quarta-feira, 19 de maio de 2010

Por incrível que pareça, Irã é o primeiro a ganhar com polêmicas sobre acordo

A sucessão de acontecimentos ocorridos após o anúncio do acordo mediado por Brasil e Turquia com o Irã mostra um mundo em transformação. Fica claro agora o embate entre três líderes regionais importantes: a Turquia, no Oriente Médio, e Brasil e EUA nas Américas. Com a ascensão geopolítica brasileira, o impasse envolvendo a questão iraniana mostra uma briga por acomodação internacional.

Quem ganha com isso é o Irã. Pelo menos num primeiro momento. O "fato novo", conforme definição que vem sendo usada pela diplomacia brasileira, põe Washington e Brasília em rota de colisão. A polarização da América Latina é o cenário ideal para Teerã – já apoiada por países da região abertamente em confronto com os americanos, casos de Venezuela e Bolívia.
Mais ainda, cria um racha entre os membros do Conselho de Segurança da ONU. Os permanentes aparentemente estão fechados com o rascunho apresentado pelos EUA. Mas, para a resolução ser aprovada, é preciso também aprovação de ao menos nove dos 15 membros - rotativos e permanentes. E aí é que a situação se complica para Washington. Os países que ocupam atualmente os assentos não-permanentes são Brasil, Turquia, Áustria, Gabão, Bósnia e Herzegovina, Líbano, México, Nigéria, Uganda e Japão.
A aprovação pode não ser fácil. Se a China furar, o texto não passa. Se topar, além dos cinco membros-permanentes, será preciso também contar com ao menos quatro votos dos rotativos. Brasil e Turquia certamente serão contrários. Bósnia e Herzegovina, Líbano e Nigéria devem seguir o mesmo caminho. Restam Áustria, México, Japão, Gabão e Uganda. Desses cinco, quatro precisam ser convencidos pelos EUA. Se o México quiser se aproximar regionalmente do Brasil, será contrário. Se pesar na balança sua relação comercial com os americanos, irá apoiá-los. O fato é que o jogo permanece totalmente aberto.
Por ora, no entanto, quem mais colheu frutos foi o Irã. Além de deixar a impressão de estar em busca de "medidas para o estabelecimento de confiança mútua" (palavras de Sharon Squassoni, diretor do Center for Strategic and International Studied, de Washington), desestabilizou o Conselho de Segurança da ONU e causou enorme desconforto nas relações americano-brasileiras - que vinham sendo incrementadas, apesar das discordâncias, e mereceram inclusive a assinatura de um acordo militar, em abril.
Com a reação americana ao acordo, o Irã conseguiu polarizar os países do Conselho a partir de um pressuposto maniqueísta: os pró-americanos e os antiamericanos. Indiretamente, o próprio governo de Washington acabou contribuindo para o renascimento de um dilema típico de seus inimigos e que parecia ultrapassado a partir da eleição de Obama. Enquanto isso, Ahmadinejad ganhou ao menos dois defensores árduos: Brasil e Turquia, países que apostaram alto, mas ainda não puderam colher os frutos positivos da tentativa de exercer papel mais relevante no cenário internacional. Por ora, só receberam os golpes de potências reativas frente à possibilidade de uma maior divisão do poder.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Alguns motivos que levaram as potências a renegar o acordo mediado por Brasil e Turquia

É natural a desconfiança em relação ao Irã. O país já avançou e recuou nas negociações sobre seu programa nuclear outras tantas vezes. Mas o mérito do Brasil é inegável. Junto com a Turquia, o governo brasileiro simplesmente adaptou, aumentou e reduziu exigências no acordo proposto em outubro do ano passado por França e Rússia, com o consentimento da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). É por isso que o processo é chamado de negociação e por conta disso também houve uma série de conversações entre as partes envolvidas. Acho importante ressaltar que o Brasil fez o que estava a seu alcance.

As críticas das potências ocidentais são compreensíveis. Por motivos distintos. Em primeiro lugar, a ambição nuclear iraniana não é mesmo positiva. Até porque o país construiu usinas secretas para enriquecimento de urânio e impediu a visita de funcionários da AIEA a suas instalações. Por outro lado, creio que a frieza com que os governos de EUA e países membros da UE receberam o acordo firmado com a ajuda de Turquia e Brasil tem outra explicação: a competência brasileira em negociar com os iranianos pode ser interpretada também como um fracasso da diplomacia de americanos e europeus. Tal raciocínio pode levar a outro; a reforma do Conselho da ONU, uma vez que seus membros permanentes não conseguiram ser bem sucedidos ao abordar o Irã.

