terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Atentado no Irã: nenhuma possibilidade pode ser desconsiderada

É preciso tempo para analisar e juntar as peças por trás do atentado que matou hoje o físico Massoud Ali Mohammadi. Uma série de acusações já estão sendo feitas, mas no intrincado cenário do Oriente Médio sempre existe a possibilidade de este crime jamais ser esclarecido. Mas não há dúvidas de que se trata de uma ação política. Afinal, não se pode em qualquer hipótese creditar às taxas de criminalidade normais iranianas a morte de um professor por conta da explosão de uma bomba presa a uma motocicleta pilotada por controle remoto.

Não é de se espantar que as agências de notícias oficiais iranianas tenham escolhido de cara Israel e Estados Unidos para culpar pelo ataque. Não apenas é óbvio, mas também um tanto conveniente. Como escrevi no texto de ontem, nada melhor para frear a onda de manifestações internas do que apontar dois dos principais inimigos públicos do país como os supostos autores do atentado.

Não que a hipótese de Israel e EUA estarem por trás do crime possa ser descartada totalmente. Não pode mesmo. Mas seria um tanto estranho. Por alguns motivos: primeiro porque, de acordo com as primeiras informações, Mohammadi não participava do programa nuclear iraniano. Segundo porque esses países dariam um tiro no próprio pé num momento que possivelmente antecede o anúncio de que a República Islâmica estaria disposta a aceitar o plano ocidental de trocar urânio enriquecido por combustível.

Ou seja, qual seria o sentido de tanta exposição numa das raras ocasiões em que tudo leva a crer que a situação nuclear pode ser controlada pelo menos por ora?

No mais, todas as informações a partir de agora serão usadas como propaganda. O governo iraniano já trata o físico como um mártir nuclear, muito embora sites de oposição ao regime Khamenei-Ahmadinejad listem Mohammadi como um dos 240 professores universitários partidários de Mir Hussein Moussavi, principal adversário do presidente iraniano nas últimas eleições.

Excluindo-se também a eventual participação do próprio regime – num momento de especulação como esse vale colocar todas as possibilidades sobre a mesa –, não se pode esquecer também dos Estados árabes sunitas, que, como escrevi outras tantas vezes, opõem-se ao crescimento político e militar iraniano na região. Muito embora considere que a lógica que desfavoreceria a participação de EUA e Israel no atentado de hoje se aplicaria também a esses países.

Resultado da promoção

Gostaria de agradecer a todos os participantes que enviaram respostas inteligentes e criativas. O vencedor foi Tiago Duarte, do Rio de Janeiro, autor da seguinte frase: "O fato mais importante do ano foi o surgimento do Brasil como forte protagonista internacional. Seja negociando de igual para igual com os países mais poderosos, tomando a dianteira na crise de Honduras ou até recebendo líderes das mais variadas ideologias e matizes o país deixa de ser apenas o país do futuro para se tornar uma potência mundial".

Em breve, o livro será enviado por correio a você, Tiago. Continuem a escrever também para o email
cartaecronica@gmail.com .

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O Irã pode ceder. Mas nada é tão simples quanto parece

O site americano Politico anuncia com exclusividade – até onde eu saiba – uma notícia importante para o cenário internacional: existiria a possibilidade de o Irã aceitar a oferta ocidental de trocar urânio enriquecido por combustível nuclear para uso médico. Na prática, significaria o primeiro retrocesso do regime de Teerã em seu programa nuclear.

A contraproposta do regime Khamenei-Ahmadinejad muda um pouco o plano original do grupo conhecido como P5+1 (China, França, Alemanha, Rússia, Grã-Bretanha e Estados Unidos). Inicialmente, a República Islâmica deveria enviar 1200 quilos de LEU (Urânio de Baixo Enriquecimento, sigla em inglês) para a Rússia, enquanto a França seria a responsável por fornecer o combustível para uso medicinal.

A ideia dos iranianos seria colocar a Turquia no circuito e Ancara deveria receber o carregamento de LEU diretamente de Teerã. Há três leituras possíveis sobre este acordo ainda a ser confirmado.

Escrevi um texto há pouco tempo sobre a mudança de posicionamento internacional turca, que vem cada vez mais se aliando a Irã e Síria. É uma forma de adquirir importância internacional e refletir a insatisfação latente de sua sociedade com as alianças que vinham sendo estabelecidas pela cúpula política do país.

