segunda-feira, 10 de maio de 2010

O próximo provável primeiro-ministro britânico

O Partido Trabalhista britânico levou uma lavada nas urnas. Apesar disso, no entanto, a situação continua indefinida. A enorme complexidade no Reino Unido mostra como processos eleitorais esquizofrênicos acabam por prejudicar o que se pretende ser uma democracia. O caso está longe de ser isolado. Vale lembrar, por exemplo, o resultado das urnas israelenses, em 2009, quando Tzipi Livni venceu Benjamin Netanyahu por uma pequena margem de votos, conseguiu mais cadeiras no parlamento, mas, mesmo assim, acabou perdendo o cargo.

Grã-Bretanha, Israel e Bélgica são exemplos de sistemas eleitorais que precisam ser modificados. Os eleitores terminam mesmo por se tornar meros coadjuvantes do processo político. No caso do atual imbróglio britânico, fica evidente a rejeição ao modelo apresentado pelos trabalhistas, neste momento, e, mais especificamente, ao primeiro-ministro, Gordon Brown – que anunciou hoje que não será mais o líder do partido.

Apesar da insistência de Brown de brigar pelo cargo, as urnas deixaram um gosto amargo. Foi o segundo pior desempenho eleitoral de seu partido desde 1918. Mesmo com vitórias em Escócia e País de Gales, a legenda foi massacrada na Inglaterra, onde os conservadores receberam 40% dos votos. O sistema de divisão de poder é tão pouco representativo que os trabalhistas ficaram com 191 assentos.

Editorial do Telegraph de hoje mostra o descontentamento de parte do eleitorado. Afinal, por trás das intricadas articulações políticas, é incontestável o resultado do pleito. Se o líder conservador, David Cameron (foto), não se tornar o próximo primeiro-ministro, ninguém sabe se a população vai dar legitimidade ao futuro governo.

"A única perspectiva realista de um governo estável é oferecida pelo partido que assegurou o maior número de votos e assentos no parlamento, os conservadores. Seria intolerável ao eleitorado se o mais popular entre os três principais partidos fosse o único a ficar excluído do poder no final deste processo", escreve.

Mas Cameron possivelmente vai conseguir levar os liberais-democratas para o seu lado. A terceira força emergente das urnas é cortejada pelos dois maiores partidos britânicos. No entanto, é menos artificial uma aliança entre liberais-democratas e conservadores do que entre liberais-democratas e trabalhistas. Julian Glover, do Guardian, explica bem a situação:

"Ambos os líderes acreditam na primazia do indivíduo, não do governo. As conversas (entre Clegg e Cameron) realizadas neste final de semana não foram entre duas equipes à espreita uma da outra, como cães em alerta, mas entre pessoas com pensamentos afins à espera de concretizar um acordo que funcione", diz.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

As duas faces do pragmatismo brasileiro

O chanceler francês, Bernard Kouchner (foto), deu entrevista ao Globo de hoje afirmando temer que o presidente Lula seja enrolado pelo Irã. A declaração da autoridade francesa soa um tanto ultrapassada. Não pela crítica ao líder brasileiro, mas por crer na existência de atores incautos no cenário atual. Como escrevi algumas vezes, inclusive ontem, acredito mais no voluntarismo brasileiro em sua relação com os iranianos. Tendo o cuidado de me isentar por ora no juízo de valor quanto à velha tática de Ahmadinejad de embromar para ganhar tempo – o que ele faz desde sempre quando se trata de seu programa nuclear –, a verdade é uma só: o Brasil optou neste momento por esticar a corda ao máximo em relação à aprovação das sanções a Teerã.

Curiosamente, Kouchner não foi capaz de fazer esta avaliação. Aliás, tenho certeza de que fez, mas preferiu não expor o que Paris pensa de verdade. Não há ingênuos nas relações internacionais. Muito menos o Brasil, país que conseguiu em apenas oito anos passar de figurante a protagonista. Talvez, de certa maneira, haja um tanto de nostalgia da parte do chanceler francês, como alguém que sonha com o velho e acabado mundo onde o norte decidia e o sul era apenas informado. Vale dizer que, após a declaração, ele emendou afirmando que "França e Brasil são países que se amam" (seja lá o que isso signifique).

