quinta-feira, 19 de maio de 2011

Obama: nova abordagem para o Oriente Médio

Havia muita expectativa quanto ao “Discurso sobre o Oriente Médio” do presidente Obama marcado para hoje. E confesso que, após o pronunciamento, admito ter ficado muito impressionado pela capacidade do líder americano de abordar questões importantes e difíceis com tanta franqueza. Já se sabia que um dos temas centrais seria a Primavera Árabe. No início do processo, a Casa Branca foi criticada pelo silêncio. Afinal, o então presidente egípcio Hosni Mubarak – um dos mais importantes aliados dos EUA na região – era o alvo da ira popular e de um movimento bem sucedido que encontrou ampla adesão dos cidadãos comuns. Hoje, em Washington, Obama encarou todos os muitos pontos de atrito entre seu governo e os países do Oriente Médio. E fez isso com a clareza e a assertividade que o momento exige. Afinal, como tenho escrito, o protagonismo americano está sendo questionado.

O presidente dos EUA sabe disso e decidiu fazer uso de toda sua capacidade de retórica. Conseguiu lembrar seus melhores comícios durante a campanha. Ainda não se sabe como será a reação das populações dos países árabes. No entanto, se havia expectativa e dúvida, a Casa Branca dissipou-as uma a uma. O discurso foi uma verdadeira aula sobre o posicionamento americano neste governo. E todo senso de urgência que o momento exige foi exposto.

Washington reforçou um dos principais pontos de sua política externa: o incentivo e o fomento do empreendedorismo. Esta é uma área de interesse pessoal do presidente e um ponto que, inclusive, marca sua biografia. Obama conseguiu hoje estender este projeto às manifestações populares e, com isso, pretende sensibilizar os jovens responsáveis pelos levantes atuais. O raciocínio é correto, afinal de contas a maior parte dos cidadãos dos países da região tem menos de 30 anos de idade.

Há uma mudança significativa na forma de abordagem pelos EUA. Se até o início deste ano havia uma aliança histórica entre o país e líderes contestados e autoritários, o presidente americano fez questão de deixar claro que viu com bons olhos os movimentos domésticos pró-democracia. Tanto que todo o pronunciamento de hoje é preenchido pela tentativa de criação de um laço entre os EUA e as populações dos países árabes, não seus governantes. Isto não apenas transparece uma leitura correta dos acontecimentos que envolvem a Primavera Árabe como um todo, mas também a certeza de que, a partir de agora, a espontaneidade popular não pode mais ser ignorada – nem domesticamente nos países árabes, nem nas relações que esses países irão forjar com os EUA.

Quando Washington reconhece formalmente esta transformação, na prática pede também um voto de confiança aos jovens árabes. Por isso Obama deu um passo atrás (como escrevi ontem, esta medida era muito importante). Assim – e esta é uma característica importante presente no discurso de hoje –, os EUA se colocam como parceiros disponíveis a participar do processo em curso. Não como partidários deste ou daquele lado, mas, principalmente, como fomentadores de inovação, empreendedorismo e incentivadores das práticas de livre mercado.

Os primeiros países que levaram adiante essas modificações internas, Egito e Tunísia, são vistos como os sócios primordiais desta nova abordagem. Medidas práticas como o perdão da dívida de 1 bilhão de dólares egípcia e o empréstimo do mesmo valor são alguns passos que encaminham uma mensagem importante a todos os países da região: se quiserem, eles podem contar com os EUA como aliados nos esforços de criação de ambientes capazes de gerar emprego e renda a suas populações. Egito e Tunísia passam a ser uma espécie de versão beta regional.

Finalmente, os EUA encerraram em grande estilo a reversão do constrangimento causado inicialmente. E para causar ainda melhor impressão, o presidente americano não se poupou de autocríticas (como quando textualmente mencionou o equívoco representado pela guerra do Iraque: “ aprendemos com nossa experiência no Iraque como é custoso e difícil impor a mudança de regime através da força”) e, menos ainda, poupou críticas a aliados. Sobrou para os estratégicos Iêmen e Bahrein – o governo americano foi apontado como incoerente por não se manifestar favoravelmente aos protestos populares nesses países aliados de Washington – e também para Israel – o recado ao primeiro-ministro Netanyahu foi claro quando Obama criticou a manutenção dos assentamentos judaicos e também a ilusão representada pela estagnação das negociações de paz.

