terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A tensão entre EUA e Irã

Os elementos de atrito entre EUA e Irã não param de aumentar. Ainda não está claro o quanto se trata de bravata de ambas as partes, mas a situação lembra um pouco a Guerra Fria: ameaças, disputa por influência, articulações e busca por alianças. Até antigos slogans foram resgatados. Aliás, de uns tempos para cá, a política internacional voltou a adquirir esta roupagem vintage. O termo “Guerra Fria” já vem sendo usado no Oriente Médio para nomear a batalha cada vez menos silenciosa entre sunitas e xiitas (e entre sauditas e iranianos, mais especificamente).

No caso particular da “Guerra Fria” entre americanos e iranianos, o presidente Mahmoud Ahmadinejad tenta a todo custo escapar dos efeitos das sanções internacionais – cuja aplicação tem sido abertamente coordenada pelos EUA. É preciso perceber a estratégia de Washington como um jogo de gato e rato para frear as ambições nucleares da República Islâmica. É claro que o cerco ao programa nuclear do Irã tem efeito limitado, uma vez que há alternativas comerciais além das transações com o Ocidente (a União Europeia deve aderir também): Índia, China e outros grandes compradores asiáticos devem prosseguir com a importação de petróleo, dando um respiro à economia iraniana.

Os passos estratégicos em curso neste momento mostram como o governo Ahmadinejad decidiu agir. Escrevi na semana passada que a América Latina representava uma alternativa de escape. E por isso o presidente do Irã optou por visitar parceiros no continente (Venezuela, Nicarágua, Cuba e Equador). É uma tentativa de viabilizar a manutenção econômica do país diante das restrições que estão por vir. Mas não se trata somente de aprofundar acordos já existentes. A ideia iraniana é aplicar o mesmo padrão ideológico de sua política externa para fugir das sanções.

Ou seja, estabelecer relação com líderes latino-americanos que têm em comum uma péssima relação com Washington representa uma busca por um verniz ideológico às ações iranianas. Assim, Ahmadinejad procura dar legitimidade a seu programa nuclear numa escala global, transformando-o numa arma internacional contra o “imperialismo americano”. O presidente iraniano percebeu que este discurso ainda tem seu público – principalmente na América Latina. E se os EUA têm no continente um espaço de atuação histórico, este tipo de atitude acaba por se transformar numa espécie de enfrentamento direto ao poderio político norte-americano. Diante deste quadro, a dúvida é saber como irá terminar esta escalada de ações, discursos e empreendedorismo nuclear.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

As novas diretrizes americanas

A nova estratégia militar americana divulgada pessoalmente pelo presidente Barack Obama certamente será mais um tema-chave da campanha presidencial. Os cortes são bastante expressivos. A ideia é que representem 8% da verba de defesa atual e que totalizem 487 bilhões de dólares ao longo dos próximos dez anos. É claro que os republicanos são contrários. Seus pré-candidatos levantam bandeiras que estão absolutamente na contramão das intenções de Obama. Algumas das propostas dos últimas dias dão conta de um aumento dos gastos de defesa de maneira permanente, acréscimo de 100 mil soldados no efetivo e até invasões terrestres em Síria e Irã.

O recuo estratégico de Obama vai além das obviedades das restrições econômicas que os EUA enfrentam. Representa também uma tentativa de retorno a seu passado recente, quando apareceu de maneira fenomenal no cenário político americano e internacional como uma possibilidade de mudança real. Nos últimos quatro anos, o presidente atuou de forma mais convencional do que se esperava. Por isso, deixou para o final da festa a sua versão reloaded: o fim da Guerra do Iraque – por mais que a guerra continue, os soldados americanos deixaram o país – e, finalmente, essas novas diretrizes.

Nada disso foi planejado desde o começo, é bom dizer. As circunstâncias contribuíram para este posicionamento. Por exemplo, a intenção inicial dos EUA era deixar mais tropas no Iraque, mas o parlamento iraquiano barrou essas expectativas. No caso do novo orçamento de defesa, a crise econômica juntou as partes soltas. Para completar, a ascensão chinesa e a possibilidade real de os EUA ficarem cada vez mais distantes dos negócios e do acesso ao Mar do Sul da China estão no centro desta nova estratégia. Obama não é bobo e, diante do quadro cada vez mais favorável à China, optou por realocar soldados e equipamentos militares. Para que manter 80 mil homens na Europa se o centro do comércio mundial está cada vez mais estabelecido na Ásia?

