sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Ataques terroristas na Rússia desafiam autoridade de Putin

Os atentados em Volgogrado, na Rússia, mostram o potencial explosivo dos interesses de diferentes atores internacionais que se encontram neste período de instabilidade internacional: o Comitê Olímpico Internacional (COI), a Rússia e o autodenominado Emirado do Cáucaso. Os ataques que deixaram 34 mortos levaram as autoridades a reforçar o estado de alerta a apenas seis meses do início das Olimpíadas de Sochi, cidade localizada justamente na proximidade do norte do Cáucaso. 

Os atos de terror estão vinculados direta ou indiretamente a Doku Umarov, terrorista que luta pela separação da Chechênia e a constituição de um estado islâmico independente. Umarov tem no currículo diversos ataques do gênero, como o atentado ao metrô de Moscou que deixou 40 mortos, em 2010, e o ataque à estação de trem da capital russa, no ano anterior, que fez 26 vítimas fatais. 

Seu principal opositor é justamente o presidente russo, Vladimir Putin. Desde que se tornou figura onipresente nas decisões políticas do país, em 1999, Putin se dedica a estabilizar a região norte do Cáucaso. Ainda não conseguiu, mas vê nas Olimpíadas de Inverno a possibilidade de divulgar ao restante das regiões russas que foi capaz de conter os avanços dos terroristas. Tanto que a escolha da cidade está longe de ter sido técnica, sob o ponto de vista dos jogos de inverno. Sochi não é exatamente uma das cidades mais frias do território. A temperatura média no inverno é de 6º C. Mas Putin quer a Rússia grande. E, para isso, reforçou sua atividade internacional, envolveu-se diretamente nas questões geopolíticas, como já escrevi por aqui. Sediar as Olimpíadas de Inverno em 2014 e a Copa do Mundo de 2018 é parte do plano. Sochi é a prova de que precisa para mostrar que é capaz de sediar um evento de grande magnitude às portas de uma região hostil. 

Mas esta é uma aposta arriscada, como os atentados mostram. Doku Umarov e seu pretenso Emirado do Cáucaso continuam a desafiar Moscou. Externamente, Putin quer que a Rússia seja levada em consideração para mediar conflitos internacionais, inclusive desafiando União Europeia (no caso ucraniano) e EUA (como aconteceu ao lidar com o ataque de armas químicas pelo governo de Bashar al-Assad, na Síria). Para a opinião pública interna, o presidente russo quer reforçar o discurso da estabilidade. Os ataques terroristas deixam em suspenso a efetividade de suas ambições.

O efeito esportivo

Já as decisões controversas do Comitê Olímpico Internacional (COI) e da FIFA mostram como o esporte tem sido contaminado pelos projetos financeiros dessas duas instituições gigantescas. A Copa do Mundo no Brasil já custou aos cofres públicos cerca de 30 bilhões de reais  (a Copa mais cara até hoje havia sido a da África do Sul, que empenhou quase 18 bilhões de reais). A Copa na Rússia deve sair por 35 bilhões de reais. Em países como Rússia e Brasil, os gastos não são transparentes. Mas a tendência agora é que cada vez mais esta seja uma vantagem levada em consideração por COI e FIFA em suas escolhas. Daí esta sequência de sedes com grande potencial de gastos (Brasil em 2014, Rússia em 2018 e Qatar em 2022). No caso das Olimpíadas em Sochi, os russos estão gastando mais de 100 bilhões de reais. Isso mesmo. Para efeito de comparação, as Olimpíadas de inverno de 2010, realizadas em Vancouver, no Canadá, custaram pouco mais de 14 bilhões de reais. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

A Europa em transformação

No final de 2013, as perspectivas para o futuro próximo na Europa são estranhas. A situação de impasse na Ucrânia é apenas um dos muitos aspectos que colocam o futuro do continente em aberto. E quando digo isso não me refiro somente às boas perspectivas. A crise já não soa há algum tempo como algo passageiro. Acabo sempre insistindo neste ponto porque realmente considero-o importante. Há meia década, o continente está afundado em desemprego, recessão e nos mirabolantes e exigentes planos de “austeridade” preparados pelos governos. Historicamente, meia década não é lá algo relevante, mas no dia a dia de quem perdeu emprego e benefícios sociais é uma eternidade.

