quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Crise no Egito: Wael Ghonim e o poder da internet como meio de transformação política

Meio que por acaso, os EUA e o ocidente começam a vislumbrar uma luz no fim do túnel para o impasse egípcio. E ela atende pelo nome de Wael Ghonim (foto), o jovem executivo do Google responsável pela área de Marketing da empresa no norte da África e Oriente Médio. Se ainda há muitos temores quanto à liderança que vai emergir após este processo, o rapaz preenche todos os requisitos demandados por Washington e seus aliados. É claro que por ora é cedo para afirmar a centralidade de Ghonim no Egito pós-Mubarak, mas sua popularidade é real e coerente com este novo tempo.

 

Se o efeito cascata dos protestos fluiu por conta da liberdade intrínseca ao território virtual – potencializada pelas transmissões das manifestações na Tunísia – , nada mais natural que o líder adorado pelas massas seja fruto deste ambiente. Agora se sabe que Ghonim é o administrador por trás da página de Facebook em homenagem a Khalid Said, jovem egípcio morto pela polícia do país na cidade de Alexandria, em junho do ano passado.

Após 12 dias preso, Ghonim foi libertado e se transformou em fenômeno popular. Ou melhor, acabou por se concretizar nesta posição no meio real. Aclamado por milhares de pessoas na Praça Tahrir, simplesmente consumou o fato já existente no mundo virtual. E aí os protestos do Egito passam para a história como evento vanguardista devido à introdução de muitos elementos novos; inspirado pela TV, organizado pela internet e, finalmente, coroando na prática um rei até ontem restrito ao universo das redes sociais. Esta sequência de acontecimentos não pode ser ignorada de nenhuma maneira.

A revolta popular é também jovem. E os jovens deste mundo e deste tempo usam suas próprias ferramentas de comunicação. E a política não poderia ficar de fora disso. O Egito é, hoje, o primeiro palco mundial a aclamar um herói virtual. Se até bem pouco tempo o Oriente Médio estava habituado a figuras autoritárias que, após ascensão ao poder, passam a controlar o acesso aos meios de comunicação, a juventude egípcia inverteu esta lógica. Ela deixa claro que a internet, principalmente, não é apêndice de um movimento político, mas ambiente central da transformação viva do país.

Mais ainda, a “eleição” involuntária de Ghonim ao posto central deste processo é também uma extensão das reivindicações virtuais contra a velha ordem política. No lugar dos muitos representantes de distintos movimentos já atuantes na vida do país, um jovem profissional sem qualquer vínculo partidário. Ghonim é a personificação da mensagem de rompimento protagonizada pelos manifestantes. E ele pareceu entender isso muito bem ao afirmar em entrevista ao canal privado Dream TV que os verdadeiros mártires estão acampados na Praça Tahrir. Mal comparando, como no filme A Vida de Brian (1979), a postura anti-heroica acaba por, involuntariamente, seduzir a multidão.

O processo de retroalimentação entre manifestantes, redes sociais e Wael Ghonim continua. Uma página do Facebook nomeando-o líder dos protestos alcançou a marca de 200 mil membros. E, como se sabe agora, nada disso se trata somente de uma grande brincadeira. Se o meio já foi encarado como trivial,os acontecimentos no Egito ensinam que é preciso rever conceitos. A mensagem é muito séria.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sobre revoluções, Egito e Irã

Como bem lembra David A. Bell em artigo publicado na Foreign Policy, é um tanto equivocado usar o termo revolução para definir os protestos no Egito. Assim como aconteceu na Tunísia, o objetivo dos manifestantes do Cairo é bem pragmático: derrubar o presidente do país. E acontecimentos deste tipo já se repetiram muitas vezes na história mundial. Inclusive aqui no Brasil. Aliás, ao que me lembro, ninguém costuma chamar o senador Lindberg Farias de líder dos revolucionários do início dos anos 1990.

Longe de qualquer avaliação momentânea, a revolução em curso durante mais de 30 anos no Oriente Médio é a iraniana. Sei que soa estranho dizer isso – até porque a palavra adquiriu significado positivo –, mas a revolução islâmica de fato introduziu elementos novos e rompeu com o paradigma anterior. E por isso as autoridades do Irã também decidiram se manifestar. Porque querem expandir seu modelo de administração. Afinal, contar com um aliado importante como o Egito seria um passo muito grande rumo à liderança hegemônica regional – o mais importante objetivo geopolítico de Teerã.

