quinta-feira, 19 de julho de 2012

Atentado na Bulgária: cenário de insegurança aos israelenses pode ser mais um elemento de instabilidade no Oriente Médio


O atentado cometido nesta quarta-feira contra um ônibus repleto de turistas israelenses na Bulgária é estranho. O principal ponto de questionamento é o fato de, pelo menos até agora, nenhum grupo terrorista ter assumido a responsabilidade. Ao contrário do que talvez muita gente possa imaginar, a autoria deste tipo de assassinato coletivo de civis é motivo de orgulho para esses grupos, não o contrário. Na lógica perversa do Oriente Médio, episódios como o desta quarta-feira são justificados como parte de lutas de libertação e outros motivos tortos. 

Atentados terroristas são sempre condenáveis. Por mais que venham embalados em argumentos, lutas nacionais, esforços de libertação etc, assassinar civis nunca merece qualquer relativização. É uma forma de atuação simplesmente inaceitável. 
O que aconteceu na Bulgária pode, inclusive, mudar o cenário regional mais amplo no Oriente Médio. É o tipo de ação que deixa o governo israelense em busca de respostas. E já há quem afirme que o episódio pode marcar uma mudança profunda na postura de Israel, levando o país a tomar atitudes mais drásticas. 

Esta é a opinião de John Bolton, ninguém menos que o ex-embaixador dos EUA na ONU e atual conselheiro para assuntos internacionais de Mitt Romney, candidato republicano à presidência americana. A verdade é que o atentado na Bulgária é representativo demais: ocorreu justamente na mesma data em que, 18 anos atrás, terroristas explodiram a AMIA, instituição importante da vida comunitária judaica na Argentina. As investigações do governo argentino apontam indícios da participação iraniana neste caso; e o principal suspeito, o general Ahmad Vahidi, é hoje ministro de Defesa do Irã. 

Os últimos dois anos têm sido especialmente movimentados para os serviços de segurança israelenses. Foram frustrados atentados contra alvos de Israel na Turquia, Grécia, Azerbaijão, Tailândia e Quênia. Na semana passada, autoridades do Chipre disseram ter desarticulado um plano conjunto de Irã e Líbano para atacar turistas israelenses em visita ao país. Por maiores que sejam os esforços de Jerusalém, é impossível dar segurança a todos os cidadãos no exterior. E se este raciocínio se estender às comunidades judaicas, então realmente sempre haverá alvos mais fáceis fora do território israelense. 

O ministro da Defesa Ehud Barak, o das Relações Exteriores Avigdor Lieberman, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o presidente Shimon Peres foram unânimes na afirmação de que o Irã está envolvido no atentado na Bulgária. Segundo esta versão, a milícia xiita libanesa Hezbollah teria agido sob os auspícios de Teerã. Num contexto mais amplo, a instabilidade na Síria pode por no colo do Hezbollah o armamento das forças de Bashar al-Assad (caso o presidente-ditador seja deposto num futuro próximo). Esta é a teoria de Jerusalém agora e que tem sido contestada por Washington. As autoridades de Israel teriam consultado os americanos sobre a possibilidade de agir na Síria antes de o armamento ser enviado ao Líbano do Hezbollah. Os EUA não concordam e tentam impedir Israel. 

A minha teoria é que, depois do que ocorreu na Bulgária, Netanyahu vai insistir em tomar uma atitude. Principalmente se ficar claro que os iranianos estão mesmo envolvidos até o pescoço nisso. Os outros atentados contra alvos israelenses no exterior puderam ser evitados ou tiveram consequências menos graves. A morte de seis turistas é diferente. Principalmente porque representa neste momento a exacerbação de duas instabilidades: a regional e a do exterior. Vale lembrar que segurança é a maior obsessão do gabinete israelense. Ver o país afundado em incertezas regionais e a população em frequente ameaça em território internacional é o tipo de marca que, definitivamente, este governo não quer deixar.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Se a al-Qaeda tomar a Síria, o jogo regional no Oriente Médio muda por completo


É certo que a al-Qaeda está atuando na Síria. E várias das “franquias” do grupo terrorista: a al-Qaeda do Iraque e também sua versão conhecida como al-Qaeda da Península Arábica. Em jogo a vitória geopolítica que envolve não apenas a derrubada do regime alauíta de Assad e seus aliados xiitas, mas a também a desconstrução do próprio Estado sírio e da aliança xiita entre Síria e Irã. 