Eu não escrevi errado. A estratégia militar não está de nenhuma maneira desvinculada das ambições econômicas. Justamente porque o eixo se deslocou para a Ásia e os americanos enfrentam a lenta recuperação da crise, os EUA não querem deixar a região nas mãos dos chineses pura e simplesmente. O problema é que Beijing naturalmente percebe as pretensões americanas e se sente ameaçada. Tanto que, após a divulgação do orçamento de defesa, a Xinhua, agência de notícias oficiais da China, divulgou nota que deixa claro a posição do país: “o militarismo american pode colocar a paz em risco”. A mensagem está bem clara, certo?

Em breve analisarei esta nova postura de Obama com maior profundidade. Até porque se trata de uma tentativa de fortalecimento da imagem idealizada do presidente americano às vésperas das eleições.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A ingrata situação do Irã

Na segunda-feira, escrevi sobre o conturbado início de ano para o Irã. A situação está cada vez pior para o governo de Mahmoud Ahmadinejad, uma vez que a pressão internacional sobre seu programa nuclear só tem aumentado. Além das sanções impostas em 2011, o presidente Barack Obama ordenou restrições ao Banco Central iraniano, o que afunda ainda mais o regime de Teerã, restringindo suas movimentações comerciais e econômicas.

O rial, a moeda do Irã, já atinge 35% de desvalorização e, apesar das declarações oficiais de Mahmoud Bahmani, diretor do BC local, de que o país tem reservas para mais de seis meses, a vida das pessoas comuns está ruim, muito ruim. Enquanto nas ruas os cidadãos fazem o que podem para obter moeda estrangeira, a marinha continua a realizar exercícios estratégicos no Estreito de Ormuz. Como escrevi, o assunto é tratado como grande trunfo contra as sanções, mas vale dizer que a parte sul da passagem é reconhecida como “águas internacionais” e, portanto, o trânsito de embarcações civis é garantido.

Se fechar todo o Estreito de Ormuz, o Irã perderá a legitimidade de seu discurso. E, nunca é demais lembrar, os iranianos tratam legitimidade como questão estratégica: questionam a movimentação de navios americanos no Golfo, a ocupação israelense de territórios palestinos e buscam a sua própria para justificar a corrida pela hegemonia regional. Ou seja, a República Islâmica está envolvida numa daqueles situações ingratas: se não fizer nada, sua economia afunda; se lançar mão de seu único trunfo, perderá a legitimidade internacional, o que isolará ainda mais o país; e, para piorar, a única alternativa aceita pelo Ocidente é o recuo em seu programa nuclear, o que representaria a maior derrota política do governo Ahmadinejad.

Por conta disso tudo, os iranianos há algum tempo articulam alianças externas distintas. Os acordos de comércio assinados com os países latino-americanos são parte desta estratégia de escape. Tanto que a TV oficial iraniana já declara que a “cooperação com a região é prioridade para o regime”. Se este tipo de atuação poderia em tese representar um respiro diante das pressões, o momento em que o Irã vai precisar dela é problemático. Justamente o ano eleitoral nos EUA. Por mais que os americanos tenham praticamente abandonado a América Latina nos últimos quatro anos, qualquer atividade mais profunda dos iranianos no continente será notada. Principalmente pelos republicanos. E, para azar das autoridades da República Islâmica, os oficiais americanos ainda não engoliram o suposto contato entre membros da força Quds e gangues de narcotraficantes mexicanos no plano frustrado de assassinato do embaixador saudita em Washington, em outubro passado.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2012: o novo embate entre EUA e Irã

O ano de 2012 começa com um assunto para lá de velho: as ambições nucleares iranianas e a incapacidade ocidental de encontrar meios para lidar com esta questão. Se o tema é batido, também é sistemática a maneira como Teerã conduz o jogo. Se com uma mão o governo de Ahmadinejad acena com a possibilidade de cooperar, com a outra procura enviar mensagens beligerantes a EUA e Israel. Nesta semana, assim como já ocorreu tantas vezes, a República Islâmica realiza exercícios militares no Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde em 2011 passaram 17 milhões de barris de petróleo por dia – quantidade equivalente a um terço da produção mundial.

