segunda-feira, 26 de abril de 2010

Comunidade internacional se cala diante de tragédia no Sudão. Mais uma vez

Já escrevi alguma vezes sobre o Sudão aqui no blog. A catástrofe que ocorre no país desde 2003 não sensibiliza o mundo de nenhuma maneira. Nada surte efeito; nem os 300 mil mortos, nem os quase 3 milhões que foram deslocados de suas casas desde a eclosão do conflito entre o sul - de população majoritariamente cristã - e o norte - onde a maior parte dos habitantes é de árabes muçulmanos. Hoje, mais um capítulo desastroso foi escrito nessa história: o presidente Omar al-Bashir (foto), a principal autoridade política responsável pelo genocídio em Darfur, foi reeleito com 68% dos votos.

É importante deixar claro que observadores da União Europeia e do Centro Carter (do ex-presidente americano Jimmy Carter) consideraram a transparência do pleito "abaixo dos padrões internacionais". A frase nada mais é do um eufemismo para fraude eleitoral. Os dois principais concorrentes de al-Bashir já haviam se retirado da disputa justamente para denunciar o jogo de cartas marcadas.

Agora, o presidente do país vai fazer o que puder de forma a capitalizar para si o resultado das urnas. Acusado por crimes de guerra e contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), vai se valer das circunstâncias do país para livrar-se de qualquer culpa. Como a situação do Sudão é de permanente incerteza, Bashir vai advogar o papel de única liderança política capaz de criar alguma estabilidade.

Ou seja, ao supostamente receber este voto de aprovação nas urnas, Bashir vai ligar os pontos, principalmente após um final de semana de mais conflitos, quando 55 pessoas foram mortas no sul do país: com quase 70% dos eleitores a seu favor - o Egito, por exemplo, já se movimenta nos bastidores para evitar que líderes africanos condenem o processo eleitoral no Sudão -, Bashir vai chantagear a comunidade internacional ao se colocar como o único com poder político suficiente para impedir mais derramamento de sangue.

Os organismos multilaterais vão protelar mais ainda qualquer condenação ao presidente sudanês em virtude da enorme culpa que carregam por nada terem feito nesses setes anos de genocídio em Darfur. O argumento de Bashir vai ser muito claro: ou permanece intocável ou não fará qualquer movimento para frear a imimente guerra entre sul e norte capaz de acrescentar mais mortes ao já deteriorado país. O histórico de inércia das Nações Unidas é longo e nada leva a crer que este quadro vai mudar. Por isso, acredito seriamente que Bashir será reeleito e tudo vai permanecer como está no Sudão. Desta vez, no entanto, com o aval internacional.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Sinais de um novo conflito no Oriente Médio

Hoje é um daqueles dias em que todos os movimentos são importantes. Inclusive os menores. Aliás, principalmente esses. Ainda sem muitas explicações, dois mísseis Grad de fabricação russa atingiram um armazém no Porto de Ácaba na Jordânia. Não houve feridos. Há um tanto de mistério nesta situação. Até porque nenhum país árabe ou islâmico iria atingir uma cidade jordaniana propositalmente neste momento. Muito provavelmente, o alvo do ataque era o balneário israelense de Eilat.