O problema para o governo iraniano é que ele não detém o monopólio sobre a ideologização dos acontecimentos no Egito. Os EUA querem reverter a situação a seu favor, transformar essa história em vitória da democracia; as demais populações do Oriente Médio igualmente insatisfeitas com as respectivas administrações autoritárias buscam inspiração no Egito; e até a oposição iraniana quer aproveitar os eventos para requisitar mudanças mais profundas no país. Aliás, os candidatos derrotados por Ahmadinejad nas contestadas eleições de 2009 não conseguiram autorização governamental para organizar uma passeata em solidariedade aos egípcios.

 
No fundo, há muitas diferenças entre Egito e Irã. A primeira delas diz respeito às forças armadas. Se o governo de Teerã mantém

aparatos militares profundamente vinculados à patrulha ideológica inerente à sustentação do regime, o exército egípcio é secular, pragmático. Isso não quer dizer, de nenhuma maneira, que este cenário é permanente. Tenho escrito por aqui que há um grande apoio dos manifestantes do Egito à participação do islamismo na vida política do país. Se isso se concretizar – e nada demonstra que a Irmandade Muçulmana não exercerá papel importante no novo governo –, não é impossível imaginar uma espécie de ideologização militar.

 
Aliás, esta é a maior preocupação de EUA e Israel. Não tenho dúvidas de que o regime iraniano vai tentar algum tipo de aproximação com o novo governo do Egito. Ainda mais por conta deste vácuo de poder que se instalou no país. Quando a situação estiver mais resolvida, Teerã vai fazer questão de recordar a associação entre Mubarak e Washington. E a revolução islâmica é sempre um excelente produto de exportação.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

EUA tentam esvaziar Irmandade Muçulmana. Grupo dá passo atrás em busca de legitimidade

A entrevista do presidente americano, Barack Obama, à Fox News foi reveladora quanto à posição dos EUA em relação aos protestos no Egito. Pouco antes do Super Bowl, o maior evento esportivo do país e que atrai a maior audiência televisiva, o presidente declarou que a Irmandade Muçulmana não detém o monopólio das manifestações e não possui apoio majoritário. Esta é uma visão um tanto otimista dos acontecimentos e mostra que a Casa Branca preferiu seguir um caminho pouco produtivo.

Foto: conferência de imprensa da Irmandade Muçulmana no Cairo

Em parte, consigo entender as motivações para desviar o olhar dos fatos. É como quando temos um pesadelo muito ruim e, num lapso de consciência, fechamos os olhos com força – ou abrimos, depende do método pessoal de cada um – para retomar o controle. No final, torcemos para que o pesadelo não passe disso mesmo. O problema, no entanto, é que, como em Vanilla Sky, Obama abriu os olhos e se viu diante de um problema complicado de ser resolvido. Ao contrário do que afirmou na entrevista, há muito apoio ao islamismo político representado pela Irmandade Muçulmana; o lulístico índice de 95%. Não se pode menosprezar tal número.

Como os EUA demoraram muito tempo para se posicionar, o presidente americano decidiu seguir alguma coerência e optar por uma estratégia um tanto juvenil: em vez de acordar e pensar no que pode ser feito daqui para frente, a estratégia americana prefere investir em colocar o líder do país para dormir de novo. Isso se explica, em parte, como um método cujo objetivo final é ganhar tempo, adiar o enfrentamento. Até porque, como já escrevi por aqui, debater política com a Irmandade Muçulmana significa aceitar que grupos radicais islâmicos passem a governo; ou seja, os EUA estariam, num efeito dominó de resultados imprevisíveis, de portas abertas para a legitimação em sequência de Hamas e Hezbollah – apenas para citar os mais óbvios.

Enquanto isso, algumas leituras sobre o posicionamento da Irmandade Muçulmana: o britânico Telegraph declarou que a posição do presidente Mubarak estaria mais segura agora que o grupo islâmico voltou atrás e decidiu participar das negociações para um governo de transição. Isso faz algum sentido, ainda mais porque agora os islâmicos se dispuseram a abrir mão de que o presidente deixasse o cargo imediatamente. Se este radicalismo natural do grupo continuar a recuar, ninguém sabe como os manifestantes poderão reagir. Até porque, não custa lembrar que o movimento de massa exigindo mudanças não foi organizado pela Irmandade Muçulmana. O grupo apenas surfou sobre a sucessão de acontecimentos.