Além de exibir seus mísseis de médio e longo alcances, o Irã ameaça fechar o Estreito de Ormuz em resposta às novas sanções contra seu programa nuclear. Num momento de crise profunda na Europa e de lenta recuperação da economia americana, este seria um golpe bastante significativo e que agravaria a situação no Ocidente. Se levarmos em conta a mínima racionalidade dos atores envolvidos, particularmente não acredito que os iranianos lancem mão deste recurso. Não porque nutram grandes sentimentos pelos países ocidentais, muito pelo contrário, mas porque esta estratégia serve mais como trunfo político do que como medida prática. Ela não resolve os problemas domésticos e ainda isolaria ainda mais o país, dando, inclusive, novos elementos aos EUA.

No entanto, este ano de 2012 promete acrescentar novos capítulos a este lenga-lenga. Uma das principais fontes de embates e discussões certamente será externa ao Irã. A campanha presidencial americana vai ser duríssima. E desde já o Irã é um dos focos dos debates na área de política externa. Se Obama pode se vangloriar da saída dos militares do Iraque e do assassinato de Bin Laden, os republicanos vão atacar o presidente com o prosseguimento do programa nuclear iraniano. O tema é especialmente doloroso a Barack Obama porque nos últimos quatro anos ele de fato não conseguiu encontrar meios de resolver este assunto. Não usou a temerária opção do ataque militar, nem tampouco encontrou argumentos capazes de solucionar este impasse através de negociação.

Para azar do presidente americano, seu “colega” israelense Benjamin Netanyahu conta com suas próprias armas retóricas: tem interesse em maximizar as discussões sobre o Irã para ganhar tempo nos assuntos regionais e adiar o máximo que puder uma solução definitiva com os palestinos; tem amplo acesso aos círculos políticos nos EUA e é admirado por boa parte dos congressistas em Washington; e, para completar, mantém péssima relação com Obama – ou seja, não hesitará em atuar nos bastidores para prejudicá-lo. Para Netanyahu (não para Israel, é bom deixar claro), o melhor que pode acontecer é a eleição de um presidente republicano. A sorte de Obama é que nenhum dos pré-candidatos do Partido Republicano possui minimamente a sua capacidade retórica. No entanto, é bom que fique atento às atitudes do governo de Ahmadinejad. Até porque o presidente iraniano sabe de seu poder neste período eleitoral e fará de tudo para chamar a atenção de forma a obter ganhos políticos e materiais.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

2011: um ano para entrar na História

Está na hora da virada do ano. E não se pode dizer que 2011 seja um desses anos que passarão batidos pela História humana. Definitivamente, este é um daqueles momentos em que pudemos notar as páginas sendo escritas. E o que torna tudo muito único e especial é que os acontecimentos se tornaram populares. Não apenas os protagonistas da maior parte deles são, em sua maioria, pessoas comuns, mas também os consumidores de informação globais são pessoas comuns.

O fato mais relevante foi, sem dúvida, a Primavera Árabe. Como escrevi ao longo dos posts, a tal “revolução” ainda não se concretizou. É, por ora, apenas um clichê bacana adotado pela imprensa internacional. Ninguém pode prever o destino do mais populoso dos países árabes, o Egito, mas o que aconteceu por lá reverberou regional e globalmente. Foi a primeira vez que manifestantes não filiados a partidos ou movimentos islâmicos tomaram as ruas exigindo a queda do regime, democracia, liberdade, eleições limpas e, principalmente, oportunidades para construir um país mais justo. A Praça Tahrir se transformou em símbolo da indignação popular mundial e também do constrangimento das potências ocidentais.

Afinal de contas, os mesmos países que consideravam as ditaduras árabes do Oriente Médio e do Norte da África como fato consumado – e se aliaram a elas, vale lembrar – tiveram de dar meia-volta e se expor diante de todo o mundo. E por conta disso o presidente Barack Obama decidiu invadir a Líbia. É claro que houve manifestações populares por lá também. E é claro que Kadafi deu aos rebeldes o tratamento padrão destinado aos opositores. E este foi seu maior erro. A guerra travada contra os próprios cidadãos se transformou na justificativa perfeita para os EUA embarcarem no bonde certo da Primavera Árabe. Assim, com mais dificuldade do que se imaginava, a coalizão que armou rebeldes, promoveu ataques aéreos e acabou por criar um modelo de intervenção quase antiséptica, derrubou Kadafi e entregou a Líbia numa bandeja de prata a sabe-se lá quem. Entre os rebeldes há de tudo um pouco: ex-membros do próprio governo Kadafi, representantes das tribos líbias e até jihadistas islâmicos.

