segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Liga Árabe ameaça suspender a Síria

A Liga Árabe anunciou que pretende suspender a Síria da organização se até quarta-feira o governo de Bashar al-Assad não acabar com a violência contra os manifestantes populares, retirar seus blindados das cidades, libertar prisioneiros políticos e começar a dialogar com a oposição. É pouco provável que tantas mudanças aconteçam neste breve período de tempo. O que é importante ressaltar nisso é a própria decisão da Liga Árabe, um gesto político pouco comum de uma instituição que, sob seu “guarda-chuva”, aglutina outros Estados que infringem os direitos humanos tanto quanto a Síria.

É claro que esta decisão é digna de nota, principalmente porque demonstra um posicionamento positivo. Afinal de contas, apesar das inúmeras contradições intrínsecas à organização, não se pode esquecer que se trata de uma manifestação favorável não apenas à população comum da Síria, como também aos muitos manifestantes em diversos pontos do mundo árabe. No entanto, o poder de pressão da Liga Árabe é limitado. Diante da real e provável possibilidade de o regime Assad não atender às exigências, o que poderá ser feito? Nada, para ser bastante franco. Os exércitos árabes não se mobilizarão para conter o presidente sírio e sua matança de civis que, segundo a ONU, já tirou a vida de 3,5 mil pessoas desde março deste ano.

Num cenário mais amplo e estratégico, a quase unânime condenação a Damasco (com a aprovação de 19 dos 22 países-membros) está relacionada também à batalha silenciosa (cada vez menos silenciosa, diga-se de passagem) entre Estados sunitas e xiitas da região. Os sunitas – Egito, Qatar, Jordânia, Arábia Saudita, para citar os mais relevantes – disputam com os xiitas e seus aliados – Irã, Síria, Hamas e Hezbollah – a liderança do Oriente Médio. Já tratei deste assunto inúmeras vezes por aqui, mas é sempre importante retornar a ele na medida em que boa parte dos assuntos se relaciona a esta oposição mais ampla. A Liga Árabe e sua decisão de condenar a Síria acaba por deixar esta disputa ainda mais evidente.

Aliada ao Irã, a Síria é um dos atores regionais mais importantes do Oriente Médio. Por seu poderio militar e posição geográfica estratégica, é também um dos que causam maior preocupação. Ao colocar os sírios contra a parede, a Liga Árabe também acaba, por consequência, expondo a situação de impasse que se configura: uma ofensiva militar ocidental para derrubar Assad causaria grandes estragos regionais e transformaria a guerra retórica existente entre sunitas e xiitas num conflito de fato. Os acontecimentos que se sucederiam a partir do início de uma eventual iniciativa como a que derrubou Kadafi na Líbia são tão previsíveis que, sem medo de errar, apresento-os agora: em alguma ordem – ou talvez até simultaneamente –, o Irã atacaria a frota americana estacionada no Golfo Pérsico; a Síria mobilizaria o Hezbollah no Líbano para bombardear a fronteira norte de Israel; e, possivelmente, o Hamas lançaria mísseis em direção ao sul do território israelense.

Por tudo isso, EUA, Israel, União Europeia e a Otan não estão dispostos a pressionar Assad militarmente.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Por que é difícil aceitar os argumentos do Irã

A primeira resposta do governo iraniano ao relatório divulgado pela AIEA foi a mais óbvia de todas: deslegitimar a agência, claro. O argumento é até bastante válido. Para Teerã, o organismo é “politicamente motivado”. Esta é até uma posição que pode seduzir os mais inocentes e faz algum sucesso internacional. O que não se pode esquecer, no entanto, é que qualquer grupo ou entidade exerce sempre manifestação política sobre qualquer assunto. A própria ONU é um ator político internacional. Por que a AIEA – uma de suas agências – não seria?

Não se pode é, por conta desta conclusão óbvia (ela mesma uma manifestação política, diga-se de passagem), invalidar o relatório apresentado. Se a AIEA é uma instituição politicamente motivada, é bom lembrar que esta mesma instituição que o Irã tenta deslegitimar foi a maior opositora à invasão americana do Iraque, em 2003. Há menos de oito anos, ela manteve sua posição firme de que as armas de destruição em massa de Saddam Hussein se tratavam apenas de uma invenção do ex-presidente George W. Bush para justificar a nova ofensiva. Na época, quem contestou a posição da AIEA? Pois é.

