segunda-feira, 14 de março de 2011

Tsunami, terremoto e crise política no Japão

Se é minimamente possível dizer tal absurdo, arrisco-me na tarefa de afirmar que o maior beneficiário do terremoto no Japão é Muamar Khadafi. Tal conclusão é um tanto óbvia, devo admitir. Por outro lado, em meio aos milhares de infográficos, entrevistas com geólogos, dados de engenharia e explicações quanto aos movimentos das placas tectônicas que geram tremores e tsnunamis, ainda há algo a ser dito sobre o cenário político japonês.

 
A verdade é que sempre após catástrofes desta magnitude, a imprensa se dedica ao escrutínio que lhe cabe. É correto fazer isso, mas a onda de informações e números é tão intelectualmente arrasadora quanto as ondas que de fato geraram as imagens impressionantes que vemos e revemos incessantemente. Por conta desta comoção – que, vale dizer, é humanamente justificada – o cenário político imediatamente anterior à tragédia foi devidamente esquecido.

 
Muita gente deve ter visto uma imagem do parlamento japonês no momento em que os lustres começaram a vibrar. Naquele instante, a oposição do país pedia a renúncia do primeiro-ministro Naoto Kan – o quinto a ocupar o cargo nos últimos quatro anos. Há denúncias de corrupção, incluindo o recebimento de doação ilegal durante a campanha. Além disso, o país se encontra na porta de entrada de uma violenta crise econômica.

 
“Se não fosse pelo crescimento do mercado chinês, o poder de recuperação de sua indústria e a propensão de seus cidadãos à poupança, o Japão estaria na lista das próximas crises dos mercados financeiros”, escreve Adrian Hamilton no britânico Independent.

 
A situação é ainda pior, vale dizer. Os fazendeiros do país – grupo politicamente importante – respondem por apenas 1% da economia, mas usufruem de taxas de proteção significativas. Como já se sabe que muitas das plantações foram completamente devastadas, o governo está diante de escolhas que podem mesmo mudar comportamentos sociais tradicionais – numa sociedade que mescla modernidade e tradição, lugar-comum que define bem o país.

 
Se por um lado as autoridades poderão interpretar a catástrofe como oportunidade para realizar mudanças – muitas delas exigidas pela oposição e por setores da população insatisfeitos –, será preciso realizar enormes gastos nos esforços de reconstrução. Já se fala, inclusive, num “New Deal” japonês – o Banco Central emitiu comunicado afirmando estar pronto para despejar 183 bilhões de dólares no sistema bancário de forma a manter o funcionamento dos mercados.

 
Mas dinheiro está longe de ser a solução dos problemas. Numa sociedade altamente inserida no universo tecnológico (aliás, o país existe em simbiose com a tecnologia de ponta), a energia é combustível intelectual, industrial e econômico. Desde os terremotos, 11 dos 55 reatores nucleares (responsáveis por mais de 15% da energia consumida) deixaram de funcionar. E se a opção nuclear tem sido criticada por conta de seus riscos, sempre é preciso lembrar que, pelo menos no caso japonês, a alternativa nasceu justamente da ausência de recursos.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Oriente Médio sem maniqueísmos

De volta ao Oriente Médio. A tão sonhada onda de democracia regional estacionou e parece restrita até agora somente à Tunísia e Egito. E, aliás, não está nem um pouco evidente que os novos governos se transformarão em exemplos de secularismo ocidental. Há um grande mal-entendido na classificação dos países da região. O engano principal deriva do fato de a interpretação ser sempre um tanto etnocêntrica. O Ocidente possui suas próprias expectativas para o Oriente. Por si só, este é o primeiro sintoma a provocar fracasso e frustração.

É preciso ter claro que, aconteça o que acontecer, é muito pouco provável que Tunísia, Egito, Líbia, Bahrein e demais se transformem em EUA, Alemanha, Grã-Bretanha ou qualquer outra democracia ocidental. E é natural que Estados até então autocráticos demorem a encontrar seu próprio rumo. Afirmar que democracia é o ponto-alto da evolução é um tanto perigoso. Principalmente porque denota uma visão onde o Ocidente é o símbolo mais bem-sucedido da experiência humana.

Se por esses lados nós encontramos na democracia um sistema que nos atende, as populações dos países do Oriente Médio têm uma visão distinta. E não porque elas também não esperam com ansiedade liberdade de imprensa, eleições justas, ocupantes de cargos executivos com mandatos temporários, mas porque o termo democracia é, até agora, uma simples ideia sem aplicação prática, um conceito meramente.

