segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Crise entre Coreias representa oportunidade para a China

A animosidade entre as Coreias pode ter despertado o senso internacional chinês. Ainda não se pode avaliar o que isso irá significar, mas o fato é que, por acaso ou não, a proximidade única entre China e Coreia do Norte transformou Beijing em protagonista diplomático - algo que não acontece todos os dias, vale dizer. Isso deve ter um impacto bastante significativo no novo ciclo do jogo político.

Estudiosos sul-coreanos alertam para a possibilidade de Pyongyang levar a cabo novos testes com mísseis de longo alcance ou realizar seu terceiro teste nuclear. Enquanto isso, está todo mundo de olho nas ações do governo chinês, cujos compromissos diplomáticos estão bem movimentados na virada do ano. Em janeiro, o presidente Hu-Jintao se encontra com Obama, nos EUA. No mês seguinte, os ministros de Defesa de China e Coreia do Sul se reúnem em Beijing.
A crise na península coreana não apenas colocou a China no foco, mas também mudou a forma de relacionamento entre o ocidente e o país. Por exemplo, se ao longo do ano os EUA não se cansaram de criticar a maneira muito particular chinesa de se expandir economicamente, o discurso americano mudou neste momento. Como lembra o Washington Post, oficiais do alto-escalão do governo Obama passaram a elogiar a postura de Beijing durante o fogo-cruzado entre as duas Coreias.

Curiosamente, a apatia chinesa foi duramente criticada no auge do episódio. O governo chinês não agiu diretamente e se mostrou pouco disposto a exercer papel mais ativo. Como único aliado dos norte-coreanos, os EUA depositaram muitas expectativas de que Beijing pudesse fazer mais. Isso não aconteceu.
Sem a menor dúvida, a interpretação deste cenário levou as autoridades chinesas a perceber uma oportunidade.

Não se trata de preencher as expectativas ocidentais, muito pelo contrário. Mas compreender que o episódio pode ser útil politicamente. A ambiguidade apresentada pelos norte-coreanos durante as fracassadas negociações de seis partes é um comportamento que pode ser adotado pela China.

A situação mais confortável é perceber que o país é o único capaz de acalmar as ansiedades ocidentais e sul-coreanas. Se Pyongyang conseguiu enrolar as grandes potências - e a própria China, diga-se de passagem - por que não usar a mesma estratégia? Trata-se de um pensamento pragmático e que tem tudo para funcionar. Os EUA já dão mostras de terem abandonado o discurso do confronto. Se em janeiro Hu-Jintao irá encontrar Obama, por que não discutir os impasses que envolvem os norte-coreanos e ao mesmo tempo aproveitar para apresentar uma lista de reivindicações políticas e econômicas?

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Referendo no Sudão é o primeiro grande desafio político e humanitário de 2011

O primeiro grande evento do próximo ano já tem data para acontecer: 9 de janeiro. Neste dia, o mundo vai saber se o Sudão vai mesmo se dividir em dois. Na verdade, é muito grande a possibilidade de que o projeto de independência do Sudão do Sul se torne realidade. Este não é um evento despropositado, mas estabelecido há cinco anos, quando um acordo conseguiu encerrar 22 anos de guerra civil no país. No centro de toda essa história, um elemento muito conhecido: a disputa sangrenta entre o norte - muçulmano - e o sul - cristão.

Foto: eleitores se registram para votar no referendo

Levando-se em consideração que o presidente do país é o genocida Omar Hassan al-Bashir, é muito pouco provável que este processo se consuma sem qualquer incidente. E ao lembrar que o número total de mortos em Darfur passa de 300 mil, usar o termo "incidente" soa hipócrita, admito. Até porque Bashir já fez questão de deixar claro que não considerará válido o resultado do pleito.
Mais ainda, o presidente sudanês disse em pronunciamento oficial neste domingo que pretende adotar a lei islâmica, a sharia, como fonte única da constituição, caso a secessão se confirme. Ou seja, Bashir quer alimentar ainda mais as diferenças religiosas. A situação pode piorar, como sempre. Grandes países muçulmanos da região, Egito e Líbia já se colocaram contrários à divisão do país. O presidente egípicio, Hosni Mubarak, teme ter o acesso ao Nilo prejudicado; Muammar Khadafi diz acreditar que a criação do Sudão do Sul pode assustar investidores e incentivar novos movimentos separatistas no continente.

