quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Grupo terrorista Boko Haram faz o que quer na Nigéria

Vou repetir algo que sempre escrevo por aqui: quem procura coerência na política internacional vai se frustrar. Por mais que os líderes mundiais sempre joguem com esta expectativa, a verdade é que as posições externas dos países são determinadas por suas aspirações de poder, pelo jogo político doméstico ou pelo interesse em reforçar alianças internacionais. Neste momento, temos um exemplo de como funciona esta dinâmica; enquanto é inegável a legitimidade da solidariedade internacional após os atentados na França, a maior parte da comunidade de países não se esforça para impedir as sucessivas vitórias do grupo terrorista islâmico Boko Haram, na Nigéria. 

Ao longo de 2014, o grupo matou dez mil pessoas. Nos últimos dias, tem colocado em prática o método assustador de usar meninas entre dez e 14 anos de idade para realizar ataques terroristas. No último sábado, ao menos 16 pessoas foram mortas num mercado lotado após os terroristas amarrarem uma bomba numa menina de dez anos de idade. 

Uma boa parte do fracasso no enfrentamento ao Boko Haram é explicada pela corrupção. E pelo descaso com que o presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, trata o problema. Na medida em que não consegue impedir as sucessivas vitórias do grupo, Jonathan procura minimizar seu poderio. Com eleições marcadas para 14 de fevereiro, tem procurado inclusive maquiar o número de mortos nos atentados. 

Em meados de 2014, a revolta internacional contra esta organização terrorista atingiu seu ápice após o sequestro de 274 meninas de uma escola na cidade de Chibok. O movimento “Bring Back Our Girls (Tragam de volta nossas meninas)” causou comoção internacional e parecia que a emoção se transformaria em algo de mais concreto. Mas o presidente nigeriano fez o que pôde para jogar a questão para debaixo do tapete. Jonathan ordenou o cancelamento de um programa criado pelos EUA para combater o Boko Haram. Por sua vez, Os EUA cancelaram o treinamento de combatentes nigerianos após uma série de denúncias de organismos internacionais sobre violações de direitos humanos cometidas pelas forças armadas da Nigéria, incluindo estupro e assassinato em massa, como lembra a revista Foreign Policy

Graças às sucessivas falhas e negligências do governo de Goodluck Jonathan, hoje o Boko Haram controla uma população de 1,7 milhão de nigerianos (ver imagem). Como semelhança ao Estado Islâmico, o grupo pretende construir uma espécie de califado tendo como base a interpretação fundamentalista do islã. A comunidade internacional – e principalmente EUA e União Europeia – irão se reunir para pensar em novas maneiras de combater o terrorismo. Deveriam incluir na agenda também o combate ao Boko Haram, que, na prática, continua a fazer o que bem entende na Nigéria e por enquanto não tem motivos para se sentir intimidado. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Os aspectos políticos do antissemitismo na França

Acho importante fazer um exame sobre os aspectos políticos envolvendo a discussão sobre o antissemitismo na França. Esta discussão carrega intrinsecamente a ideia de identidade francesa e da capacidade do Estado de absorver e promover integração de suas comunidades minoritárias. 

A presença judaica na França é muito antiga; há registros de comunidades judaicas desde o ano de 465. Num dos momentos mais simbólicos da criação do França moderna, os judeus também foram atingidos. Em 1790, no ano seguinte à Revolução Francesa, os judeus receberam cidadania. De fato, a França foi o primeiro país a garantir aos judeus este direito. Hoje, há mais de meio milhão de judeus franceses plenamente integrados à identidade nacional francesa. 

Após a morte dos quatro judeus no mercado de produtos casher, o presidente François Hollande declarou que “a França sem os judeus não é a França”. É a esta história a que ele se refere. A questão é mais complexa, na medida em que o debate sobre antissemitismo é também o debate sobre a capacidade ou incapacidade dos sucessivos governos franceses de conseguir integrar suas minorias. Hoje, a situação dos judeus na França é delicada, em virtude da sensação de insegurança dos membros desta comunidade. É interessante notar também que os membros da comunidade muçulmana na França reclamam de não se sentirem plenamente integrados ao país. A questão judaica, na prática, alimenta este debate e atinge a todos. 