Por mais que seja claro para mim que Irã, Brasil e Turquia tenham firmado uma parceria estratégica onde cada um deles é atendido em seus objetivos internacionais - como escrevi ontem -, a percepção da opinião pública mundial poderia ser outra. E aí pegaria muito mal para o grupo de países que vem tentando sem sucesso levar Ahmadinejad à mesa de negociações. A situação fica ainda pior para Barack Obama, há um ano e quatro meses em busca de um acordo com os iranianos. Seus esforços têm sido infrutíferos até agora e não há sinais de que Ahmadinejad deve ceder a seus pedidos.

Agora, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, informa que as potências ocidentais chegaram a um acordo sobre novas sanções ao Irã. O texto tem aprovação inclusive de Rússia e China, países que sempre se mostraram menos dispostos a aderir à posição americana. O fato gera um constrangimento com Brasil e Turquia, uma vez que deixa claro que seus esforços foram inúteis, segundo a interpretação de Washington.

A aprovação das sanções no dia seguinte ao anúncio do acordo mostra também que o único resultado possível das conversações seria Lula deixar Teerã com a promessa iraniana de interromper seu programa nuclear. E aí não se trata de negociação. Mas, sim, de esperar um sucesso absolutamente distante da realidade do quadro que tem se apresentado. Brasil e Turquia deram um passo importante, e o resultado mexeu com as estruturas internacionais. A tal ponto que as potências decidiram se antecipar como forma de manter o status-quo geopolítico.

Na prática, no entanto, as sanções não conseguiram evitar que o Irã iniciasse seu programa nuclear. Desde 1995, o país é atingido por medidas desta natureza. Ou seja, nada garante que novas sanções sejam capazes de interromper o projeto atômico de Khamenei-Ahmadinejad. Como ninguém se mostra disposto por ora a atacar militarmente as usinas da república islâmica, as potências vão precisar dar explicações mais claras para a tomada de tal decisão.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Brasil, Irã e Turquia aplicam ippon na comunidade internacional

Alguém realmente acreditava que Lula iria percorrer meio mundo para sair sem um acordo com o Irã? Não acredito em tanta ingenuidade. Muito possivelmente, a aceitação da proposta de Brasil e Turquia para o impasse envolvendo o enriquecimento de urânio iraniano já vinha sendo costurada há meses. A primeira rodada de negociações pode ter acontecido em novembro do ano passado, quando Mahmoud Ahmadinejad esteve em Brasília.

Agora, o planeta é comunicado de que Lula e Recep Tayyip Erdogan conseguiram que Ahmadinejad concordasse com o envio de urânio de baixo enriquecimento para a Turquia. Não é por acaso que o acordo foi selado justamente com dois países emergentes membros não-permanentes do Conselho de Segurança da ONU. O trio está fechado e disposto a obter vantagens para todos. O anúncio de hoje é uma prova da política ganha-ganha travada entre Brasil e Irã. Como sustento há bastante tempo, a simbiose alimenta a vitória dos dois a partir da percepção de que as vantagens obtidas podem ser costuradas por eles mesmos desde que seus passos sejam satisfatórios às aspirações da comunidade internacional.

Explico: a ansiedade demonstrada com o programa nuclear iraniano só seria amenizada a partir de um acordo deste tipo. Se o Irã aceitasse a proposta dos países desenvolvidos - a mesma feita por Brasil e Turquia -, o mérito seria dos mesmos atores de sempre. E, além do mais, Teerã não obteria qualquer vantagem com isso. Mas, ao fechar com Brasil e Turquia, Ahmadinejad se alia a dois parceiros que precisam de ganhos como esses, que só o Irã pode proporcionar. Além do mais, ao oferecer uma vitória inestimável ao Brasil, Ahmadinejad garante parceiros que poderão sustentá-lo no caso de as potências ocidentais insistirem numa nova rodada de sanções - o que, segundo as primeiras repercussões, deverá acontecer.