“Em muitos casos, sociedades árabes modernas associam secularismo a regimes pós-coloniais autoritários que reprimiram suas populações em nome do nacionalismo árabe secular”, escreve Nader Hashemi, professor de Estudos Internacionais da Universidade de Denver, nos EUA.

E como ensina Charlie Sheen, maniqueísmo é para os que não têm a capacidade de entender qualquer nível de subjetividade. Num cenário de atração e repulsa, mesmo rebeldes e ditadores do Oriente Médio procuram ajuda internacional. Todos os parágrafos anteriores poderiam levar a crer que os países da região pretendem pôr em prática independência total em relação a europeus e americanos. Isso não é verdade. Tanto que, no caso específico da Líbia, autoridades pró-Khadafi e líderes rebeldes procuram alianças internacionais.

O mundo conectado exige uma alta dose de pragmatismo. E ao buscar alianças com europeus – no caso dos rebeldes, principalmente de França e Grã-Bretanha –, os líbios detonam qualquer visão linear e uniforme sobre a posição dos árabes. Se os grupos anti-Khadafi têm implorado a franceses e britânicos que coloquem em prática planos militares para depor o ditador do país, a posição da Liga Árabe, de Irã e Turquia é completamente oposta.

Mesmo assim, todos os atores envolvidos encontram uma maneira de diálogo com o exterior. Mesmo que isso signifique oposição, enviar mensagens aos ocidentais é, por si só, uma forma de legitimar o cenário complexo atual onde nenhum homem é uma ilha.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Jogadores de futebol brasileiros participam de festa equivocada na Chechênia

O programa de carnaval de ex-jogadores de futebol brasileiros de sucesso foi bastante curioso. Romário, Bebeto, Dunga, Denílson, Djalminha, Júnior Baiano e outros fizeram uma viagem extravagante. Abriram mão de blocos carnavalescos, camarotes vip, desfiles de escolas de samba em nome do altruísmo humanitário. Para ajudar as vítimas das enchentes no Rio, toparam jogar um amistoso na gelada Chechênia. Olha que bacana! Alguém acredita nisso?

Foto: Dunga disputa a bola com o presidente/craque Kadyrov

Agora basta de mundo imaginário. Ninguém confirma, mas o deputado Romário confidenciou a amigos ter recebido cachê de 500 mil reais para participar da partida. Os demais jogadores não revelaram as quantias. O que cada um faz durante o carnaval é um problema particular, certo? Certo, evidente. O problema é que os ídolos brasileiros (e uso o termo por ter noção do país onde vivo, não porque admire os jogadores de futebol) participaram da festa futebolística particular do presidente checheno Ramzan Kadyrov.

No cargo desde abril de 2007, Kadyrov tem uma história de vida no mínimo suspeita. Nomeado pelo então presidente russo Vladimir Putin, Kadyrov defendeu a independência chechena, mas depois mudou de lado. Até aí nada de errado, afinal mudar de opinião pode ser considerado até uma sofisticação intelectual. A questão é que seus métodos de exercício de poder são suspeitos. Há 3 mil desaparecidos, e o presidente é acusado de ordenar sequestros, torturas e execuções sumárias de opositores e ativistas de direitos humanos.

Essas não são informações confidenciais. Estão publicadas em todo o tipo de veículo, basta apenas fazer uma pesquisa rápida na internet. Mesmo assim, nossos craques parecem não ter pensado duas vezes antes de compactuar com a festa particular de Kadyrov. E vestindo o uniforme da seleção brasileira. Aliás, este é um aspecto interessante porque num primeiro momento, quando questionada sobre o jogo, a CBF disse ter dado autorização para que os jogadores usassem o traje oficial da entidade. Depois, num pronunciamento que beira o ridículo, autoridades da confederação disseram que a partida era informal, e que camisas, calções e meiões da seleção estão disponíveis nas lojas a qualquer um que queira comprá-las. Ou seja, a CBF tirou o seu da reta.

