segunda-feira, 30 de maio de 2011

A abertura da passagem de Rafah, o novo Egito e o terremoto político do próximo mês de setembro

Finalmente, há mudanças “on the ground” no conflito entre israelenses e palestinos. O termo em língua inglesa é usado com frequência para se referir ao concreto, ao que realmente acontece no terreno. Pois é. Este é um daqueles momentos-chave na geopolítica regional. Neste sábado, o governo interino egípcio decidiu abrir a fronteira do país com Gaza. Esta é uma simples formalidade, uma vez que, desde o episódio da frota turca que tentou furar o bloqueio ao território no meio do ano passado, a passagem de Rafah já estava aberta. Em 2010, mais de 130 mil palestinos atravessaram para o lado egípcio. Neste ano, somente desde o início das manifestações populares no país, cerca de 30 mil pessoas entraram no Egito a partir de Gaza.

A institucionalização da abertura da fronteira é importante porque ela tem caráter político bastante simbólico. O governo de transição tem se mostrado uma grande incógnita e isso inclui também suas opções internacionais. Já acenou com a possibilidade de restabelecer laços com o Irã, mas também garantiu ao governo de Israel que não romperia o acordo de paz assinado em 1979. Está muito claro, no entanto, que a cúpula temporária do país se dá conta do poder que detém: o Egito é hoje a esperança ocidental de mudança no Oriente Médio. Se logo no início da Primavera Árabe as potências ocidentais se calaram devido à aliança histórica que mantinham com o presidente deposto Hosni Mubarak, o Egito está presente hoje em todos os discursos que mencionam o fenômeno político. EUA e União Europeia anunciaram grandes pacotes de ajuda econômica porque esperam transformar o país num exemplo de sucesso de democracia, liberdade de imprensa, estabilidade e empreendedorismo.

A abertura da passagem de Rafah causa certo temor ao Ocidente não pelo fato em si, mas pelo o que ele pode representar. É muito claro que a medida foi adotada como agrado às demandas da Irmandade Muçulmana – grupo que marcava a oposição a Mubarak e que está na origem do Hamas. O governo transitório egípcio prefere dar este passo e não repetir opções adotadas pelo regime Mubarak (que até final de maio do ano passado mantinha estrito controle sobre a fronteira com Gaza, de forma a satisfazer as exigências ocidentais e de Israel) porque sabe que é mais importante não comprometer a própria reputação ou se opor claramente aos anseios dos cidadãos comuns (certamente solidários aos palestinos). E aí é preciso entender os eventos que em breve devem marcar a história do Oriente Médio.

O mês de setembro de 2011 está repleto de acontecimentos importantes. Menciono com certa frequência a intenção da Autoridade Palestina (AP) de declarar a criação unilateral do Estado palestino na Assembleia Geral da ONU justamente em setembro. Este é o tipo de evento que certamente mudará a realidade da região. Mas não é o único. Neste mês também estão planejadas eleições parlamentares no Egito. Espera-se que o governo interino dê sequência ao processo transitório. Ninguém sabe quais serão os resultados, mas certamente o Egito será um país diferente, com novos parlamentares, partidos políticos e governo. O mundo inteiro estará ansioso para entender o novo perfil político do país porque toda a dinâmica regional estará em jogo: o acordo de paz com Israel, os interesses iranianos, o papel da Irmandade Muçulmana. E tudo isso ao mesmo tempo em que, possivelmente, o Estado palestino estiver em formação. Todos os movimentos políticos ocidentais de hoje levam isso em consideração.

Além disso, é preciso dizer que, na prática, a abertura formal de Rafah provoca um resultado curioso. Com a passagem entre o país e o Egito institucionalmente liberada, Cairo decreta o fim do bloqueio israelense ao território. Se aos israelenses a ausência de controle sobre a fronteira egípcio-palestina pode causar muito desconforto, a medida também alivia em algum grau a pressão internacional sobre o Estado judeu. No entanto, é interessante perceber que, apesar disso, grupos militantes palestinos não abrem mão de levar adiante o projeto de chegar a Gaza por via marítima, como no ano passado. Planejada para chegar ao território no final de junho, a versão 2011 da empreitada político-midiática contará com 1.500 pessoas de 100 nacionalidades diferentes a bordo de 15 embarcações.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Desdobramentos políticos da captura de Mladic na Sérvia

