quarta-feira, 14 de maio de 2014

O voto separatista na Ucrânia

Os referendos realizados em Donetsk e Luhansk nasceram contestados. Seus resultados seguem a própria origem, uma vez que o processo é questionável. 

Enquanto os eleitores foram perguntados se queriam independência da Ucrânia (com “sim” ou “não” como respostas possíveis), os autoproclamados líderes desses movimentos já repassaram ao resto do mundo a versão alternativa do pleito: assim como na Crimeia, o povo quer os territórios anexados à Rússia (ou, como gostam de dizer em Moscou, “federalizados”). Entenderam a diferença no texto? 

A Rússia agora deu um passo atrás. Quer um debate maior, argumenta não ter a intenção de acabar com a Ucrânia. Mas não foi o próprio Kremlin que fez tudo o que pôde para questionar a origem da demanda ucraniana por mudança e os protestos na praça Maidan e transformar tudo isso num questionamento das fidelidades e nacionalismos adormecidos no país vizinho? Retroceder agora não passa de estratégia para parecer algo que não é. A Rússia de Putin não é pacifista, não entende seu lugar no mundo e não aceita que seu papel geopolítico hoje é diferente dos saudosos tempos da Guerra Fria. Ah, a Guerra Fria...

Por falar em Guerra Fria, o jornalista britânico Edward Lucas, autor do livro “A Nova Guerra Fria”, tem visão pessimista sobre o destino da Rússia e culpa a inércia entre o fim da URSS e os tempos atuais. 

“A verdade é que o fracasso russo em dissolver a KGB e a recusa do Kremlin de encarar os crimes soviéticos do passado contaminaram a Rússia de maneira fatal”, diz. 

Faz sentido sim. A frase resume a incapacidade do governo russo de se reinventar após o fim do comunismo. No próximo texto, uma opinião um pouco mais subjetiva sobre o assunto. 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Putin vence mais uma vez

Caros leitores, para azar de vocês, eu não consigo deixar de escrever sobre a Rússia. Prometo a vocês que, em breve, isso vai terminar, até porque o cenário internacional é diversificado o bastante. O problema é que as questões envolvendo a crise na Ucrânia e a terapia de efeito retardado que russos e ocidentais estão realizado a partir disso são bem interessantes. Nesta semana, o Ocidente manifestou sua costumeira esperança de que há bondade na natureza humana e Putin não tem estratégia própria, somente reage a acontecimentos. Editorial do Guardian mostra bem esse equívoco:

“Ficou ainda mais claro que Putin não quer invadir ou anexar o leste da Ucrânia”. O jornal chega a esta conclusão baseado tão somente no fato de Putin retirar suas tropas da fronteira e no pedido do presidente russo para que os “militantes pró-Rússia” não realizem o referendo para aprovar a anexação de uma vez. Vale reproduzir o texto:

“Pedimos à representação do sudeste da Ucrânia, aos que apoiam a federalização, para adiar o referendo programado para o dia 11 de maio de forma a criar condições apropriadas a este diálogo”. Esta é a nota oficial de Moscou. O Kremlin não usa o termo “anexação”, repararam? Isso porque, na origem, esta diferença semântica entre “anexação” e “federalização” suaviza o mundo real, de alguma maneira. Este é Putin – o mesmo que, de acordo com o Guardianm “deixa claro que não quer invadir ou anexar o leste da Ucrânia”. A suavização serve, uma vez mais, à estratégia vitoriosa de morde e assopra – tão difundida entre aliados russos, como Síria e Irã, por exemplo. 

A prática tem pouco de suave. Putin pode ter tirado tropas das fronteiras, pode ter adotado tom ameno, mas agora está confortável por saber que o processo de guerra civil na Ucrânia está feito. Não depende mais dele. Afinal, o conflito está em curso. Como controlar o grau de violência e intensidade dos “militantes”? Como voltar atrás na batalha política agora que tirou da acomodação a população comum favorável à Rússia na Ucrânia? Como acalmar os ânimos?

A ideia não era essa mesmo. O propósito de tocar fogo já foi atingido. Agora, o presidente russo quer mais é que europeus e americanos se virem para resolver o problema. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Os objetivos da Rússia na Ucrânia

Com a expansão russa sobre a Ucrânia cada vez mais evidente, restam poucas dúvidas sobre os objetivos de Moscou. Para ser muito claro, a ideia de Putin hoje é inviabilizar a continuidade da existência do Estado ucraniano tal como o conhecemos hoje. E, para ser ainda mais claro, a Rússia tem tido sucesso nesta empreitada. 

Fazendo uma retrospectiva muito rápida, Putin conseguiu frear a aproximação da Ucrânia com a Europa, impedir a tomada de poder por um presidente pró-ocidente, forçar a barra e constatar que os limites ocidentais são muito variáveis quando se trata de Rússia, e ainda por cima aumentar sua popularidade interna. Se do ponto de vista ético as atitudes do presidente russo são questionáveis, pode-se dizer que as ações tiveram impacto muito rápido e foram bem sucedidas estrategicamente. Ainda não sabemos se o povo russo poderá ter algum ganho – acho que não. Mas Putin não para de capitalizar. 