Na prática, nenhum dos países quer ficar alheio ao processo. Egito e Líbia estão profundamente incomodados por não serem protagonistas nesta questão. Ao apoiar Bashir, pretendem marcar posição. Ainda mais porque a existência deste novo Estado de maioria cristã conta com o apoio das potências ocidentais.

Ninguém sabe o que pode acontecer após a declaração de independência do Sudão do Sul, mas considero provável que se repita o fenômeno do deslocamento populacional. Como há minorias religiosas dos dois lados, não é impossível imaginar que elas decidam correr em sentido contrário, em busca dos países onde são maioria. Não seria a primeira vez que a humanidade assistiria a algo do tipo. E tampouco creio que esta eventual marcha aconteça sem sustos, a não ser que organismos multilaterais garantam a segurança dos deslocados.

Nunca é demais lembrar que, em agosto de 1947, Índia e Paquistão protagonizaram fenômeno semelhante. Com o fim do domínio colonial sobre o subcontinente asiático e a criação dos dois países, muçulmanos que viviam na Índia e hindus do Paquistão se realocaram. Assutados com a possibilidade de serem minorias nos novos países, seis milhões de muçulmanos deixaram a Índia, e oito milhões de hindus, o Paquistão. Esta grande troca populacional deixou dois milhões de mortos pelo caminho.

Considerando o histórico recente do Sudão, a confirmação de um cenário trágico como o descrito acima é sempre uma possibilidade bastante real.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Aprovação do novo governo do Iraque oculta as muitas complicações que ainda estão por vir

E então, depois de nove meses de impasse, o parlamento iraquiano aprovou o novo governo a ser comandado pelo primeiro-ministro Nouri al-Maliki. Isso não significa que o país caminha para se transformar na democracia exemplar sonhada por George W. Bush. Pelo contrário; os sinais não me levam a acreditar nisso. Como o Oriente Médio tem ensinado a duras penas nos últimos anos, a tentativa ocidental de moldar Estados de acordo com seus próprios princípios é absolutamente infrutífera.


A diferença no caso iraquiano é que certamente Maliki não irá tentar qualquer virada mais brusca neste momento. Seu maior objetivo agora é preparar o país e evitar qualquer grande mudança até a saída das tropas americanas prevista para o final do ano que vem. O primeiro-ministro iraquiano é uma figura de muitas facetas. Internacionalmente, tenta ser conciliador. Muitos apostavam, inclusive, que seria facilmente manipuldo pelos ocidentais.

Mas, como sempre, a vida real se mostrou muito mais complexa e repleta de nuances. Ao contrário de seu antecessor Saddam Hussein que privilegiava a minoria sunita, Maliki seguiu caminho oposto. A diferença em relação a Saddam não vai muito além disso, uma vez que, assim como o ditador deposto por Bush, o líder iraquiano gosta bastante de reter poder em suas mãos. Não é mera coincidência ele ter deixado de apontar ministros para pastas importantes, como Defesa, Interior e Segurança Nacional. Sabem quem vai cuidar desses assuntos por tempo indeterminado? O próprio Maliki.

Além disso, sua aproximação com o regime xiita iraniano não causa surpresa. Assim como Ahmadinejad e Khamenei, o líder iraquiano também tratou de colocar seus homens de confiança na chefia das forças armadas e busca desempenhar pessoalmente papel central nas agências de segurança. Também como acontece no Irã - onde a prisão de Evin é o símbolo mais importante do tratamento dado aos dissidentes políticos -, Maliki é acusado pela Anistia Internacional e a Human Rights Watch de manter suas próprias prisões e centros de tortura.

 
O governo iraquiano é elogiado pelos EUA por conseguir ser representativo dos muitos grupos que compõem a sociedade local. Na prática, no entanto, existe uma clara preferência pelo controle centralizado xiita. Por exemplo, o novo vice-primeiro-ministro na área de energia, Hussain al-Shahristani, declarou que todos os contratos assinados pelo semiautônomo Curdistão com empresas estrangeiras são ilegais.

