terça-feira, 17 de novembro de 2009

A caminho da terceira intifada

É bem possível que algo de muito grave venha a ocorrer em breve no Oriente Médio. E mais especificamente entre israelenses e palestinos. Como muita calma costuma antecipar grandes tensões na região, esta lógica perversa deve voltar a funcionar. Mas há alguns motivos bastante claros para a erupção de uma terceira intifada palestina.

Estava tudo muito calmo por ali. Principalmente para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. A economia cresce e se recupera da crise financeira, o turismo volta a apresentar índices bastante positivos, e, mais importante, os atentados terroristas estão sendo contidos. Nas fronteiras norte – Líbano – e sul – Gaza – bem ou mal os ataques de Hezbolah e Hamas, respectivamente, diminuíram bastante. Nunca nenhum governo israelense vai admitir, mas é claro que existe internamente um número a ser tolerado. Já se sabe que será bem improvável que este número chegue a zero.

O problema é que a situação é bem diferente nos territórios controlados pela Autoridade Palestina. Ou melhor, Gaza é quase um Estado soberano do Hamas e isso em parte explica a tensão crescente entre os palestinos – e também é um motivo que pode levar à coordenação de uma terceira intifada.

Mesmo após o congresso do Fatah, em agosto passado, não houve acerto entre o próprio Fatah e o Hamas. Pra completar, a incongruência dos dois ficou evidente após o fracasso da iniciativa egípcia de formalizar um acordo entre as partes. Some-se a isso a recusa do Hamas em participar das eleições gerais convocadas pelo presidente da AP, Mahmoud Abbas, que estavam marcadas para 24 de janeiro do ano que vem.

Ninguém sabe mais o que vai acontecer. O futuro da AP está a perigo e Abbas declarou que vai deixar o cargo. A escalada política que deve desaguar numa nova revolta palestina caminha a passos largos e segue também a mesma lógica que, off-record, justificaram as duas intifadas anteriores: somente a revolta popular seria capaz de pressionar por reformas políticas na estrutura de poder palestina.

A indiferença de Bibi à situação é ainda pior. Como continua se recusando a congelar a construção de assentamentos na Cisjordânia, oferece de bandeja um argumento que a comunidade internacional considera legítimo para a AP deixar a mesa de negociações e, pior, Abbas abandonar a política.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

América do Sul pode reeditar um mundo de 20 anos atrás

Talvez os venezuelanos saíssem em vantagem numa eventual guerra com a Colômbia, uma vez que já estão acostumados aos cortes de água e energia elétrica – situações comuns durante conflitos armados. Chávez pediu à população que se preparasse para “100 anos de guerra”. Um tanto exagerado, a meu ver. Mas, assim como o estranhíssimo episódio de espionagem envolvendo Chile e Peru, mostra que algo anda errado com os países vizinhos.

O melhor que o Brasil tem a fazer neste momento é aproveitar a ocasião. O governo Lula deve surfar na onda e confirmar a posição de unanimidade internacional de que o Brasil é, no momento, o mais prudente e moderado dos Estados da região.

As trocas de acusação entre Colômbia e Venezuela e Chile e Peru são retrógradas. Deixam a sensação de que esses governos ainda não perceberam que no mundo de hoje cooperação vale mais do que discursos nacionalistas; conhecimento científico e desenvolvimento econômico mais do que território. São essas as verdadeiras guerras que estão em jogo na América do Sul: a luta de alguns pelo retorno a um mundo que ruiu há exatos 20 anos.

É preciso ser ousado e convocar uma cúpula entre Colômbia e Venezuela. E talvez o Brasil fosse o melhor intermediário na disputa. Lula teria a dura missão de ser direto e impedir a guerra fria indireta e decadente que está prestes a acontecer bem do nosso lado.

Acho que o ocorrido entre Chile e Peru é um ponto fora da curva. Muito provavelmente fruto da antiga rivalidade entre os países e que, ainda hoje, ainda não está resolvida em boa parte por conta das demandas territoriais peruanas.

No caso entre Venezuela e Colômbia, no entanto, a disputa é pra valer. E os dois países saem perdendo logo de cara. Os colombianos porque deixar de fazer negócios com a Venezuela significa abrir mão de 7,6 bilhões de dólares ao ano; os venezuelanos porque ao não comprar de seu segundo maior parceiro comercial (os EUA são os primeiros, podem acreditar) deixam de receber componentes eletrônicos, bens agrícolas e químicos, comida e carros.