Apenas para relembrar, Lula e Ahmadinejad se encontram em Teerã em pouco mais de uma semana. Até lá, o Itamaraty optou por manter a política de não se posicionar ao lado de França, Grã-Bretanha e Estados Unidos pela aprovação de mais sanções ao Irã. É uma forma de manter o protagonismo internacional e, quem sabe, aumentar o suspense para eventuais surpresas sobre o resultado das conversas no Irã – essas já, sem dúvida, devidamente combinadas com o regime islâmico.

Acho que a política externa brasileira pode ser traída somente pela crescente radicalização da República Islâmica e de seus aliados. Este não é um cenário improvável, muito pelo contrário. Desde a controversa reeleição de Ahmadinejad, em junho passado, os iranianos têm virado as costas para os parceiros que não comungam de dar um aperto na oposição. O Brasil parece ser a exceção que confirma a regra.

A BBC Brasil tem publicado uma série de reportagens sobre regimes totalitários. Ao abordar o Irã, o veículo revela, por exemplo, que, dos 475 candidatos que se apresentaram para disputar a corrida presidencial, somente quatro foram aprovados pelo Conselho de Guardiões. Para complicar, a Guarda Revolucionária tem sido cada vez mais presente na vida pública e política do país. Já mencionei alguns meses atrás a intenção que a ala militar mais radical do país tem de criar seu próprio canal de "jornalismo".

Para completar, a Turquia – Estado com relacionamento cada vez mais próximo ao Irã – anunciou hoje a aprovação de 26 mudanças constitucionais cujo objetivo parece ser um crescente controle das instituições do país pelo partido AK, de fortes tendências islâmicas. Esta é uma ameaça real ao caráter laico turco, princípio inerente à criação da Turquia moderna, em 1922, por Kemal Ataturk.

Ou seja, é preciso que o Brasil leve todos esses fatores em consideração, mesmo tendo como norte o pragmatismo que vem apresentando com sucesso na condução de sua política externa. Fechar os olhos para a radicalização de parceiros importantes é aceitar o beijo da morte. Até porque, o livre acesso brasileiro no mundo só é possível porque ninguém põe em dúvida seus objetivos. Basta que essa percepção mude e as portas serão fechadas.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Brasil sobre proposta do Irã: explicando para confundir

Depois que as duas únicas agências de notícias iranianas, Fars e Irna, divulgaram a informação de que o presidente Ahmadinejad estaria disposto a enviar urânio levemente enriquecido ao Brasil, houve uma sucessão de confusões, explicações, desmentidos e malabarismos políticos. Se isso de fato acontecer, o governo brasileiro definitivamente será alçado ao status de jogador internacional de primeira linha. E isso certamente interessa a Brasília. E, é claro, a Teerã também.

Para se ter ideia de como a situação pode sofrer um revés interessante, a proposta – originalmente de autoria de Estados Unidos, Rússia, França, China, Grã-Bretanha e Alemanha – pressupõe o envio de combustível nuclear iraniano para o exterior e sua devolução a Teerã em forma de isótopos para o tratamento de câncer. A conversa entre os presidentes de Venezuela, Hugo Chávez, e do Irã foi a mesma. Tratou apenas de adaptar o eventual acordo para os moldes da política externa de dois dos principais símbolos da política não-alinhada. Ou melhor, países que pretendem ser enxergados desta maneira.

Baixando tom da euforia que tal acordo possa provocar, vale lembrar que este não é um fato completamente novo. A sugestão já ocorrera entre o final do ano passado e o início deste ano. E, na ocasião, o Brasil declinou da oferta com o argumento de que não haveria condições técnicas de realizar a operação no país.

E aí vale especular sobre as possibilidades. Quando Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia afirmam que o país poderia se envolver num eventual acordo nuclear com o Irã, eles estão jogando com algumas possibilidades: 1 - esqueceram de tudo o que foi dito sobre a problemática técnica, algo que considero muito pouco provável de ter acontecido; 2 - estão surfando na onda de preocupação mundial sobre o assunto e decidiram aproveitar a deixa para esquentar ainda mais o encontro programado entre Lula e Ahmadinejad, no próximo dia 15.