Se por um lado o islamismo político pretende abrir caminho para uma transição tranquila que lhe garanta acesso ao poder, existe a possibilidade de consequências distintas: o gesto ser interpretado como traição – reaquecendo os protestos – ; e os EUA considerarem existir um ambiente propício a negociações de bastidores com a Irmandade Muçulmana. De qualquer maneira, a complexidade do cenário aumenta bastante.

Como escrevi antes, é bastante natural que o grupo passe a assumir responsabilidades e compromissos na medida em que passa de oposição – ilegal, inclusive – a governo. Politicamente, acrescenta ainda mais elementos à pressão enfrentada pelos americanos – que vão esgotando os argumentos que impedem o diálogo aberto com o islamismo radical. O problema é que, localmente, é até bastante natural que os manifestantes que se expuseram durante todos esses dias continuem a não aceitar nada menos que a renúncia imediata de Mubarak.

Em longo prazo, a pressão popular pode exigir da Irmandade Muçulmana a adoção de medidas radicais. E isso seria teoricamente algo simples de ser realizado. Bastaria simplesmente que o grupo – já na posição de governo – ignorasse a cláusula do acordo de paz com Israel que exige a desmilitarização do Deserto do Sinai. Resta saber se as milhares de pessoas que tomaram a capital egípcia em busca por democracia e emprego estariam dispostas a aceitar tal populismo vazio.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Egito no foco da disputa entre EUA e Irã

Ontem comentei sobre a possibilidade de diálogo entre EUA e a Irmandade Muçulmana. Isso deve acontecer de alguma forma, na medida em que o grupo estará representado no futuro governo egípcio. Mesmo os americanos já consideram este fato. Tanto que autoridades do país disseram estar prontas a aceitar debater com o alto-escalão do islamismo político desde que seus membros se comprometam a abandonar as armas. E tal gesto não seria inédito na região.

Vale lembrar que esta mesma Autoridade Palestina hoje desacreditada tem origens na Organização pela Libertação da Palestina (OLP) – que, para quem não se lembra, esteve bem longe de ser um grupo de escoteiros do Oriente Médio. Mesmo o Fatah, de Arafat e do presidente Mahmoud Abbas, nunca foi tão somente um partido político. E aí existe um norte para vislumbrar um possível futuro para a Irmandade Muçulmana do Egito: assim como o Fatah, que mantém seu braço armado – as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa –, a Irmandade Muçulmana pode se adaptar a seu novo patamar político, assumindo publicamente compromissos razoáveis, mas ao mesmo tempo mantendo suas origens e o forte discurso antiamericano e anti-israelense.

Aliás, a verdade é que não creio que será fácil dobrar o islamismo político do Egito. Isso pode acontecer, mas vai levar algum tempo. Principalmente porque a Irmandade Muçulmana é o que, por aqui, costumamos chamar de “velha guarda”. Ela está na origem das centenas de outros movimentos islâmicos e radicais que se espalham principalmente pelo Oriente Médio, mas também estão presentes em importantes centros de população muçulmana, como Paquistão, Afeganistão e Indonésia. Romper tal tradição poderia ser interpretado como capitulação aos “interesses americanos”.

Estar no lugar da liderança da Irmandade Muçulmana neste momento não deve ser fácil. A pressão das maiores forças mundiais é grande. Se a necessidade de reconstrução do país é uma ameaça real por forçar algum tipo de compromisso com os americanos, a outra potência regional, o Irã, não tem facilitado. Se no começo das manifestações populares as autoridades da República Islâmica preferiram o silêncio, agora se sentem cada vez mais impelidas a exercer seu poder. Tanto que, nesta sexta-feira, o próprio supremo líder, o aiatolá Ali Khamenei, disse que os acontecimentos no Egito são uma demonstração do “despertar islâmico” iniciado durante a revolução iraniana de 1979. Perceberam o significado de tal declaração?
 