Hoje, o futuro da Ucrânia está em suspenso. Novamente, Putin agiu mais rápido do que todo mundo ao entender que os conflitos atuais podem ser travados em frentes diferentes. Moscou negocia com o Ocidente na ONU e nos encontros internacionais, mobiliza sua força militar nas fronteiras com a Ucrânia e – o pulo do gato – invade o território ucraniano graças ao que a imprensa internacional tem chamado de “militantes pró-Rússia” (que de fato estão no campo de batalha). Alguém ainda é inocente para acreditar que se tratam de “voluntários” aliados a Moscou ideologicamente e dispostos a dar a vida por Putin? Pois é. 

Alexander Golts é um jornalista russo que, em meio a tanta repercussão de fatos e pouca construção de análise, consegue enxergar além do que acontece no cotidiano. Assim, interpreta bem as ações de Putin e seus objetivos de médio e longo-prazos.

“O plano estratégico do Kremlin ficou claro (...). A intenção é desestabilizar as regiões leste e sul da Ucrânia com uma rebelião. O caos e a guerra civil que resultariam (deste evento) permitiriam a Moscou proclamar as eleições ucranianas de 25 de maio como ilegítimas. (Com isso,) Putin irá mandar uma mensagem clara a qualquer ex-república Soviética de que ela não deveria sequer considerar o estabelecimento de laços mais estreitos com a Europa”. 

Em última instância, para Putin, o desejo de parte da população ucraniana de adesão à União Europeia é uma ousadia tão imperdoável que deve ser punida com rigor máximo. 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

A ameaça russa à Europa

O impasse da situação no leste europeu deve servir para lembrar quais são as principais preocupações da Europa ocidental. Não se trata de um temor de realinhamento das fronteiras ucranianas ou mesmo dos discursos do presidente Putin. De maneira bastante pragmática, os países mais desenvolvidos do continente temem uma nova guerra total, a interrupção do abastecimento energético de origem russa e grandes levas de refugiados inundando suas fronteiras. 

Junte todas essas ameaças e aí é possível compreender por que razões o foco das lideranças do continente é interromper a crise o quanto antes sem que, para isso, precisem empregar força militar. Vale levar em consideração também o objetivo maior dos Estados europeus. Por mais que o resultado da criação da União Europeia tenha sido nos anos anteriores à crise econômica a demonstração da prosperidade alcançada pelos países do bloco, uma outra importante preocupação serviu para impulsionar a empreitada. A constituição de um Estado supranacional era – e ainda é, apesar de tudo – a tentativa de amenizar as muitas hostilidades num continente marcado por nacionalismos e, principalmente, que tem o histórico de ter sido o ponto de origem das duas guerras mundiais. Como numa grande empresa privada, a UE tem uma missão para si mesma superior a todos os muitos processos e desdobramentos do bloco: a manutenção da paz na Europa. 

A perspectiva de ter um gigante militar como a Rússia ameaçando este conceito fundamental a uma Ucrânia de distância da Polônia (país membro da UE) é uma ameaça concreta. Li uma teoria interessante que vai além do lugar-comum. Segundo reportagem da revista alemã Der Spiegel, o cientista político Herfried Münkler defende que países mais pobres ainda apreciam o ideal de “heroísmo de masculinidade”. Para ele, “a Europa oriental ainda não é próspera o bastante para desencorajar os jovens desta ideia de heroísmo. De fato, políticos frequentemente obtêm lucros (políticos) se forem capazes de manobrar essas emoções”. O que explicaria, também, os motivos de Putin seguir em frente com atos que insuflam o nacionalismo russo em todo o leste da Europa. 

terça-feira, 29 de abril de 2014

Pesquisa mostra apoio à atuação de Obama diante da crise com a Rússia

No texto de segunda-feira, expus a nova estratégia americana para situações de confronto internacional onde os EUA precisam estar presentes, mas não têm intenção de envolvimento direto. Curiosamente, nesta terça, pesquisa do jornal USA Today e do Pew Research Center mostram como o presidente Obama parece estar no caminho certo de representação da população americana. 

De acordo com a pesquisa, 53% dos entrevistados são favoráveis às sanções contra a Rússia. Entre eleitores dos dois partidos (Democrata e Republicano), há forte oposição ao envio de armamento americano (62%). E, coroando a leitura da equipe de Obama sobre as prioridades dos cidadãos comuns, 72% dos que participaram da pesquisa disseram que o presidente deve focar mais nas questões internas do que na política internacional. Ou seja, o discurso do líder americano durante a exposição das novas sanções está em pleno acordo com a opinião dos cidadãos comuns, o que possivelmente irá reforçar o distanciamento de Washington em relação aos assuntos externos que não sejam considerados fundamentais. 