No ano de 2011 o mundo assistiu a um fato raro; os acontecimentos da rua árabe influenciaram movimentos similares no Ocidente: os indignados na Espanha, na Grécia e até o movimento Occupy Wall Street, em Nova Iorque (que por sua vez rendeu outros tantos protestos populares em diversas cidades americanas). Esta é uma mudança importante que mostra também a grande virada que já está em curso: a do eixo de poder internacional. Se as potências ocidentais não deverão deixar de usufruir de poder global, as graves crises econômicas nos EUA e na Europa forçaram um recuo desses países. E as circunstâncias acabaram muito favoráveis aos emergentes, principalmente ao Brasil, que termina 2011 com a notícia de impacto global de ter tomado da Grã-Bretanha a sexta colocação no ranking das maiores economias do planeta. Definitivamente, este foi o ano de grandes e profundas mudanças de paradigma.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O novo colapso do Iraque

A série de atentados cometidos nesta quinta-feira no Iraque é ruim para todo mundo. Pelo menos para aqueles que pretendem encontrar alguma forma de acomodação política no país que seja capaz de permitir a seus cidadãos algo parecido a uma vida normal. Depois de Saddam Hussein e das milhares de mortes e perdas materiais ocorridas durante o período de presença das forças americanas, as pessoas comuns estão cansadas, muito cansadas. Quando atentados coordenados voltam a matar centenas de civis, como aconteceu nesta quinta, a população teme por um retrocesso significativo. Quem já perdeu demais conhece os sinais de uma tragédia iminente. Se os ataques terroristas já representam por si só catástrofes humanitárias óbvias, fica também o alerta de que a estrutura nacional construída a duras penas está novamente ameaçada.

E isso somente quatro dias depois de as tropas dos EUA deixarem oficialmente o Iraque. Na raiz dos problemas atuais a velha conhecida divisão sectária entre sunitas e xiitas. Se este é o dilema geopolítico mais amplo de todo o Oriente Médio, é no instável território iraquiano que ele revela sua faceta mais conturbada. Nos anos de Saddam Hussein a minoria sunita (cerca de 20% da população) era beneficiada pelo ditador. Com a queda de Saddam, os sunitas foram os principais insurgentes a combater a coalizão anglo-americana por motivos óbvios. Eles temiam o que poderia acontecer se o país fosse comandado pela maioria xiita (60% dos iraquianos).

De forma muito sagaz, Washington buscou um modelo político que pudesse abrandar as rivalidades, dando representação a todos os principais setores nacionais. Os xiitas ficariam com o cargo de primeiro-ministro, os curdos, com a presidência, e os sunitas, com a vice-presidência. E assim foi feito. Aliás, este é um projeto que bem ou mal funciona no Líbano. No caso iraquiano, os sinais de que algo iria dar errado já eram percebidos durante o duro processo de formação do governo, que por meses deixou o país num vazio político. Por fim, o xiita Nuri al-Maliki assumiu a liderança, tendo o sunita Tareq al-Hashemi como vice-presidente.

O principal bloco político sunita, o Iraqiya, acusa Maliki de tentar tomar todo o poder para si. Por isso, seus membros abandonaram o parlamento no último sábado. Agora um adendo externo: o primeiro-ministro é apoiado politicamente pela maior potência xiita do Oriente Médio, o Irã. Em meio ao embate geopolítico entre as alianças de Estados sunitas e xiitas, transformar o Iraque em aliado – com o poder nas mãos exclusivamente dos xiitas – é o melhor cenário para os iranianos. Ainda mais neste momento em que o país de Mahmoud Ahmadinejad e Ali Khamenei está em desvantagem numérica. Do ponto de vista da população sunita – que, obviamente, não está alheia aos acontecimentos externos –, impedir tal aliança parece ser a única alternativa para evitar o que ela imagina que pode se transformar numa grande vingança xiita pelos anos de privilégios concedidos aos sunitas durante o regime de Saddam Hussein.

Agora, de volta ao Iraque. O primeiro-ministro Nuri al-Maliki pôs o vice Tareq al-Hashemi na ilegalidade. Acusando-o de ter participação num atentado contra membros do governo há cinco anos, Maliki determinou sua prisão. Hashemi fugiu para Erbil, capital da região curda autônoma no norte do país. Portanto, é preciso dizer claramente: o governo iraquiano está em colapso. As rivalidades sectárias entre sunitas e xiitas estão formalmente de volta ao tabuleiro menos de uma semana depois da partida dos soldados americanos. Num olhar mais amplo e que leva em conta a situação internacional, o Iraque hoje está no centro das disputas. Isso porque as províncias de maioria populacional sunita (Anbar, Diyala e Salahuddin) passaram a reivindicar autonomia política. Para completar, Anbar faz fronteira com a Síria, cuja maior parte da população é sunita, e, assim que Bashar al-Assad cair, deve se aliar formalmente aos sunitas iraquianos.