O momento é especialmente delicado em virtude do aumento da emigração dos judeus. Se houver uma emigração em massa dos judeus franceses, será difícil defender o modelo de integração francesa. Se por um lado os judeus estão integrados, por outro não se sentem seguros. Já os muçulmanos não se sentem integrados. Curiosamente, as duas problemáticas – judaica e muçulmana –são complementares, porque demonstram algumas incompetências relevantes de sucessivos governos franceses de diferentes partidos e filiações ideológicas. 

Isso explica também a razão pela qual o presidente François Hollande deixou a Grande Sinagoga de Paris pouco antes do discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Hollande sabia que Bibi reforçaria a ideia de que Israel estará sempre de portas abertas aos judeus. E certamente àqueles judeus que desejam deixar a França em virtude do aumento do antissemitismo no país. O discurso de Netanyahu reforça um dos aspectos principais de incompetência do Estado francês. É evidente que Hollande não se sentiu confortável com a mensagem dita de maneira tão clara por um líder estrangeiro em Paris. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A França e o antissemitismo

Durante esses dias tenho lido e ouvido bastante sobre as reações aos atentados na França. Enquanto há um consenso sobre a tentativa de extremistas de silenciar os cartunistas do Charlie Hebdo, há uma série de interpretações sobre o sequestro e posterior assassinato de judeus franceses no mercado de produtos casher.

Vi inclusive um professor comentando que o este atentado especificamente não teria motivações antissemitas. Parte da imprensa brasileira seguiu por este caminho, parte nem entrou na discussão. Seja como for, acho válido olhar o cenário mais amplo, o que tenho tentado fazer por aqui regularmente. Sobre o atentado ao mercado de produtos judaicos, certamente foi um ato antissemita. É impossível que o alvo tivesse sido escolhido ao acaso. Então vamos à análise;

A escolha de um mercado judaico teve como alvo seus frequentadores e o capital simbólico do estabelecimento comercial. Um mercado de produtos alimentares produzidos de acordo com a dieta alimentar judaica e supervisão rabínica tem os judeus como consumidores primordiais. Judeus franceses. A história recente dos judeus franceses não tem sido exatamente tranquila. Ou seja, os episódios de atentados e violência contra a comunidade judaica francesa são frequentes. 

Lar das maiores comunidades judaica e islâmica da Europa, a França tem sido palco de conflitos, principalmente em virtude do que acontece no Oriente Médio. Nos últimos anos, a situação dos judeus vem se tornando mais delicada. Para citar os casos recentes de maior repercussão: em 2006, o jovem judeu Ilan Halimi foi sequestrado e morto (inicialmente, o governo francês se recusou a reconhecer o caso como um ataque antissemita, mas depois mudou de posição); em 2012, um rabino e três crianças foram mortas a tiros na porta de uma escola judaica em Toulouse; em 2014, um cidadão franco-argelino matou quatro pessoas no Museu Judaico da Bélgica; também no ano passado, uma multidão tentou invadir uma sinagoga em Paris, alegando protestar contra a Israel. 

O atentado contra o mercado se insere nesta realidade dos judeus franceses. Ignorar este cenário inviabiliza, na prática, qualquer análise. Todos esses acontecimentos na comunidade judaica francesa explicam por que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi ovacionado na Grande Sinagoga de Paris. Vale mencionar também que, pela primeira vez desde a independência de Israel, em 1948, a França lidera o ranking da população judaica que decide se estabelecer em Israel.  

