sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A nova guerra entre Israel e o Hamas e o novo jogo politico do Oriente Medio apos a Primavera Arabe no Egito

Em primeiro lugar, peco desculpas aos leitores pela demora em escrever, mas isso se deve ao fato de estar distante da estrutura necessaria para postar com a frequencia que o momento demanda - o que tambem explica a precariedade dos recursos ortograficos deste texto. Mas vamos ao que interessa; a ofensiva israelense em Gaza e a insercao dos acontecimentos atuais no tabuleiro geopolitico do Oriente Medio. 

Ao contrario da cobertura pontual da grande imprensa, estou sempre preocupado em contextualizar as acoes dos atores regionais em perspectiva, levando em consideracao seus interesses estrategicos. O novo embate entre Israel e Hamas deve ser interpretado desta forma, muito alem de mais um ato isolado. Politica internacional e sua expressao militar - a guerra - nao costumam acontecer por meio de bravatas, discursos ou gestos apaixonados. Muito pelo contrario. E claro que a ofensiva atual tem a ver com o risco de cerca de um milhao de habitantes do sul de Israel, quase 15% da populacao total do Estado judeu. Mas nao e so isso. Os moradores desta regiao do pais sofrem com a ameaca do misseis do Hamas ha muito tempo, e a ofensiva de Israel no final de 2008 nao conseguiu destruir a infraestrutura de lancamento do grupo palestino que passou a controlar o territorio no ano anterior. 

Na semana passada, um jipe do exercito israelense foi atingido durante uma patrulha de rotina no interior das fronteiras israelenses. Tratava-se de uma operacao de rotina nas proximidades de Gaza. Por mais estranho que pareca, este pequeno ato carrega em si um significado muito maior; do ponto de vista geopolitico, ele representa um movimento de medicao de forcas pelo Hamas bastante similar ao crescimento continuo do Hezbollah, no norte de Israel, sul do Libano, que consolidou a milicia xiita como um importante ator regional do Oriente Medio. Ate o ano 2000, Israel manteve uma zona de ocupacao no sul do Libano, isolando minimamente o Hezbollah de porcao importante de sua fronteira norte. Por pressao interna da sociedade israelense, as forcas militares foram retiradas e Israel desocupou o sul do territorio libanes unilateralmente. Imediatamente, a milicia xiita passou a controlar a area e usa-la como base de operacoes. Seis anos mais tarde, Israel e o Hezbollah travaram uma guerra de 34 dias que permitiu ao grupo libanes, apoiado logistica e financeiramente pelo Ira, alcancar um de seus objetivos estrategicos: estabelecer-se como um ator regional a ser levado em consideracao em qualquer cenario atual do Oriente Medio. 

A atual ofensiva de Israel tem como meta conter a expansao do Hamas, principalmente por conta da realidade egipcia pos-Primavera Arabes, cujos resultados eleitorais deram a presidencia do pais justamente a Irmandade Muculmana - fonte de inspiracao ao nascimento do proprio Hamas, em 1987. Na pratica, tanto Israel quanto o grupo radical palestino estao colocando em teste o papel da Irmandade Muculmana neste novo Oriente Medio. 

O grande teste fica sobre os ombros de Mohamed Mursi, chefe politico da Irmandade Muculmana no Egito e eleito presidente do pais. Um dos principais pilares da fragil estabilidade regional, o Estado egipcio, o maior pais arabe, esta sendo chamado a se manifestar. Ao mesmo tempo em que a Irmandade Muculmana possui obvia identificacao com o Hamas, o grupo deixou a clandestinidade dos anos de regime Hosni Mubarak e passou a formalidade de ser parte integrante da formalidade e das burocracias impostas por esta transicao. Por mais ideologico que seja, o presidente Mursi agora nao pode virar as costas ao principal aliado financeiro do pais, os EUA, nem aos acordos de Camp David, assinados em 1979 e que selaram a paz com Israel. Ou melhor, a pressao atual quer que o Cairo faca sua opcao. No entanto, e bom lembrar que, se rasgar os acordos com os israelenses, e pouco provavel que os americanos continuem a repassar os tres bilhoes de dolares em ajuda financeira ao Cairo. 

