médio em setembro. É um envolvimento tardio de Washington no conflito árabe-israelense. Resta saber, entretanto, no que consiste este novo esforço diplomático na região.

Por ora, acho que uma das esperanças está justamente em Mubarak. Já com 81 anos de idade, existe um movimento que especula sobre a sucessão do presidente que governa o Egito há quase 30 anos através de eleições em que é reeleito seguidamente, tornando-o, sem dúvida, o melhor presidente do mundo.

Seja como for, se houver alguma coerência, a vaidade poderá se tornar uma grande aliada para os esforços de paz. Afinal, Mubarak pode vir a se debruçar sobre o assunto com mais empenho, uma vez que nada seria melhor do que deixar a vida e entrar para a História como um dos artífices do acordo definitivo que selará a paz no Oriente Médio.

Mas nada é tão simples como parece; mesmo pequenos passos em direção a uma aproximação entre Israel e os demais países árabes demandam conversações extensas e, muitas vezes, improdutivas.

Washington tem pressionado Estados árabes moderados a permitir sobrevoos de companhias aéreas israelenses sobre seus territórios, mas, até o momento, nenhum resultado prático foi obtido. Os EUA também têm requisitado a abertura de seções de interesse de Israel em embaixadas de outros países no mundo árabe, além do estabelecimento de parcerias culturais. Por ora, nenhum dos pedidos foi recebido com ânimos pelos países.

Acredito que este é o caminho mesmo. Não adianta iniciar os diálogos com objetivos audaciosos, como a assinatura de um acordo amplo e definitivo. É preciso começar com pretensões mais modestas, aumentando a confiança entre as partes e diminuindo a desconfiança mútua.

Talvez Mubarak pudesse ser mais participativo neste processo. Ao menos seria uma resposta à altura dos 1.3 bilhão de dólares que os EUA transferem para o governo egípcio anualmente desde 1979.

Do lado israelense, se ainda não houve um congelamento total dos assentamentos, ao menos foram canceladas as permissões para a construção de novas colônias na Cisjordânia. Pode ser um começo, quem sabe.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Obama entrega Talibã de bandeja para Putin. Mas sem querer, é claro

Além da pobreza, a Ásia Central é amplamente afetada pela violência étnica e fundamentalista. Com o combate que vem sendo travado no Afeganistão, existe agora a possibilidade de os conflitos se espalharem pelos demais países da região. Tudo porque o aumento das tropas americanas e da OTAN tem provocado de maneira involuntária a descentralização de táticas e ideologias talibãs.

As perspectivas são desanimadoras, como confirma reportagem publicada pelo New York Times.

“pode ocorrer um fortalecimento de movimentos islâmicos, especialmente no Vale de Fergana, que inclui partes de Quirguistão, Uzbequistão e Tadjiquistão – três ex-repúblicas soviéticas com grandes populações muçulmanas”, diz.

O número de habitantes dos três países somados ultrapassa a casa dos 35 milhões. É assustador imaginar o potencial que o Talibã pode passar a ter nesta região.

Lutar contra o grupo é como tentar se esquentar com um cobertor curto. Se a coalizão vencer no Afeganistão, os extremistas seguramente vão encontrar refúgio nas ex-repúblicas soviéticas, podendo causar um estrago ainda maior.

Do outro lado do Mar Cáspio, o governo russo teve uma demonstração do poder devastador do fundamentalismo suicida islâmico nesta segunda-feira. Na República da Inguchétia, uma caminhonete-bomba foi detonada contra a sede do Departamento do Interior, em Nazran, maior cidade da região.

O atentado terrorista deixou ao menos 20 mortos e cerca de 140 feridos, dentre eles quase dez crianças.

Quando os talibãs se infiltrarem nesta área, uma grande ironia estará a passos largos de se tornar realidade. Como crítico voraz da OTAN, o governo russo vai se deparar com os militantes derrotados pela aliança militar ocidental. O problema é que, por coerência ou falta dela, terá de enfrentar esta luta sozinha, uma vez que um dos pilares da política externa do país é se indispor aos mecanismos de defesa internacionais criados por EUA e União Europeia.