Houve importantes menções ao conflito palestino-israelense. Mas prefiro tratar delas amanhã, quando Obama se encontrará com Benjamin Netanyahu em Washington.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

EUA precisam dar um passo atrás nas próprias pretensões sobre o conflito palestino-israelense

O presidente Barack Obama foi surpreendido pela precipitação dos acontecimentos no Oriente Médio. Na quinta-feira, fará discurso no Departamento de Estado em que vai abordar as relações entre os EUA, o mundo árabe e o islamismo. É a segunda empreitada do líder americano. A primeira foi um belo pronunciamento no Cairo, em 2009, repleto da poderosa retórica que o elegeu no ano anterior. A ideia agora é explicar o posicionamento do país a partir da operação que matou Bin Laden e também à luz das manifestações populares recentes. Não vai ser possível surfar nessas ondas exclusivamente.

O protagonismo do conflito palestino-israelense está retornando com força. E há importantes mudanças em torno deste assunto – demonstradas pelas novas estratégias palestinas sobre as quais comentei no texto desta terça. E o otimismo americano para lidar com as negociações de paz está em baixa. Não apenas pelo pedido de demissão do enviado George Mitchell, mas principalmente porque a própria posição de liderança de Washington corre riscos. Sérios riscos.

Enquanto Obama pode até acreditar que a Primavera Árabe representa o ímpeto que lhe faltava para forjar um acordo entre palestinos e israelenses, o pensamento de importantes lideranças regionais é bastante distinto. Há atores interessados em variações distintas sobre este mesmo tema. Irã, Turquia, Hamas e Hezbollah, por exemplo, pretendem capitalizar a nova realidade política sob outro ângulo. Aproveitam este momento para deixar claro que a Primavera Árabe marca também a independência regional em relação à chancela americana. E os palestinos são, como sempre, muito úteis a todos neste propósito.

O raciocínio vencedor desses atores – e digo vencedor porque ele passou a ser a diretriz dos acontecimentos práticos do momento – é pragmático: se os EUA não têm a postura desejada na mediação do processo de paz, então esta é a hora de contestar a própria posição dos EUA como principais mediadores. E, ainda mais além, se as negociações não têm avançado, basta abandoná-las. A Primavera Árabe passou a fenômeno político que legitima ações de indivíduos em conjunto na luta contra os regimes. Mesmo que Israel não seja o regime a governar formalmente os palestinos, é o próprio Estado de Israel a instituição que os palestinos pretendem tornar percebida internacionalmente como a responsável pela opressão. E, num exercício de lógica simplória – é esta que está dando as cartas atualmente –, para angariar simpatia e legitimidade internacionais, basta contestar o governo de Israel da mesma maneira como as populações dos demais países árabes têm feito domesticamente.

A situação americana é ainda mais delicada porque geopoliticamente este é um ótimo momento para relativizar a importância internacional da Casa Branca. É claro que os EUA ainda são a maior potência mundial, mas, ao contrário de outros tempos, há a clara ascensão política e econômica de outros Estados. Há crescente pulverização do poder. Neste ambiente onde novos atores se empenham em criar articulações para modificar o sistema internacional, diminuir a importância de Washington neste cenário específico não será visto, necessariamente, como um projeto unilateral palestino, mas como outro exemplo desta tendência.

Por isso, antes mesmo de Barack Obama chamar as partes a novas rodadas de negociação, os EUA precisam evitar perder o próprio protagonismo na mediação do conflito palestino-israelense.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A nova estratégia palestina

Comentei ontem sobre a similaridade entre a invasão de militantes palestinos ao território israelense no domingo e a tentativa de furar o bloqueio a Gaza realizada no ano passado pelo navio turco Mavi Marmara. Ambos os eventos convergem para um ponto: a criação de fatos jornalísticos impactantes que isolam Israel. Do ponto de vista político e imaginário, as duas ações foram muito bem sucedidas.

E por uma razão muito simples: o enfrentamento entre civis supostamente desarmados – não era o caso do navio turco, mas foi esta a percepção midiática e popular sobre o ocorrido – e um dos exércitos mais poderosos do mundo é uma narrativa extremamente atraente. Ela remonta a tantas outras histórias de luta entre fracos e fortes, armados e desarmados, forças institucionais e marginalizados. É o tipo de roteiro que comove porque a simples desigualdade de forças já basta para, por si só, tocar num dos aspectos mais sensíveis a todos nós: a noção de injustiça.