Ao incluir Ancara nas conversações sobre seu programa nuclear, o Irã de certa forma retribui o apoio que vem recebendo. Afinal, a Turquia recebe entrada gratuita para um dos principais palcos de disputa internacional. Ou seja, uma grande oportunidade de conseguir se tornar um mediador legítimo numa questão que a própria União Europeia enfrenta grandes dificuldades de solucionar.

Por outro lado, nada garante que o gesto de boa vontade de Khamenei-Ahmadinejad não possa ser mais um dos esquemas adotados pelo governo do país para ganhar tempo e frear as sanções internacionais. Isso já aconteceu outras vezes e pode ocorrer de novo.

Outra possibilidade – que considero a mais provável, particularmente – é que, se de fato um acordo for anunciado, as autoridades da República Islâmica pretendam com isso amenizar o tom de críticas internacionais que vêm recebendo por conta da repressão aos protestos populares e que têm tido grande repercussão na imprensa ocidental.

Todas as alternativas estão em aberto.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Osama bin Laden acorda americanos. De novo

Novo relatório sobre a recuperação da economia americana foi divulgado hoje. Aos poucos, os EUA têm perdido menos postos de trabalho. No último mês de dezembro, o estudo aponta a perda de 85 mil empregos. A taxa média de desemprego permanece em 10%. Como recorda a Secretária de Trabalho, Hilda L. Solis, a situação hoje é bem menos grave do que no ano passado.

"Nesta época do ano, perdemos mais de 700 mil postos. A Lei de Recuperação (uma série de medidas adotadas pelo governo) continua a ajudar", diz.
O que isso tem a ver com a política externa? Bastante. Principalmente na área de segurança. Com a recuperação econômica, aos poucos a atenção da opinião pública interna dos EUA vai se voltar para o combate ao terrorismo. E o assunto retornou à vida cotidiana do imaginário local após o atentado frustrado do dia 25 de dezembro.
À medida que as primeiras necessidades após a crise começam a ser sanadas, certamente o governo Obama será cobrado a responder a questões relativas à segurança interna. Afinal, após oito anos de guerra em Afeganistão e Iraque, é natural que o terrorismo deixe de ser visto como uma ameaça à vida cotidiana.
Entretanto, com a al-Qaeda fazendo questão de acordar a opinião pública americana numa quase carnificina em pleno dia de Natal, a história muda por completo. Tanto que a imprensa está caindo de pau sobre os erros de segurança que fizeram de tudo para viabilizar o ataque.
Os fatos chocam pela inocência cometida pelas autoridades; além do aviso do pai de Abdulmutallab sobre a aproximação ideológica de seu filho ao fundamentalismo islâmico, ninguém achou estranho um jovem nigeriano sem bagagem comprar uma passagem apenas de ida para Detroit. Além disso tudo, o nome do rapaz estava numa lista de 550 mil nomes - é isso tudo mesmo - de suspeitos de ligação com terrorismo.
No discurso à nação de ontem, basicamente Obama fez um mea-culpa e garantiu que vai aumentar a lista de suspeitos. As informações de segurança deverão ser distribuídas com mais eficácia entre as diversas agências governamentais. Mas agora é tarde e a responsabilidade pelos erros ficou mesmo na conta do presidente.
O que importa agora é que a al-Qaeda conseguiu o que queria. Como numa relação de amor e ódio, sua carência está para terminar. Obama não precisará mais convencer os americanos quanto às evidências da ameaça terrorista. Imprensa e opinião pública cobram novas, mais tecnológicas e criativas formas de caçar os líderes da organização fundamentalista.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A placa tectônica do Oriente Médio volta a se mover

George Friedman, fundador do grupo Stratfor e autor do livro que vou presentear ao vencedor da promoção, usa o termo "placa tectônica" para nomear regiões do planeta que poderão se transformar em palcos de conflitos neste século. O Oriente Médio não é uma novidade, como todo mundo sabe, e esta placa tectônica está se mexendo agora. O pequeno território de Gaza é novamente protagonista e ao mesmo tempo representante do grande e silencioso conflito da região: a disputa entre xiitas e sunitas.