O programa nuclear iraniano atrai a preocupação de boa parte do mundo por culpa mesmo de seus próprios governantes. Ora, este é o mesmo regime que não desperdiçou nenhuma oportunidade de afirmar publicamente o desejo de “varrer Israel do mapa”. Se é bravata ou mera provocação, não faz nenhuma diferença, sinceramente. Como se pode exigir que um membro da ONU aceite que outro membro da ONU que sempre fez questão de demonstrar tais intenções obtenha armamento capaz de transformar tal manifestação em realidade?

Acredito que Israel faria oposição às ambições nucleares do Irã mesmo se Ahmadinejad fosse menos radical em suas posições. Isso por conta da doutrina israelense de defesa sobre a qual comentei nesta quarta-feira. No entanto, este seria um assunto muito menos polêmico. Há alguns jornalistas e comentaristas que tentam relativizar a situação. É difícil compreender seus pontos de vista. Trabalham com uma lógica torta de que Teerã simplesmente quer entrar para um “clube” do qual já fazem parte outras potências nucleares. Seria uma espécie de direito de igualdade. Isso não faz o menor sentido. Em primeiro lugar porque a tendência é de diminuição dos arsenais nucleares, não de corrida para obter ainda mais armamento; em segundo porque o Irã não está ameaçado por qualquer outro país com arsenal atômico (diferente dos vizinhos nucleares Índia e Paquistão, por exemplo).

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Revelações sobre programa nuclear do Irã colocam todo mundo em maus lençóis

O relatório divulgado no final da tarde desta terça-feira (horário de Brasília) pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) simplesmente confirmou com mais dados e informações o que todo mundo já sabia: o programa nuclear iraniano tem fins militares. Este é o tipo de evento que divide não apenas os países, mas as próprias estratégias a serem adotadas a partir de agora. Como um leitor comentou no meu último post sobre o assunto, “não fazer nada não é uma opção”. Ele está certo. E esta certeza compartilhada pela União Europeia, EUA, Israel e até pelos Estados árabes sunitas é que muda o jogo definitivamente.

Estão lançadas algumas das pergunta que tiram o sono de boa parte dos líderes mundiais: como impedir o Irã de obter armamento nuclear? O mundo está disposto a aceitar que o regime de Teerã dê este salto estratégico? No caso específico de Israel, o Estado judeu conviveria com esta nova realidade?

Pois é, não são questões fáceis de serem resolvidas. E certamente envolvem Israel e EUA e os posicionamentos de seus respectivos governos. Do ponto de vista israelense, a doutrina de segurança determinante a todas as decisões do país é até bastante simples de ser compreendida: nenhum inimigo regional ou ator que represente alguma ameaça pode estar em condições de igualdade ao Estado judeu. Isso porque a história israelense não permite que o país corra o risco de perder algum confronto. No caso específico do Irã, acho que ninguém contesta seus “atributos” de inimigo e ameaça a Israel, certo?

Diante desta realidade, Jerusalém tem na prática que escolher entre duas opções muito difíceis: atacar o Irã – mesmo sem o apoio dos EUA e da comunidade internacional, se for este o caso – ou abrir um precedente único e histórico em sua doutrina de segurança e conviver com a sombra de um regime liderado por Khamenei e Ahmadinejad aditivado por uma bomba atômica capaz de mandar Israel pelos ares num aperto de botão. Para ser bastante franco, os israelenses não vão correr este risco. Se Teerã não interromper seu programa nuclear de uma maneira ou de outra, os iranianos serão impedidos militarmente e, se necessário, unilateralmente.

A discussão nos EUA neste momento diz respeito à disposição de Barack Obama de levar a sério esta iniciativa. Assim como abordei este assunto na última sexta-feira, muita gente tem feito o mesmo. A variável das eleições no ano que vem tem sido citada, claro. Eu concordo com ela e também me aprofundei nesta questão, inclusive. Possivelmente, a Casa Branca vai tentar de todas as formas convencer os membros do Conselho de Segurança da ONU, por um lado, e Israel, de outro, de que as medidas são fundamentais e capazes de frear o planejamento do Irã.

A tendência mesmo é que os israelenses esperem por algum período até tomar alguma atitude. O problema é que este prazo não é indefinido e talvez novembro do ano que vem seja tempo demais. E aí caberá a Obama uma das questões mais complicadas enfrentadas por um presidente americano nos últimos tempos: atacar o Irã, aumentando os gastos em tempo de crise ao iniciar uma nova guerra no Oriente Médio; ou não fazer nada e correr o risco de passar à história como o líder que colocou a própria existência do Estado de Israel em risco.