A vitória do grupo terrorista sunita serve a interesses de grupos distintos: ao eixo sunita – representando principalmente pelas monarquias do Golfo Pérsico e o Egito – apoiado pelos EUA e, parece, pelo Turquia – cuja posição de independência estratégica fez com que seu governo se aproximasse, neste momento, do Ocidente. Se Assad cair, este poderá ser o golpe fatal nas pretensões dos xiitas – leia-se, Irã. 

Ao contrário do que se imagina, a queda do Irã através da derrubada de Assad não atende, necessariamente, às expectativas de Israel. Se a situação de impasse entre israelenses e sírios existe desde a fundação do Estado judeu, em 1948, trata-se, no entanto, de um impasse relativamente tranquilo. Israel e Síria não desfrutam de relações de qualquer natureza, muito pelo contrário. No entanto, a fronteira síria é a mais calma, do ponto de vista israelense. Há pouca movimentação e o que existe, na prática, é uma espécie de acordo silencioso. 

Para Israel, Bashar al-Assad é um ditador que se opõe à própria existência do Estado judeu. Mas ele não representa uma ameaça real e, ao menos, os serviços de inteligência israelenses já o conhecem profundamente. Seus movimentos são monitorados e o perigo que as forças sírias representavam em tempos de estabilidade no país era próximo de zero. Mas se o presidente-ditador for deposto e o Estado sírio entrar em colapso, esta situação muda por completo. E, mais ainda, se a Síria se transformar num posto avançado da al-Qaeda, é bem provável que a fronteira entre o país e Israel volte a ser o lugar movimentado de outros tempos, exigindo esforços de segurança e inteligência por parte de Jerusalém. 

Vale o exemplo egípcio. Até hoje ninguém sabe quais serão as diretrizes deste novo país – isso porque Mubarak foi deposto pelos militares, houve eleições e, bem ou mal, as instituições do Egito continuam a existir. Imagine se a Síria se transformar num novo Iêmen? Ou numa nova Somália? – dois dos frágeis Estados que acabaram entrando em colapso muito por conta da atuação da al-Qaeda. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Na Síria, mais um capítulo da disputa entre sunitas e xiitas


É impossível fazer qualquer análise sobre o Oriente Médio sem levar em consideração as distinções religiosas. A situação na Síria seria resolvida com muito mais facilidade se não fosse por este importante entrave. É ele que está no centro do atual impasse e não se pode imaginar qualquer solução que ignore este assunto. Até agora, nenhuma dos planos ocidentais conseguiu ser criativo o bastante para lidar com a guerra civil de fato na Síria – e, mais ainda, com o conflito étnico-religioso que tomou o país. 

A minoria alauíta, da qual a família de Assad faz parte, controla o governo. Num país de maioria sunita, os Assad se cercaram de outro grupo minoritário, os xiitas, para conduzir o país. Ao contrário do que aconteceu no Egito, onde os militares pularam fora da aliança com Mubarak e, sem romantismos, conseguiram derrubá-lo, os postos estratégicos do exército sírio são ocupados por militares xiitas. Bashar al-Assad foi mais esperto que seu colega egípcio e criou uma estrutura capaz de defendê-lo no caso de uma grave crise institucional, como esta que ocorre agora. 

Do outro lado, a pressão dos grupos sunitas é enorme. Eles estão por toda a parte nos ataques a Assad. Oficialmente – os governos de Arábia Saudita e das monarquias do Golfo Pérsico – e ilegalmente: os combatentes que integram o tal “Exército Livre da Síria”. Para quem acha tudo isso estranho, uma informação que vai deixar a confusão ainda mais surpreendente: a al-Qaeda está no país e luta junto a este exército. Como o grupo terrorista é sunita, está interessadíssimo em derrubar Bashar al-Assad. Curiosamente, esta é exatamente a mesma posição da Arábia Saudita, um dos principais aliados americanos no Oriente Médio, e dos próprios EUA – que, depois de relutarem em pedir a saída do presidente sírio, agora já admitem que não há solução ao problema sem que o líder político deixe o cargo. 

Al-Qaeda e EUA estão do mesmo lado. E, nos últimos tempos, esta não é a primeira vez; durante o processo de queda do presidente líbio Muamar Kadafi, a al-Qaeda não apenas lutou pela deposição do ditador, mas também, na prática, esteve ao lado das forças da Otan. No entanto, se as fidelidades étnico-religiosas do Oriente Médio acabam formando essas estranhas alianças, elas também são responsáveis, em boa parte, pelo impasse atual. Afinal, a dinastia Assad não vai simplesmente atender aos apelos ocidentais e entregar o país aos sunitas. Para se sustentar, recorre ao outro lado da balança: o eixo xiita – que tem no Irã sua expressão regional mais importante. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Enquetes de internet mostram desgaste do programa nuclear iraniano



Muitas das verdades sobre política internacional são criadas não a partir de pesquisas independentes, mas por meio de dados colhidos ou mesmo divulgados por regimes fechados. O Irã é um exemplo deste caso. Com meios de comunicação controlados pelo governo, fica difícil saber o que a população realmente pensa. Eu mesmo já escrevi por aqui muitas outras vezes que o programa nuclear é unanimidade nacional. Mas agora há algumas novidades a respeito.