Já se sabe que os mísseis foram disparados de algum ponto do deserto do Sinai, no Egito. Seguramente, não por forças oficiais do país, que mantém relações com Israel. Curiosamente, o ataque acontece justamente quando a região é sacudida pelas acusações israelenses de que a Síria tem transferido mísseis scud para o Hezbolah, no Líbano.
O episódio desta quinta-feira pode marcar o fim de um período de certa tranquilidade no Oriente Médio. Os acontecimentos se sucedem em ritmo acelerado rumo ao grande conflito do qual venho tratando há um tempo por aqui: entre a aliança xiita em busca de hegemonia e os Estados sunitas moderados que desejam a manutenção do status quo.
Hoje, o Irã deu início a mais uma ação promocional de seu poder militar. O país realiza outro exercício de guerra no estreito de Hormuz – o mesmo que Ahmadinejad disse que iria fechar no caso de sofrer um ataque de EUA e Israel. Não há muita novidade nesse tipo de manobra que os iranianos fazem desde 2006. Curioso mesmo é que, desta vez, Teerã optou pela demonstração de força no início do ano. Até agora, a república islâmica realizava os exercícios militares no final do ano. Não me espantaria se a mudança tivesse a ver com a o anúncio da nova política nuclear americana e do crescente empenho de Barack Obama para aprovar o novo pacote de sanções.
Como possivelmente todos os países da região estarão envolvidos de alguma maneira num eventual conflito, as lideranças do Oriente Médio estão procurando acomodação. Ou melhor, antecipação. Por isso, existe grande possibilidade de um encontro entre os presidentes da Síria e do Egito acontecer nas próximas semanas. Pelo menos é o que informa o influente jornal árabe Al-Hayat.
Se isso ocorrer, vão estar frente a frente dois dos principais e opostos líderes do Oriente Médio. Hosni Mubarak, presidente do sunita Egito, e Bashar Assad, presidente xiita sírio aliado de Irã, Hezbolah e Hamas. Segundo os jornalistas do Haaretz Amos Harel e Avi Isacharoff, haverá uma conversa franca, direta e sem meias palavras entre os dois presidentes (que não se encontram há quatro anos):
"Assad vai ser informado sobre a posição egípcia de que Damasco está colocando a região em risco ao transferir mísseis scud para o Líbano", escrevem. Ou seja, há a política de bastidores e os comunicados para a imprensa. Abertamente, nem Síria, nem Líbano admitem o repasse de armamento pesado. Na prática, no entanto, todas as lideranças já trabalham a partir dessas informações e iniciam um processo de articulação que pode terminar na deflagração da próxima grande guerra regional.
Fica evidente que, se os EUA preferem fingir que nada está acontecendo, seus aliados e inimigos pensam de maneira diferente. Cada um a seu modo se prepara como pode para enfrentar o que parece inevitável.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Indefinição americana

Os Estados Unidos acabaram tendo de se pronunciar sobre as acusações israelenses de que a Síria estaria provendo o Hezbolah, no Líbano, de mísseis scuds de longo alcance. A situação é delicada por uma série de razões. Em primeiro lugar, porque o governo de Damasco nega com veemência que seja provedor do armamento (aliás, esta é a única atitude possível. Imagina se Bashar Assad admitisse tal fornecimento?). Segundo porque a Casa Branca vive um momento de traumas e indefinições na condução de sua política externa.

A crise de autoconfiança americana no campo internacional é antiga. Mencionei o assunto na semana passada e o retomo agora: os EUA de Obama enfrentam um impasse com o programa nuclear iraniano que é associado pelos seus inimigos à busca de George W. Bush por armas de destruição em massa no Iraque. Mas as diferenças são muitas. Do ponto de vista político, o atual presidente é muito mais preocupado com a construção de uma realidade internacional multilateral do que seu antecessor.
Outro ponto importante é lembrar a quantidade de ocasiões em que as autoridades iranianas foram convidadas a conversar com os americanos sobre seus propósitos. Os inúmeros pedidos de Obama nunca foram aceitos. Pelo contrário. Ahmadinejad cada vez mais sobe o tom e tem como estratégia a oposição aos EUA, não a busca por conciliação.

De qualquer maneira, Obama reluta em anunciar ações práticas e tem enfrentado dificuldades para conseguir apoio a seu pacote de sanções. O presidente americano teme ser associado ao histórico de rejeição de Bush. Para isso, ele procura se distanciar o quanto pode de atitudes unilaterais. Ele quer punir Teerã. Mas pretende fazê-lo com a compreensão da comunidade internacional e no mais importante fórum internacional, a ONU.

Vale lembrar também que, se dentro de casa Obama atravessa um momento difícil - em março ele atingiu o mais baixo nível de aprovação desde que assumiu o cargo, 45% - ainda conta com admiração fora dos EUA. Se derrapar, não vai ter mais onde se escorar. Portanto, as questões internacionais adquirem maior importância. Se conseguir reverter a situação no Irã, por exemplo, pode conquistar apoio doméstico.