E tudo isso que esta em jogo agora no Oriente Medio.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Obama tem missão duríssima na área internacional


Sobram desafios para as relações internacionais a serem conduzidas por Obama “reloaded”. A cada dia mais cidadãos comuns compreendem que não é possível agir como no século 20. Assim, se política externa ainda não é um tema decisivo na vida das pessoas, ignorar as muitas e importantes decisões internacionais que o presidente deve tomar não é uma opção. 

Obama é certamente o mais internacionalista dos presidentes dos EUA. E todo mundo aposta que, neste mandato, irá agir com firmeza no cenário global. Com a garantia de mais quatro anos, a Casa Branca tem muitos assuntos urgentes a resolver. A situação na Síria, o fim da guerra do Afeganistão, a transição política chinesa, o nacionalismo russo e o projeto nuclear iraniano são as questões mais importantes e estão na agenda do dia de Washington. 

A guerra civil síria já completou 20 meses. Até agora, os EUA se recusaram a fazer grandes movimentos. Isso porque, como escrevi por aqui outras tantas vezes, os americanos têm pouco interesse em sacar Assad. Não porque têm grande apreço pelo presidente sírio, mas porque o país é – embora injusto com seus cidadãos – estável. A administração alauíta do presidente sírio conseguiu estabilizar a Síria, inclusive mantendo a fronteira com Israel em relativo estado de tranquilidade nos últimos 40 anos – até esta semana, é bom dizer. Agora, no entanto, Washington deve agir de alguma maneira. E não se trata da defesa dos 20 mil mortos pela repressão de Bashar al-Assad. 

A Casa Branca está numa encruzilhada e aprendeu bastante com o fracasso na Líbia. Também como escrevi por aqui outras vezes, os rebeldes líbios eram compostos por gente de fidelidades distintas: membros arrependidos do governo Assad, jihadistas de diferentes grupos e até mesmo terroristas da al-Qaeda (a organização interpretou a instabilidade do país como oportunidade estratégica de alcançar sucesso e contrabalançar o poderoso discurso popular, espontâneo e descentralizado do que se convencionou chamar de Primavera Árabe). A Síria simplesmente não pode se transformar numa nova Líbia pós-Kadafi. Sua posição estratégica e seu arsenal militar colocariam em risco ainda maior a região mais problemática do planeta. 

Ao mesmo tempo, ficar de braços cruzados não é mais uma opção. Principalmente porque o Irã também entendeu que apostar em Assad é sua última oportunidade de contar com a aliança estratégica de um país árabe (localizado na fronteira com Israel, para ser ainda mais claro). Por isso, os EUA vão investir sim na oposição síria, mas sem repetir os erros do caso líbio. Vão estabelecer contatos políticos mais próximos com a oposição a Assad, oferecendo ajuda, mas exigindo garantias de manter proximidade ao futuro governo. E, para complicar, Obama vai ter de investir muito de seu setor de inteligência nesta tarefa, uma vez que a opinião pública americana não pode nem sonhar com mais uma guerra no Oriente Médio. 

Abordo a questão iraniana em próximos textos. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Nos EUA, reforma migratória passa a ser prioridade republicana


A ressaca moral e política republicana dá o tom do momento exatamente posterior à derrota do partido nas urnas. Se uma mensagem ficou clara o bastante no dia seguinte à reeleição de Barack Obama, ela diz respeito ao caminho demográfico inevitável dos EUA. Como escrevi ao longo deste processo desgastante de campanha partidária, ignorar a realidade não é uma forma de alterá-la. O partido Republicano está sentindo isso na pele. 

Agora, a chapa Romney-Ryan é história. Possivelmente, se as ambições do partido de retomar a Casa Branca forem sérias, - e certamente são -, o purismo de dois candidatos identificados com o país que não existe mais – ou melhor, existe na memória e na minoria da representação demográfica – não deve se repetir. Mesmo os mais republicanos dos comentaristas políticos tiveram de admitir a necessidade de mudança interna; ou a legenda se adequa para conseguir minimamente se comunicar com as pessoas ou está fadada, invariavelmente, à derrota. E é a partir desta constatação que os republicanos já pensam no senador pelo Estado da Flórida Marco Rubio como o nome a ser lançado em 2016. 