Diante deste cenário, o impasse ucraniano aponta os sinais de que países, pessoas e entidades políticas não estão dispostos a esperar o tempo passar e torcer por uma virada de jogo. O que se vê é um continente revolvido por tentativas de aplicação de novas e velhas ideias – muitas delas representadas por fórmulas de um passado terrível para a Europa e para a humanidade. É o caso dos novos partidos de inspiração fascistas, como o Alvorada Dourada (Grécia), Frente Nacional (França), Partido da Liberdade (Holanda) e Jobbik (Hungria). Longe de inofensivos, essas legendas estão cada vez mais presentes na realidade política de seus países. Segundo o New York Times, o Jobbik pode se tornar a segunda principal força do parlamento húngaro, e, em maio de 2014, há risco real de a extrema-direita obter resultados expressivos nas eleições para o Parlamento Europeu.

Há também outro tipo de resposta à crise. Se antes aderir à União Europeia era uma espécie de destino manifesto no continente, questioná-lo é, atualmente, uma realidade para lá de corriqueira. Caso do movimento 5 Estrelas, do comediante-político italiano Beppe Grillo e da própria Grã-Bretanha, que, em 2017, realiza referendo popular para decidir se permanece ou se pula fora do bloco. Diante disso tudo não é espantoso ler artigo publicado no Wall Street Journal assinado por Catherine Ashton, Alta-representante da UE para Assuntos Externos e Política de Segurança e Vice-presidente da Comissão Europeia. No texto, ela questiona o fato de as decisões sobre defesa ainda serem tomadas individualmente pelos 28 membros nacionais. Ou seja, Ashton ainda é uma representante do projeto original que tinha como ambição a constituição em médio prazo de uma entidade única supranacional. No contexto atual, isso anda cada vez mais em baixa, mas não deixa de ser um pilar das disputas continentais em curso.

E é justamente em função disso tudo que a crise ucraniana é tão interessante. A medição de forças entre eurocêntricos, eurocéticos e neo-fascistas não é exatamente nova. Novidade é que esta guerra verbal e política deve se tornar cada vez mais intensa. O caso da Ucrânia é emblemático porque apresenta um caminho novo (e aí não faço qualquer juízo de valor sobre ele): a Rússia disposta a desafiar a União Europeia abertamente, sem fazer concessões.

No limite máximo, ou seja, na visão mais radical sobre o potencial dessas mudanças, todos esses movimentos prometem transformar a realidade europeia tal como a conhecemos no significativo intervalo entre o final da Segunda Guerra Mundial e a primeira década do século 21

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Na Ucrânia, revolta contra o modelo político

O impasse politico e social na Ucrânia encontra algumas semelhanças com os protestos de junho no Brasil. Assim como aconteceu por aqui, a revolta popular não se resumia ao aumento das passagens de ônibus, mas, principalmente, ao uso da máquina pública para benefícios privados. 

No Brasil, o péssimo serviço de transporte público que não é público (afinal, o Estado entrega concessões de linhas de ônibus a empresas privadas, por exemplo) é bastante representativo do modelo de escolhas e decisões políticas que atendem aos interesses partidários e políticos, mas não públicos. No meio de tantas demandas brasileiras, essa que era a principal mensagem dos protestos de junho acabou perdida devido ao impacto dos acontecimentos na vida cotidiana e na cobertura da imprensa. O objetivo inicial das manifestações era deixar claro a insatisfação com este modelo. 

Na Ucrânia, parte da população está insatisfeita com a gestão que privilegia a relação estratégica entre os presidentes Yanukovich e o presidente russo, Vladimir Putin. Na verdade, os anseios populares vão além; as pessoas percebem o valor estratégico ucraniano e o leilão em curso. 

Há muita oferta de dinheiro, mas pouco interesse na melhoria das condições de vida. A China acena com a possibilidade de investir 7 bilhões de dólares; a Rússia oferece descontos de até 9 bilhões de dólares nos preços do gás (um dos principais instrumentos de atuação internacional russa), caso a Ucrânia aceite aderir a um bloco regional liderado por Moscou; e o Fundo Monetário Internacional (FMI) poderia negociar um empréstimo de 15 bilhões de dólares, desde que Kiev impusesse medidas restritivas à população comum, entre elas o já conhecido pacote de austeridade que incluiria até o aumento do preço do gás doméstico. 