A captura de Ratko Mladic é o tipo de evento que acaba sendo bom para todo mundo. Na certeza da interdependência dos atores internacionais – aliados ou não –, a ação Sérvia que culminou na prisão do responsável diretamente pela morte de oito mil muçulmanos serve a muitos interessados: nada melhor à União Europeia, neste momento, que ganhar legitimidade como defensora dos direitos humanos diante dos protagonistas da Primavera Árabe. O mesmo raciocínio pode ser aplicado aos EUA, país com histórico de participação direta na guerra dos Balcãs.

E, claro, a Sérvia finalmente optou pelo pragmatismo. Por mais que nacionalistas ainda cultivassem certo apreço por Mladic, o governo de Belgrado tem partido em busca de ascensão política e econômica. Isso inclui, por exemplo, a tentativa de estabelecimento de algum grau de relação com Kosovo. A prisão desta quinta-feira foi manchete em todo o mundo. E as consequências só são positivas à Sérvia. Matéria do britânico Financial Times informa que o Dinar sérvio teve valorização de 1% em relação ao Euro; as bolsas de valores subiram imediatamente 1,2%. E esses foram apenas os primeiros desdobramentos da ação.

Há um silêncio constrangedor sobre o entorno desta prisão. Mladic não estava propriamente desaparecido como muita gente pode entender a partir da leitura das matérias jornalísticas. As autoridades sérvias decidiram dar fim à encenação rapidamente em nome do pragmatismo. Porque acima de um eventual orgulho nacional ferido está a ambição do país de fazer parte da União Europeia. E o jogo político também tem suas muitas encenações. A mais recente delas, no caso específico das demandas sérvias, aconteceu nesta semana mesmo. Um relatório “vazado” pelo promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional de Haia, Serge Brammetz, dizia que a Sérvia se recusava a cooperar na busca pelo homem mais procurado dos Balcãs. Se divulgado oficialmente, o texto seria interpretado como sinal de que o país não compartilhava dos valores da União Europeia. Um abraço para as pretensões locais.

Não é por acaso que Mladic foi “encontrado” dias após este vazamento. Belgrado colocou suas opções na balança e escolheu o único caminho possível. A simbiose desta situação é curiosa. A Sérvia precisa da UE tanto quanto o bloco precisa de uma injeção de protagonismo e relevância. Tampouco foi ocasional o anúncio da captura durante a realização do G8. O mundo dos membros do G8 e da UE é exatamente o mesmo do Tribunal Penal Internacional. Todas essas instituições e atores representam a opção pela inflexibilidade diante de massacres e arbitrariedades. Deixar isso claro justamente durante a Primavera Árabe é uma maneira muito assertiva de se colocar ao lado dos valores defendidos pelas manifestações populares. Esta simbiose, portanto, inclui este vértice recente e poderoso.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

G8: Eurocopa política

Criado em 1975 inicialmente para reunir as seis maiores economias do mundo naquela época, o G6 se transformou em G8 – e se consolidou como tal – em 1997, quando seus membros admitiram a entrada da Rússia. Desde então, o grupo conta com França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, EUA, Canadá e Rússia. O encontro que se inicia nesta quinta-feira, na cidade costeira francesa de Deauville, é, no entanto, uma aberração. Não pela conferência ou devido às muitas discussões entre os líderes desses países, mas pela própria existência do G8.

É curioso notar o apego dos governos ao G8. Aliás, curioso não é o termo mais preciso. Seria melhor dizer sintomático, quase natural. Quando os principais representantes deste velho mundo transatlântico se encontram num aconchegante resort francês eles simplesmente demonstram a insistência em negar o óbvio: nem Europa, nem EUA podem monopolizar as regras da política e – menos ainda – da economia. Por mais estonteante, emblemático e glamoroso que tais reuniões sejam, elas hoje têm muito menos impacto do que no século 20.

Na verdade, a própria reunião atual tem dentre seus principais objetivos retomar parte da importância perdida por americanos e europeus (o Japão entre no bolo como representante deste velho mundo). É por isso que há muito simbolismo político; os países pretendem discutir de tudo: economia, ajuda mútua, invasão à Líbia, auxílio aos governos que emergiram da Primavera Árabe, o processo de paz no Oriente Médio. Tudo gira em torno de reconquistar protagonismo nesses tempos de ascensão política e econômica dos países em desenvolvimento.