E isso tudo deve acontecer mais rápido do que se imagina. O Talibã será um presente de grego dado a Putin em nome de Obama.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Eleições ameaçam o poder do Talibã

Na próxima quinta-feira, 20, ocorrem eleições que vão determinar não apenas o novo presidente afegão, mas também os representantes das províncias. Num ano que presenciou votações muito importantes no Oriente Médio (Israel, Líbano, Irã e a conferência do Fatah), esta é a próxima capaz de alterar os pilares da região. Muito embora, – verdade seja dita – por mais emblemáticos que alguns eventos tenham sido neste ano, nenhum deles conseguiu mudar qualquer coisa de fato.

E no Afeganistão muito pouco deve mudar. Principalmente porque, desde já, o Talibã – grupo extremista e fundamentalista que ainda detém o poder em Helmand e Kandahar, duas das mais importantes províncias do país – já determinou a pena para aqueles que se atrevam a votar nas eleições patrocinadas pelos EUA: um dedo cortado – preferencialmente o usado para marcar os candidatos nas cédulas de votação.

Eu não me arriscaria a perder o dedo em nome da “defesa da democracia”, da “liberdade” ou de qualquer outro slogan que faz sentido por aqui, mas que não tem muito significado por lá. Apesar disso, 17 milhões de corajosos – de um total de 33 milhões de habitantes – estão registrados para votar.

Mesmo ainda longe de derrotar os talibãs, a simples realização do pleito é em si uma tremenda vitória para a coalizão. Alguns números mostram isso: há mais de 3 mil candidatos em busca de um das 420 vagas nas províncias; desse total, 300 mulheres lutam para se tornar representantes políticas. É, nas devidas proporções, uma tremenda revolução num lugar onde mulheres que ousam frequentar escolas chegam a ter o rosto queimado por ácido por militantes talibãs.

É curioso notar que o purismo do Talibã se resume a determinadas regras de conduta – como impedir mulheres de estudar, por exemplo. As tropas americanas, da coalizão e da OTAN lançaram uma ofensiva sobre os domínios do grupo extremista. A batalha tem sido travada sob fogo cerrado não porque o grupo pretende controlar territórios simplesmente por questões ideológicas. Os militantes temem perder o controle das áreas de produção de heroína, droga que financia a logística e a compra de armamento.

Como se poderia imaginar, coerência não é lá o forte dos talibãs. Em nome da defesa dos pontos de produção de um dos mais letais entorpecentes, podem ter certeza de que muitos atentados terroristas serão cometidos até as eleições do dia 20.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O otimismo exagerado sobre a conferência do Fatah

A sexta conferência do Fatah terminou nesta semana. Como o acordo entre EUA e Colômbia acabou por tomar boa parte da cobertura da imprensa – inclusive deste espaço –, o assunto não mereceu maiores análises. O tema é importantíssimo para a dinâmica do Oriente Médio, uma vez que o Fatah é não somente liderado pelo presidente palestino, Mahmoud Abbas, mas também se opõe ao Hamas e é visto por Israel e Estados Unidos como o único interlocutor para as negociações de paz.

Houve grande otimismo por conta da própria realização do encontro. Como fundador do Fatah, o falecido símbolo da identidade palestina e primeiro presidente da AP, Yasser Arafat, não permitiu este tipo de disputa eleitoral, principalmente, diga-se de passagem, a partir do momento em que a Autoridade Palestina foi criada, em 1994.

Este é um momento importante do conflito árabe-israelense, justamente pela divulgação de atitudes e posições políticas que simplesmente vêm sendo ignoradas pela imprensa brasileira: às vésperas de comemorar sua “vitória” militar em 2006, o Hezbolah tem declarado estar pronto para uma nova guerra contra Israel e afirma ter um arsenal de 40 mil mísseis para serem lançados contra o território israelense; o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirma que qualquer ação do Hezbolah será interpretada como uma declaração de guerra libanesa, uma vez que o grupo extremista paramilitar tem participação não apenas na sociedade, mas também no aparato de Estado do Líbano; e, por fim, uma tecla na qual venho batendo há duas semanas: a Jordânia tem retirado compulsoriamente a cidadania de palestinos. Até o momento, cerca de 40 mil palestinos com cidadania jordaniana tiveram este direito revogado.

E não houve qualquer pronunciamento oficial do alto escalão do governo americano – a parte mais interessada em retomar o processo de paz. Pelo menos, em teoria.