E invocar injustiça é ponto fundamental para a construção de qualquer discurso poderoso. E por uma razão óbvia: como todos nós somos vítimas de injustiças (em maior ou menor grau, não importa), é natural que elas nos causem repulsa. A injustiça ultrapassa a discussão política. Ela sensibiliza, comove, choca. Ela supera argumentos práticos, geopolíticos, históricos. A injustiça é humana, emociona, e, por isso, é midiática. A militância palestina – e nisso incluo, claro, os muitos atores políticos interessadíssimos em resgatar a centralidade do conflito entre palestinos e israelenses no Oriente Médio – sabe disso e lançou mão desta poderosa narrativa neste domingo.

A expertise para a realização de operações deste tipo tende ao crescimento. Forjar embates entre palestinos desarmados e o exército israelense vai se tornar lugar-comum a partir de agora. Não importa que centenas de pessoas tenham invadido o território de Israel a partir de Lìbano e Síria. Restam poucas alternativas de vitória política para o governo de Jerusalém. Atentados terroristas realizados contra civis criaram nos anos 1990 a sensação de insegurança em Israel. Isto afetava o cotidiano do país. Mas a repetição de eventos que atingem os sentimentos humanitários mundiais é muito mais eficaz. Eles não apenas isolam Israel politicamente como também contribuem para o próprio questionamento da existência do país.

Uma das principais mensagens dos eventos deste domingo é simples: os manifestantes que invadiram a fronteira norte a partir da Síria deixaram claro que sequer reconhecem a legitimidade da própria fronteira. E aí é bastante curioso notar que, se há ganhos palestinos inquestionáveis a partir de tais ações, há também um grande furo neste estratégia. Como se sabe, o processo de paz está parado e o enviado americano à região, George Mitchell, deixou o cargo pela frustração de não ter conseguido avançar com o diálogo entre as partes. Certamente, este será um dos pontos discutidos no encontro desta semana entre o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente dos EUA, Barack Obama. Netanyahu já tem a resposta para tudo isso na ponta da língua: como negociar se os palestinos sequer reconhecem o direito do Estado de Israel existir?

Mas, neste mundo onde percepção vale muito mais que argumentação, o placar é favorável aos palestinos. A realização de eventos como o de domingo vai seguir em frente em parte também porque a invasão popular palestina ao território israelense é percebida como uma espécie de extensão da Primavera Árabe. Como o olhar sobre as manifestações pró-democracia é bastante positivo internacionalmente, os palestinos – apoiados por muitos atores igualmente interessados na deslegitimação de Israel – estão, digamos, seguindo tendência, criando sua própria adaptação dos movimentos populares em curso.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Eventos na fronteira com Síria e Líbano buscam recolocar conflito entre Israel e palestinos no foco do Oriente Médio

Após os incidentes violentos na fronteira norte de Israel neste domingo, há uma série de teorias que envolvem, principalmente, o atual momento regional. Quando centenas de palestinos tentaram entrar em território israelense a partir de Síria e Líbano, militares do Estado judeu reagiram. A confusão ainda é muito grande e há versões diferentes sobre o que teria ocorrido a partir de então. Segundo o governo de Jerusalém, os soldados reagiram à invasão. Ainda de acordo com este relato, o exército libanês também teria tentado impedir que militantes palestinos atravessassem a fronteira para o lado israelense. Claro que, agora, Beirute nega tudo isso e garante que somente as Forças de Defesa de Israel teriam atirado.

Foto: fronteira entre Israel e Síria

Toda esta manifestação aconteceu na data oficial que marca a criação do Estado de Israel, em 1948. O que os israelenses chamam de Dia da Independência os palestinos qualificam como o Dia da Catástrofe (Nakba, em árabe). Todos os anos há manifestações anti-Israel não apenas em Gaza e Cisjordânia, mas também em diversos países árabes. Neste ano, havia especial expectativa quanto à ocasião devido às manifestações pró-democracia que ainda acontecem na região.