Duas pesquisas foram realizadas no país. Não são pesquisas formais, mas enquetes de veículos de imprensa (veículos do governo, diga-se de passagem). No site da TV Estatal do Irã, a primeira surpresa; o canal de TV queria saber o que os participantes pensavam sobre o programa nuclear. O resultado mostrou que 63% preferiam que o programa fosse interrompido em troca da suspensão gradual das sanções internacionais; do restante, 19% optaram pelo fechamento do Estreito de Hormuz como medida retaliatória; e 18% clicaram na alternativa “resistência contra as sanções unilaterais para a manutenção dos direitos nucleares”. 

Outra enquete, desta vez no site da Rede de Notícias da República Islâmica do Irã, quis saber sobre o apoio à decisão do parlamento de fechar o Estreito de Hormuz como resposta às sanções ocidentais. Quase 90% dos participantes disseram se opor à medida. É preciso, no entanto, fazer uma observação: pesquisas na internet não têm, obviamente, a mesma eficiência das tradicionais – que trabalham com métodos próprios e que, se legítimas, funcionam como termômetro real das visões dos diferentes segmentos da sociedade. Enquetes na internet podem ser contaminadas com facilidade. 

Mas foi curioso ver como dois dos importantes veículos de comunicação do país tiveram de lidar com a oposição, mesmo que virtual e momentânea (como se pode imaginar, elas foram retiradas do ar). Na prática, a ideia era testar mesmo a audiência. O Irã atravessa momento complicado, a inflação está alta e há dez anos os governantes tratam o programa nuclear como o grande projeto nacional. O problema é que, nesses dez anos, a população não notou melhorias na qualidade de vida, muito pelo contrário. E mesmo essas vulneráveis enquetes de internet podem deixar claro um sentimento que certamente passa pela cabeça das pessoas comuns no Irã: “por que tanto esforço e restrições na minha vida por um objetivo que eu não sei exatamente qual é e que não se transforma em realidade?”. 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Turquia: Erdogan não contava com a imprensa livre


Está claro que a Turquia pretende ser protagonista na Síria. Pelos motivos expostos no texto anterior: afirmar-se na liderança dos Estados muçulmanos e também porque é importante jogar para debaixo do tapete a própria repressão que tem aplicado sobre os separatistas curdos. Os turcos não consideram qualquer possibilidade de movimentação geopolítica na região do Levante sem sua participação ou chancela. Esta é sua diretriz internacional e, mais uma vez, é ela que justifica a atuação neste momento. 

Ancara acabou conseguindo se transformar na principal defensora dos interesses populares dos muçulmanos do Levante. Isso pode não ser a verdade absoluta, mas, como escrevi, vale a imagem construída. O episódio em que o caça turco foi derrubado pelo exército de Bashar al-Assad  serviu para reforçar esta impressão. Mesmo que o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, negue que havia uma missão militar em curso, o fato de este ter sido o único avião estrangeiro a desafiar as forças de Assad já serviu para angariar mais pontos ao líder turco. 

O problema agora são os vazamentos de informação. Erdogan tem ficado profundamente incomodado com a atuação da imprensa de seu país. Não tolera críticas ou especulações sobre suas diretrizes governamentais – característica para lá de comum entre líderes populistas. Mas o primeiro-ministro turco está ainda mais incomodado porque os jornalistas podem expor as contradições de seu mandato. Segundo reportagens de New York Times e Guardian, a Turquia estaria dando cobertura a atividades de agentes da CIA ao longo dos mais de 800 quilômetros de fronteira do país com a Síria. Ainda de acordo com as matérias, haveria uma aliança entre Erdogan, Arábia Saudita e Qatar para financiar os rebeldes sírios. 

Tudo isso poderia colocar em xeque esta alardeada independência turca, talvez contaminando a estratégia criada por Erdogan. Muito pior que a parceria com a Arábia Saudita é a suposta colaboração com a CIA. E este pode ser o único furo do primeiro-ministro da Turquia: em sua ambição de protagonizar os acontecimentos regionais e jogar os curdos para debaixo do tapete, topou toda a sorte de tramoias. Sua autoconfiança não lhe permitiu ao menos parar e analisar as consequências de um eventual vazamento para a imprensa. Por enquanto, ainda é cedo para afirmar qualquer coisa. Mas se essa história se espalhar e as pessoas ligarem esses pontos, Erdogan pode sair arranhado.  