Sobre a conferência do Fatah, é bom que novas lideranças tenham sido eleitas. Mas, ao contrário de parte dos analistas internacionais que escreveram artigos entusiasmados sobre essa renovação, penso que ter diferentes nomes na política palestina não muda a situação de impasse do processo de paz. Até porque, por mais que uma das decisões do encontro tenha sido pela opção pacífica, há outras resoluções tomadas por este grupo que passa assumir o comando do Fatah. E elas não são lá tão positivas assim para as conversações.

Alguns pontos acordados nesta reunião para um acordo de paz: Israel deve deixar todos os territórios conquistados durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, inclusive a porção oriental de Jerusalém (ponto que pode até ser discutido pelo governo israelense, mas que promete muita polêmica interna); todos os assentamentos na Cisjordânia deverão ser desmantelados (por mais que a logística seja complicada, isso pode vir a acontecer durante a negociação de um acordo definitivo, até porque Israel já tomou esta atitude em Gaza); e, por último, segundo o Fatah, só haverá paz quando todos os refugiados palestinos puderem se estabelecer em Israel.

Este é o ponto mais controverso. A posição oficial israelense é que os palestinos que perderam, deixaram ou foram expulsos durante a Guerra de Independência de Israel, em 1948, devem retornar para o futuro Estado palestino. Até porque a inclusão de mais 800 mil palestinos dentro das fronteiras do Estado Judeu alteraria a chamada “balança demográfica” do país, tornando, em curto prazo, a população judaica minoritária em Israel e, por fim, acabando com o conceito de Estado Judeu sobre o qual o país foi criado.

Essa posição adotada pelo Fatah simplesmente inviabiliza qualquer acordo. Mas, quem sabe, esta não seja apenas uma forma de manter a moral do grupo para não ser acusado pelo próprio Hamas ou pelo Irã de ceder a Israel. O resultado prático da conferência só poderá ser avaliado quando as negociações forem retomadas. Por ora, parte do otimismo exposto em análises não passa de ingênuo – ou míope – otimismo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Será que os EUA não se importam com a América Latina?

Ainda sobre o tráfico de drogas no México, a situação por lá é bem mais complicada do que em outros países latino-americanos. Além de participação na política, da organização em gangues muito bem armadas, segundo a revista Forbes os traficantes mexicanos ainda estão roubando Petróleo. E não é pouco.

Somente no ano passado, a empresa estatal – e que detém o monopólio do setor – Petróleos Mexicanos (Pemex) estima ter sido roubada em cerca de 720 bilhões de dólares em produtos relacionados ao petróleo.

Como se vê, a criminalidade se estende para muito além da produção e distribuição de drogas. Seria como se, por aqui, nossas milícias decidissem roubar a Petrobrás.

O combate ao tráfico no México é mais um braço da política de Barack Obama para a América Latina – praticamente esquecida durante os oito anos de governo Bush.

Mas, ao contrário da posição conciliadora que vem adotando com o mundo muçulmano, por exemplo, o presidente da mudança não vem distribuindo tolerância ou mesmo estabelecendo parceria com os países ao sul dos EUA.

A maneira como foi conduzida a posição oficial de Washington acerca do golpe que derrubou o presidente de Honduras demonstra certa impaciência com os assuntos do continente.

O primeiro comunicado oficial da Casa Branca não chegou nem mesmo a criticar a deposição de Manuel Zelaya, como lembra o economista Mark Weisbrot.

Ora, se a política externa americana segue uma linha coerente de se colocar ao lado da democracia, como manter a neutralidade diante de um escandaloso ataque a um regime legitimamente eleito?

É preciso lembrar que a posição foi revista dias depois, mas pegou mal o modo como o assunto foi tratado. Até porque, como afirma Weisbrot, nenhuma outra medida cabível foi tomada.

“Obama disse que não poderia simplesmente ‘apertar um botão’ e restituir Zelaya. Mas ele sequer ‘usou os botões’ que tinha à disposição, por exemplo, o congelamento de bens que os autores do golpe têm nos EUA ou ao menos cancelar seus vistos de entrada em território americano”, escreve Weisbrot no New York Times.

Será que, apesar dos discursos, a América Latina continuará a ser ignorada pela política externa dos EUA? Talvez a atual crise na Colômbia sirva ao menos para lembrar Obama que os países ao sul do Rio Grande estão dispostos a conversar e, principalmente, negociar tráfego de pessoas e produtos.