Diante deste cenário, os ucranianos perguntam o óbvio: se o governo não consegue responder aos anseios populares, por que não assina o acordo de adesão à União Europeia? Por que o presidente Yanukovich aceita transformar o país num instrumento geopolítico da fantasia soviética vintage de Vladimir Putin? E tudo isso levou os ucranianos às ruas. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Queda de braço entre Rússia e União Europeia na Ucrânia

Os ucranianos estão novamente nas ruas. Desta vez, são os últimos a aderir à nova onda de protestos internacionais contra a classe política estabelecida. É claro que em cada um dos países onde o modo de manifestação popular ocupou ruas e espaços públicos as demandas eram diferentes. No caso da Ucrânia, há uma enorme sensação de retorno ao ponto que muitos consideram como o inicial desta rebeldia popular internacional. A Revolução Laranja, como ficou conhecida a bem sucedida manifestação de 2004 e 2005, conseguiu derrubar o então presidente Viktor Yanukovich – curiosamente, o atual presidente (eleito novamente ao cargo em 2010). 

Se por um lado o processo de rebelião popular tem razões muito claras, a situação geopolítica ucraniana é mais complexa. A insatisfação que levou novamente milhares às ruas foi a recusa de Yanukovich de celebrar um esperadíssimo acordo de adesão do país à União Europeia. Isso explica parte da situação. 

A outra parte diz respeito à batalha internacional pelo direito a ter a Ucrânia sob distintos guarda-chuvas. A guerra de poder é, novamente, entre Ocidente e Oriente; entre a União Europeia – que tem a sua própria agenda política – e a Rússia – encabeçada por Vladimir Putin. O líder russo deixa muito evidente suas intenções de vender caro quaisquer manobras que considere ocorrer no que julga ser sua esfera de atuação ou, para ser ainda mais específico, a área de influência da Rússia, um país que neste ano já deixou claro quer não abre mão do protagonismo internacional. 

Se Putin não aceitou ser deixado de lado na abordagem ocidental à Síria, como deixaria barato um acordo da União Europeia na Ucrânia? E não apenas porque Rússia e Ucrânia fazem fronteira, mas porque fábricas ucranianas são dependentes de matéria-prima russa, porque a Ucrânia foi parte da Rússia, porque parte da população ucraniana ainda hoje fala russo, porque a Ucrânia é amplamente abastecida por gás russo. 

Por outro lado, a oferta de benefícios econômicos da União Europeia é atraente. Aderir ao bloco não é somente ter acesso a esses benefícios, mas, do ponto de vista da população, o direito ao livre trânsito pelos países – mesmo em tempos que a UE atravessa crise. A adesão implica também no rompimento com os russos. Não por acaso a chanceler alemã Angela Merkel disse claramente que é chegada a hora de oferecer aos ucranianos novas fontes de energia, o que considero uma mensagem clara ao presidente Putin. 

A disputa na Ucrânia é entre Rússia e União Europeia. Mas a resolução deste dilema passa também pelas disputas internas na própria Ucrânia. Com a população bastante dividida, qualquer que seja o resultado final certamente vai deixar muita gente insatisfeita. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Bomba na embaixada do Irã em Beirute: no Oriente Médio, tudo está conectado

Este é um momento importante no Oriente Médio. Aliás, como o senso comum corretamente estabeleceu no Ocidente, o Oriente Médio é repleto de momentos importante. A região é complexa mesmo e há poucos eventos que podem ser considerados isolados. Agora não é diferente. Enquanto os iranianos negociam seus interesses nucleares na Suíça, o atentado terrorista que mandou a embaixada do país pelos ares no Líbano grita para quem quiser ouvir que nada fica impune no Oriente Médio.

Esta premissa está tão correta que conecta, de uma só vez, o programa nuclear iraniano, a crise humanitária na Síria e o cenário regional mais amplo, envolvendo os Estados árabes do Golfo Pérsico, o Afeganistão, Israel e os ocidentais que querem ser ou deixar de ser parte dos esforços de apaziguamento.

O Oriente Médio não é para principiantes. Por isso, faço questão de lembrar algo que já escrevi muitas e muitas vezes por aqui: é preciso ter em mente os objetivos estratégicos dos atores envolvidos. E um dos principais – senão o principal – objetivos estratégicos do Irã é se tornar o ator hegemônico regional.

O problema é que, para isso, é preciso tempo. Também é preciso afetar drasticamente o equilíbrio de poder constituído. Para felicidade do líder-supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, o país está fazendo tudo certo, contando, neste momento, com um cenário mais amplo que lhe é muito favorável.