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A França depois dos ataques

A semana termina com a França em caos. E a tendência é que as consequências dos múltiplos ataques se espalhem para a Europa. E quando digo isso me refiro a dois aspectos especificamente: a política de segurança europeia e a política interna de cada um dos países. 

Não é surpresa que já nesta sexta-feira o partido de extrema-direita Frente Nacional tenha começado a tentar capitalizar com a divulgação da hashtag “fique tranquilo e vote FN”. Ao jogar pelo ralo a possibilidade de uma análise mais completa sobre a situação, a FN tende a concluir politicamente o que o fundamentalismo islâmico começou com armas: a polarização, o distanciamento. A experiência humana mostra que, quando isso acontece, os conflitos se aprofundam. E, quando isso acontece, o impasse persiste.

É claro que ninguém é inocente de imaginar ser possível dialogar com organizações como o Estado Islâmico, por exemplo. Mas é importante dizer que, por mais que o terrorismo seja um problema global, todos os envolvidos nesses dias inglórios são cidadãos franceses. Terroristas que invadiram e assassinaram jornalistas e cartunistas, policiais, reféns. Vítimas e algozes têm em comum uma característica que não pode passar despercebida: são todos franceses. E aí tenho certeza de que a França não irá desperdiçar esta oportunidade de promover um debate amplo sobre identidade nacional, terrorismo, inclusão e exclusão. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Terrorismo na França fortalece bandeiras e slogans do radicalismo

O atentado à revista francesa Charlie Hebdo acontece num momento delicado. Ao ampliar o cenário, fica fácil perceber a gravidade das consequências da ação dos três terroristas. 

Na Alemanha, por exemplo, a imigração de refugiados da guerra civil síria tem dividido o país, gerando manifestações contrárias à absorção daqueles que fogem do conflito. Como de costume, a extrema-direita tem se aproveitado da situação para se fazer presente, polarizando as posições. O grupo chamado de Pegida (em alemão, o significado da sigla não poderia ser mais alarmante: “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente”)  reúne radicais de muitas fidelidades – o que é especialmente delicado na Alemanha. 

A partir de agora, existe a possibilidade de que movimentos deste tipo ganhem força. Acrescente-se ao atentado terrorista a situação de fragilidade econômica europeia e fica fácil perceber o desafio que os governos nacionais da Europa precisarão enfrentar. Na França, a população irá cobrar respostas do presidente François Hollande. Na esteira do que está por vir, é possível que o partido de extrema-direita Frente Nacional tente capitalizar. Aliás, todos os partidos de extrema-direita – as legendas já estavam conseguindo resultados políticos importantes graças à crise econômica. 

Talvez os três atiradores não tivessem a mínima capacidade de análise quando decidiram realizar o ataque à revista, mas é evidente que a espiral de consequências mostra um resultado simples: os diferentes radicalismos se retroalimentam. No caso, o terrorismo fundamentalista islâmico impulsiona a extrema-direita. Esta tem sido, aliás, a dinâmica a marcar as relações entre os grupos radicais neste século 21. E é claro que a extrema-direita europeia e o fundamentalismo islâmico sempre se regozijam quando a polarização se aprofunda e a violência grita mais alto que a racionalidade. 

E no meio deste confronto entre radicalismos estão os cidadãos comuns – os que mais sofrem as consequências de atos e reações.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Na França, terrorismo atinge jornalistas para calar a democracia

O terrorismo é uma forma de intimidação. O termo é autoexplicativo; a ideia é aterrorizar, causar medo e forçar seus opositores a recuar. Ao buscar o uso indiscriminado e deliberado da violência propositalmente voltado contra inocentes, está, portanto, deslegitimado. O que significa, claramente, que, sejam quais forem as supostas desculpas teóricas que tentam justificá-lo, simplesmente não é um método aceitável. 

