terça-feira, 16 de junho de 2015

Os planos do Estado Islâmico em curso na Líbia

Após a captura e morte de Muamar Kadafi, em 2011, o então primeiro-ministro do Conselho Nacional de Transição da Líbia, Mahmoud Jibril, deu uma declaração para lá de otimista sobre as perspectivas a partir daquele momento: “Confirmamos que todos os males, mais Kadafi, desapareceram deste amado país. Acho que os líbios precisam perceber que é hora de começar uma nova Líbia, uma Líbia unida, um povo, um futuro”. Hoje, quatro anos depois, a realidade é bem diferente. A Líbia não tem mais um ditador, mas, por outro lado, passou a figurar na lista de Estados nacionais falidos. Há dois governos rivais que não se reconhecem e disputam o direito de comandar o país.

Tudo isso tem algo de imaginário, uma vez que, na prática, o território líbio é retalhado entre os diversos grupos terroristas e suas diferentes fidelidades. Desde o último dia 9, o grande vencedor do Oriente Médio desses tempos tomou a cidade de Sirte, justamente onde Kadafi nasceu e, posteriormente, foi capturado. O Estado Islâmico está na Líbia e vem ampliando seus domínios.

Kadafi foi derrotado por uma coalizão de países ocidentais, com o apoio da Otan (a aliança militar ocidental), ainda na esteira da Primavera Árabe e acabou substituído por regimes que se contrapõem entre si e que não tem poder de fato sobre a integralidade do território. A disponibilidade da Líbia serviu como porta de entrada aos grupos terroristas da região e, de forma dramática, ao EI.

Diante desta falta de perspectivas, os EUA realizaram o primeiro ataque aéreo ao território desde a ofensiva de 2011. Dois caças F-15 bombardearam uma propriedade em Ajdabiya, no leste do país. Em teoria, o ataque matou Mokhtar Belmokhtar, conhecido por sua habilidade de fugir de inimigos.  Belmokhtar era argelino e já havia sido considerado morto outras vezes. Durante muitos anos foi traficante de cigarros e chegou ao posto de um dos principais lideres da al-Qaeda no Norte da África (também conhecida como al-Qaeda do Magreb).  Foi também um dos primeiros membros do grupo a exigir pagamento de resgate para libertar reféns como forma de levantar dinheiro. Além disso, o governo americano suspeita de seu envolvimento no ataque ao consulado de Bengazi, em 2012, em que o embaixador Chris Stevens e outros três cidadãos dos EUA foram mortos.

A suposta morte de Mokhtar Belmokhtar provocou interesse internacional em função dos feitos do terrorista. Mas há algo de estranho na situação em que estava envolvido quando foi atacado pelos caças dos EUA; uma reunião entre membros da al-Qaeda e do Estado Islâmico. Os dois grupos são rivais e o EI nasceu como dissidência à organização criada por Osama bin Laden. Já se sabe que, nas operações do dia a dia, as duas facções vêm se aproximando. Há notícias de membros da al-Qaeda que se filiaram ao EI. Há outros grupos, como o Boko Haram, na Nigéria, que já declararam fidelidade a Abu Bakr al-Baghdadi, o autodenominado califa do EI.

Não há dúvidas de que o Estado Islâmico é hoje a organização terrorista mais temida em todo o mundo. É também o grupo que consegue atrair mais seguidores internacionais e que exerce a maior influência no jogo político regional. O assassinato de Belmokhtar pode se transformar num símbolo do momento em que o mundo descobriu que o Estado Islâmico está obtendo sucesso em se tornar o guarda-chuva do terrorismo internacional, deixando para trás a al-Qaeda e absorvendo seus membros e capacidade militar. O que era ruim pode piorar. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Os curdos no novo cenário político da Turquia

Apesar de não ter vencido as eleições, o Partido Democrático do Povo (HDP) conquistou um feito histórico: pela primeira vez concorrendo sob uma mesma legenda os curdos ultrapassaram o mínimo de 10% de votos e estarão representados no parlamento. Os 80 membros eleitos do partido – de um total de 550 assentos da Assembleia Nacional – adicionam um elemento novo no jogo político oficial. Especialmente neste momento de indefinição quanto aos rumos da Turquia. 