O que está em jogo neste momento é mais um capítulo da disputa regional entre EUA e Irã. Ou melhor, entre os modelos representados por cada um deles. Se Washington tem a seu favor a indispensável ajuda financeira fornecida anualmente ao governo do Cairo, Teerã está consciente dos valores partilhados entre suas lideranças políticas e a Irmandade Muçulmana. Não se sabe por enquanto para que lado a futura administração egípcia irá pender, mas afirmo seguramente que criar um meio-termo entre esses dois modelos – enganando Irã e EUA diga-se de passagem – é tarefa ingrata. Não acredito que a Casa Branca aceitaria manter o considerável repasse de verbas a um Egito regido pela sharia (a lei islâmica) cujo gabinete presidencial tivesse fortes laços com Khamenei e Ahmadinejad.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Mudanças no Egito e o diálogo entre EUA e a Irmandade Muçulmana

Todo o discurso que cerca a transformação no Egito é muito tentador. Principalmente para os muitos grupos políticos internacionais do Ocidente que tendem a se alinhar com os revoltosos. É o povo em busca de democracia, contra a opressão de um regime ditatorial apoiado pelos EUA, em luta por melhores condições de vida, emprego e educação. E, mais ainda, representa a ansiedade popular para desfazer a injusta equação política que manteve Mubarak e a elite do país lado a lado durante três décadas e em oposição às demandas da maioria da população.

Diante deste quadro, que líder mundial vai arriscar a própria imagem se colocando ao lado do presidente egípcio? Por mais que os primeiros dias tenham sido de muitas incertezas – e ainda há perguntas de sobra quanto ao futuro político do país –, neste décimo dia de protestos ninguém dúvida de que o processo de mudança é irreversível.

Mesmo as cenas de confronto violento entre os “aliados” de Mubarak e a multidão de manifestantes não serviram como sinal de retrocesso. Principalmente porque há informações de que o próprio presidente egípcio estaria por trás da organização e recrutamento forçado de militantes políticos – muitos deles, inclusive, seriam funcionários do governo e empregados da empresa petroquímica estatal.

E por falar em mudança, os eventos seguramente irão marcar uma profunda revisão da política externa americana. O que ninguém esperava que pudesse acontecer vai se tornar realidade num movimento de fora para dentro. O autointitulado presidente da mudança será obrigado a rever posições americanas até hoje inquestionáveis. A mais importante delas: Obama será obrigado a travar algum tipo de diálogo com a Irmandade Muçulmana. O grupo certamente estará de alguma maneira representado no novo governo egípcio. Como as revoltas são populares e pesquisa do Pew Research Center aponta que 95% dos entrevistados avaliam positivamente o islamismo político, logo não há para onde fugir.

 
E a relação entre EUA e organizações islâmicas de discursos inflamados – como a Irmandade Muçulmana, grupo que inspirou ideologicamente Hamas e al-Qaeda, para citar os exemplos mais conhecidos – representará um esforço gigantesco para ambos.

Sim, porque se Washington vai ter que ceder a este fato quase consumado, os islamismo político e muitas vezes radical vai precisar se violentar, engolir a seco e dar aos americanos alguma demonstração de flexibilidade. Seguramente, já institucionalizados no governo, seus membros não vão poder sentar sobre louros e simplesmente abrir mão da ajuda financeira de 1,5 bilhão de dólares enviada anualmente pelos EUA. Até porque o Egito enfrenta grandes dificuldades econômicas e institucionais. A Irmandade Muçulmana vai precisar assumir algum tipo de compromisso com os americanos. Por mais constrangedor que isso seja.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O grande equívoco americano no Egito

O impasse egípcio tem sido comparado à revolução iraniana de 1979. Há um tanto de razão na análise, muito embora não compartilhe da visão de que eventos tendem a se repetir. Penso que cada caso é único, mas entendo quando leio textos que caminham por este terreno. O que de fato é bastante similar nos dois casos é a ineficiência americana em apresentar respostas rápidas e afirmativas. Há pouco mais de 30 anos, o então presidente Jimmy Carter apostou no silêncio e na associação a representantes do islamismo moderado durante o processo de derrubada popular do xá Reza Pahlevi. E todo mundo sabe como essa história terminou.