Sob este ângulo, é inclusive interessante notar que, ao contrário do que se tornou lugar-comum quando o assunto é a situação política no Oriente Médio, o conflito árabe-israelense – e o conflito entre israelenses e palestinos, em particular – não ocupa lugar de destaque nas manifestações que ficaram conhecidas como Primavera Árabe.

No tabuleiro político regional, os episódios de violência deste domingo envolveram quatro atores importantes e com vasto histórico de conflitos: israelenses, libaneses, sírios e palestinos. No caso de Síria e Líbano, é fundamental deixar claro que, quando se trata da disputa fronteiriça com Israel, é muito remota a possibilidade de movimentações não apenas espontâneas mas também desconhecidas do governo de Damasco, no caso sírio, e do Hezbollah, no Líbano. Não porque ambos nutram qualquer expectativa de normalização das relações com Jerusalém, mas porque percebem como estratégicas atitudes de atrito. Em relação à Síria, inclusive, vale dizer que, apesar de reivindicar as Colinas de Golã (onde os protestos deste domingo aconteceram e por onde palestinos tentaram atravessar para o interior do Estado de Israel) e se manter em beligerância com o país desde sua fundação, curiosamente esta é a fronteira que menos causa problemas às autoridades israelenses.

Portanto, pode até ter sido este o caso, mas acho pouco provável que a tentativa de cruzar a fronteira com Israel a partir de seus territórios tenha sido totalmente surpreendente para sírios e libaneses. Existe a possibilidade real de o governo de Damasco ter criado esta situação não apenas para desviar o foco dos protestos internos que tomam seu território há dois meses, mas também enviar um recado claro ao Ocidente: Assad está disposto a tudo para se manter no poder, inclusive criar uma guerra com Israel.

Esta teoria é interessante na medida em que assombra americanos, europeus e seus aliados por algumas razões: primeiro porque remete à incapacidade de sustentar dois fronts simultâneos no combate às ditaduras árabes (Khadafi permanece no cargo de presidente líbio, mesmo depois da ofensiva lançada pela Otan); segundo porque poderia insuflar toda a região e precipitar um embate militar com Irã (que certamente usaria seus aliados Hamas e Hezbollah na fronteira com Israel); terceiro porque uma nova guerra no Oriente Médio poderia minar a percepção positiva dos americanos quanto à política externa de Barack Obama.

Por mais surpreendente que seja, os eventos deste domingo servem aos palestinos de maneira limitadíssima. Se por um lado unem Hamas e Fatah (Autoridade Palestina) durante o processo de reconciliação entre os grupos e criação de um governo de união nacional, por outro podem colocar as ambições políticas deste mesmo governo em perigo. Como se sabe, a intenção da Autoridade Palestina (AP) é declarar unilateralmente o Estado palestino em setembro deste ano. Quando militantes palestinos invadem Israel a partir de fronteiras que sequer serão parte de qualquer acordo final entre israelenses e a AP eles dão argumentos somente ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu – que, por sinal, vai estar em Washington nesta semana e fará bom uso dos acontecimentos durante encontro com o presidente americano.

O que aconteceu neste domingo me lembra o imbróglio em torno do navio Mavi Marmara, em maio do ano passado. Naquela ocasião, a embarcação turca que tentou furar o bloqueio a Gaza se transformou numa vitória política para o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, para o Hamas e também colocou em foco o controle exercido por Israel sobre o território. Os eventos similares ocorridos no norte de Israel podem ter sido planejados com o objetivo de devolver ao conflito israelense-palestino o protagonismo político perdido nesses últimos meses. Só não se sabe, até agora, quem está por trás disso.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Vingança da al-Qaeda: forma de capitalizar a morte de Bin Laden

O dia de hoje marca a primeira etapa da anunciada vingança da al-Qaeda pela morte de Osama Bin Laden. E nada mais satisfatório, para os terroristas, do que matar 80 civis inocentes. Cidadãos comuns paquistaneses, pobres e sem escolaridade, pagaram com as próprias vidas para vingar a operação americana no Paquistão. Isso faz algum sentido? Para mim, certamente não.