As negociações sobre o projeto nuclear do país têm muito a ver com isso. As obras para a constituição de usinas atômicas no Irã estão adiantadas e, sob o ponto de vista ocidental, é preciso convencer Teerã a regredir. Se isso vai acontecer ou não ninguém sabe, mas isso não é tão importante agora. Importante é que as usinas representam um fato consumado, um poder de barganha que o Irã já possui e do qual faz uso com muita habilidade.

Para ser a potência regional que pretende ser, o Irã fez várias alianças, apostando, basicamente, no principal fator a dividir o Oriente Médio: a batalha geopolítica entre Estados e grupos xiitas e sunitas. Este é o aspecto principal de quase tudo o que se passa regionalmente, e o Irã, como o maior Estado xiita do planeta, está envolvido até o pescoço nisso. Naturalmente, seus aliados estratégicos e regionais são a Síria de Bashar al-Assad (Estado que é majoritariamente sunita, mas controlado pela aliança alauíta-xiita estabelecida pela família Assad) e a milícia xiita Hezbollah, cuja proximidade étnico-ideológica com o regime iraniano transportou as forças de Teerã para a fronteira norte de Israel.

Para concluir, o Irã tem a situação a seu favor por duas razões: em primeiro lugar, tem tudo para congelar as sanções que vêm atrapalhando seus planos regionais. Os americanos precisam de resultados internacionais e estão desgastados com seus aliados tradicionais no Oriente Médio – que são, curiosamente, os principais adversários regionais dos iranianos: Israel e os Estados do Golfo. Em segundo lugar, esta é a hora de Teerã ceder, justamente porque percebem – corretamente, por sinal – que o desgaste americano tem afastado os EUA da região (como mostram o protagonismo exercido pela Rússia durante a crise de armas químicas na Síria e o descontrole da situação no Afeganistão e no Iraque).

Os EUA estão loucos para resolver a situação rapidamente. Neste caso, resolver significa conseguir um acordo mínimo com o Irã e deixar um pouco de lado o problema permanente que o Oriente Médio representa a Washington. É com este vácuo de poder que Ali Khamenei e o presidente iraniano, Hassan Rouhani, sonham todos os dias.

É desta ausência momentânea americana que os líderes da República Islâmica do Irã querem se aproveitar para alterar a balança de poder vigente na região. De um lado, usam o Hezbollah para participar da farra sanguinária que se tornou a Síria – fruto do combate entre xiitas da aliança entre Hezbollah e Irã e sunitas da al-Qaeda. De outro, negociam um acordo com os ocidentais em Genebra. O problema é que esta ambição iraniana representa uma possibilidade perigosa de mudança de status quo para todos os atores. Não é à toa que a bomba explodiu na embaixada iraniana num bairro xiita de Beirute (da milícia xiita do Hezbollah). No Oriente Médio, há muito poucos fatos isolados. 

sábado, 9 de novembro de 2013

Na mesa de negociações, Irã e EUA querem ganhar tempo

Sobre a possibilidade de um acordo provisório entre EUA e Irã, muita gente tem escrito que se trata de uma tentativa um tanto desesperada do presidente Obama de interromper décadas de conflito com o regime islâmico. Esta afirmação está correta, claro, mas incompleta. A administração Obama precisa de resultados urgentes e concretos, uma vez que atravessa um de seus momentos mais delicados: contestada internamente pela população – insatisfeita com o escândalo da espionagem revelado por Edward Snowden – e igualmente desestabilizada externamente – em rota de colisão com importantes governos aliados. 

O regime iraniano sabe de tudo isso, claro. E leva vantagem no jogo atual porque, uma vez mais, tem o tempo a seu favor. Desde o debate inicial sobre suas pretensões nucleares, o caminho escolhido por Teerã é exatamente o mesmo: ora acena com intenção de aproximar-se do Ocidente, ora se afasta. O Irã sabe de seu valor de mercado, sabe que provoca interesse no imaginário dos governos ocidentais. E se comporta como uma mulher bonita que atrai galanteios em razão do desafio que representa sua sedução. 

E, assim, ganha tempo. O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, seus opositores internos mais ferrenhos e agora o novo presidente Hassan Rouhani têm sido coerentes em suas declarações: nenhuma dessas partes jamais disse ter interesse em interromper o programa nuclear do país. Todos consideram unânime o direito de continuar com as pesquisas e o desenvolvimento de capacidade atômica. Por outro lado, o presidente Obama acredita, por alguma razão ainda não explicada, que é possível mudar esta posição da cúpula política e político-religiosa do Irã. Por isso será realmente surpreendente se o líder americano conseguir obter sucesso. 