Apesar de importante, por ora a imprensa brasileira vem dando pouco destaque à construção de uma barreira subterrânea pelo governo do Egito na fronteira com o território palestino controlado pelo Hamas. Nesta quarta-feira, tropas egípcias e membros do grupo terrorista trocaram tiros. O conflito deixou um soldado egípcio morto e ao menos uma dezena de palestinos feridos. Os protestos devido à construção da barreira pelo país árabe devem conseguir maior repercussão a partir desta semana. Mas a cobertura vai se restringir ao fato em si, não ao que ele representa de verdade.
Não se enganem: ao construir um muro subterrâneo para impedir o contrabando de armas e produtos ao Hamas, o Cairo não pretende agradar a Israel, EUA ou quem quer que seja. O objetivo é mandar mais um recado a Síria e Irã. A mensagem é clara: o Egito considera esta zona como sua e não vai tolerar a interferência dos xiitas por ali. Lembrem-se do grande conflito entre xiitas e sunitas mencionado no primeiro parágrafo e objeto de atenção de outros tantos textos publicados aqui.
Não apenas a interferência de Síria e Irã num território localizado quase no interior do Egito, mas também o programa nuclear iraniano são exemplos de batalhas importantes que evidenciam a disputa entre os dois grupos muçulmanos em busca de afirmação e hegemonia no Oriente Médio. O presidente Hosni Mubarak quer deixar claro internacionalmente – e principalmente na região – quem dá as cartas.
Interessante notar que uma das iniciativas do Hamas após o enfrentamento com tropas egípcias foi retomar o lançamento de mísseis sobre o sul de Israel. O objetivo é usar a única arma de que dispõe para unir a opinião pública muçulmana e desviar a atenção para o conflito estratégico em curso. Além disso, de certa forma, pretende colocar o Egito numa posição constrangedora diante dos demais países islâmicos ao usar uma lógica superficial, mas bastante eficaz para os menos atentos: se o Cairo combate o Hamas e este por sua vez combate Israel, logo o Egito estaria se aliando militarmente a Israel, um pecado mortal na visão da opinião pública dos países árabes e muçulmanos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Novamente a polêmica dos aviões

Acho curiosa a reedição da polêmica acerca da escolha política dos aviões franceses a serem comprados pelo Brasil. Numa época em que a imprensa sofre para encontrar pautas por conta dos efeitos das festas de fim de ano e da lenta retomada da vida cotidiana no país, não chega a surpreender a opção por reviver um assunto já amplamente discutido em setembro do ano passado. Aliás, a Folha conseguiu uma nova e importante informação sobre a questão: o relatório militar que aponta a empresa sueca, e não a francesa, como mais adequada.

O que me parece fundamental aí é dividir o assunto em duas partes. Primeiro, o documento elaborado pelas forças armadas apresenta posições e justificativas militares sobre a escolha. E, meus amigos, as escolhas nesta área não se baseiam apenas em avaliações técnicas. Porque, é sempre bom lembrar, comprar equipamento militar deste ou daquele país é um dado importante para o estabelecimento de alianças políticas, não somente militares. Aviões de guerra ou defesa não são geladeiras. As aquisições não são feitas somente a partir do preço.

Em setembro do ano passado escrevi dois textos sobre a opção pela França. E me permito reproduzir aqui parte dos argumentos usados na época – e que, creio, continuam sendo válidos agora.

Quando esteve por aqui em 2009, Sarkozy disse ter a intenção de promover modificações de organismos multilaterais um tanto ultrapassados.

O mais arcaico e poderoso é o G-8, criado no século passado por potências do século passado e baseado em parâmetros de poder do século passado. O presidente francês se antecipou à falência declarada do grupo e mostrou ter decidido pular fora do barco antes que ele naufrague de vez. Ele propôs ampliá-lo no mínimo em seis países – com o Brasil incluído, claro.

E este foi o pulo-do-gato da parceria que se torna a cada dia mais concreta entre Paris e Brasília. Ambos sabem que é preciso enxergar a nova ordem mundial (no caso da aproximação com uma potência emergente como o Brasil), mas sem abrir mão do poder conquistado até aqui (sob a ótica brasileira, é importante ter a França como um aliado estratégico, já que ela é reconhecida como tal pelos demais países que ainda mantêm o status quo internacional e pode inclusive participar da viabilização de um assento permanente ao Brasil no Conselho de Segurança da ONU, o grande sonho de consumo da política externa brasileira).

O governo francês vem se encaixando como pode nesta característica de parceria, alianças e participação em diversas questões internacionais. Não é à toa que, após ter se destacado no estancamento da guerra entre Israel e o Hamas em Gaza no início do ano passado, decidiu retornar à OTAN após 43 anos de afastamento. Associar-se a um país que se configura como potência de acordo com os novos moldes internacionais é parte de uma estratégia maior.