O problema é que será preciso mais que discurso para mostrar alguma importância. Uma medida importante seria aportar valorosos pacotes financeiros no Egito e na Tunísia – apenas para começar. Esta é a ideia de Barack Obama – apresentada, inclusive, no discurso sobre o Oriente Médio de semana passada. Esta mesma iniciativa foi defendida publicamente pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy. A questão é que todos os membros europeus do G8 estão quebrados financeiramente ou atravessam momentos de profunda crise e austeridade. Vai ser difícil convencer as populações desses países quanto a real necessidade de um grande repasse deste tipo justamente agora.

A edição deste ano do G8 contou com as participações dos sócios e criadores do Google e Facebook para debater a importância política da internet. Esta é uma evolução incontestável, sem a menor dúvida. E também é uma leitura correta sobre as rápidas mudanças da dinâmica atual. Os Estados nacionais estão longe de representaram os únicos atores geopolíticos relevantes. O G8 acerta ao reconhecer o óbvio. O problema é que esta interpretação da realidade não se estende ao resto. Excluir China, Índia e Brasil de qualquer discussão mundial torna o resultado do fórum incipiente. Para fazer uma comparação esportiva, o G8 é como uma Copa do Mundo sem Brasil e Argentina. Aliás, isso já existe, chama-se Eurocopa. Nada é por acaso.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A possível próxima guerra no Oriente Médio

O discurso de Benjamin Netanyahu fez sucesso entre os congressistas americanos. E ponto. Por mais que a pressão agora esteja com os palestinos, é preciso ser claro e dizer que não, a Autoridade Palestina (AP) não vai se sentir ameaçada pelo apoio dos EUA a Israel. Na prática, isso significa que Mahmoud Abbas e o Fatah não sentem nenhuma urgência em retornar à mesa de negociações. Por duas razões: a primeira delas é óbvia; a maior parte do que o primeiro-ministro israelense disse ontem em Washington não agrada nem um pouco às lideranças palestinas. Não é porque Bibi deixa claro mais uma vez a posição da direita e de sua coalizão sobre os refugiados palestinos que a AP irá voltar atrás em suas demandas em relação a assuntos tão sensíveis. A outra razão é ainda mais importante para o futuro da região. Os palestinos sabem que o tempo corre contra Israel.

O plano de Benjamin Netanyahu de incluir os principais blocos de assentamento no interior das fronteiras definitivas de Israel talvez agrade aos EUA. Obama deixou claro na semana passada que considera as linhas existentes antes da Guerra dos Seis Dias como base do início de discussões – “com trocas de território mutualmente acordadas entre as partes”, como disse. Para os palestinos, no entanto, as fronteiras de 1967 devem representar não apenas o ponto de partida dos diálogos, mas a própria fronteira. Este é um dos grandes problemas envolvendo as discussões. É o tipo de discordância que gera uma cascata de outras questões. Certamente, nenhuma liderança palestina atual está disposta a negociar este item, principalmente após os vazamentos promovidos pelo Wikileaks – que, para a sobrevida de Mahmoud Abbas e Saeb Erekat, porta-vozes históricos das ambições de seu povo, tiveram repercussão limitada graças à Primavera Árabe.

Já são conhecidas as intenções políticas da AP no futuro próximo. Os palestinos pretendem ir à Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro, e declarar a criação unilateral de seu Estado. Isso vai acontecer. E as palavras de Benjamin Netanyahu no discurso ao Congresso americano e mesmo o apoio dos EUA a Israel terão importância limitada frente ao fato concreto: a maior parte dos países da ONU irá apoiar a demanda palestina. A resolução não irá passar no Conselho de Segurança, mas certamente será aprovada na Assembleia-Geral. A discussão em torno da independência palestina não irá somente sensibilizar a comunidade internacional, mas receberá amplo apoio popular em todo o mundo. Ela será tomada como uma espécie de solução internacional do problema, um ato de justiça. E aí questões importantes regionais irão surgir. Questões que serão muito problemáticas na prática ao governo de Israel.