Obviamente, a entidade é uma empresa privada (sempre é importante ressaltar isso, diga-se de passagem). Mas o futebol brasileiro é um patrimônio nacional, uma das expressões mais significativas do povo brasileiro – e longe de mim adornos e patriotadas em torno do assunto. Na medida em que cuida de um dos aspectos mais relevantes do país, a CBF deveria, em tese, ter algum cuidado nas associações que faz. Em pior situação estão os jogadores que participaram da “festa”. Seria irresponsabilidade dizer que todos receberam dinheiro para jogar, mas parece que sim. Se não estão dispostos a qualquer pensamento crítico quanto a suas fontes de renda, que ao menos tivessem cuidado com suas próprias carreiras. Definitivamente, entrar em campo e bater palmas a um sujeito acusado de tantos crimes não conta pontos a ninguém.

Não é a primeira vez que futebol e política estão aliados – e do lado errado. Foi assim na Copa de 1978, na Argentina; ou durante a Copa de 1970, quando o governo militar abusou da patriotada. Mas vivemos tempos distintos, onde não há ameaças à vida dos que não se dobram às vontades políticas. Muito menos do presidente da Chechênia. Aliás, para piorar o quadro, Kadyrov jogou e fez dois gols. Numa cena patética, driblou o goleiro Zetti – um drible infantil em que Zetti claramente permite a passagem do presidente.

Os “ídolos” brasileiros que participaram do circo de mídia na Chechênia não estão arrependidos. Mas deveriam. Como deveriam também ser menos admirados, criticados com menos polidez, menos vergonha. Quando entram em campo, levam todo o Brasil com eles. E, dessa vez, entraram do lado errado da história.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Carnaval e o recuo estratégico americano

O carnaval das relações internacionais será bastante interessante. Se possivelmente neste ano a popularidade da máscara de Obama deve perder para a de Ronaldinho Gaúcho, são grandes as chances de os blocos de rua líbios animarem ainda mais os eventos no Oriente Médio. Como estarei voluntariamente isolado num lugar onde internet e celular são artigos sem qualquer função – porque o sinal é inexistente –, meus dias de folia serão embalados pela trilha sonora do Clube da Esquina e por grupos indie de jovens deprimidos. Volto a escrever na próxima quinta-feira.

foto: refugiados líbios aguardam autorização para cruzar a fronteira com a Tunísia

Enquanto isso, a atuação internacional segue pelo caminho da discrição. É claro que tudo pode mudar no intervalo de uma semana, mas com tantos entraves a uma intervenção clássica na Líbia, mesmo os EUA parecem dispostos a exercer o que se chama de diplomacia leve. Como ficar de braços cruzados não é uma opção, Washington decidiu atuar quase como uma ONG de grande orçamento, digamos assim: disponibilizou aviões militares para transportar egípcios de volta para casa – um contingente populacional que se refugiou na fronteira da Líbia com a Tunísia.

E mais: os EUA têm contribuído com o envio de equipes de ajuda humanitária para cooperar com funcionários das Nações Unidas que trabalham na região. Este pacote de medidas é uma forma inteligente de agir diante das incertezas. Afinal, como ninguém sabe qual o resultado prático das revoltas – para ser mais claro, qual o olhar dos novos governos que vão emergir após tantas mudanças –, Obama pôs em prática um modelo de atuação internacional que talvez reflita parte das expectativas criadas por sua eleição, em 2009.


Se há críticas históricas às intervenções militares, Washington aproveitou a oportunidade criada pela indefinição do momento para aliar duas estratégias interessantes: recuar e ao mesmo tempo estar presente no cenário dos acontecimentos de maneira discreta. Transportar egípcios de volta para casa é uma maneira de reconhecer os cidadãos comuns como os legítimos representantes do país. É também uma forma de estender a mão ao novo governo, buscando um estreitamento de laços com o regime. E, para completar, os EUA deixam claro que não estão dispostos a lutar contra a posição da comunidade internacional. Pelo menos não neste momento.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A nova ordem mundial se manifesta a partir da crise líbia

O concerto internacional mudou. Não está claro se está mudança é duradoura, mas os eventos na Líbia mostram que a relação de poder entre países está alterada. A indecisão sobre o que fazer para frear o ímpeto de poder de Khadafi é sintomática. Como não acredito na “Era de Aquárius”, não creio que a relutância das potências em colocarem em prática a capacidade militar de que dispõem seja fruto de algum tipo de “evolução do pensamento humano”. Deixemos o musical Hair de lado por ora.