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Crise na Síria é oportunidade para a Turquia


Com toda esta confusão no Paraguai, acabei deixando um pouco de lado a situação dramática na Síria e seus mais de 14 mil mortos. Já são quase 15 meses de guerra civil e brutal repressão resultando numa média trágica de quase mil mortos por mês. Mas, como se sabe, mesmo as tragédias acabam servindo de matéria-prima para pôr em prática movimentos estratégicos. Crise é oportunidade. 

Os rebeldes curdos ainda representam a principal pedra no sapato da Turquia. Em junho, os conflitos se intensificaram e os confrontos com os separatistas turcos chegaram a deixar 28 mortos. Tudo isso, no último dia 19. Este é o tipo de divulgação internacional que Ancara certamente não deseja devido a suas pretensões regionais – principalmente para manter o prestígio popular adquirido nos últimos anos. 

O primeiro-ministro do país, Recep Tayyip Erdogan (foto), tomou decisões internacionais que acabaram por torná-lo o líder político mais admirado pelas populações dos países árabes e muçulmanos. Estremeceu as relações com Israel a partir da discussão pública com o presidente Shimon Peres, patrocinou a frota turca que entrou em confronto real com o exército israelense ao tentar furar o bloqueio a Gaza e se colocou como um ator relativamente independente e, muito importante, capaz de se “vender” como alguém que está sempre ao lado das “causas humanitárias”. Suas escolhas políticas procuram reforçar publicamente esta mesma linha. É claro que esta impressão não se estende aos curdos, mas política é bem isso mesmo: mais vale a imagem construída do que a realidade dos fatos. 

Com essa ideia fixa de se reafirmar como o protetor do povo, Erdogan rompeu com a Síria. O episódio de derrubada por parte das forças de Bashar al-Assad de um caça turco que sobrevoava o território sírio foi revertido a partir desta lógica: mais uma vez, o primeiro-ministro da Turquia enxergou nova oportunidade de ganhar mais popularidade com a opinião pública árabe e muçulmana. E ao mesmo tempo deixou de lado qualquer tentativa de crítica ao tratamento dispensado aos curdos. De uma só vez, dois grandes objetivos estão sendo atingidos. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Por que o Mercosul está certo em relação ao Paraguai


É curioso como parte da imprensa tem tratado este golpe de fato no Paraguai. Li um artigo de um colunista conhecido que fazia questão de dizer que o golpe não era golpe porque estava previsto na constituição. Para ele, o Brasil se precipitava ao se opor ao impeachment de Fernando Lugo. Esta sanha de condenar qualquer posição do governo brasileiro ocasiona erros de interpretação. É preciso ler com atenção antes de formar opinião: a posição oficial foi explicitar a oposição ao rito de “execução” sumária do presidente paraguaio responsável por destituí-lo em menos de 24 horas. 

Não houve interferência na soberania do Paraguai ou qualquer sorte das muitas balelas que têm sido escritas por aí. Mantenho posição independente e apartidária quando escrevo este blog, mas sempre fico preocupado com as tentativas corriqueiras de transformar a realidade desta maneira. Repito o que disse no último texto sem as meias-palavras da política oficial (inclusive sem as meias-palavras do próprio governo brasileiro): houve um golpe a partir de ferramentas constitucionais criadas no Paraguai justamente para manter o controle sobre a presidência do país. 

O Partido Colorado, que durante 61 anos se apropriou da política paraguaia – inclusive nos 35 anos de ditadura de Alfredo Stroessner – , é o responsável por todos os instrumentos de domínio político ainda em vigor no país e que mais uma vez foram usados agora. Se eles são constitucionais, esta é uma tragédia política e social do Paraguai, não um chavão para isentar o congresso paraguaio de qualquer crítica, como li em muitos dos textos publicados por veículos brasileiros. Não é cabível intervenção externa no país, claro, mas é absolutamente legítimo – e obrigatório, acredito – que os demais países do continente e obviamente os membros do Mercosul manifestem a natural indignação com o processo. 

Seria estranho se calar institucionalmente. Se as organizações multilaterais existem, precisam agir em momentos de crise. E quando um presidente é vítima de um mecanismo tão obscuro quanto um impeachment “express” baseado num subterfúgio constitucional (a vaga ideia de “mau desempenho” no exercício do cargo), este é certamente um momento de crise.