O atentado tem a marca da al-Qaeda. Ou melhor, não há qualquer garantia de que a rede terrorista é, de fato, responsável direta pelo ataque. É confuso mesmo, mas dá para explicar. Como citei muitas vezes – e isso foi amplamente repetido pela grande imprensa nos dias seguintes à morte de Bin Laden –, elementos novos introduzidos pela al-Qaeda são os conceitos de descentralização e franquia aplicados ao terrorismo. Ou seja, basta realizar um atentado e comunicar que se trata de ato cometido por este ou aquele motivo (alinhados à luta antiocidental, especialmente antiamericana, claro), e pronto. Ninguém do alto-comando do grupo vai contestar ou desmentir. A “marca” da al-Qaeda já está impressa.

A maneira de espalhar a marca é bastante simples. No entanto, as manifestações populares do mundo árabe desvalorizaram seu discurso. De uma forma bastante eficaz, os dirigentes do grupo conseguiram enxergar na morte de seu líder uma possibilidade de reinvenção. Se os EUA tiveram enorme trabalho para ter sucesso na operação, é porque a al-Qaeda continua a ser a maior opositora americana. Esta é a premissa na qual seus dirigentes se apoiam para restabelecer algum grau de relevância internacional. A rede terrorista precisa buscar novos aliados, correligionários, simpatizantes e, finalmente, financiadores.

A equação é simples: quanto mais democracia, processo político e liberdade de imprensa, menos a al-Qaeda tem razão de existir. O assassinato de Bin Laden – ou o martírio, como a al-Qaeda tem se referido ao assunto – deu um sopro de vida ao grupo – por mais contraditório que isso pareça. Além disso, um dos objetivos é jogar a opinião pública paquistanesa contra o próprio governo do país. O raciocínio equivocado funciona da seguinte maneira: se Islamabad não tivesse se aliado a Washington, nada disso estaria acontecendo. Ou seja, procura colocar ainda mais pressão no já cambaleante gabinete do presidente Ali Asif Zardari.

E tudo isso acontece justamente no dia em que militares paquistaneses começam a se explicar no parlamento sobre as falhas internas que permitiram a Bin Laden permanecer incógnito nas proximidades da capital do país por tanto tempo. Nunca é demais lembrar que este é o atentado que mais matou neste ano. Os ataques terroristas realizados no Paquistão já tiraram a vida de mais de 4.350 pessoas em quatro anos.

Caso Makled: trama internacional ignorada no Brasil

Ontem escrevi sobre as circunstâncias altamente explosivas que cercam o julgamento do traficante Walid Makled Garcia. O relatório do IISS que acusa suposto relacionamento entre Venezuela, Equador e Farc é mais um elemento de pressão sobre Caracas. Por mais que a publicação das informações tivesse potencial para perturbar a aproximação entre os governos colombiano e venezuelano, autoridades dos dois países negam o clima de tensão. Não se trata somente de massagear egos presidenciais, mas de aplicar o velho realismo discutido por aqui. Basta dizer que o comércio bilateral caiu de 7 bilhões de dólares, em 2008, para somente 2 bilhões de dólares em 2010. E isso não é bom para ninguém. Nem mesmo para a revolução bolivariana conduzida por Hugo Chávez.

E agora vale examinar a posição americana. Por mais que há pouco o presidente Barack Obama tenha feito um giro seletivo pela América Latina, seu primeiro mandato vai terminar com a certeza de que, sob seu comando, os EUA ignoraram completamente a região. A única fonte de preocupação parece ser mesmo as aspirações político-ideológicas venezuelanas e a manutenção do relacionamento especial com a Colômbia. Até aí, nada diferente de Bush. Há promessas de aproximação e intercâmbio, como o próprio Obama deixou claro no discurso realizado no Rio de Janeiro.

E Washington não tem se feito de rogada na replicação das opções políticas para a América Latina. O Caso de Walid Makled Garcia é circunstancial. Como escrevi ontem, o traficante diz ter informação importante sobre a cúpula governamental venezuelana. E elas interessam demais aos EUA. Para se ter ideia, suas acusações a autoridades passam pelo general-chefe do país, o chefe do comando operacional, o comandante da guarda nacional e o diretor do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin). A segurança na corte de Justiça onde Garcia foi ouvido até esta quarta-feira foi reforçada (foto). Mas ele preferiu se manter em silêncio.