Irã nuclear: aviso aos leitores

Em meio a tantas questões internacionais igualmente importantes, optei por dedicar o texto desta quarta-feira ao relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) com novas revelações sobre o programa nuclear iraniano. A escolha segue uma lógica editorial, uma vez que os assuntos relacionados ao Oriente Médio têm sempre destaque por aqui. Mais tarde, publicarei o post.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Se a crise grega se aprofundar na Itália, o euro correrá mais riscos do que nunca

O primeiro-ministro grego, George Papandreou, topou o jogo político do possível e pediu demissão. Um governo de coalizão deve ditar os rumos da Grécia a partir de agora. No entanto, há uma grande contradição nisso tudo: o próximo líder do país será nada mais do que uma figura representativa dos interesses da União Europeia. Afinal, não há opções a serem feitas, mas é preciso armar um teatro de conformidade capaz de enfiar goela abaixo da população as mais duras medidas restritivas já vistas. A verdade é uma só: em menos de uma década, a Grécia passou de país mais rico do balcãs a protagonista da crise que pode dar fim à UE como a conhecemos hohe.

Foto: Berlusconi tem uma bomba nas mãos pior do que qualquer um de seus muitos escândalos

A ideia é cortar de cara 50% dos débitos. Mas, mesmo este corte inicial está longe de resolver os problemas. A redução em 100 bilhões de euros ainda mantém a dívida em 256 bilhões de euros. Assim, contraditoriamente, a ajuda que o país receberá ao aprovar o pacote de medidas restritivas passa como trocado. O plano prevê que este furacão político será recompensado pela liberação da parcela inicial de oito bilhões de euros. Em perspectiva, tudo soa mais trágico, não?

Aos gregos, o euro sofreu uma grande transformação. A moeda era vista como o passaporte de igualdade no bloco, a senha que confirmaria um caminho de desenvolvimento e oportunidade. Agora, no entanto, para manter o euro, os gregos precisam abrir mão do mínimo de qualidade de vida. Para ser bastante franco, acho que é muito claro que há uma geração grega perdida. Ou emigram ou levarão uma vida muito ruim por tempo indeterminado.

A próxima “vítima” dos mercados deve ser a Itália. A tendência é que a crise se espalhe e se aprofunde por mais países. O caso italiano, porém, deve ser ainda mais grave. A visão em perspectiva ajuda novamente. Todo este problema na Grécia será mínimo se comparado à Itália. A economia grega é responsável por apenas 2% do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro. Já a Itália é a terceira maior economia do bloco, atrás apenas de Alemanha e França. Se o governo de Roma não for capaz de conter esta onda de crise, o euro estará seriamente em risco.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A guerra com o Irã e o dilema de Obama

Num desses telejornais noturnos que encerram o ciclo de notícias e análises do dia vi uma explicação de um professor brasileiro sobre a eventual ofensiva ao Irã. Segundo sua posição, Israel teria interesse nesta guerra de forma a acabar com seu próprio isolamento diplomático. Por mais que respeite as muitas teorias que se criam em torno de uma possibilidade militar como esta em questão, não concordo com ela. E por razões bastante simples, que tem a ver com o texto publicado por aqui nesta quinta-feira: ora, por mais que as alianças internacionais israelenses estejam enfraquecidas, a vida do país não está parada ou ameaçada (pelo menos não é esta a situação que se possa enxergar num curto prazo).

Já uma guerra aberta com os iranianos representa problemas sérios e práticos – dentre eles, inclusive, o risco de Teerã lançar armas atômicas sobre o Estado judeu. Tenho certeza absoluta que, por mais doloroso aos líderes israelenses este isolamento internacional, jogar com a própria existência do país para reforçar laços não é uma estratégia inteligente ou que faça algum sentido. E, ora, estamos falando de um governo conduzido por Benjamin Netanyahu e pelo ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman. Se as alianças internacionais de Israel tivessem sido prioridade em algum momento desde 2009, este governo teria tido outra atitude em praticamente todas as questões que dizem respeito à política externa. Como se sabe, não foi este o caso.

Agora, conforme prometido, alguns dados importantes sobre prazos que podem vir a determinar o período deste eventual – e fatal – confronto militar: um aspecto fundamental diz respeito à produção de armamentos do Irã. Segundo especialistas militares, em dois anos o país terá obtido seu sistema de mísseis balísticos. Além desta questão prática, há também os interesses políticos que correm em paralelo. Em novembro do ano que vem, o presidente Obama concorrerá à reeleição e precisará apresentar resultados positivos aos cidadãos-eleitores americanos. Na área internacional, dará ênfase à retirada praticamente completa dos soldados do Iraque, à derrubada de Kadafi, na Líbia, ao assassinato de Bin Laden e à acomodação no Afeganistão.