Parece-me que a última opção é a mais viável. O problema é que, por conta disso, o Brasil acaba por participar do velho jogo de empurra iraniano. Não é de hoje que a tática de Ahmadinejad se resume a simplesmente sustentar ao máximo a situação enquanto puder. E o pragmatismo brasileiro optou por aceitar o plano em nome dos possíveis benefícios que possa colher mais para frente.

Por isso, a confusão causada pelas declarações de Lula, Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim é proposital. Quanto menos claras e mais contraditórias, menos óbvia é a posição que o Brasil vai adotar até o encontro do dia 15. Vale lembrar algumas afirmações das autoridades brasileiras para deixar evidente este propósito:

"O Brasil espera e busca uma solução negociada e pacífica para a questão”, declaração de uma fonte do Itamaraty que não explica qualquer coisa.

"O Brasil não trabalha com a hipótese de ser depositário do urânio do Irã. Há lugares mais perto do Irã que o Brasil. Mas isso vai depender muito do Irã", declaração que não nega, não aceita e ao mesmo tempo não descarta a hipótese ventilada pelas agências de notícias iranianas.

Só devemos descobrir mesmo o que foi combinado nos bastidores entre Brasil e Irã depois do encontro do dia 15. Até lá, ficaremos apenas com as confusões propositais.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A verdadeira bomba americana

Agora ninguém mais parece questionar o envolvimento do Talibã paquistanês no quase-atentado de Nova Iorque. E essa é a melhor opção entre todas as outras mesmo. Existe uma possibilidade que poderia ser muito mais fatal do que a reivindicação de qualquer gruto fundamentalista islâmico: a de que o esquema do carro-bomba tivesse sido montado por imigrantes insatisfeitos com as novas leis aprovadas pelo estado do Arizona.

Esta sim seria uma situação devastadora para os EUA. Até porque se estima que o número de imigrantes ilegais no país varie em torno de 11 milhões de pessoas.

Vale recapitular essa história: o governo do Arizona aprovou uma lei de traços macartistas. A partir dela, qualquer pessoa pode ser parada nas ruas e, se não tiver como apresentar documentos capazes de provar que está legalmente nos Estados Unidos, será presa. Ou seja, a medida termina por transformar os imigrantes em criminosos. A prática está longe de ser exclusiva do estado americano. Ela já é aplicada em países europeus, como Itália e Suíça, e recebeu críticas contundentes de organizações de direitos humanos.

No caso dos EUA, a lei do Arizona abre um precedente perigoso. Há estados do sul que contam com grandes contingentes de imigrantes. Por exemplo, estima-se que o número de ilegais em Califórnia, Texas e Flórida - os três principais centros de atração - seja de 5 milhões de pessoas. A verdade é que ninguém sabe como esses grandes contingentes reagiriam se leis punitivas fossem aprovadas.

O que se tem certeza, no entanto, é que haveria uma grande mobilização de descontentes (eufemismo proposital). Passeatas e discursos seriam os protestos mais brandos. Mas é impossível prever quais seriam os passos seguintes no que possivelmente seria uma briga de gato e rato entre perseguidores - na medida em que qualquer um com traços hispânicos passa a ser alvo de uma abordagem policial não me espantaria com uma onda de denúncias voluntárias por parte de militantes anti-imigração - e perseguidos - os cerca de 15% de imigrantes latinos que formam hoje a população americana.

Não haveria pior situação para o governo Obama do que passar para a história como o chefe de Estado a testemunhar um grave período de caos social interno. Isso não está longe de acontecer. Por mais curioso que seja, Obama deportou, em 2009, 400 mil ilegais. Os dados mostram que ele está para repetir o número neste ano. De qualquer maneira, o presidente da mudança conseguiu nos últimos dois anos superar os recordes de deportação de seu antecessor George W. Bush.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Carro-bomba em Times Square: uma pergunta ainda sem resposta

Após alguns dias ausente do blog por estar em viagem de trabalho, retorno já com uma série de assuntos importantes. Não é todo dia que Mahmoud Ahmadinejad está nos Estados Unidos para participar justamente do encontro que revisa o Tratado de Não-Proliferação de Armamento Nuclear. E também não é todo dia – definitivamente – que um carro-bomba quase é detonado num dos pontos principais da cidade mais importante do planeta.