Agora, para causar certo constrangimento, há resultados secundários que reforçam a ideia de falta de interesse dos americanos nas notícias internacionais; um em cada três entrevistados disse que pouco sabia do assunto – 20% disseram que não sabiam nada, não ouviram nem falar da crise na Ucrânia. Particularmente, acho que a pesquisa obteria dados parecidos por aqui. Fundamental mesmo é o retrato da diferença de gerações: entre os que têm até 30 anos de idade, somente 20% consideraram a situação muito importante aos EUA. Mas, para entrevistados com faixa etária entre 50 e 64 anos, o índice mais do que dobra, 41%. A diferença é fruto do olhar distinto de uma geração que viveu boa parte da vida durante a Guerra Fria. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

A nova estratégia americana

Sei que os leitores vão entender minha ausência nesses dias. Eu também precisava de férias. Mas estou de volta – o que é mais importante neste período conturbado. Aliás, antes de entrar no assunto, acho importante uma reflexão rápida. Um mês depois de meu último texto, a problemática internacional permanece a mesma. Os problemas são grandes demais e por isso têm resolução complexa ou o processo é arrastado justamente para soar complexo? Esta é apenas uma das questões. 

Sobre a crise ucraniana – que se transformou numa profunda revisão das relações internacionais e do posicionamento da Rússia com o Ocidente –, a resolução parece distante. O que está cada vez mais claro, no entanto, é a indisposição do presidente americano de se envolver militarmente. Os EUA não querem e não estão interessados em bancar um problema que lhes soa distante e caro demais. 

Mas, ao mesmo tempo, a maior potência mundial não pode se permitir ficar de fora da discussão ou do processo. A alternativa – e que deve ser aplicada como padrão, de certa maneira – é discutir com aliados a elaboração de sanções de naturezas distintas, variando de acordo com a crise em questão. Obama já deixou isso claro em muitas situações e, desde o constrangimento ocidental na Líbia (cujo fracasso em reconstruir o país após a morte de Kadafi é inegável), a ideia de confrontos militares está em baixa como nunca. Nesta segunda-feira, Obama foi muito explícito durante a divulgação de novas sanções ao regime de Vladimir Putin:

“O objetivo é mudar seu cálculo (de Putin) em relação a como as ações atuais em que está se envolvendo podem ter impacto negativo na economia russa a longo prazo. (...) (não entendo como) todo mundo está tão ansioso para usar a força militar logo depois de atravessarmos uma década de guerra com enormes custos às nossas tropas e ao nosso orçamento”. 

É claro que não há novidade alguma nisso. Mas o fato de o presidente americano expor a situação desta maneira deixa evidente que há uma nova linha de construção de estratégia internacional. A ideia é também representar o que pensa a população americana comum, que certamente está mais preocupada com as contas a pagar do que com Ucrânia e Rússia. E, obviamente, ainda se distanciar do partido Republicano. 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Crise na Ucrânia: saldo e débito de dois dos principais líderes internacionais

Já ao término desta crise na Ucrânia, duas pesquisas sobre aprovação popular aos presidentes Putin e Obama dão uma ideia interessante sobre como os cidadãos comuns de Rússia e EUA interpretaram a atuação de suas lideranças políticas. 

Levantamento do All-Russian Center for Public Opinion mostra que a aprovação a Putin chegou a 71,6%, o maior índice desde que ele retornou (ou retomou, o que também é apropriado) à presidência, em 2012. Já nos EUA, de acordo com pesquisa da CBS News, o trabalho de Obama especificamente na área de política externa é aprovado por somente 36% dos entrevistados. É importante dizer que os dois levantamentos têm naturezas distintas: o russo quis saber a aprovação de Putin, o americano estava interessado somente na avaliação da política externa do presidente Obama. 

De qualquer maneira, achei curioso comparar os índices, mesmo com essas diferenças. Até porque, no caso de Putin, o apoio a seu governo e a ideia positiva que os russos passaram a ter dele derivam diretamente de dois eventos intimamente relacionados aos assuntos internacionais: a realização das olimpíadas de inverno e, claro, a anexação da Crimeia e todo o discurso nacionalista que, segundo Putin, serviu para justificar este grande passo geopolítico. 

A interpretação das respostas dos entrevistados russos é bem mais simples, considerando o ambiente de “defesa da identidade russa contra a ambição ocidental”. Foi essa a campanha governamental e também da imprensa aliada ao Kremlin. O discurso foi poderoso e eficiente o bastante para conquistar os corações de maior parte da população russa. O sucesso desta empreitada está refletido neste índice de apoio a Putin. O caso americano é mais complexo, mas é possível explicá-lo. Diante das últimas ações internacionais americanas (guerras de Iraque e Afeganistão e intervenção na Líbia), os cidadãos americanos consideraram ter pago um preço alto demais (financeiro e humano) para tratar de assuntos que não dizem respeito aos EUA. 

Basicamente, a Ucrânia é mais um caso similar. Independente do que seu governo faça, os americanos continuam a ver a Ucrânia e a Crimeia (assim como já aconteceu com Iraque, Afeganistão e Líbia) como questões distantes e com possibilidade de, novamente, serem forçados a pagar um preço alto demais por algo com que não se identificam. Obama ainda sofre com índices baixos de aprovação quando o assunto é política internacional em função deste passado recente do início do século 21.