É uma boa aposta, mas não garante vitória. Primeiro, será preciso mudar o discurso. Enquanto os republicanos não pensarem numa forma de encarar a questão da imigração de maneira mais flexível, os latinos não irão votar num partido que chegou a propor, inclusive, “autodeportação”. Pois é. Ninguém vai votar em quem defende a deportação de um primo, de um tio, de um amigo. Mesmo que Obama tenha sido um dos presidentes mais rigorosos quanto à fiscalização e policiamento da fronteira com o México, ao menos consegue se apresentar como liberal. E acho mesmo que o presidente irá pensar numa reforma, mesmo tendo de enfrentar a resistência de uma Câmara dominada pelos republicanos. Mas, se até o porta-voz da casa, o nada liberal John Boehner, já disse que o assunto deve andar, é capaz mesmo de a tão discutida reforma migratória sair do papel. 

Acredito que, inclusive, este será um dos grandes temas dos próximos quatro anos de mandato de Obama. Justamente por conta desta constatação eleitoral de que não é mais possível ignorar a nova cara dos EUA. Para azar dos republicanos, no entanto, a situação é de cobertor curto. Se contarem somente com a origem do senador Marco Rubio, ainda não terão resolvido o problema. Principalmente porque são os asiáticos, não os latinos, que compõem a minoria com os maiores índices de crescimento. 

De fato, acho que a declaração de John Boehner – reconhecido por sua inflexibilidade – não é de graça. Ele e os republicanos mais ambiciosos politicamente sabem que, além de mudar o discurso, será preciso tomar medidas práticas. E aí voltamos à reforma migratória. Se este assunto era visto pelo partido como tabu, agora seus membros mais sagazes perceberam que esta se configura como a principal oportunidade republicana de renascimento.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Reeleição de Obama é a vitória da “Nova América”


Para alívio da maior parte do planeta, Obama venceu. A lógica dos colégios eleitorais favoreceu o presidente, mas sua vitória foi ainda mais significativa: a estratégia democrata também foi vitoriosa e mostra a capacidade do partido de entender quem são os novos americanos, quem representa sua base de apoio e como falar com eles. A mudança que Obama prometia em 2008 não veio como se imaginava, até por conta da herança catastrófica deixada por Bush. Mas a “mudança” que determinou o resultado dessas eleições é tão significativa quanto o slogan da campanha de quatro anos atrás: um novo país está nascendo e foi ele que emergiu fortalecido das urnas. 

Obama sabia que sua base de apoio excluía, em boa parte, o extrato social que compunha o imaginário dos EUA: homens brancos cristãos. Essa parcela da população – que durante a maior parte da história americana foi o retrato do país – está diminuindo. E, com isso, o quadro político também está mudando. Obama não apenas é parte desta mudança como cidadão, mas também representante político voluntário dessas pessoas. Quero dizer com isso que o presidente sabe o que a “Nova América” espera dele, mas também se coloca como parte deste grupo. O voto em bloco de todas as minorias em Obama determinou sua vitória. 

A estratégia democrata simplesmente adequou três fatores simples: o discurso natural de Obama (ou seja, ele não precisou se “violentar” para reafirmar valores que já eram seus), o aspecto ideológico do partido, e a interpretação óbvia de dados sobre o tecido social e populacional americano disponíveis a quem quisesse consultá-los; segundo os números do censo norte-americano, na primeira década deste século, a taxa de crescimento dos cidadãos americanos de origem asiática foi de 43,3%. A população negra cresceu 12%, e os latinos, 43%. O crescimento da população branca foi de apenas 5,7%. Hispânicos, negros e asiáticos correspondem hoje a 50,4% do total de crianças nascidas nos EUA. 