Agora, as autoridades americanas igualmente encontram grande dificuldade para tomar uma posição. No começo da revolta popular, pediram calma. Hoje, parecem ter optado por dois rumos paralelos: manter certo distanciamento e iniciar contatos preliminares com Mohamed ElBaradei – o mal menor, digamos. O professor de história militar Geoffrey Wawro resgata um episódio interessantíssimo. Durante a revolta iraniana de 1979, o então coronel Colin Powell conseguiu resumir a reação americana numa única frase: “Todo nosso investimento direcionado a um indivíduo, mais do que a um país, resultou em zero”, disse. No caso, o indivíduo em questão era o próprio xá Pahlevi.

Se 30 anos depois a administração Obama tem tentado com muita dificuldade se distanciar do presidente Hosni Mubarak, ainda reluta em apresentar respostas mais firmes. Tudo porque a Casa Branca tem muito medo de parecer incoerente, justamente por ter apoiado a ditadura egípcia durante todos os esses anos. O problema é que tal pavor freudiano retarda a tomada de ações. E, enquanto isso, o antiamericanismo popular aumenta. E, como a revolta no Egito é popular, seja lá quem emergir vitorioso deste processo certamente vai preferir se distanciar de qualquer parceria com Washington – pelo menos num primeiro momento e publicamente.

O pé atrás da administração Obama é acompanhado com um pé a frente da administração Khamenei-Ahmadinejad no Irã. Livres de qualquer traço da culpa americana, em Teerã 214 membros do parlamento iraniano assinaram um comunicado em que enviam “apoio espiritual” para os egípcios em luta contra a tirania de seus governantes. Como nunca é demais reafirmar a política externa do país, os parlamentares fazem questão de condenar os esforços de “certos países ocidentais”, assim como do “regime sionista” – claro –, em esvaziar as manifestações e separá-las dos valores islâmicos. Na República Islâmica, ninguém está muito preocupado pelo fato de existir uma enorme contradição nisso tudo: afinal, há menos de dois anos, os protestos contra a polêmica reeleição de Ahmadinejad foram reprimidos à força. E, menos ainda, as autoridades iranianas pretendem transformar o país numa democracia plena.

Como contraponto regional aos EUA e em busca de hegemonia e liderança, o Irã sabe que não pode se manter à margem deste processo. Enquanto isso, Washington prefere a distância. Como escrevi, tal atitude seria legítima enquanto nenhum dos demais atores desse o primeiro passo. No entanto, como potência mundial, os EUA não podem se permitir tal isolamento. Ainda mais porque o silêncio pode custar caro demais. Além de perder o resto de credibilidade num dos palcos geopolíticos mais importantes do planeta, expõe a contradição americana que a Casa Branca preferia que fosse esquecida: o apoio às ditaduras que aceitaram jogar regionalmente ao lado dos americanos.

O problema é que as manifestações desses dias exigem justamente a democracia que Washington sempre fez questão de simbolizar. Como os EUA podem justificar a completa falta de apoio ao movimento? Como escreve Ed Husain, membro da organização americana Conselho de Relações Exteriores, “os EUA correm o risco de serem lembrados como a democracia que abandona os democratas”. E isto seria um prejuízo incalculável para a política externa de Obama e suas pretensões no Oriente Médio.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Crise no Egito: um pouco de realidade diante do otimismo

A anulação e o silêncio são as regras do jogo político atual do Oriente Médio. Ontem comentei sobre as dúvidas que pairam em análises publicadas em veículos de todo o mundo. Tais questões não se restringem somente a quem cabe tentar entender o momento histórico da região, mas estendem-se também a governos e lideranças locais. Todos temem pisar em falso. Talvez pela primeira vez, mesmo que por motivos distintos, Israel, Autoridade Palestina, EUA, Líbano, Irã e Iraque estão unidos pelo medo de alguma forma se associarem ao lado perdedor. E, por ora, ainda que as evidências apontem a provável queda de Hosni Mubarak, ninguém sabe como isso tudo vai terminar.

Para completar, há muitas possibilidades quanto aos sucessores do presidente egípcio. Enquanto o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, orientou os membros do seu governo a permanecerem calados, o presidente Shimon Peres decidiu elogiar Mubarak por conta própria. O gesto talvez reflita um tanto de autoconfiança por seu admirável currículo político, mas pegou mal. No momento atual, mostrar solidariedade ao governante não é apenas improdutivo, mas mostra um tanto de incompreensão do quadro maior. A maior lição de hoje é que, pelo menos por ora, a bola está com as pessoas que se manifestam nas ruas. Não com lideranças políticas. E, menos ainda, com a figura mais contestada deste processo de ruptura. É claro que Israel teme a ascensão de figuras que contestem o acordo de paz entre os países, mas o melhor a fazer é esperar e ver quais os resultados deste imbróglio.