A primeira delas – e a mais urgente – dirá respeito aos assentamentos judaicos na Cisjordânia e a presença militar israelense nesta região. Com a efetivação de um Estado palestino, o exército de Israel será considerado força de ocupação estrangeira, entidade responsável pela violação da soberania palestina. E a partir daí ninguém sabe qual será a reação do corpo oficial político palestino. Se as forças de segurança se transformarão no aparato militar pronto para expulsar os colonos violentamente ou se representantes oficiais deste novo país levarão a questão novamente às Nações Unidas. O que se sabe é que Israel ficará ainda mais isolado politicamente – mais isolado do que jamais esteve em toda a sua história. O Estado palestino e a comunidade internacional que apoiou sua constituição irão considerar a ocupação israelense inaceitável. A partir deste ponto, todas as opções estarão sobre a mesa: inclusive porque um ataque palestino aos colonos será considerado por Israel uma declaração de guerra. E essas são apenas as consequências de curto prazo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Benjamin Netanyahu joga a bola para o lado palestino

Menos de uma semana após o discurso sobre o Oriente Médio proferido por Obama no Departamento de Estado, foi a vez de o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, dar o troco. E o clima de revanchismo criado pela imprensa foi tão grande, que as expectativas sobre as posições de Bibi aumentaram ainda mais. Houve uma conjunção de elementos que transformaram o discurso de hoje num evento histórico; a interpretação equivocada – proposital ou não – das palavras do presidente americano e, consequentemente, a tensão depositada na resposta oficial israelense. Claro que o líder do Estado judeu sabia disso. E claro que usou a situação a seu favor. Para completar, fez seu pronunciamento ao Congresso enquanto Obama está fora do país.

E Netanyahu abusou de sua habilidade retórica. Diante de representantes democratas e republicanos, foi interrompido 26 vezes pelos aplausos da audiência. E educadamente não apenas respondeu ao presidente americano, mas contestou diante da elite política do país suas afirmações sobre as fronteiras de 1967. Como escrevi no dia mesmo do polêmico discurso de quinta-feira passada, Obama não disse nada de tão controverso assim. Simplesmente verbalizou o plano que tem sido levado adiante por todos os presidentes americanos desde os anos 1990. Mas ninguém prestou atenção quando ele disse que as fronteiras pré-1967 deveriam ser tomadas como base da discussão e que defende trocas mútuas e acordadas de território.

Se Obama conseguiu provocar uma manchete com seu discurso, Netanyahu não deixou por menos. Ofereceu à imprensa internacional uma série de alternativas. Jerusalém não será dividida, os refugiados palestinos deverão retornar para o interior das fronteiras do futuro Estado palestino, Israel não aceitará negociar com o governo palestino que inclua o Hamas etc. Essas são posições históricas do premiê e plenamente conhecidas. Mas há trechos com algumas novidades que mostram um primeiro-ministro disposto a oferecer algo a Obama. Por exemplo, disse com todas as letras estar disposto a aceitar um Estado palestino; reconheceu que, assim como os judeus, os palestinos também precisam de um país. Além disso, deixou claro que alguns assentamentos deverão ser removidos (“Como líder, é minha responsabilidade conduzir meu povo à paz. Não é fácil porque reconheço que numa paz verdadeira deveremos abrir mão de partes da terra ancestral judaica”).

A declaração sobre os assentamentos é especialmente difícil por conta da base aliada que o sustenta no cargo de primeiro-ministro. Possivelmente, será cobrado pelos partidos religiosos de sua coalizão. Netanyahu foi particularmente sagaz ao jogar a bola para o lado palestino. Ele poderia ter prometido o que fosse hoje. Poderia ter aceitado dividir Jerusalém ou mesmo que três milhões de refugiados palestinos (o número inclui filhos, netos e bisnetos dos deslocados a partir da guerra de 1948) recebessem cidadania israelense, não importa. O fato é que, ao deixar claro novamente que não aceita negociar se a Autoridade Palestina fechar acordo de coalizão com o Hamas, ele compartilha o fracasso do processo de paz com os palestinos. E, mais ainda, deposita grandes expectativas e pressão sobre o presidente Mahmoud Abbas (“desfaça o pacto com o Hamas, sente-se e negocie, faça a paz com o Estado judeu; se fizer isso, eu prometo não apenas que Israel será o primeiro país a reconhecer um Estado palestino nas Nações Unidas, mas será também o primeiro país a fazer isso”).