Não por acaso também, além do acordo envolvendo o urânio iraniano, o Brasil anunciou duas medidas importantíssimas para a sobrevivência do Irã em caso de novas sanções: uma linha de crédito no valor de 1 bilhão de euros para empresas brasileiras exportarem alimentos para a república islâmica; e a participação de empresas brasileiras na modernização da indústria petrolífera iraniana. Vale lembrar que o Irã não possui capacidade de refino de petróleo. E muitos dos que defendem um boicote à economia iraniana argumentam que este é um dos pontos fracos do país. Agora, o Irã consegue, graças ao Brasil, cercar algumas de suas fragilidades mais fundamentais: combustível e alimentos.

Do ponto de vista do Brasil, os ganhos são facilmente percebidos. Como já é conhecido, o objetivo do Itamaraty é credenciar o país a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Ao se envolver com sucesso no impasse ocidental com o Irã, Brasília não apenas exerce papel de protagonista num dos principais focos de perturbação mundial, como imobiliza os atores que defendem a manutenção do status-quo internacional: se a atuação brasileira não é reconhecida pelas Nações Unidas, logo a instituição precisa de reformas urgentes sob o risco de não representar a realidade das novas relações internacionais.

Sem a menor dúvida, o Irã também vai aproveitar para ganhar tempo. Até porque a logística para pôr o acordo em prática é complicadíssima. Além do mais, a Turquia não tem capacidade tecnológica para enriquecer o urânio que os iranianos enviarão. Ou seja, será preciso encontrar outro país para novas negociações. O anúncio de hoje também está longe de resolver o impasse nuclear. Mas é inegável que Brasil e Turquia conseguiram mais avanços que as potências ocidentais. Para Lula, é uma vitória ainda maior. Em seu último ano de mandato e a cinco meses das eleições presidenciais, ele conseguiu o que mais queria: transformar o sucesso com os iranianos num último ato repleto de simbolismo da nova política externa que conseguiu implantar no Brasil.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Recuo estratégico americano

Na expectativa do início da visita de Lula ao Irã, reafirmo: a ausência americana no Oriente Médio deixa espaço para novos atores. Rússia, Brasil e Turquia são ótimos exemplos de países interessados em usar todo o potencial conflituoso da região para alavancar seu poderio internacional. Mas, talvez os EUA mais uma vez tenham optado por um recuo estratégico; uma mudança de postura em relação ao mundo muçulmano, mais especificamente, declarada no discurso de Obama no Cairo, em junho de 2009. Curiosamente, agora, um ano após este evento marcante, Washington vive seu maior momento de pressão em sua não-relação com o Irã.

Para Robin Niblett, diretor do centro privado de análise de Chatham House, de Londres, a política de engajamento - como tem sido chamada a doutrina externa promovida por Barack Obama - é inteligente e muda o posicionamento americano mesmo em relação a seus inimigos.

"Muda a dinâmica da política externa dos Estados Unidos, mesmo que não consiga atingir resultados imediatos e específicos. Ao tentar abrir discussões bilaterais com o Irã, (Obama) não foi capaz de mudar o comportamento iraniano, mas aumentou a boa vontade europeia para apoiar sanções mais sérias", diz em entrevista à BBC.

Ou seja, na prática, a atuação americana seria muito parecida à brasileira. Vale lembrar que Washington ofereceu todas as chances de diálogo a Ahmadinejad. A opção por sanções acabou sendo a única restante - se descartarmos uma ação militar que, segundo as próprias autoridades dos EUA, ainda permanece sobre a mesa. A visita de Lula a Teerã segue mais ou menos a mesma linha, na medida em que o presidente brasileiro não cansa de repetir que espera conseguir da liderança iraniana garantias dos objetivos pacíficos de seu programa nuclear.

Pode ser uma prerrogativa equivocada, mas o discurso do Itamaraty não desconsidera a possibilidade de o Brasil vir a se colocar ao lado de EUA e União Europeia na aplicação de novas sanções ao Irã. Para isso, bastaria que Lula não conseguisse extrair de Ahmadinejad as tais garantias quanto a seu programa nuclear. Como acho que o presidente brasileiro não toparia ir a Teerã para provar que sua linha de raciocínio esteve errada durante todo este tempo, creio que inevitavelmente algum acordo capaz de satisfazer as ansiedades mundiais será anunciado neste final de semana.

Os EUA vão assistir de camarote aos acontecimentos. Seguramente irão intervir quando acharem que novamente suas expectativas não foram correspondidas. Por ora, no entanto, a diplomacia de engajamento americano dá conta apenas de recuar e assumir a postura low-profile que os próprios inimigos do país reivindicaram principalmente durante o governo Bush. Ao mesmo tempo, sua atuação internacional - exceção feita às guerras de Iraque e Afeganistão, fatos consumados anteriormente à posse de Obama - acontece cada vez mais em esferas menos formais, vamos dizer assim. Ou seja, reafirma slogans marcantes do discurso do presidente americano no Cairo: "Respeito mútuo, interesses mútuos e responsabilidade mútua".