O que se sabe hoje é que há uma possibilidade de acordo. Mas este é um ponto que exige atenção. Em nenhum momento qualquer liderança iraniana admitiu estar disposta a acabar com o programa nuclear, cenário que daria o assunto por encerrado aos principais interessados na questão (os Estados árabes do Golfo Pérsico e Israel). Os representantes iranianos dizem estar focados no relaxamento de parte das sanções ocidentais ao país em troca de uma interrupção temporária da atividade nuclear. Este “congelamento” ocorreria por seis meses, ou seja, haveria a assinatura de um acordo interino. 

E, olhando com um pouco de distanciamento, dá para entender as razões pelas quais este acordo realmente parece viável a iranianos e americanos neste momento: os EUA precisam apresentar algum resultado rápido em negociações internacionais, precisam mostrar sucesso diplomático num período para lá de complicado; os iranianos, por outro lado, estão fazendo o que sabem fazer melhor, ganhando tempo – e, se tudo der certo, levando na mala de volta a Teerã o relaxamento de sanções que têm prejudicado a economia do país. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Diego Costa: o novo criminoso nacional

Não costumo escrever sobre futebol, mas o faço sempre que considero que o esporte esbarra nas relações entre os países. Nada mais emblemático do que este caso envolvendo o atacante do Atlético de Madri Diego Costa. O jogador, que tem dupla cidadania (espanhola e brasileira), está no centro de uma polêmica que certamente é muito mais oportunista do que real. Destacando-se em seu clube, foi alvo de interesse dos dois países. Optou pela Espanha, um direito que lhe é garantido pela Fifa, entidade máxima do futebol. 

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) partiu para a briga. E o fez da maneira mais sórdida: ameaçando Diego Costa. O assunto passou a ser tratado pela instituição como um caso de traição nacional, mostrando como pode ser covarde a retórica de parte dos dirigentes esportivos brasileiros. Diego Costa é o bode expiatório da vez, o culpado por uma traição indesculpável: escolher algo que considera positivo para sua carreira, somente isso. Diego Costa não entregou segredos militares brasileiros à Espanha, não trocou de lado na trincheira, não abateu um avião brasileiro, não cuspiu na bandeira nacional. Apenas declarou que, se convocado pelo treinador espanhol, irá atender ao chamado. 

A loucura foi além quando a CBF decidiu protagonizar mais um capítulo vexatório, considerando a possibilidade de ir ao Ministério da Justiça para requerer a revogação da cidadania brasileira do jogador (!). Segundo a visão míope da CBF, o pobre centroavante é quase um criminoso de guerra. Mas esta instituição é a mesma que, entre outros, é aliada das empresas que estão superfaturando as obras da Copa do Mundo, ameaçou impedir os jogadores campeões de 1994 de desfilarem em carro aberto pelo Rio de Janeiro caso os funcionários da Receita Federal insistissem em inspecionar as 14,4 toneladas de bagagem trazidas no voo dos EUA, foi presidida por Ricardo Teixeira durante mais de 20 anos (atualmente em exílio em Miami) e, vale dizer, é hoje presidida por um entusiasta da ditadura – segundo o UOL, José Maria Marin teve ligações muito próximas à ala mais radical do regime militar brasileiro. 

E Diego Costa é o grande vilão nacional? Olha, acho importante expor o contexto. Entendo que a luta da CBF seja para evitar que as seleções nacionais se transformem em arremedos de jogadores naturalizados. Mas definitivamente não concordo com o modo bárbaro como este caso vem sendo tratado. Soa como oportunismo barato e desonesto, na medida em que tenta usar um assunto que mobiliza a opinião pública para resgatar algum prestígio a uma instituição desgastada como a CBF. Acho que não se pode deixar de lado tudo o que aconteceu além dos gramados durante a realização da Copa das Confederações – manifestações que, aí sim, foram movidas por um desejo real de mudança, pelo exercício genuíno da população de seu direito a exigir posturas mais honestas. 

Claro que a imagem da CBF saiu arranhada, da mesma forma que todos os envolvidos na construção de elefantes brancos com dinheiro público. Jogar o atacante do Atlético de Madri aos leões parece uma manobra das menos habilidosas para angariar algum prestígio patriótico à entidade. Na verdade, só reforça o distanciamento dos dirigentes máximos do futebol brasileiro com a sociedade brasileira.