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Obama vai à Europa em busca da popularidade perdida

O giro europeu iniciado hoje por Obama é o tipo de excursão necessária em quase todos os aspectos. Há muitos assuntos vitais a serem discutidos e, além disso, a agenda presidencial inclui, também, certo tom de aquecimento para as próprias eleições americanas do ano que vem. Historicamente, ainda é recente a imagem impressionante de milhares de alemães saudando o então candidato Democrata no discurso de Berlim, em 2008. Se houve queda nos índices de aprovação entre os cidadãos americanos, a popularidade de Obama continua em alta do outro lado do Atlântico: 70% dos europeus consideram bom o seu mandato à frente da maior potência mundial.

 
Este é o tipo de prestígio que pode ser aproveitado de alguma maneira. Não se sabe exatamente qual o impacto nos EUA de tamanha aceitação internacional, mas não custa nada dar uma força e recriar novas imagens da Obamamania. Elas serão úteis durante a campanha, sem qualquer dúvida. Há outras questões importantes para o momento atual. Estar na Europa é ter a oportunidade de abordar de frente, por exemplo, a situação das tropas aliadas no Afeganistão.

Como se sabe, a política externa americana não é o tipo de assunto capaz de comover os cidadãos comuns do país (o caso afegão é diferente porque os soldados dos EUA que estão lá são filhos, netos, maridos etc). Mas esta viagem tem forte apelo aos europeus.

A reafirmação da solução esperada por Obama para o conflito palestino-israelense teve grande repercussão no continente. Não apenas isso; as palavras do presidente americano foram muito bem recebidas porque se encaixam plenamente no imaginário criado pelo público europeu do que seria uma liderança justa de Washington; e também porque no discurso do Oriente Médio houve uma grande preocupação quanto os termos usados. Obama fez questão de dizer que conta com o Quarteto (além dos EUA, o grupo é formado por Nações Unidas, União Europeia e Rússia) para seguir em frente com o processo de paz. Este é o tipo de declaração que os europeus esperam do presidente americano.

O tour também é útil como uma espécie de fuga doméstica. Após a polêmica causada pelo discurso para o Oriente Médio e do desgaste em torno do encontro com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu – eventos que mobilizaram a imprensa dos EUA –, vale a pena dar um tempo de uma semana (uma viagem considerada longa para os padrões históricos do presidente) e mudar o foco das discussões pelo menos por ora.

Especificamente, a visita à Irlanda apresenta alguns aspectos curiosos: como cerca de 40 milhões de americanos têm ascendência irlandesa, uma boa recepção na terra original de tantos eleitores pode ter algum impacto positivo. E mais: a descoberta que um tataravô de Obama atravessou o Atlântico em busca do sonho americano reafirma a própria identidade cultural do presidente. Vale lembrar que ele teve que apresentar sua certidão de nascimento para provar que, de fato, é cidadão do país nascido em território dos EUA (no caso, o Havaí).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Processo de paz no Oriente Médio: uma análise menos óbvia sobre as palavras de Obama

A imprensa mundial optou pelo caminho óbvio ao analisar o discurso de Obama sobre os acontecimentos recentes do Oriente Médio. Esta obviedade é representada pela fixação internacional no conflito palestino-israelense. É uma pena. O presidente americano abordou tantos assuntos importantes e interessantes que insistir no mais do mesmo é sintoma da falta de criatividade ou, ainda pior, revela a completa e voluntária incapacidade de interpretar todo o resto. Optei por não seguir a maioria e escrevi o texto desta quinta-feira com a certeza de que havia muito mais a considerar.

No entanto, a curiosidade generalizada e as muitas dúvidas, repercussões e equívocos em torno da abordagem de Obama sobre o conflito me obrigam a retomar o tema. Seria ingenuidade de minha parte ignorar o momento geopolítico. Como escrevi ao longo desta semana, há clara tentativa de retorno ao cotidiano anterior às manifestações populares árabes. E essa rotina sempre destacou o protagonismo do conflito palestino-israelense.