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Aliança entre Rússia e Turquia promete movimentar o Oriente Médio

O Oriente Médio não tem sido foco de interesse nas últimas semanas. No entanto, isso não significa a ausência de movimentação por lá. Muito pelo contrário. Apesar de os Estados Unidos demonstrarem menos empenho do que se costuma ver, os países têm se movimentado em busca de alianças, empreendimentos econômicos e políticos e influência. O Brasil é um desses casos. Muito embora os resultados das intensas comunicações diplomáticas com o Irã só devem ser conhecidos a partir de sábado. A Rússia é um dos atores mais agressivos, deixando claro que pretende preencher o vácuo deixado pelos americanos nesses últimos tempos.

Passou despercebido, mas Moscou deu um passo grandioso em sua busca por protagonismo na região. Nesta semana, o presidente, Dmitry Medvedev (na foto com o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan), esteve na Turquia, onde assinou 17 acordos com o governo de Ancara. Voltado principalmente para a área energética – a ponta-de-lança da política externa russa – ficou acordada a participação do Kremlin na construção da primeira usina nuclear turca. Ou seja, se alguém ainda duvidava desta possibilidade, é mais um passo para a realização da temida corrida atômica numa das regiões mais instáveis do planeta.

Como se sabe – e como tenho repetido neste espaço ao longo dos últimos seis meses –, o governo turco não faz qualquer questão de esconder que está cada vez mais alinhado ao Irã. E isso tem sido tema também de protestos dos militantes pela manutenção do caráter laico do Estado. Coincidência ou não, as mudanças propostas pelo atual governo turco sugerem um maior controle estatal de fóruns anteriormente regidos pela sociedade civil e laica. Coincidência ou não, o partido do governo tem fortes tendências islâmicas e a sempre controversa relação entre religião e política é colocada em pauta mais uma vez. Como não credito tais articulações somente ao acaso, acho que a possibilidade de a Turquia seguir o mesmo rumo do Irã num futuro próximo não é impossível.

Ao se alinhar aos turcos, a Rússia pretende se beneficiar duas vezes com um único gesto político: mostra disponibilidade para atuar junto a esta coligação turca, iraniana e síria; e deixa claro estar disposta a não esquecer sua extinta zona de influência entre as ex-repúblicas soviéticas. Por isso, um dos assuntos abordados foi justamente o conflito no Cáucaso em torno de Nagorno-Karabakh, região disputada justamente entre Azerbaijão (ex-república apoiada pela Turquia) e Armênia (cuja relação com a Turquia é a pior possível, não é preciso ser dito).

Para completar, a Rússia acena com a possibilidade de construir um oleoduto ligando o Mar Negro ao Mediterrâneo turco. Não custa lembrar que a presença russa no Mar Negro foi garantida graças ao desconto de 30% concedido à Ucrânia, no último mês de abril, na compra de gás. Os russos permanecerão com sua base em território ucraniano pelo menos até 2042. E certamente darão mais passos ousados rumo à polarização do Oriente Médio.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Desafios dos novos líderes da Grã-Bretanha

É o primeiro governo conservador na Grã-Bretanha em 13 anos. É o primeiro governo de coalizão desde a Segunda Guerra Mundial. Em tempos difíceis na Europa, a dupla David Cameron-Nick Clegg (foto) já anunciou uma série de intenções de mudança no primeiro pronunciamento desde que conservadores e liberais democratas aceitaram a união em nome da governabilidade. O processo de alternância de poder foi rápido, algo que, por si só, já é bastante positivo. Deixar o país entregue a uma longa disputa de poder neste momento seria uma tragédia.

A agenda apresentada por Cameron e Clegg mostra disposição de atenuar a confusão política ressaltada por este processo eleitoral que se encerra. A intenção é mudar o sistema e estabelecer nova votação em maio de 2015, alterando o atual regime em que o primeiro-ministro tem poderes para convocar eleições a qualquer momento. Acho que só este gesto serve para tranquilizar bastante a opinião pública, já que ficou muito claro o descontentamento com a imprevisibilidade política que poderia ter sido agravada por um vácuo de poder prolongado durante período de tempo indeterminado.