Nas urnas, deu a lógica. Entre os latinos, 70% votaram em Obama; entre a população negra, 96%. E Obama foi vitorioso não apenas por ele mesmo ser negro, mas porque inclui as minorias em seu discurso, porque as considera parte dos EUA, porque não se nega a debater e escutar o que pensam, porque é parte de um partido que tem esta tradição. É natural que as pessoas identifiquem o presidente como alguém que os representa. Principalmente porque, do outro lado, os republicanos insistem em fazer escolhas que remetem à “Velha América”, um país conservador branco e que não faz nenhuma questão de esconder sua preferência pela população mais rica. A rejeição ao Obamacare e à ideia do presidente de taxar a parcela mais rica dos americanos acabou não convencendo negros e latinos de que os republicanos os representavam. De acordo com pesquisa do Centro Conjunto para Estudos Políticos e Econômicos, em 1940, 42% dos negros entrevistados se declaravam republicanos (índice similar aos que se declararam democratas). Quatro anos atrás, 76% se assumiram como democratas e somente 2%, republicanos. 

A derrota nas urnas na eleição desta terça-feira é apenas uma constatação de que os republicanos erraram a mão e encontram cada vez menos apoio – o Tea Party é um movimento forte, mas extremamente “nichado”. Por isso, em declaração à CNN, Steve Schmidt, estrategista do partido Republicano, classificou o resultado e a campanha como uma grande catástrofe. “Esta é, esta deve ser, a última vez que que o partido Republicano tenta vencer desta maneira”. Ou seja, excluindo a realidade de que o país está mudando e se colocando como representante dos EUA do passado, cuja população tende a se tornar cada vez mais minoritária. Se os republicanos insistirem em adotar a mesma estratégia, já podemos começar a pensar em qual candidato democrata irá suceder Obama daqui a quatro anos. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Eleições americanas: hoje os EUA começam a escrever mais um capítulo histórico


É isso aí, pessoal. Hoje é o ponto final da campanha pelo cargo político mais importante do planeta. E os meses que antecederam o dia de hoje foram para lá de sujos. Os candidatos usaram todo tipo de armas retóricas e empenharam milhões de dólares para se atacar mutuamente. De longe, Mitt Romney foi quem mais se expôs. E o fez, inclusive, de maneira irresponsável, como no vídeo vazado que quase encerrou sua carreira política, quando o candidato deixou claro que Obama necessariamente receberia 47% dos votos daqueles que “se vitimizam e vivem graças à ajuda do governo”. 

Cheguei a publicar, na época, que este episódio poderia não apenas acabar com as chances do republicano, mas enterrar sua carreira política. Errei feio. Estamos falando dos EUA, país que sempre nos surpreende com reações como a ocorrida; Romney não apenas deu a volta por cima, como também empatou com Obama, ultrapassando o presidente na contagem total dos votos. Vai entender. A campanha americana é suja, mas a verdade é que aqui no Brasil não estamos em posição de garantir que nossas eleições presidenciais sejam o grande espaço elegante e desinteressado para o debate de ideias. Basta lembrar o que aconteceu na última disputa, quando o então candidato José Serra foi atingido por uma bolinha de papel e, como tentativa de capitalização política do ocorrido, chegou a fazer uma tomografia. Setores que o apoiavam, inclusive na imprensa, classificaram a bolinha de papel como um “atentado à democracia”. Isso sem falar que, durante parte da campanha, o debate se polarizou entre a defesa e o ataque ao aborto. Pois é. 

No caso dos EUA, Romney se excedeu em inverdades a ponto de seu assessor-chefe dizer claramente que “não permitiria que a campanha fosse regulada por quem checa fatos”. A mentira estava liberada oficialmente. E assim ocorreu, a ponto de Steve Benen, responsável pela redação do blog de Rachel Maddow, da MSNBC, contar 917 dados e fatos errados usados a favor de Romney.