E adivinhem de quem Chávez promete comprar para substituir as importações da Colômbia: de Brasil e Argentina. Talvez isso explique o interesse da Venezuela em aderir ao Mercosul. E aí se configura um certo dilema para o governo brasileiro; o que valeria mais: mediar o fim das hostilidade ou buscar ser o substituto à Colômbia nas importações de Chávez?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

As coincidências voltaram

As grandes coincidências do Oriente Médio voltaram a dar as caras nas últimas duas semanas. E, como mencionei no texto de quarta-feira, o Brasil pode estar envolvido no polêmico episódio da apreensão de centenas de armamentos pela Marinha israelense no último dia 4, já que foram encontrados contêineres escritos em português ou espanhol – isso ainda não está claro e, portanto, é mais sensato optar pelo benefício da dúvida.

O que se pode fazer por ora é imaginar cenários capazes de explicar o ocorrido. Os fatos são os seguintes: o navio Francop, de bandeira de Antígua e Barbuda, carregava mais de 60 toneladas de mísseis, foguetes e armas antitanque. A embarcação operava sob disfarce de um navio de ajuda humanitária. Os contêineres exibiam as siglas IRISL (Islamic Republic of Iran Shipping Lines).

O último destino do navio era a Síria. Muito possivelmente, o armamento seria destinado ao Hezbolah. Cinco dias após a interceptação israelense, coincidentemente, o primeiro-ministro libanês, Saad al-Hariri, confirmou o retorno do grupo radical xiita ao governo do país, apesar de sua derrota nas urnas nas eleições de julho deste ano.

O Hezbolah simplesmente se utilizou de sua força política para impedir a governabilidade. E conseguiu; barrou a lei que institucionalizaria o desarmamento do grupo. A tentativa de tirar seu poder de fogo criou um impasse tão grande que o Líbano mergulhou no limbo político. E agora, quando o Hezbolah retorna ao governo, o país vai sair da inércia, mas com a grande perda de manter parte de seu território sob domínio militar do grupo xiita.

Em nome da mínima governabilidade, as forças pró-ocidentais que alcançaram uma vitória histórica este ano tiveram de recuar. É a mostra de que será preciso muita articulação política, paciência e, acima de tudo, tempo para diminuir o poder paralelo que na prática governa boa parte do território libanês.

E por causa desta bem sucedida virada de jogo no Líbano, Irã e Síria retomaram o envio de armas ao Hezbolah, que atua como satélite direto dos dois Estados na fronteira norte de Israel.

Esta é a possibilidade que considero a mais provável.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Lula ganha mais prestígio com visita de Shimon Peres

Não há dúvidas de que a visita do presidente israelense, Shimon Peres, ao Brasil pretende frear o estreitamento de laços do Irã com os demais países do continente. Este não é o único significado da estadia de um dos mais importantes e respeitados estadistas do mundo. Mostra também como o Brasil passou a ser um ator importante das relações internacionais neste início de século.

Aproximar-se do Brasil é também se associar ao Estado com o maior peso internacional da região. Além disso, o governo Lula representa hoje a administração mais racional na América do Sul e capaz de escolher parceiros menos por ideologia e mais por pragmatismo. Vale lembrar que o país é capaz de realizar transações comerciais e contatos diplomáticos com os demais Estados das Américas e também com atores importantes como China, Rússia, Irã, Estados Unidos e União Europeia. Todos ao mesmo tempo.

Peres discursou em Brasília diante de deputados e senadores. Revelou as intenções israelenses de abrir negociações de paz diretas com a Síria e retomar os diálogos com os palestinos e deu o recado sobre a posição oficial em relação ao Irã – embora, por questões diplomáticas, não tenha se fixado tanto no assunto. Após reunião com o presidente Lula, hoje, pelo menos um importante resultado prático: o Brasil fechou um acordo no valor de 350 milhões de dólares com as Indústrias Aeroespaciais Israelenses. A negociação deve permitir ao Brasil o acesso a aviões não-tripulados para patrulhar as fronteiras e o equipamento deve ser usado também durante a Copa de 2014 e as Olimpíadas no Rio.