As autoridades americanas capturaram o paquistanês de nascimento (mas com cidadania dos Estados Unidos) Faisal Shahzad. Segundo informações divulgadas pelo governo dos EUA, outro homem foi preso em Karachi, no Paquistão, acusado de ter participado do planejamento do atentado. O Talibã paquistanês assumiu o ataque. De certa maneira, o caso caminha para uma solução óbvia.

Mas duas principais dúvidas ainda passam pela minha cabeça, apesar disso: por que o grupo terrorista não reivindicou a autoria logo nas horas seguintes à descoberta do veículo carregado de explosivos? assim que o Talibã costuma agir, ainda mais quando pode se vangloriar de furar o aparato de segurança da maior potência do planeta.Por que o carro não explodiu? Vale lembrar que o mesmo Talibã paquistanês é responsável por uma série de atentados que, nos últimos três anos, deixaram um rastro de mais de 3.200 pessoas mortas.

A segunda pergunta é mais simples de ser respondida. Com os meios de comunicação e a proliferação da ideologia da al-Qaeda, qualquer pessoa hoje pode montar explosivos na própria casa. Basta acessar as páginas de grupos terroristas na internet e seguir o passo-a-passo fornecido.

"Velhas técnicas como o uso de carros e ônibus-bomba mostram que os jihadistas passaram a considerar a realização de ataques terroristas mais fáceis de serem executados", escrevem Steven Simon, membro do Conselho de Relações Internacionais, e Jonathan Stevenson, professor de Estudos Estratégicos da Escola de Marinha de Guerra Americana, no Washington Post.

Ou seja, a simplificação do terrorismo acabou por retirar o "selo de qualidade" dos ataques. Sem a presença dos especialistas – cada vez mais confinados ao território livre da fronteira entre Afeganistão e Paquistão –, fica impossível garantir o "sucesso" desses ataques. Haveria uma perda de eficiência calculada em nome da expansão da ideologia. Faz sentido.

O problema é que a primeira pergunta continua em aberto. Por que não reivindicar a autoria do primeiro atentado em Nova Iorque desde o 11 de Setembro? Alguns podem argumentar que ninguém quer levar o crédito por um ataque frustrado. Mas eu não creio que tenha sido um fracasso, do ponto de vista dos terroristas. Afinal, as forças de segurança americanas foram mobilizadas, os nova-iorquinos prenderam a respiração mais uma vez, e a cidade parou.

Sustento a teoria de que os ataques de 11 de Setembro tinham como objetivo mandar uma mensagem simbólica, não necessariamente tirar a vida da maior quantidade de inocentes possível. Se este fosse o caso, seria mais óbvio atacar o estádio de futebol americano no dia da final do campeonato. Por isso, penso que o ataque de sábado passado atingiu seu objetivo, de certa maneira. Afinal, o terrorismo pretende pôr em xeque algumas das conquistas básicas da sociedade ocidental (e ainda mais caras aos americanos, vale dizer): liberdade e segurança.

Mas e se o atentado não tiver sido necessariamente planejado pelo Talibã paquistanês? Amanhã, escreverei sobre isso.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Rússia: a política do gás dá certo mais uma vez

E enquanto a Europa Ocidental se esforça para colocar a cabeça de fora da água, a Rússia aprontou mais uma. Ou melhor, mais duas. No mesmo dia em que a Grécia era jogada para debaixo do tapete, Moscou pôde comemorar duas importantes conquistas internacionais. Conseguiu a manutenção de sua base naval de Sevastopol, na Ucrânia, além de ter chegado a um acordo sobre a divisão da fronteira marítima do Ártico com a Noruega.

Ambas as ações constituem significativos sucessos da marca do governo Medvedev-Putin: a política externa do gás. As conquistas russas internacionais têm se baseado na chantagem, troca ou interrupção do abastecimento da matriz energética. Foi assim com a própria Ucrânia, em 2009, e aconteceu o mesmo ontem: graças ao desconto de 30% que Moscou prometeu a Kiev, a permanência da frota russa no Mar Negro se fez possível.