A nova ordem tem mais a ver com realismo econômico e político. Com Europa e EUA em crise, não é de se espantar que ambos já não sejam mais porta-vozes e atores únicos das decisões. Enquanto nos últimos anos assistimos à retração de ambos, testemunhamos também o crescimento de grandes países emergentes: Brasil, Turquia, África do Sul, Índia – sem falar na China, potência que muitas vezes não compartilha das decisões internacionais americanas e já reconhecida com assento no Conselho de Segurança da ONU.

O impasse líbio diz respeito a este momento singular. Por mais que Washington e europeus ainda representem uma considerável fatia do poder internacional, simplesmente já não é mais possível ignorar a existência dos outros atores. O problema é que por ora não estão definidos que papéis serão exercidos por esses países. Por isso é importante reformar a ONU. Por isso é importante repensar o próprio Conselho de Segurança. Se ele já contasse com a participação efetiva dos emergentes, possivelmente um plano conjunto seria elaborado.

A crise humanitária na Líbia pode ser considerada a primeira expressão deste novo mundo. Como há grande ansiedade por parte dos países – que querem e precisam se afirmar –, ninguém parece disposto a concordar – o que poderia ser interpretado como sinal de fraqueza diante da pressão das potências.

É neste cenário também que está o Brasil. Não porque esta é uma posição da atual presidente Rousseff, mas porque seu governo colhe os frutos de oito anos de alinhamento do país com os Estados emergentes – o que o próprio Itamaraty costumava chamar de política “Sul-Sul”. Por conta dela, por conta das inúmeras viagens e conferências realizadas por Lula na África e do reconhecimento do Brasil como espécie de porta-voz dos interesses dos países não-vinculados, Khadafi cogitou a possibilidade de receber uma missão de observadores internacionais – e Brasília enviaria integrantes para compor esta missão.

Como fica claro que o ditador Líbio não está disposto a se render às demandas do status quo de poder internacional representado principalmente por EUA e União Europeia, há um incentivo para que os emergentes atuem com ainda mais protagonismo na resolução deste problema. E crise é sempre uma tremenda oportunidade. Assim, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, aproveitou para surfar nesta onda e sugeriu a Khadafi que receba uma comissão internacional para ouvir governistas e opositores.

Tudo isso mostra um mundo em transformação, um mundo que já não aceita mais as mesmas soluções apresentadas há bem pouco tempo. E é claro que americanos e europeus têm feito uma leitura desses eventos, o que talvez explique a demora em por em prática planos de controle aéreo sobre o território e, menos ainda, intervenção militar. A crise líbia pode passar à história como o evento internacional que modificou de vez a forma como conflitos são resolvidos. Se isso será positivo, só o tempo dirá.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Atoleiro líbio

Ontem comentei sobre a possibilidade de intervenção estrangeira na Líbia. O caso envolve tantas articulações e oposições políticas que fica difícil imaginar quem seria capaz de equalizar todas as posições distintas. Com EUA e Grã-Bretanha à frente da pressão pelo uso militar – são os únicos que até o momento cogitaram publicamente esta possibilidade –, não era difícil prever a polarização do assunto.

Acho importante reafirmar que todo mundo está com medo de bancar a decisão de derrubar Khadafi à força. Se as autoridades americanas foram as que mais diretamente deram entender que esta opção não está descartada, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, não quis ficar para trás. O problema é que há poucos meses ele foi o responsável por introduzir um doloroso plano de cortes de gastos interno. Diante disso, é bastante natural que a imprensa do Reino Unido tenha caído de pau sobre sua “bravura” militar:

“O espetáculo do primeiro-ministro de se colocar ao lado de nossos aliados-líderes (EUA) para fazer ameaças públicas contra Khadafi no momento em que nossas forças armadas enfrentam sua maior redução (de verbas) em décadas é simplesmente indefensável”, afirma editorial do Telegraph.

De fato, a conta desta aventura militar contra o líder líbio certamente será alta. Mas o problema não se restringe a isso. Enfrentar as tropas que ainda lutam por Khadafi ressuscita alguns dos piores fantasmas de Londres e Washington. Aliás, nem se pode chamar de fantasmas, até porque permanecem vivos na memória recente de cidadãos e da imprensa: o imbróglio em Iraque e Afeganistão. Se a guerra nos dois países acabou por se transformar numa luta sem fim entre tropas ocidentais e uma enorme variedade de franquias terroristas, a eventual intervenção na Líbia pode acabar por seguir o mesmo caminho.