 
Enquanto isso, os EUA parecem anestesiados. Diante de tantas frustrações em sua política externa, a mera ilusão de que a situação no Iraque pode se resolver já satisfaz o suficiente. No entanto, não creio ser impossível que, num futuro próximo, o país possa novamente se transformar numa ditadura fantasiada de democracia, assim como o Egito, por exemplo. Se isso acontecer, os EUA terão simplesmente mudado o cetro de mãos. E com a real perspectiva de terem aberto as portas para a influência iraniana. Este seria certamente o pior dos cenários para os americanos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Brasil, processo de paz no Oriente Médio e o senso de oportunidade do presidente palestino

O ex-presidente americano Jimmy Carter concedeu entrevista à Folha de São Paulo nesta semana. Dentre outros assuntos, comentou sobre o processo de paz no Oriente Médio. Talvez por falar com um jornal brasileiro, talvez por uma ponta de convicção, disse acreditar que o Brasil pode participar das negociações - até mesmo como protagonista. "O Brasil pode ajudar porque tem muita influência entre os países em desenvolvimento. Pode ser um dos líderes deste processo", disse.

Acho que há um tanto de confete na declaração. Mas não se pode negar que esta primeira década do século 21 mudou a ordem mundial significativamente. E este não é um fenômeno visto somente do ponto de vista da diplomacia brasileira. A atual situação de impasse no Oriente Médio reflete a perspectiva - altamente favorável aos palestinos - de que a hegemonia americana sobre as conversações está ruindo a cada dia.

Tal mudança não se deve apenas a este novo mundo que se consolida, mas às articulações. Acredito que o acaso está presente em boa parte da existência humana. A política não fica de fora, claro. Se hoje há um governo mais liberal na Casa Branca, Benjamin Netanyahu e uma aliança de partidos conservadores determinam os rumos da política israelense. A incongruência desses elementos gera inevitável frustração. E não poderia ser diferente, uma vez que as perspectivas das partes são completamente distintas.

O impasse entre EUA e Israel é interpretado como oportunidade pela Autoridade Palestina, assim como pelo Brasil. O presidente Mahmoud Abbas decidiu agir com inteligência e usar todo o poder de relações públicas. Neste domingo, recebeu em Ramallah parlamentares de Israel para pedir apoio. No foco do evento está a demanda da AP ao encerramento dos assentamentos e o projeto político que pretende declarar a independência palestina até agosto do ano que vem.
"Tal diplomacia pessoal encontra poderoso precedente na visita do ex-presidente egípcio Anwar Saddat, em 1977, a Jerusalém, que ajudou a angariar apoio público em Israel para as concessões territoriais que levaram aos acordos de paz de Camp David, em 1979, entre Israel e Egito", lembra o Christian Science Monitor.


Nunca é demais dizer que a assinatura do acordo de paz custou a vida a Sadat, morto posteriormente por radicais islâmicos. No caso do presidente Abbas, a situação é um pouco diferente. Ele não tem nada a perder. O Hamas já não o considera como o líder legitimo palestino e seu governo se restringe à Cisjordânia. Se não fizer nada, ele já não conta com a aprovação dos radicais em Gaza e tampouco com a solidariedade ou o respeito do Hezbollah, no Líbano, e do Irã. Portanto, é melhor procurar os pacifistas israelenses - que ao menos estão dispostos a ouvi-lo e sabem que é preferível se sentar com um presidente que manda pouco a não ter ninguém para dialogar.


Enquanto isso, Abbas tem o tempo a seu lado, de certa maneira. Quanto mais desgastada for a relação entre EUA e Israel, mais espaço haverá para novos atores - a maioria deles, como o Brasil, por exemplo, mostram-se bastante dispostos a criticar os israelenses.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Antonio Patriota substitui Celso Amorim no Ministério das Relações Exteriores

Dilma anunciou o substituto de Celso Amorim no Ministério das Relações Exteriores: o diplomata de carreira Antonio Patriota, que desde 2009 ocupa o cargo de secretário-geral do Itamaraty. Amorim definiu a escolha como uma homenagem à política externa do governo Lula. E a nomeação de Patriota é isso mesmo; o carimbo de continuidade da doutrina internacional adotada nos últimos oito anos.

 
Um ponto interessante é que a nomeação lembra de certa forma a recente substituição promovida pelo Irã. Ao escolher Ali Akbar Salehi como ministro das Relações Exteriores, o presidente Ahmadinejad tinha muitos objetivos pessoais, mas o novo ocupante do cargo possui algo em comum com Patriota: a conexão com os EUA. É claro que esta comparação se trata apenas de um exercício, até porque a pauta internacional brasileira - e, principalmente, sua forma de atuação - é bem diferente da iraniana.