Suas acusações são gravíssimas e explicam por que os EUA fizeram de tudo para levá-lo. Em entrevista ao canal de TV espanhol Univisión, não deixou por menos e atirou sua metralhadora para todos os lados; segundo ele, autoridades da Venezuela facilitam o tráfico de drogas, disse que o país está envolvido na produção de cocaína junto com as Farc e afirmou que a milícia xiita libanesa Hezbollah atua livremente em território venezuelano e envia dinheiro aos correligionários no Oriente Médio. Garcia representa hoje nada menos do que o sonho de consumo americano para deslegitimar o governo de Hugo Chávez.

O traficante não é bobo. Se ele tem como provar as acusações é outra história. Mas fez tudo isso de forma a chamar ainda mais a atenção dos americanos porque sabe que estar preso nos EUA – com todos os privilégios de ser a principal arma viva contra Chávez – é muito melhor do que amargar um julgamento conduzido por parte do corpo oficial que acusa. Isso explica também porque optou por se manter em silêncio. O governo venezuelano, por sua vez, acusa o traficante de conspiração, lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e assassinato do jornalista Orel Sambrano e do veterinário Francisco Larrazábal. Esses são detalhes de uma trama internacional que a grande imprensa brasileira preferiu ignorar.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Divulgação de documentos reacende polêmcia sobre relacionamento entre Venezuela, Equador e as Farc

Finalmente temos um fenômeno similar ao Wikileaks aqui pela América Latina. Ao contrário, da organização de Julian Assange, que assumidamente se coloca como opositora aos segredos dos governos, o londrino International Institute for Strategic Studies (IISS) declara não se posicionar sobre o assunto. Mas, a dor de cabeça causada pela publicação de um relatório de 240 páginas contendo revelações sobre o relacionamento da alta-cúpula governamental de Venezuela e Equador com as Farc torna absolutamente irrelevante a maneira como o instituto se coloca politicamente. A divulgação das informações colhidas na pesquisa já causou pânico, revolta e ansiedade aos envolvidos.

O ponto que certamente causa mais polêmica é a origem dos dados. Segundo o IISS, uma parte importante das revelações foi obtida a partir do laptop de Raúl Reyes, ex-dirigente das Farc morto em março de 2008 durante uma operação militar colombiana no Equador. Para quem não se recorda do episódio, a escalada dos acontecimentos naquele período quase detonou um conflito militar entre Colômbia, Equador e Venezuela (Caracas considerou a ação um atentado à soberania equatoriana ordenada pelos EUA).

Agora, o primeiro ponto de discussão é a autenticidade dos documentos. A contestação inicial gira em torno das acusações de que o computador de Raúl Reyes foi destruído durante o ataque, portanto não haveria nenhuma possibilidade de recuperar as informações.

Além dos óbvios problemas causados por esta divulgação, este é um momento importante para os interesses no continente. Colômbia e Venezuela passam por um período de reaproximação após os anos de desgaste entre Hugo Chávez e o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe. E este estreitamento de relações já frutificou num fato isolado, mas com potencial explosivo. A captura do criminoso venezuelano Walid Makled Garcia (foto). Acusado por tráfico de drogas pelas autoridades venezuelanas, Garcia foi preso na Colômbia. O pedido de extradição foi feito pela Venezuela e – surpresa! – também pelos Estados Unidos. Estranho, certo?

O traficante está na Venezuela desde segunda-feira. Houve, no entanto, uma grande batalha jurídica e política entre Washington e Caracas por sua extradição. Mas por que um simples traficante causou tanto alvoroço? Porque Walid Makled Garcia diz ter provas contundentes do envolvimento de altos funcionários do país com o narcotráfico. O criminoso poderia dar início a discussões ainda mais profundas em Washington sobre novas formas de abordagem à Venezuela. É possível que o relacionamento entre Chávez e o atual presidente colombiano, Juan Manuel Santos, tenha melhorado a partir da extradição de Garcia. Não deixa de ser uma prova de boa vontade – nem que seja simplesmente um gesto que impede mais uma dor de cabeça ao presidente venezuelano.

A publicação das informações pelo IISS pode reacender um debate que já teve muitas idas e vindas nos EUA. Não acredito em planos de intervenção na América do Sul, mas em sanções direcionadas a Chávez. Passou despercebido por aqui, mas, no último dia 4, uma proposta de resolução foi apresentada à Câmara dos Representantes americana: a de incluir a Venezuela na lista de países que patrocinam o terrorismo. Ela segue agora para apreciação do Comitê de Política Externa.