Do ponto de vista ideológico, o embate Romney e Obama foi limitado; os dois candidatos entenderam que o público queria soluções para os problemas econômicos e acabaram focados no assunto. A parte ideológica também seguiu o lastro da economia, e o partido Republicano tentou transformar o presidente num porta-voz do socialismo. O vice de Romney, a estrela em ascensão Paul Ryan, chegou a declarar que as ideias de Obama representam “uma ameaça aos valores ocidentais” (!). Isso porque os republicanos distorcem o conceito de livre mercado e papel do governo. Para eles, o livre mercado é a forma de recompensar justamente quem trabalha. Qualquer intervenção, qualquer tentativa de equilibrar a desequilibrada relação entre empresas e os cidadãos, põe em risco os empregos e a criação de riqueza. Entrevistado pelo New York Times, Rich Hart, professor de economia e mentor de Paul Ryan, disse temer que os EUA se transformem numa espécie de “Estado socialista europeu”. Está aí a visão simplória republicana. 

Para sorte de Obama, os deslizes de Romney acabaram sendo divulgados com mais impacto nesta reta final. Os dados equivocados sobre as montadoras Chrysler e GM sobre os quais comentei no último texto pegaram muito mal. E ainda tiveram importância maior justamente por afetarem a população de Ohio, um “swing state” onde a indústria automobilística é grande empregadora. Agora, para piorar o lado republicano, surge a notícia estranhíssima de que o ex-presidente George W. Bush proferiu uma palestra secreta nas Ilhas Cayman e seus participantes foram orientados a não comentar, em nenhuma hipótese, o que Bush disse durante o encontro. Pegou muito mal. Ainda mais porque, não custa lembrar, o próprio Mitt Romney possui 25 milhões de dólares investidos em fundos nas Ilhas Cayman. E a Bain capital, antiga empresa do candidato e fonte de seu sucesso financeiro, possui 138 investimentos no arquipélago e 40 contas secretas. A partir de hoje, dia 6 de novembro, saberemos como os americanos entenderam tudo isso. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Republicanos divulgam anúncio com dados errados, provocam ira de Chrysler e GM e dão presente a Barack Obama


Aos partidários de Obama, notícias importantes: Romney está cometendo deslizes que podem fazer a diferença nesta reta final de campanha. O candidato republicano está se atrapalhando justamente em questões sobre as quais insistiu em debates e que foram usadas para inventar a imagem de gestor capaz de criar empregos. Este é o foco das discussões envolvendo a disputa presidencial e desde o primeiro momento a equipe de Romney tentou desqualificar as decisões de Obama na área de economia. Agora, isso pode estar sofrendo um revés.

Tudo porque a dias da votação final, Romney decidiu ser ainda mais agressivo no que diz e na publicidade que divulga em anúncios de rádio e TV. Numa polêmica com poucos precedentes na história eleitoral americana, o candidato republicano errou ao afirmar que a Chrysler decidiu levar a produção para a China, e a General Motors estaria a ponto de transferir 15 mil postos de trabalho também para o país comunista.

Este tipo de acusação cala fundo no imaginário do cidadão americano médio e, mais ainda nos dias de hoje, por algumas razões: a indústria automobilística sempre foi um ramo fundamental da economia do país; implica a GM, uma das empresas mais simbólicas dos EUA; e, finalmente, reafirma o poderio econômico chinês – e a China ocupa hoje a mesma posição representada pelo Japão nos anos 80, a de país que, em questão de tempo, se nada for feito, ultrapassará a capacidade econômica americana. Isso não vai acontecer, mas este temor mexe com os sentimentos e preocupações dos americanos.

As acusações de Romney visavam a um alvo cirúrgico; o estado de Ohio, considerado um importante “swing state”, ou seja, um estado que normalmente não está alinhado a nenhum dos dois partidos e, portanto, tem resultado indefinido. Não por acaso, o tom alarmista quanto aos postos de trabalho no setor automotivo foi adotado justamente em Ohio, onde 850 mil empregos são diretamente dependentes da indústria automobilística. Seria um golpe de mestre, se os dados não estivessem errados.

A resposta aos anúncios republicanos não partiu da campanha democrata, mas das próprias empresas citadas, algo que raramente acontece principalmente porque as corporações evitam se manifestar publicamente sobre questões eleitorais. Mas, como foram mencionadas diretamente, se sentiram pressionadas a dar declarações oficiais desmentindo as informações divulgadas por Romney. A Chrysler disse que, de fato, está mesmo aumentando a produção na China, mas o objetivo é estritamente a venda no mercado chinês, não no americano; ainda acrescentou que a produção para o mercado americano permanece nos EUA. Já a resposta da GM soou ainda mais constrangedora aos republicanos.