Mas quando a fase é ruim, tudo parece contribuir para aprofundar a crise. Neste final de semana, o New York Times publicou relatório do secretário de Defesa, Robert Gates, em que ele admite que os EUA não têm qualquer estratégia ou plano para o caso de o Irã insistir na busca por armamento atômico. Como isso seguramente vai acontecer - Ahmadinejad não dá qualquer sinal de que pretende recuar - a maior potência do planeta não sabe o que vai fazer.

Ou seja, atualmente o governo de Washington dá mostras de estar congelado pelo trauma. Reluta no Irã pelo senso de responsabilidade que carrega pela invasão do Iraque, em 2003. Mas precisa se pronunciar sobre assuntos importantes, como as acusações de Israel ao presidente sírio, Bashar Assad.
Por isso, Obama mandou convocar o chefe da missão do país na capital americana para comunicar que os EUA estão preocupados com a transferência de armamento para o Hezbolah. O episódio serve que, por mais que a calma no Oriente Médio seja um tanto sedutora ela é bastante aparente. Cedo ou tarde, a escalada iria começar. E ninguém pode conceber que a Casa Branca continue a não ter qualquer plano para resolver os impasses da região.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Brasil aposta alto no Irã

Não deixa de ser irônico o anúncio do Irã, nesta segunda-feira, de que vai construir mais uma usina nuclear para enriquecimento de urânio. Mostra a disposição do país de sustentar o enfrentamento com o Ocidente e levá-lo às últimas consequências. Também aumenta a expectativa quanto ao encontro de Lula e Ahmadinejad, em menos de um mês.

Por outro lado, no entanto, a declaração complementar de Mojtaba Samareh-Hashemi, assessor sênior do presidente iraniano, pode jogar um balde de água fria numa das pretensões brasileiras. Ele afirmou que, mesmo se Teerã vier a importar urânio enriquecido, não pretende interromper seu próprio processo de enriquecimento.

O Brasil já chegou a ser cogitado para realizar o processo e devolver o material para o Irã. Agora, mesmo que isso acontecesse, a república islâmica não estar disposta a voltar atrás no jogo. Ou seja, uma das principais possibilidades de barganha brasileira foi para o espaço.

O leitor Tiago Duarte apresentou uma teoria interessante sobre o encontro de Lula e Ahmadinejad. O resultado apresentado ao mundo poderia ser a autorização a técnicos brasileiros para inspecionarem as usinas iranianas. De fato, esta seria uma decisão positiva para os dois países.

Agora, minha interpretação sobre isso: para o Brasil, seria uma tremenda vitória num dos principais palcos de disputa internacional. O governo brasileiro seria, no fim das contas, o olho do mundo no Irã e poderia capitalizar o acordo para suas pretensões no Conselho de Segurança da ONU.

Ahmadinejad um lado positivo ao seabrir seu programa nuclear sem ceder à EUA ou Europa, seus maiores rivais. As autoridades iranianas mandariam um recado deixando claro que estariam dispostas a negociar, desde que não fossem pressionadas. As instalações seriam inspecionadas por técnicos do país que ainda lhes fornece um voto de confiança.

O problema para o Brasil seria se, cedo ou tarde, o Irã produzisse armamentos nucleares. Os objetivos internacionais do Itamaraty não seriam alcançados e o país entraria para a história mundial por não ter descoberto as reais intenções iranianas. Além, é claro, de se tornar o protagonista de um equívoco cujas consequências ninguém sabe quais serão.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Lula, o revolucionário

O encontro dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) encerrado em Brasília deixou claro que o grupo veio pra ficar e em pouco tempo vai se tornar uma tremenda dor de cabeça para EUA e União Europeia, representantes tradicionais de um mundo de poder de outrora. O documento final sobre as intenções dos países mostra também que Lula caminha a passos largos para se tornar o líder da composição. Algumas posições têm a sua cara.