O futuro ministro brasileiro é reconhecidamente um articulador político hábil que teve atuação decisiva na aproximação de Lula e George W. Bush, por exemplo. Patriota ocupou a embaixada em Washington a partir de 2006 e conseguiu construir boas relações com autoridades americanas. Tais contatos permanecem até hoje e sua nomeação deve agradar ao governo do EUA. É possível dizer que a escolha foi um tanto óbvia, uma vez que as características do novo ministro são únicas.

A proximidade com os americanos é proporcional à disciplina e ao rigor com que segue o pensamento da diplomacia brasileira recente. É importante se relacionar com os diversos atores nacionais, sem perder de vista os objetivos particulares brasileiros: a busca por reconhecimento e, principalmente, a vaga no Conselho de Segurança da ONU. Patriota partilha desta teoria e sua dedicação ao assunto rendeu, inclusive, um livro de mais de 200 páginas contando a história do Conselho de Segurança.

"A opção pelo embaixador Antônio Patriota para chefiar o ministério de Relações Exteriores revela pelo menos duas decisões da presidente eleita, Dilma Rousseff: o Itamaraty terá prestígio no novo governo, já que se manteve a prática do governo Luiz Inácio Lula da Silva de nomear diplomatas de carreira para os postos-chave do ministério; e a política terá preponderância sobre a economia: o novo ministro escolhido acredita que a ação da diplomacia deve ser pautada por critérios mais amplos que os interesses comerciais", escreve Sergio Leo, do Valor Econômico.

Ou seja, a política externa brasileira deve continuar a mesma, marcada pelo que chamo de ambiguidade estratégica: se por um lado o Brasil está disposto a se relacionar com todos os países de maneira pragmática, por outro mantém um traço bastante marcado ideologicamente.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Por que Lula está satisfeito com vazamentos promovidos pelo WikiLeaks

Há cerca de uma semana, o presidente Lula defendeu publicamente o WikiLeaks. Para ele, a questão é muito simples: o meio de divulgação não pode ser culpado pelo conteúdo das informações tornadas públicas. Este é um raciocínio coerente. No final das contas, o governo brasileiro perdeu muito pouco com o vazamento, pelo contrário. As impressões dos representantes americanos sobre as diretrizes políticas brasileiras de certa forma fizeram muito bem à linha determinada não apenas pelo Palácio do Planalto, mas também pelo Itamaraty.
Correspondências enviadas por oficiais americanos mostram preocupação dos EUA com a relação próxima entre Brasil e Irã. Esta não é uma novidade e, de fato, Brasília não esconde o desejo de se tornar mais presente nos palcos de negociações internacionais. A proximidade com os iranianos é encarada pelo Itamaraty como o trampolim viável para levar a cabo este projeto.
Em outro trecho vazado, um vice-secretário americano diz que Hugo Chávez é louco e "nem mesmo o Brasil estaria disposto a apoiá-lo". Esta é uma revelação neutra, que beira a positividade. Se uma das críticas de parte da sociedade brasileira e dos EUA é justamente o relacionamento entre Lula e o presidente venezuelano, quando autoridades dos EUA já questionam tal apoio o Brasil não tem mais nada a provar, certo?
Outro ponto interessante trata da recusa brasileira, em 2005, de acolher prisioneiros de Guantánamo. Neste aspecto, o país não foi o único a não cooperar. Na verdade, a maior parte dos países fez o mesmo. E, se a política externa do Itamaraty se pretende independente, o governo brasileiro adotou postura coerente neste caso.