Após o discurso desta quinta-feira surgiu um clima de surpresa pela verbalização da defesa da instituição das fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias, em 1967, como base de um acordo de paz definitivo. É inexplicável a confusão provocada pelas palavras de Obama. Pode ter sido a primeira vez que um presidente americano se expressou com tal clareza, pode ter sido também a primeira vez que o assunto foi exposto assim de forma tão pragmática e direta, mas o estabelecimento de fronteiras definitivas entre Israel e o futuro Estado palestino ao longo das linhas anteriores a 1967 está longe de ser novidade. Não levar isso em consideração transparece uma amnésia quanto a posturas de diferentes presidentes dos EUA desde os anos 1990.

Para quem não se lembra, em 1993, o então primeiro-ministro israelense Itzhak Rabin e o líder palestino Iasser Arafat assinaram os chamados Acordos de Oslo – que contaram com a mediação do ex-presidente americano Bill Clinton. A cena histórica do aperto de mão nos jardins de Camp David dava início a medidas práticas importantes: a criação da Autoridade Palestina (AP), organismo que passava a legítima representante das posições e interesses palestinos. A AP passava a responder por negociações que pretendiam, finalmente, criar um Estado palestino no território que ela formalmente controlaria a partir de então. E adivinhem qual era este território? Justamente Gaza e Cisjordânia. Ambos ainda eram – e no caso da Cisjordânia isto ainda é uma realidade – ocupados por Israel. Porque ambos foram conquistados pelo Estado judeu após a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Há reações negativas sobre o discurso. A mais óbvia, a do Hamas, condena as palavras do presidente americano simplesmente porque a organização sequer reconhece o direito de Israel existir. Isso é tão fora de propósito que não vale nem a pena se estender sobre o assunto. Israel existe e ponto. Não há nada a fazer sobre isso e este tipo de reação apenas serve para reforçar a intransigência (o termo menos inapropriado a ser usado) representada pelo grupo.

Do ponto de vista israelense, o assunto rende mais complexidades. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não esperava que Obama definisse explicitamente as linhas anteriores à guerra de 1967 como as fronteiras entre os dois territórios. A insatisfação de Bibi é fácil de ser explicada. Como há cerca de 400 mil judeus em assentamentos na Cisjordânia, retirá-los de lá e realocá-los em Israel seria um problema para o primeiro-ministro de Israel. Um grande problema. Mas não apenas por questões ideológicas, longe disso. O sistema político de Israel exige maioria no parlamento. Como os partidos que apoiam Netanyahu são justamente favoráveis à manutenção dos assentamentos, a sustentação de seu gabinete gira em torno disso também. Basta que Bibi aceite a proposta de Obama para perder o cargo de primeiro-ministro. Na prática, Obama colocou uma bomba-relógio no colo do israelense.

Há rumores confiáveis que dão conta de que o presidente americano não tem lá muito apreço pelo aliado israelense. Ontem mesmo reportagem noturna do New York Times informava que assessores de Obama comentam que ele considera Netanyahu alguém incapaz de alcançar a paz. Na prática, no entanto, ambos se completam em seus propósitos políticos, de certa maneira.

Obama precisa recuperar a influência entre os países árabes. Nada melhor do que entrar em choque com Israel. Um choque moderado, claro. Benjamin Netanyahu precisa se opor a Obama para justificar sua aliança política doméstica. O problema é que este tipo de estratégia tem prazo de validade. No caso do americano, ele certamente gostaria de apresentar avanços no processo de paz. Afinal de contas, esta é uma expectativa mundial depositada sobre o presidente que supostamente representa a “mudança”.

Nada melhor que, após o assassinato de Bin Laden, ter como trunfo algo de concreto a apresentar durante a campanha presidencial em que busca a reeleição (mesmo que este seja um assunto menos caro ao eleitorado dos EUA). E Benjamin Netanyhau está em péssima situação: o relógio está correndo e os palestinos têm o tempo a seu lado. Em setembro, pretendem declarar independência unilateralmente. E, se esta iniciativa de fato ganhar apoio internacional – e meu palpite é que isso deve acontecer –, Bibi (e qualquer outro que o suceda no cargo, para ser bem sincero) terá muita dificuldade de retomar qualquer negociação de paz (este é assunto para um texto posterior mais aprofundado).