Segundo a GM, o corte de 15 mil postos de trabalho aconteceu antes de 2009 – justamente quando o presidente Obama conseguiu aprovar o resgate governamental, salvando a empresa. Para piorar o lado de Romney, a GM seguiu adiante e declarou que, a partir do resgate, novos empregos foram criados. Se a campanha democrata decidir pisar fundo, tem material pesado para contra-atacar. Vale dizer que, pesquisas divulgadas nesta quarta-feira, mostram a vitória de Obama em 11 dos 13 “swing states”. 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Furacão Sandy é mais um fator importante nas eleições dos EUA

Todo mundo quer cravar uma posição sobre como o furacão Sandy afetará o resultado final das eleições americanas. Apesar de ser impossível dar uma resposta que não leva em consideração margem de erro, alguns sinais podem ajudar na análise sobre o fenômeno. Posso dizer, no entanto, que, com certeza, Sandy não se restringiu a um fenômeno natural, mas as circunstâncias tornaram o furacão uma peça do jogo político. 

A primeira interpretação é a mais óbvia delas. Em 2005, o presidente republicano George W. Bush agiu muito mal no socorro às vítimas do furacão Katrina. A ausência e posterior ineficácia do resgate federal à população atingida acabou se transformando num exemplo de como a Casa Branca não deve atuar no caso de grandes tragédias. Se ao deixar o cargo Bush foi o presidente a ostentar os índices de popularidade mais baixos da história, boa parte deste recorde negativo se deve à péssima impressão construída durante e após a passagem do Katrina. Lembrando que Romney é do mesmo partido de Bush; os republicanos – e ainda com mais intensidade o Tea Party – defendem a diminuição dos gastos do governo. O atual candidato Romney só não se mostra contrariado com o empenho da administração atual em ajudar vítimas e organizar planos de contingência em coordenação com os governos estaduais porque isso certamente colocaria em risco sua vitória no próximo dia 6. 

Mas ao mesmo tempo em que agora ninguém questiona o papel de Washington, o peso do sucesso ou do fracasso está sob os ombros do presidente e candidato Barack Obama. É verdade que nenhuma das campanhas ousa fazer uso do furacão Sandy como “material” para criticar o adversário. E este é um ponto muito mais favorável a Romney do que a Obama. Se Sandy causar grande destruição e matar centenas ou milhares, caberá ao candidato Romney somente se solidarizar às famílias das vítimas. Ao presidente, caberá o escrutínio público e da imprensa. A campanha republicana não precisará fazer absolutamente nada. 

E outro aspecto prático: os democratas são dependentes de votos de nichos específicos. Latinos, negros e jovens formam um importante grupo de apoio ao presidente. No entanto, apesar de o tecido social norte-americano estar mudando, pesquisa do instituto Gallup mostra que o eleitorado negro corresponde a somente 12% do total de votantes; os latinos, 7%. E, para piorar, esses eleitores são os menos entusiasmados com as eleições. Entre aqueles que devem ir votar, os chamados “likely voters”, 49% dizem que tendem a votar nos republicanos, enquanto 46%, nos democratas. Quatro anos atrás, o Gallup apontava que 54% desses eleitores votariam em Obama. E todo mundo sabe como essa história terminou. 

A missão da campanha do presidente é, há poucos dias das eleições, convencer os aptos a votar a comparecerem às cabines. E aí voltamos ao furacão Sandy. Por um lado, o fenômeno forçou Romney a cancelar eventos em Ohio e Virginia. Mas isso não significa que Obama vencerá nesses estados simplesmente porque, se Sandy provocar uma catástrofe, os eleitores simplesmente não terão como votar. Tudo isso adiciona ainda mais elementos à grande incógnita que é esta eleição presidencial. Possivelmente, só saberemos quem será o próximo presidente americano na última hora.