Já se sabe que a al-Qaeda tem enviado para o país norte-africano fileiras de seus combatentes vinculados à filial magrebina. Se tropas ocidentais de fato invadirem a Líbia, o território não apenas pode se transformar num novo Afeganistão – a situação no Iraque é um pouco melhor –, mas numa análise combinatória de militância e enfrentamento ideológico.

Explico: a al-Qaeda certamente não se alinharia a americanos e britânicos. Por outro lado, no entanto, lutaria contra os exércitos estrangeiros e também contra as forças leais a Khadafi (se elas ainda existirem, claro) e seus mercenários; americanos e britânicos (ou até a Otan, muito embora esta possibilidade seja aparentemente remota neste momento) se preocupariam em derrubar as forças de Khadafi o quanto antes e, posteriormente, seriam obrigadas a algum enfrentamento com a al-Qaeda. Já as forças leais a Khadafi, bom, essas têm diante de si o pior dos cenários: lutam contra todos porque são os alvos prioritários de todo mundo.

terça-feira, 1 de março de 2011

O medo de se posicionar sobre a invasão à Líbia

Há neste momento o início de um debate que aterroriza políticos, jornalistas e líderes ocidentais: a legitimidade ou não de uma intervenção militar na Líbia. O assunto é polêmico por natureza, mas a discussão se torna ainda mais apimentada pela memória recente da invasão americana ao Iraque. Se Saddam Hussein foi deposto, capturado e morto, o destino político daqueles que justificaram a empreitada militar pode não ter sido a forca – como no caso do ditador iraquiano –, mas uma mancha no currículo que pode atrapalhar gravemente pretensões políticas futuras.

foto: ajuda humanitária chega a Benghazi

A decisão de apoiar a intervenção na Líbia é um pouco diferente da grande epopeia de retórica e paixão que precedeu a invasão ao Iraque. Primeiro porque no centro disso tudo estava o internacionalmente detestado ex-presidente dos EUA. Segundo, porque havia a certeza de que o objetivo era a tomada do patrimônio petrolífero do pais. E terceiro, porque o momento político era completamente distinto: hoje, a população líbia quer a derrubada de Khadafi. Em 2003, havia oposição a Saddam, mas nem de longe multidões saíam às ruas de Bagdá exigindo sua renúncia – aliás, quem ousasse fazer este tipo de manifestação certamente pagaria com a própria vida.

No entanto, há uma semelhança perversa que pode ser o fiel da balança: a escalada da morte de civis. Como agora na Líbia, o Ocidente nada fez quando Saddam Hussein ordenou o ataque com gás sarin que matou cinco mil curdos, em 1988. Tal inaptidão de lidar com esta memória pode ser decisiva no momento atual. Além disso, outro aspecto importante gira em torno da indefinição quanto à receptividade dos manifestantes líbios à intervenção estrangeira. Este assunto é um grande enigma para todo mundo. Por mais que haja sinais contraditórios, a verdade é uma só: é impossível saber o que a população do país pensa sobre isso. Com a situação de violência cada vez mais generalizada, é impensável fazer qualquer levantamento sobre o assunto.

E aí voltamos ao primeiro parágrafo. Todos os que precisam ou querem opinar sobre o assunto estão com medo de se expor. Como ninguém sabe qual o pensamento vai prevalecer, há consenso quanto ao profundo temor de estar do lado errado da história. Ninguém quer arriscar biografias porque todo mundo já sabe o destino dos que ficaram marcados por apoiar a guerra no Iraque.

Vale citar que há argumentos dos mais perversos para justificar a passividade atual. Por exemplo, um colunista do Financial Times diz que o nível de violência ainda não é comparável ao de Ruanda, por isso forças internacionais não agiram. Ora, qual a diferença entre as mortes de mil e de 800 mil pessoas? Quer dizer, quem controla esta balança que determina o limite “tolerável” de assassinatos deliberados de civis? Isso me parece um tanto arrogante. É muito fácil dizer que mil mortes são toleráveis quando “mil” não passa de um número frio, sem rostos e identidades. Khadafi está disposto a usar todo seu arsenal em nome da permanência no cargo. Já era para isso estar claro.

Impedir que isto aconteça é um dever da comunidade internacional. Enquanto as potências ocidentais se afogam em dilemas, manifestantes continuam a ser mortos. Isso não quer dizer, no entanto, que considere inválido discutir as muitas possibilidades político-estratégicas que cercam a decisão de invadir a Líbia. Este é assunto para outro texto.