Há, no entanto, previsões de tempos difíceis para o país. Conforme informação da edição de hoje do New York Times, a taxa de desemprego atingiu a marca de 2,5 milhões de pessoas, a maior já registrada. Além disso, o governo produziu um buraco de 240 bilhões de dólares em sua conta anual. Some-se a isso tudo a recessão europeia em curso, e está formado o cenário catastrófico. Um enorme problema cuja resolução caberá a Cameron e Clegg.

E isso sem levar em conta que a articulação política vitoriosa não é unanimidade entre os eleitores. Não é preciso muito esforço para diagnosticar possíveis reações populares com o aperto de gastos para frear o crescente déficit fiscal britânico. Aliás, hoje mesmo, durante o pronunciamento, Cameron deixou claro que a população vai precisar fazer esforços para contornar a crise. Acredito, no entanto, que eventuais protestos na Grã-Bretanha não se aproximem do caos instalado na Grécia, por exemplo. E não apenas por questões culturais, mas porque a economia britânica é bem mais sólida e complexa que a grega.
Há visões distintas sobre as possibilidades oferecidas pela aliança entre conservadores e liberais-democratas. Enquanto o Guardian é otimista e acredita que os lib-dems poderão amenizar o conservadorismo de Cameron, o Independent lembra que os eleitores não apoiaram Nick Clegg na esperança de que ele viesse simplesmente a sustentar uma coalizão liderada pelos conservadores. Acho que ambos os raciocínios se complementam e não necessariamente são excludentes

terça-feira, 11 de maio de 2010

Projeto europeu atravessa seu pior momento

Há algo muito além da crise econômica nos países europeus mediterrâneos e na Irlanda. Com a Alemanha finalmente tomando a frente do concerto de nações envolvidas em ajudar principalmente os gregos, a natureza da União Europeia corre sérios riscos. Tudo isso porque os eleitores alemães deixaram claro que não estão dispostos a pagar para resgatar as economias mais fracas do bloco. E isso pode mudar tudo.

A questão é interessante porque mistura uma série de fatores: economia, nacionalismo, identidade e senso de pertencimento. O recado recebido pela chanceler alemã, Angela Merkel, veio das urnas e tão logo seu gabinete aprovou o pacote de quase 1 trilhão de dólares a serem destinado à Grécia: seu partido, o Democrata-Cristão, teve o pior desempenho nas eleições locais desde a Segunda Guerra Mundial. E justamente na Renânia do Norte-Vestfália, o maior estado alemão.

A situação de descontentamento não é exclusiva da população alemã, mas um consenso generalizado entre os membros da UE menos atingidos pela crise. Na prática, a mensagem é bem simples e direta: os eleitores das economias que sustentam o bloco não legitimam que seus líderes transfiram parte de sua riqueza para os países em dificuldades. O momento oferece uma oportunidade única – e que certamente será desperdiçada – para analisar dois processos que correram paralelamente e nunca se encontraram: a união política dos Estados da UE não foi capaz de, num curto espaço de tempo, criar a mentalidade em seus habitantes de que eles compartilham um destino comum.

Assim, agora simplesmente está muito claro que alemães e holandeses não acreditam que o estado de caos e falência grega seja algo com que a Alemanha ou a Holanda devam se preocupar. É basicamente isso que George Friedman, fundador do Stratfor, apresenta em artigo publicado hoje. Um texto perfeito, diga-se de passagem.

"Na fundação do projeto europeu estava a ideia de que essas nações poderiam ser transformadas num único regime econômico e que este poderia amadurecer e se transformar numa única entidade política.(...) A história europeia desde a Revolução Francesa mostra a resistência do conceito de Estado-nação. Tanto a Alemanha Nazista e União Soviética tentaram criar Estados multinacionais dominados por um único ator. Ambas as tentativas falharam e se tornaram odiadas por isso", escreve.

Ou seja, se colocar em prática o regime supranacional em áreas como Defesa e Política Externa já causava resistência – vale lembrar a enorme rejeição à simples ratificação do Tratado de Lisboa, assunto já amplamente discutido aqui no blog –, imagine quando a UE passa a representar prejuízo e desfalque nas economias mais fortes do bloco? Acho mesmo que o futuro europeu passa pela superação da crise nos chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, na sigla em inglês) e de como os descontentamentos internos e as repercussões políticas vão ser administradas daqui para frente.