Os curdos correspondem a 18% dos pouco mais de 80 milhões de habitantes do país. Desde 1984, o movimento nacionalista que reivindica mais direitos à minoria encontrou representatividade no Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) . O grupo seguiu o caminho da guerrilha, fez atentados no país e seu líder, Abdullah Ocalan,  está preso de 1998. O Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), do presidente Recep Tayyip Erdogan, iniciou processo de aproximação com os curdos, na tentativa de encontrar uma solução para suas as demandas e resolver mais de 30 anos de conflito. Em fevereiro de 2015, os anos de negociações secretas entre Ocalan e o governo turco pareciam estar prestes a terminar, e o líder curdo determinou que seus correligionários se reunissem para tentar alcançar um acordo definitivo e dar fim à luta armada que, de acordo com autoridades da Turquia, já causou a morte de 40 mil pessoas. 

No entanto, a disputa eleitoral provocou a interrupção do que parecia ser o caminho natural que daria fim às hostilidades. Na tentativa de alcançar a maioria absoluta do parlamento, a campanha do AKP passou a retratar o HDP – o partido oficial curdo – como indiferente aos interesses nacionais da Turquia. Simultaneamente, Erdogan enfureceu a minoria ao se recusar a fornecer ajuda militar aos curdos da Síria durante os combates contra o Estado Islâmico. O HDP, por sua vez, optou por apresentar agenda mais liberal, em busca de apoio nacional. O plano funcionou e o partido agora é parte do sistema e tenta encontrar uma saída para o nó político formado a partir da divulgação dos resultados eleitorais. A tática do AKP de isolar as ambições políticas curdas para conseguir mais votos e obter a maioria absoluta no parlamento não funcionou. Agora, Erdogan parece ser vítima da própria estratégia, na medida em que as demais legendas ainda não acenaram com a possibilidade de coalizão. 

Durante as comemorações pelos resultados das eleições, Selahattin Demirtas, líder do HDP, declarou que o “debate sobre a ditadura” havia terminado, numa clara referência aos planos de Erdogan – por ora fracassados - de alterar o sistema de governo. Politicamente, os curdos não podem ser ignorados por Ancara. Mas, se a representatividade da minoria está garantida, Erdogan ainda mantém a maioria do parlamento e pode alcançar a sonhada maioria absoluta caso consiga formar aliança com o Partido do Movimento Nacionalista (MHP) que obteve 80 cadeiras no parlamento. É pouco provável que isso aconteça, mas não é impossível. Se em algum momento os partidos adotarem o pragmatismo e se unirem, terão a maioria absoluta na Assembleia Nacional, com 338 assentos. Para os curdos, representaria um novo desafio, na medida em que o MHP se opõe à concessão de mais direitos à minoria. 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Eleitores turcos não dão maioria absoluta a partido de Erdogan e futuro político do país segue indefinido

O atual presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, sofreu seu maior revés desde o início deste século a partir da divulgação dos resultados eleitorais do último dia 7. O presidente, ex-primeiro ministro e personalização de homem forte da Turquia está passando por dias difíceis, ainda mais quando comparados aos tempos de vitórias incontestáveis do passado recente.

O AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento), fundado por Erdogan em 2001, venceu todas as eleições no país nos últimos 13 anos. Os resultados que emergem da urna ainda mantêm o AKP na posição de maior legenda partidária turca, mas já não garantem a mesma força de outros tempos. A ginástica política de Erdogan lhe permitiu revezar-se na liderança do país; após 11 anos como primeiro-ministro, passou o cargo a seu chanceler – Ahmet Davutoglu, seu homem de confiança – e se candidatou à presidência. Venceu com 51,8% dos votos e encarava as eleições deste ano como a possibilidade de obter a maioria absoluta no parlamento e, com isso, alterar o sistema de governo para o presidencialismo – o que o levaria novamente ao principal cargo executivo do país.