A partir daí, é preciso uma leitura um pouco mais aprofundada. Há duas opções em jogo: não fazer nada até as eleições, dando ainda mais prazo aos iranianos; ou entrar numa nova guerra no Oriente Médio – possivelmente, a mais complexa e arriscada delas. Se análise fosse aposta, eu apostaria que o presidente americano optará por novas sanções, freando qualquer ímpeto militar das lideranças políticas em Israel. Isso porque mandar mais americanos para morrer no exterior é o tipo de ordem que pode ameaçar de verdade o projeto de reeleição de Obama. No entanto, a situação do presidente é complicada mesmo. Se não fizer nada e de fato Teerã obter armamento nuclear a ser usado contra Israel, será acusado com veemência pelos republicanos. Afinal, este é o tipo de evento que altera a balança regional e coloca os israelenses pela primeira vez numa situação de empate com um vizinho declaradamente inimigo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Na guerra de EUA e Grã-Bretanha com o Irã, Israel é o país que tem mais a perder

O programa nuclear iraniano está de volta às manchetes. Isso porque a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) deve liberar, na próxima semana, um novo relatório com evidências de que a República Islâmica está, de fato, bem perto de produzir armamento atômico. Ao contrário do que as autoridades de Teerã afirmam, os fins não seriam pacíficos, mas militares. Segundo o britânico Telegraph, uma das principais informações deste documento a ser divulgado dá conta de que os iranianos estariam transportando urânio enriquecido das instalações de Natanz para Fordow (foto de satélite), próxima à cidade de Qom; o que causa ainda mais suspeita é o fato de esta base estar localizada no subsolo e revestida por material capaz de resistir a bombardeios.

Este é o início da retomada das discussões, é o detonador que inicia todos os demais movimentos. Segundo o jornal britânico Guardian, a nova exposição da AIEA deve ser um “game-changer”, ou seja, as informações serão tão contundentes que mudarão o cenário atual. Apesar de quatro rodadas de sanções aprovadas no ano passado, a organização deve provar com informações incontestáveis que os iranianos continuam a buscar armamento nuclear. A partir daí, caberá aos países que pretendem impedir o sucesso do Irã buscar outras opções.

À frente desta empreitada estão EUA e Grã-Bretanha. Entre os britânicos, inclusive, há certa animação para atacar o Irã. O Ministério da Defesa já trata, em linhas gerais, de como será esta guerra. Poucos soldados em terra e uso intenso das forças aéreas e navais. A frota já estuda os melhores pontos de ataque para o lançamento de mísseis Tomahawk. Mas onde fica Israel nessa história? É bom deixar claro que o Estado judeu é o maior interessado no assunto, sob todos os pontos de vista a serem analisados.

Israel é o país a que o Irã se refere como o que “deve ser varrido do mapa”. Israel é único que fica no Oriente Médio e alvo principal das provocações verbais iranianas; o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é a figura política internacional a enumerar sempre que pode as ameaças iranianas, levá-las a sério e, também, mostrar entusiasmo quando se cogita a possibilidade de um ataque às bases nucleares da República Islâmica. No entanto, atacar o Irã também significa pôr um enorme alvo no território israelense, nas representações do país no exterior e nas comunidades judaicas espalhadas pelo mundo.

Por tudo isso, esta é a grande discussão do momento em Israel. E, claro, não há unanimidade. Pesquisa encomendada pelo jornal Haaretz mostra uma divisão profunda: 41% dos entrevistados apoiam; 39% são contrários. Há ainda 12% de indecisos. Esta indecisão nacional é fruto de uma retroalimentação com o alto-escalão de poder. Enquanto Netanyahu e o ministro da Defesa, Ehud Barak, aparentam ânimo de frear as ambições nucleares iranianas militarmente, os que executariam tal tarefa mostram cautela. Figuras-chave da área de segurança e do exército não querem fazer o serviço. Pelo menos, não agora.

Se a britânicos e americanos uma guerra com o Irã acarretaria críticas internacionais, os israelenses teriam muito a perder na prática. A retaliação de Teerã seria pesada, uma vez que os mísseis de que dispõem alcançam qualquer cidade de Israel. Além disso, seus aliados na fronteira com o Estado judeu certamente iriam agir; o Hezbollah, na fronteira norte, e o Hamas, no sul. Entre todos os atores envolvidos num eventual ataque, Israel sem nenhuma dúvida receberia os danos mais graves. Mas há outros fatores que talvez empurrem o Oriente Médio para mais uma guerra. Este é um assunto para o texto desta sexta-feira.