Se o Iraque de fato for fracionado – e esta é uma possibilidade real – a guerra sectária que tomou conta do país voltará a acontecer. E, desta vez, será ainda pior porque os diversos interesses regionais se manifestarão com mais força no território iraquiano: os sunitas apoiados por Arábia Saudita e o eventual novo Estado sírio; e os xiitas apoiados pelo Irã. E este é apenas o cenário mais restrito do novo confronto que está por vir.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Os próximos passos de Coreia do Norte, EUA e China

Mais além da morte de Kim Jong-il está um dos confrontos silenciosos mais importantes do mundo de nossos dias: a batalha retórica entre China e EUA. Aliás, nem tão retórica assim. Os dois países respondem pelas duas maiores economias do planeta e competem não apenas por influência – esta é uma questão menos relevante aos chineses, mais preocupados com mercados do que com simpatizantes –, mas pela posição de liderança no ranking econômico internacional.

Antes de entrar no mérito de como a Coreia do Norte é sujeito desta história, uma pequena explicação que considero fundamental: sou adepto da teoria de George Friedman, fundador e presidente do Stratfor, o principal instituto privado de análise política dos EUA. Grande parte dos estudiosos e mesmo a imprensa costumam ignorar o papel do comércio no jogo geopolítico. Pode parecer discurso do século 18, mas não é. Escoar produção ainda continua a ser peça-chave de nossos tempos. E, para isso, é preciso ter acesso ao mar. E ninguém supera até hoje os americanos em seu privilegiado posicionamento geográfico que permite controlar o Atlântico e o Pacífico – e, além disso, as empreitadas militares e políticas ainda deram aos americanos a capacidade de manter presença no Golfo Pérsico, principal centro exportador de petróleo.

O problema deste início de século 21 é que o centro do comércio mundial está mudando. Com a China à frente da economia, a Ásia passou à região estratégica também sob o ponto de vista comercial. E quem controla o Mar da China? Esta grande movimentação representa uma ameaça à soberania comercial americana, justamente num momento de profunda crise. Por isso os EUA têm buscado reforçar suas posições na região. Em novembro passado, o presidente Obama fez visita oficial aos aliados na Ásia. Algumas das decisões anunciadas neste giro regional são o envio de 2,5 mil marines para a Austrália, o fortalecimento da cooperação militar com as Filipinas e o deslocamento de navios de combate a Cingapura. Está claro o que isso significa, certo?

Agora sim, de volta à Coreia do Norte. O vácuo deixado por Kim Jong-il deve ser observado dentro deste contexto. Como escrevi na segunda-feira, a morte do “Querido Líder” é um evento ainda inconcluso. Ou seja, as correntes de interpretação levantam a bola em duas direções opostas: oportunidade de abertura ou aprofundamento do regime de silêncio, paranoia e espionagem interna. Sinceramente, acredito que a balança tende mais à segunda possibilidade. Isso porque a China tem muito interesse nisso. E é, de fato, a única com algum poder de influência sobre Pyongyang. Os chineses são responsáveis por 90% do investimento no país e respondem por 80% do comércio da Coreia do Norte. Na prática, são os únicos que estão com os pés por lá.

Ex-diretor para assuntos asiáticos da Casa Branca, Victor Cha extrapola e cogita, inclusive, a possibilidade de a China anexar a Coreia do Norte, tornando-a mais uma de suas províncias. Não me arrisco nesta previsão, mas acredito mesmo que Beijing se fará ainda mais presente no país –

menos por interesses humanitários e econômicos e mais para evitar qualquer presença ostensiva americana. Por falar nisso, não duvidem que esta janela de oportunidade para reforçar os laços asiáticos de Washington se aprofunde nos próximos meses. E este discurso da Casa Branca pode passar a assumir contornos mais concretos de duas maneiras: defendendo a reunificação das Coreias – sob liderança dos governantes da Coreia do Sul, claro – ou defendendo uma intervenção militar por conta das frustradas negociações em torno do programa nuclear norte-coreano (considero esta possibilidade a mais remota).