Diante disso, o terrorismo presta um grande desserviço a qualquer causa porque, seja qual for esta causa, ela se torna automaticamente ilegítima a partir de sua forma de expressão violenta. Escrevi tudo isso porque imagino o que vem por aí; não me surpreenderei se, em algum momento, alguém disser que o ato de assassinato indiscriminado de trabalhadores da revista Charlie Hedbo tenha sido causado pela publicação de charges ou caricaturas ofensivas ao islamismo. Este não pode ser o foco da discussão a partir de agora. Cabe uma grande condenação ao ato e a seus autores, não do conteúdo da revista. 

Em virtude das caricaturas, a sede da revista já havia sido queimada, em novembro de 2011. Agora, o assassinato de jornalistas e desenhistas é um encerramento de um ciclo que tinha como objetivo calar a publicação e o que ela representava: a livre expressão. A lei existe para combater eventuais abusos da imprensa. A sociedade é o meio transparente de debater seus limites. Assassinatos e atos de violência não são parte do repertório democrático. Simples assim. 

Em setembro de 2012, após mais uma série de publicações polêmicas, o jornalista Laurent Leger deu uma declaração que serve perfeitamente para os acontecimentos deste 7 de janeiro:

“Na França, sempre temos o direito de escrever e desenhar. Se há aqueles que não estão felizes com isso, podem nos processar e nós podemos nos defender. Assim é a democracia. Você não joga bombas, mas discute, debate. Precisamos resistir à pressão do extremismo”. 

Os jornalistas e desenhistas da revista precisaram pagar com as próprias vidas pela ousadia da livre expressão e do humor. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Lideranças políticas de palestinos e israelenses não conseguem traçar estratégias de longo prazo

A ideia do presidente palestino, Mahmoud Abbas, de se filiar ao Tribunal Penal Internacional (TPI) mostra como a liderança política palestina precisa de algum ganho real. Com a popularidade do Hamas em alta, Abbas entendeu que era necessário conseguir ao menos um resultado relevante para ser usado publicamente de forma a retomar seu prestígio bastante abalado durante o ano de 2014. Mesmo diante das perdas humanas e de infraestrutura em Gaza, o Hamas ainda sim conseguiu a manutenção de seu status diante da população palestina. O conceito de “resistência” a partir de ataques com mísseis lançados contra Israel permanece como narrativa aderente. 

Em boa medida, isso mostra o fracasso de visão estratégica das lideranças políticas oficiais de israelenses e palestinos. Ao enfraquecer a Autoridade Palestina, de Abbas, e terminar a guerra em Gaza com um acordo com o Hamas, Benjamin Netanyahu acabou por fortalecer o grupo terrorista baseado em Gaza. A ideia de Netanyahu parece ser a de deixar a situação do jeito que está, mantendo o impasse político e, a cada dois anos, respondendo aos mísseis lançados pelos Hamas. Se isso lhe permite continuar à frente do governo de Israel, por outro lado impede que a disputa entre israelenses e palestinos seja resolvida em bases políticas sólidas – e encerrar o conflito é certamente o interesse das população de Israel e dos territórios palestinos. O processo de paz está parado em função destes aspectos; da falta de vontade política de Netanyahu e da falta de visão estratégica de Abbas, que não percebe suas oportunidades políticas e acaba fazendo o jogo deste governo de Israel – ao se filiar ao TPI, a Autoridade Palestina certamente dá a Netanyahu um argumento forte o bastante para que se mantenha distante da mesa de negociações. 

Considerando que existe a possibilidade de um novo cenário em Israel, talvez Abbas pudesse tomar medidas políticas mais contundentes a partir do resultado das próximas eleições israelenses marcadas para o próximo mês de março. Há novos partidos surgindo em Israel e novas possibilidades de coalizão. Seria interessante aguardar, uma vez que há chances de lideranças políticas israelenses mais interessadas na retomada do processo de paz fazerem parte do próximo governo, caso da ex-ministra da Justiça Tzipi Livni (foto), por exemplo, que coordena um bloco de centro-esquerda com Isaac Herzog, líder do Partido Trabalhista israelense.