São os casos, por exemplo, do pedido de reforma do FMI e do Banco Mundial. Não é de hoje que a posição do governo brasileiro é lutar pela mudança da balança de poder internacional. Para ser ainda mais específico, Lula defendeu seu ponto de vista há pouco mais de uma semana, durante visita da presidente da Libéria a Brasília:

"O Brasil não se transformou em credor do FMI para que as coisas continuassem como antes e exige reformas profundas para que os países em desenvolvimento possam ter uma voz realmente ativa na definição de seu futuro", disse.

Vale recordar que, durante o mandato de Lula, o Brasil deixou a posição histórica de devedor da instituição e adquiriu 10 bilhões de dólares em títulos do organismo.

A postura pragmática da política externa brasileira se aplica também para as relações econômicas. Se o Brasil mudou, as instituições financeiras internacionais têm que mudar também. Ou melhor, a maneira como enxergam o país e os demais membros deste novo mundo.
Aliás, a jogada do Itamaraty é transformar o Brasil em porta-voz deste grupo de emergentes. E este ponto é quase indiscutível. Afinal, nenhum outro Estado possui acesso a quase todos os atores internacionais relevantes como o Brasil.

Por exemplo, ao examinar apenas os membros dos BRICs, é possível ter uma ideia de como seria difícil para qualquer um deles se tornar líder do grupo: o Paquistão é um enorme bolsão populacional e tem importância política indiscutível. Mas a Índia tem péssimas relações com o país. A Rússia é vista com desconfiança pelos Estados do Leste Europeu; a China é alvo do ódio internacional por conta da pirataria que costuma entrar de sola nos mercados internos. O Brasil, no entanto, não tem qualquer problema aparente com nenhum dos atores.

Não tenho nenhuma dúvida de que o grupo vai muito além de pretensões econômicas. Aliás, isso está muito claro, na medida em que as discussões em Brasília entraram também em aspectos políticos, como a abordagem ao Irã, por exemplo. A existência de algo do gênero é uma realização pessoal do próprio Lula, que há 30 anos defende a criação de um eixo independente de poder.

E o presidente brasileiro está a ponto de tornar realidade sua revolução. Sim, ele estudou muito e entendeu que a melhor forma de mudar o sistema é de dentro para fora. Se é preciso ser uma democracia consolidada, apresentar crescimento econômico e conseguir o crescimento do mercado interno para reivindicar posições internacionais, pronto, o país já é tudo isso. E agora Lula pode defender um mundo multipolar onde os novos atores podem participar do jogo. Se isso tudo não é uma revolução, então eu não sei o que pode ser.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Escalada entre Síria e Israel pode precipitar ofensiva ao Irã

Há uma certa sensação de calmaria no Oriente Médio. E, como os ciclos históricos têm demonstrado, períodos como este são sucedidos por tensões. E uma guerra se aproxima no horizonte. Por mais que um efrentamento entre Israel e Irã seja a possibilidade mais óbvia, esta semana pode marcar o início de uma escalada agressiva entre Síria e Israel.

O presidente israelense, Shimon Peres, declarou que o regime de Damasco tem fornecido mísseis Scud (foto) ao Hezbolah, no Líbano. E isso pode ser verdade. Relatórios de agências de segurança e inteligência ocidentais apontam que o governo de Bassar Assad produziu grande quatidade deste armamento desde o ano passado.

Como a aliança entre sírios, iranianos e o Hezbolah é inegável, a transferência desses mísseis para o Líbano é estratégica do ponto de vista de Damasco: manda um recado ameaçador aos israelenses sem comprometer oficialmente o governo da Síria. Afinal, a região não cansa de dar exemplos de jogo duplo internacional e a o regime Assad, ao mesmo tempo em que jura fideliade a Ahmadinejad, deve reabrir a embaixada americana - fechada, por decisão de Washington, desde o atentado terrorista que matou o ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, em 2005.

O alcance dos novos Scuds que o Hezbolah possui chega a 700 quilômetros de distância. Ou seja, suficiente para atingir qualquer ponto do território de Israel. Parece muito claro que o objetivo é se preparar para um eventual ataque ao Irã, justamente no momento em que as pressões sobre o programa nuclear iraniano chegam a seu estágio máximo. Todo mundo já está cansado de saber que, no caso de EUA ou Israel - ou ambos - bancar uma ofensiva, uma das primeiras respostas da república islâmica será ativar seus aliados na região. Ou seja, o território israelense seria atacado pelo Hezbolah, no norte, e pelo Hamas, no sul. Muito provavelmente através do lançamento de mísseis.