Desta maneira, o Kremlin consegue impedir a aproximação da Ucrânia com o Ocidente, movimento antigo e que incomodava bastante a Rússia. Afinal, mantém sua influência no país ao sustentar o fornecimento de gás pelo menos até 2042. Qualquer atitude que desagrade a Moscou por parte de Kiev será rechaçada com a sabotagem do abastecimento. Não tenho qualquer dúvida sobre isso. Vale lembrar também que esta é a consagração de uma pressão política conquistada graças à eleição do atual presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, velho aliado dos russos.

Agora, ao vender sua alma por 30% de desconto na compra do gás russo, a Ucrânia dá adeus a projetos como a adesão à União Europeia e à OTAN. Moscou jamais permitiria tal rebeldia. Para completar, Putin mantém vivo seu sonho de reconstruir as zonas de influência políticas russas na Europa Oriental. É como entrar no DeLorean e desembarcar na década de 1950 em algum ponto da União Soviética.

Com o gás, a Rússia também pressionou a Noruega, país com o qual se mantinha em disputa há 40 anos. Os dois são os maiores fornecedores de energia da Europa, muito embora a produção de petróleo norueguesa esteja em queda. Medvedev decidiu fazer uma visita e foi direto: a única salvação seria dividir os 175 mil quilômetros quadrados do Mar de Barents e do Oceano Ártico em dois. Fim da disputa e Oslo e Moscou planejam a exploração conjunta da região. Existe a possibilidade de se descobrir um lençol de petróleo sob essas águas; algo em torno de 10 mil barris.

É a Rússia emergindo enquanto o resto da Europa submerge entre a crise econômica e as cinzas do vulcão cujo nome jamais será pronunciado corretamente por essas bandas.


PS1: obrigado ao História Viva por colocar o blog entre os melhores da semana.
PS2: entre amanhã e segunda-feira viajarei a trabalho. Portanto, não garanto que poderei postar com a frequência habitual.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O que pode acontecer no Sudão

Muito pouco continua a ser dito sobre a tragédia no Sudão. Para ser sincero, ainda não encontrei repercussão da reeleição de Omar al-Bashir na imprensa brasileira. Ao mesmo tempo em que o mundo continua a mostrar descaso, a Cruz Vermelha Internacional divulga hoje relatório mostrando que o país já representa a maior tragédia humana mundial: segundo a organização, já são 4,9 milhões de refugiados desde 2003. Curiosamente, o segundo lugar é ocupado pela Colômbia, por conta da guerra entre traficantes, grupos paramilitares e tropas do governo.

Enquanto o caos no Sudão é contado na casa dos milhões, a missão formada por soldados das forças de paz das Nações Unidas e de países africanos evidencia com clareza como ninguém está nem aí mesmo: apenas 16.852 militares e 4.675 carregam a responsabilidade de evitar ainda maior número de mortes. E, vale lembrar, eles estão alocados no maior país da África em área e com 41 milhões de habitantes (o 29º mais populoso). Basta fazer uma conta simples para perceber que o contingente é bastante insuficiente.

A boa notícia é que a organização Human Rights Watch (HRW) já informou que a reeleição de Bashir não conseguirá livrá-lo das acusações no Tribunal Penal Internacional (TPI). Acho até que legalmente funcione assim, mas tenho dúvidas se, na prática, o presidente do Sudão não será capaz de barganhar politicamente. Principalmente com os países africanos.

Aliás, esta é uma carta muito poderosa que ele tem na manga. Existe uma clara possibilidade de o país se dividir em dois: o Sudão do Norte e o do Sul. Isso será inclusive tema de um referendo marcado para o ano que vem. Mas a União Africana é contrária a esta decisão por conta da provável confusão que a aplicação desta medida causaria.

Do ponto de vista político, a existência de dois países resolve pouco; se Bashir é corrupto e ditador, o Movimento de Libertação do Povo do Sudão, que representa os interesses separatistas da porção sul do país, não fica atrás. Também costuma aplicar punições aos dissidentes e silenciar os opositores.

Para completar, sempre existe a possibilidade de um conflito entre os dois lados, uma vez que os campos de petróleo mais produtivos estão localizados justamente no sul. Ou haverá um acordo entre eles para dividir os lucros da exportação ou Bashir não aceitará a divisão e usará a máquina do Estado para lutar pela "união nacional". Acho esta hipótese a mais provável.