A única contradição - mas que mesmo assim não é negativa sob o ponto de vista das relações internacionais ocidentais - é a cooperação velada de Brasil e EUA na busca empreendida a suspeitos de planejar ou apoiar o terrorismo na América do Sul. Obviamente, Brasília nega tal aliança com por conta das diretrizes externas do governo. E também por isso o país não possui legislação específica destinada a coibir o terrorismo.
Revelação recente dá conta de que o general Jorge Armando Félix afirmou ao ex-embaixador dos EUA que o Brasil deveria estar preparado a pagar um preço alto se quisesse se envolver em ações militares internacionais. O preço alto no caso seria a morte de soldados do país durante tais operações. Por mais doloroso e sincero que seja este depoimento, as palavras de Félix simplesmente representam o prolongamento prático da doutrina em vigor no Itamaraty - para qual o Brasil precisa se expor mais internacionalmente em nome do reconhecimento futuro.
Para completar, o partido do presidente Lula ainda recebeu um presentão: o vazamento de documentos que dão conta de que José Serra teria prometido a empresas petrolíferas americanas se empenhar a alterar as regras de exploração do pré-sal, se eleito presidente.

As companhias dos EUA estão descontentes com mudanças impostas pelo governo brasileiro na legislação que aprofundam o papel do Estado sobre o setor. Serra já divulgou nota negando tal informação. Mas acredito que o estrago já está feito. E ele não atinge apenas o ex-candidato, mas o próprio PSDB. Afinal, o partido fica em situação muito delicada, uma vez que um de seus principais nomes teria prestado fidelidade a empresas privadas americanas em detrimento dos interesses brasileiros. É uma denúncia grave que precisa ser muito bem esclarecida.
Diante de todo este cenário, realmente não há como Lula estar chateado pelos vazamentos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Irã substitui ministro das Relações Exteriores e mantém ambiguidade estratégica

Há muitas teorias e interpretações sobre a repentina decisão do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, de substituir Manouchehr Mottaki, ministro das Relações Exteriores. O episódio sofreu críticas contundentes de setores da imprensa do Irã principalmente por ter ocorrido enquanto Mottaki estava em viagem ao Senegal. Há significados distintos que de certa forma explicam o gesto. O mais claro deles é a disputa interna, que coloca em lados opostos o presidente - que conta com o apoio do líder-supremo, o aiatolá Ali Khamenei - e o parlamento.

 
Desde as controversas eleições de 2009, há uma disputa que varia entre velada e aberta. Ahmadinejad é visto com desconfiança por parte dos 290 membros da Assembleia Nacional devido às suspeitas de fraude e remanejamento do orçamento sem a aprovação prévia dos parlamentares. O presidente, inclusive, trava disputa pessoal com a prefeitura de Teerã - ocupada por Mohammad Baqer Qalibaf, seu rival político. O líder do parlamento, Ali Larijani, é um dos porta-vozes da disputa com Ahmadinejad.

 
Neste ambiente de confronto interno, o presidente - mais uma vez apoiado por Ali Khamenei - deu uma demonstração de força ao demitir Mottaki. Além de o agora ex-ministro ser outro de seus adversários políticos, os motivos dos constantes embates entre os dois explicam os rumos que a República Islâmica tem seguido.

 
"Mottaki era comprometido com o decoro diplomático e não seguia as atitudes de Ahmadinejad", explica Ahmad Bakhshayesh, professor de política da Universidade de Teerã à AFP. Excluir alguém com este perfil de uma pasta tão importante é uma bela forma de demonstrar quais as diretrizes do governo, certo? Mais ou menos. Como a realidade ensina, a complexidade do Irã não permite conclusões simples. Se a ambiguidade do país tem conseguido segurar decisões militares drásticas ocidentais até agora é porque há bastante mérito nesta prática.

 
Se a guerra política iraniana explica em parte a decisão de trocar o titular do Ministério das Relações Exteriores, do ponto de vista internacional a substituição não é necessariamente ruim. Pode, inclusive, servir aos propósitos de melhorar o diálogo sobre o programa nuclear com as grandes potências. O novo ministro, Ali Akbar Salehi (foto), é o chefe da Organização de Energia Atômica do Irã. Salehi tem perfil mais cosmopolita - com licença poética para empregar o termo. Estudou na Universidade Americana de Beirute, no Líbano, e no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos EUA.

 
O olhar de Teerã pode ter conciliado os interesses internos do presidente Ahmadinejad e uma boa dose de pragmatismo internacional. Sob este ponto de vista, seria como dar às grandes potências ocidentais o que elas mais querem. Se a grande preocupação é o programa nuclear iraniano, então que simbolicamente a pasta das Relações Exteriores seja ocupada por um especialista no assunto que, ao mesmo tempo, vai defender os interesses do país de acordo com as diretrizes do presidente e de Ali Khamenei.