Em agosto do ano passado, o xeque Hassan Nasrallah, líder do Hezbolah, já havia declarado que era capaz de atingir qualquer cidade israelense. Ele disse possuir mais de 30 mil mísseis de diferentes alcances. Para completar a leitura da situação, a agência de notícias AFP informa que, nesta quinta-feira, diferentes facções políticas libanesas discutiram a integração do armamento do Hezbolah às forças regulares do país. Isso seria até um passo rumo a um grande acordo no Oriente Médio, desde que o governo libanês forçasse a milícia xiita a abrir mão de seus objetivos, como a destruição de Israel, por exemplo. Mas isso não vai acontecer.

A revista Foreign Policy oferece uma interpretação de como tudo isso pode terminar. Ou melhor, o que vai acontecer na região a partir do momento em que se torna clara a convergência de todos esses fatores.

"Se Israel decidir destruir as armas do Hezbolah, a iniciativa pode criar uma janela de tempo em que as cidades israelenses estarão sob uma ameaça mínima de ataques com mísseis. Seria a oportunidade perfeita para atacar o Irã sem o risco de sofrer retaliações dos aliados de Teerã no norte do país", afirma.

Eu realmente não duvido de que esta pode ser uma possibilidade real. E, se a estratégia militar israelense estiver pensando nisso, a ação não vai tardar a acontecer, uma vez que Ahmadinejad não se mostra disposto a dar um passo atrás em seu programa nuclear.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Brasil é pragmático em busca de seus objetivos internacionais

Enquanto as atenções americanas estão plenamente voltadas para o combate ao Irã, os responsáveis pelas pastas de Defesa de Brasil e EUA assinaram acordo (foto) prevendo cooperação militar entre os dois países. Ao contrário dos laços que Washington mantém com a Colômbia, por exemplo, o estreitamento das relações com os americanos não prevê o acesso a bases brasileiras. Trata-se somente de intercâmbio nas áreas de segurança, treinamento e desenvolvimento. Mais do que técnica, a decisão de Brasília mostra uma prática pragmática do Itamaraty.

Há grande divergência entre Lula e Obama em relação ao modo de tratar o programa nuclear iraniano. Mas se a intenção era deixar claro que os dois países não guardam ressentimento apesar do imbróglio, acho que o recado foi bem entendido.

"Na medida em que o Brasil emerge como potência-chave, ele trata de estabelecer seu próprio curso. É como se quisesse dizer: vamos nos alinhar com o Irã, se for útil. Vamos cooperar na área de Defesa com os EUA, se for útil. Ninguém pode nos dizer que o Irã é mau, mas também não pode dizer que os americanos são maus", diz Evan Ellis, professor de estudos de segurança nacional na Universidade Nacional de Defesa, nos EUA, em entrevista ao Christian Science Monitor.

Ou seja, se o objetivo brasileiro era – e, de fato, é – apresentar-se internacionalmente como um ator independente, a meta foi atingida. Acredito também que esta seja a razão principal da insistência na legitimidade do programa nuclear iraniano.

Ninguém é bobo, e obviamente Lula e os arquitetos da política externa brasileira sabem das reais intenções de Ahmadinejad. Mas o presidente brasileiro vai tentar esticar ao máximo a corda porque o assunto é mais um dos pontos que servem aos propósitos de Brasília: o simples contraponto às sanções oferece ao país o protagonismo necessário para a reafirmação das reivindicações internacionais brasileiras que todo mundo já conhece.

Quando Lula diz que pretende conversar com Ahmadinejad e requisitar "provas" de suas reais intenções, há propósitos claros do Itamaraty: com este discurso, o governo brasileiro ganha mais tempo de exposição para suas demandas – afinal, o encontro acontece somente daqui a um mês; e cria um fato capaz de gerar enorme expectativa internacional para sua reunião com o presidente iraniano, o que aumenta ainda mais o papel de protagonismo internacional brasileiro.