A visita de Peres marca o que se pode chamar de simbiose internacional. É boa para o Brasil, já que o país pretende exercer um papel de maior destaque nas tentativas de diálogo no Oriente Médio e busca a sonhada vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU – e em breve Lula irá receber, além do polêmico presidente iraniano, o presidente palestino, Mahmoud Abbas. O encontro entre Lula e Peres também é importante para o israelense, que conseguiu suceder magistralmente o insosso e acusado de crimes sexuais Moshe Katsav, transformando a presidência de Israel num cargo de verdadeira relevância política.

O que ficou pendente até agora é uma questão delicada e completamente ignorada pela imprensa daqui. A carga de armamentos apreendida pela marinha israelense no último dia 4 a bordo de um navio iraniano continha contêineres com inscrições provavelmente em português. Digo provavelmente porque podem ser em espanhol também; as palavras “lote” “disparo” e “espoleta” são comuns aos dois idiomas. Mas o que importa mesmo é o conteúdo da carga: rifles M40. Ninguém vai questionar o ocorrido? O governo brasileiro não irá se pronunciar sobre o assunto? Amanhã um texto mais detalhado sobre o assunto onde pretendo articular alguns fatos aparentemente isolados acerca desta apreensão.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um mundo bem diferente de 1989

O fim de todas as ideologias e a supremacia do capitalismo provocaram grande euforia. Afinal, sem o mundo dividido em zonas de influência entre as potências, não havia mais motivos para que novas guerras acontecessem. Era apenas uma questão de tempo para unir o planeta em torno do livre mercado, aumentar a produtividade, alavancar os países subdesenvolvidos, criar novos mercados e pronto: a história chegaria a um final feliz. Logística e paciência dariam contornos positivos mesmo ao mais precário dos Estados nacionais – todas as populações consumiriam e esta era a chave que parecia ser capaz de abrir as portas do paraíso.

Mas ninguém se deu conta – ou em meio a tanta festa não se podia ver – que o fundamentalismo islâmico era uma realidade pronta para confrontar o ocidente. E foi exatamente isso o que aconteceu, como todos sabem. E este parece mesmo ser um dos maiores desafios do mundo pós-guerra fria, pelo menos no campo das relações internacionais – é preciso lembrar também dos desafios do clima, do fim da recessão econômica mundial, da inclusão econômica e social que ainda não veio.

A queda do muro é um desses eventos marcantes, mas muito diferente de boa parte das lembranças políticas recentes. Ao contrário de situações-chave do mundo, marca a conciliação, não a catástrofe. Alem do mais, dá visibilidade a uma forma de pensamento única não-totalitária. Afinal, quem é louco de defender a existência do muro de Berlim hoje em dia ou ao menos lamentar sua ausência?

Ė interessante notar também que, muito distante da Europa, a China vivenciou sua própria revolução em 1989. Mas a potencia asiática conseguiu graças à sua economia e população encontrar uma brecha no mundo atual. Num regime muito particular e controlado pelo Estado, impõe-se numa mistura bem-sucedida – por mais controversa que seja, os números frios apresentam-na como a próxima maior economia do planeta – de totalitarismo e lógica de mercado.

A verdade é que, 20 anos depois, o mundo é completamente diferente daquele imaginado a partir de 9 de novembro de 1989. E ele tem mudado bastante principalmente desde o início deste século. Justamente porque o multilateralismo já é uma realidade política e econômica. Se, por um lado, a Europa está cada vez mais unida, a Rússia se afunda mais nas paranoias de seus lideres que ainda sonham com o retorno de um mundo anterior a 1989. O interessante mesmo é perceber que, quando se comemora a queda do muro, a Europa já não é, nem de perto, o mais importante dos palcos dos grandes desafios planetários de nossa era.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Impasse afegão

Não apenas por conta das denúncias e comprovações sobre a fraude nas eleições afegãs a posição americana é altamente constrangedora e delicada. A situação questionável é fruto de uma derrubada de peças de dominó que vem ocorrendo em sequência desde os atentados de 11 de Setembro de 2001. Às vezes tudo isso pode parecer um tanto distante e desassociado com o status quo caótico, mas os ataques terroristas cometidos pela al-Qaeda nos Estados Unidos foram os responsáveis pela decisão da Casa Branca de invadir o Afeganistão.