Se do lado israelense houve este escorregão marcante, os palestinos agiram com inteligência. Não apenas a Autoridade Palestina não quis se manifestar, mas também o Hamas. Ambos os grupos temem que a revolta que já tomou Tunísia e agora tem tudo para mudar a realidade de forças no Egito se espalhe para os territórios palestinos. Se a AP e o Hamas partilham algumas similaridades, a mais importante delas, sem dúvida, é que ambos prezam com afinco a disputa de poder entre si. Nenhum dos grupos cogita a possibilidade do nascimento de uma terceira via política que clame por emprego, eleições periódicas, liberdade de imprensa e a discussão de um projeto de desenvolvimento interno sério, imagina. Soa como lugar-comum a esta altura, mas mesmo com manifestantes egípcios entoando slogans contra Israel e EUA, os protestos iniciados na Tunísia parecem ter levado as populações dos distintos países árabes a ousar questionar seus problemas internos. É a percepção de que enquanto Israel e EUA estiveram no centro das manifestações, as respectivas ditaduras se perpetuaram no poder.

E aí começa a contradição com a qual Barack Obama precisa lidar. A política externa americana na região sempre teve preocupações importantes, mas restritas: segurança e terrorismo. Por mais que o discurso de Washington reafirme o clamor nacional por democracia, direitos humanos e liberdade de imprensa para todo o mundo, no Oriente Médio o pragmatismo superou esses valores. Sucessivos ocupantes da Casa Branca jamais ousaram mexer nos vespeiros de aliados fundamentais, como Egito e Arábia Saudita, por exemplo. Em troca do silêncio, os ditadores nacionais cumpriram a cartilha de impedir que os grupos terroristas locais se institucionalizassem ou usassem o aparato estatal para lançar plataformas ideológicas ou mesmo operações. Foram mantidos à margem do sistema, banidos da política local.

Após 30 anos de apoio financeiro a Mubarak, a única alternativa americana é interferir o mínimo possível. E aguardar o resultado disso tudo para pensar em qual caminho seguir. Até porque os EUA cometeram um erro estratégico: nunca imaginaram – ou se o fizeram não agiram – que as oposições poderiam virar o jogo. E, por isso, não estreitaram os laços com os distintos grupos.

Muito embora exista uma tentativa de veículos de imprensa de apresentar Mohamed ElBaradei – ex-diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) – como o representante mais palatável aos ocidentais, é importante fazer duas ressalvas: primeiro quanto a sua atuação fortemente antiamericana durante o processo que buscou justificar a invasão dos EUA ao Iraque, em 2003, e pela qual levou o prêmio Nobel da Paz dois anos depois; segundo, assim como qualquer oposicionista que venha a liderar a realidade posterior a Mubarak, ElBaradei sempre deixou claro que irá incluir a Irmandade Muçulmana no novo cenário político.

Como também escrevi ontem, Irã, Líbano e Iraque se mantêm silenciosos porque a situação lhes é favorável. Mas não apenas por isso. Todos os países temem que um governo egípcio popular se transforme em modelo para toda a região. Irã, Líbano e Iraque aprovam a participação da Irmandade Muçulmana, mas não uma revolução liberal que adote medidas “extremas”, como a permissão da existência de um jogo político plural com partidos de posição e oposição, e libere o trabalho da imprensa. Aí também é demais.

Por mais otimismo que exista neste momento – e ele é em parte justificado –, não creio numa transformação plena da realidade no Egito e, menos ainda, nos demais países da região. Principalmente porque qualquer vitorioso que assumir a presidência do país precisará assumir muitos compromissos. E numa região conflituosa e com interesses distintos, irá precisar se acomodar à força e demandas dos vizinhos e dos EUA. Não é produtivo imaginar que, depois de 30 anos, o Egito passará a ser uma ilha de democracia entre os Estados árabes e islâmicos do Oriente Médio.