Num mundo onde valores como supremacia bélica e corrida armamentista dão lugar aos poucos às variáveis econômicas, a França parece ter escolhido o Brasil como parceiro. Vale lembrar que, dentre os membros dos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil parece ser o único que apresenta características mais próximas à França – um Estado laico democrático e ocidental. Não é à toa que Sarkozy esteve por aqui. Vender helicópteros e aviões me parece ser apenas a ponta do iceberg.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Putin faz a primeira jogada do ano

Como parte de sua principal estratégia de reviver o que considera sua zona de influência, a Rússia aplicou mais um golpe em direção aos Estados vizinhos. Desta vez, ameaça acabar com o abastecimento de petróleo cru por conta de um suposto desentendimento com a Bielo-Rússia, importante aliada de Moscou.

Segundo a versão oficial, os dois países discordam da renovação do acordo que permite à Bielo-Rússia pagar apenas um terço do valor de exportação da matéria prima fornecida pela Rússia. O fato é que o litígio entre as partes pode levar à interrupção do fornecimento a importantes países
europeus, como Alemanha e Polônia.
A ameaça de Moscou acontece exatamente um ano após o Kremlin ter decidido suspender o abastecimento de outra importante matriz energética, o gás, para a Ucrânia. Não por acaso, os alvos das problemáticas financeiro-energéticas russas costumam ser seus desafetos políticos.
A Rússia ainda considera Ucrânia e Polônia como suas zonas de influência. Como ambos os países se mostram cada vez mais interessados em alianças com a Europa ocidental, Moscou usa as armas de que dispõe de forma a reafirmar uma postura de poder contraditória ao cenário internacional contemporâneo.
A Alemanha também sofre represálias por ser a economia mais importante do continente. Com a medida, os russos supõem que o gesto não ficaria restrito apenas a Estados de segunda categoria e que suas reivindicações estratégicas implícitas serão ouvidas pelos principais atores europeus.
A questão, no entanto, é que, como dinheiro falso, as ambições de reconhecimento russas não têm lastro. Há dez anos no poder, o primeiro-ministro Vladimir Putin julga que apenas o passado soviético é necessário para permitir que a Rússia dos dias de hoje usufrua do status de potência global, mesmo que os índices econômicos do país mostrem o contrário.
"Putin quer dar a entender que ser percebido como potência é mais importante do que realmente ser uma potência. Ele não precisa modernizar a Rússia de modo a competir com os Estados poderosos; Basta blefar o suficiente a ponto de fazer com que seu próprio povo acredite que o país está novamente entre as principais nações do planeta", escreve Nina Khrushcheva, do World Policy Institute, de Nova Iorque.
Promoção
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Estranhas amizades

Para combater o crescimento da al-Qaeda no Iêmen, os EUA já anunciaram o repasse do dobro de verbas em relação a 2009: 140 milhões de dólares. Mas isso não vai adiantar, infelizmente. Ao que parece, não apenas os EUA, mas todos os países interessados em impedir a expansão do terrorismo aplicam os mesmos erros básicos de avaliação a alguns "aliados" que costumam causar problemas.
O Iraque era controlado por Saddam Hussein. Apesar de sanguinário e ditador, houve um tempo em que Washington se aliou ao controverso líder de forma a garantir os interesses americanos durante a Guerra Fria. Mais do que lugar-comum, o fato se tornou um mantra repetido inúmeras vezes depois de duas guerras entre Estados Unidos e Iraque.
Um dos principais aliados na região são os sauditas. Um dos regimes menos abertos do Oriente Médio, a Arábia Saudita é a terra natal de Osama bin Laden. Mais que isso, a aliança entre o rei Abdullah e os EUA é citado pelo próprio Osama bin Laden como o principal motivo que o teria levado a cometer os atentados de 11 de Setembro.
O Paquistão ocupa a terceira colocação na escala de Estados beneficiados pelo repasse de verba americana atrás apenas de Israel e Egito. Nos últimos oito anos, recebeu 10 bilhões de dólares. Como todo mundo já sabe, as forças de segurança locais, as ISI, são altamente corruptíveis e simpáticas à ideologia Talibã – grupo que, teoricamente, deveriam combater. De certa maneira, Washington financia indiretamente um de seus principais inimigos na Guerra do Terror.
E agora todo este volume de dinheiro será entregue ao presidente iemenita Ali Abdullah Salih, que se mantém no poder há 30 anos e cuja agência de segurança central, conhecida como PSO, costuma colaborar com a al-Qaeda. Em 2006, 23 jihadistas locais conseguiram escapar sem dificuldades de uma das principais prisões do país controlada justamente pelo órgão de segurança.
Ou seja, inundar o Iêmen de dólares tem tudo para dar errado.
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