E não somente isso. A opção pela guerra do Afeganistão aconteceu justificadamente e contou inclusive com o apoio da comunidade internacional – na época ainda sem saber exatamente a dimensão das mudanças que estavam por vir. Os Estados Unidos expuseram motivos válidos para enviar sua máquina militar ao país asiático: era preciso prender e julgar os terroristas da al-Qaeda. E eles estavam escondidos em montanhas e cavernas de pontos remotos do Afeganistão.

Hoje, após bilhões de dólares dos contribuintes americanos gastos na empreitada, Osama bin Laden não foi encontrado. O objetivo acabou por mudar completamente, e EUA e OTAN lutam sem sucesso para derrotar de vez o Talibã, grupo terrorista que ainda domina boa parte do território.

Generais são destituídos e outros assumem sem qualquer previsão de vitória das forças ocidentais. Aliás, não fica claro o que seria vencer, principalmente quando se levam em conta os objetivos iniciais da invasão americana de 2001. Nem a al-Qaeda se esconde no Afeganistão, muito menos bin Laden.

Ao mesmo tempo, ao assumir essa guerra como sua, o presidente Obama se depara com grande possibilidade de fracasso. Até porque está cada vez mais claro que os impostos dos cidadãos americanos estão sendo usados para construir um outro país. E justamente num momento de recuperação pós-crise econômica que apresenta taxas de desemprego crescentes nos EUA.

Para complicar ainda mais, a Casa Branca e a OTAN acabam de patrocinar eleições fraudulentas. O presidente Hamid Karzai não conta com o apoio sequer da maioria dos afegãos, algo que torna ainda mais ilegítima a tentativa de “inventar” uma nação. O problema é que abandonar este projeto agora seria jogar bilhões de dólares no lixo e assumir terríveis consequências internacionais.

Por conta de todos esses complicadores, as alternativas são muito poucas. Resta à administração americana continuar a combater o Talibã de um lado e criar a infraestrutura de Estado, de outro. Ou seja, o projeto vai permanecer caro e seus resultados não serão percebidos em curto prazo. Mas esta opção ainda é melhor do que deixar o barco à deriva e permitir que os talibãs comemorem vitória sobre a OTAN e os EUA. Aí sim os resultados seriam ainda mais catastróficos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mais do mesmo

Depois de merecido descanso - não vou adotar qualquer discurso de autopiedade, fiquem tranquilos quanto a isso -, retorno à rotina do blog. Após me interar dos acontecimentos internacionais, é impossível não chegar à conclusão de que muita coisa ocorreu nessas duas semanas de ausência. Mas também é inegável - e um tanto deprimente, pra falar a verdade - perceber que o noticiário se resume simplesmente a mais do mesmo.
Em Honduras, Afeganistão, Iraque, Paquistão, Irã, Europa, Estados Unidos e no conflito árabe-israelense nada mudou. Existe uma grande diferença entre muito ter acontecido e algo de significativo ter acontecido. Mais atentados no Paquistão, discussões e acusações mútuas entre lideranças do Oriente Médio, o Irã tentando - e conseguindo - ganhar mais tempo para desenvolver seu programa nuclear, o impasse na surreal situação política hondurenha e a corrupção descarada do reeleito Hamid Karzai no Afeganistão não representam qualquer fato novo ou desconhecido no cenário internacional.
Prefiro não entrar no mérito do debate sobre as mudanças no sistema de saúde americano. Acho que o assunto se enquadra muito claramente no espectro político interno dos Estados Unidos e penso que não cabe discuti-lo por ora, apesar de considerar o plano de Obama absolutamente justo e incriticável sob qualquer prisma.
Em relação a Honduras, acho que o assunto merece um comentário rápido: a falta de veículos brasileiros dedicados a analisar o cenário internacional explica em parte o fracasso de nossa imprensa ao cobrir a situação. Houve um clima de oba-oba após o anúncio de um acordo entre golpistas e partidários de Zelaya. Hoje já se sabe que nem tudo está tão definido assim por lá e a comemoração foi um tanto precipitada. Posso errar no meu palpite, mas Congresso e Supremo hondurenhos dão a entender que farão de tudo para manter a situação como ela está até as eleições de 29 de novembro. Zelaya pode não voltar a ser presidente nem por um dia sequer.
Nos próximos textos, vou me dedicar mais especificamente a esses assuntos. No comentário de amanhã, um post sobre o Afeganistão e a constrangedora situação da política externa americana.