Os turcos rejeitaram esta proposta, deixando claro que não estão dispostos a dar poderes plenos a Erdogan. O AKP fez importantes investimentos em infraestrutura, e a Turquia pôde usufruir de crescimento econômico no período em que os vizinhos ocidentais na Europa estavam mergulhados na crise financeira. A partir de 2001, Ancara experimentou média de crescimento de 6% até 2008, alcançando 9% em 2010 e 2011. Nos últimos dois anos, no entanto, a expansão do PIB caiu para 2%. Mesmo continuando a crescer, houve redução no ritmo, o que pode ter causado impacto nos cidadãos comuns e na percepção sobre o desempenho do governo – ainda mais de um governo personalizado num líder. Erdogan não pode mais ostentar resultados econômicos impressionantes como os dos últimos 14 anos.

Resta agora ao AKP negociar com adversários históricos: pela primeira vez, os curdos – que representam 18% da população – conseguiram ultrapassar o mínimo de 10% de votos exigidos por lei (fizeram 12 pontos percentuais) e estarão representados no parlamento pelo Partido Democrático do Povo (HDP); o Partido Republicano do Povo (CHP), principal bloco de oposição a Erdogan, obteve 25%; e o Partido do Movimento Nacionalista (MHP) conquistou 16,5% dos votos. Nenhuma das três legendas se mostrou disposta a formar um governo de coalizão com o AKP.

Por isso, as possibilidades ainda não estão claras e certamente haverá extensas negociações de bastidores. De toda forma, Erdogan conta com a possibilidade de convocar novas eleições, caso em 45 dias as articulações para a formação de um novo governo não obtenham sucesso. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Eleições na Turquia: partido de Erdogan vence, mas presidente não terá força suficiente para alterar constituição

Não deu para o presidente, ex-primeiro ministro e político mais poderoso da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. O líder turco foi derrotado em seu teste mais ousado. A ambição que incluía a mudança do sistema de governo para o presidencialismo acabou adiada em função dos resultados eleitorais. Seu partido, o AKP, não obteve os 330 assentos no parlamento – número necessário para promover referendo nacional e alterar a constituição do país.

Esta é uma derrota numérica, mas não o fim de Erdogan, é bom deixar claro. O AKP ainda se mantém como a principal força nacional e sai das eleições com 258 cadeiras (atualmente, tem 327). Este é um recado da população e pode ser entendido como um freio em suas posições cada vez mais extremadas. 

Os resultados eleitorais também mostram um país preocupado com a política econômica. A partir de 2001, o governo turco realizou reformas que renderam ao país números consideráveis, principalmente quando comparados aos vizinhos europeus:  média de crescimento de 6% até 2008, alcançando 9% em 2010 e 2011. Nos últimos dois anos, no entanto, o PIB caiu para 2%. Mesmo continuando a crescer, houve redução, o que naturalmente causa impacto nos cidadãos comuns e na percepção sobre o desempenho do governo – ainda mais de um governo personalizado num líder. Erdogan não pode mais ostentar o poderio econômico dos últimos 12 anos. 

Por tudo isso, depois de sucessivas de vitórias nas urnas, o AKP vai precisar exercitar a capacidade política de formar uma coalizão. O dado histórico é a conquista dos curdos; unidos sob a legenda HDP, conseguiram obter 13% do total de votos e estarão representados no parlamento. Os próximos dias serão de negociações intensas para a formação do novo governo. Para entender o cenário dessas eleições, clique aqui.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Eleições na Turquia: o grande teste ao personalismo político de Erdogan

Nos últimos 12 anos, o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) venceu todas as eleições na Turquia. Há poucos paralelos no mundo de resultados políticos tão impressionantes. A legenda do atual presidente Recep Tayyip Erdogan saiu vitoriosa das urnas em disputas nacionais (para presidente e eleições legislativas) e municipais. São 12 anos de variação também sobre as percepções internacionais aos discursos e decisões de Erdogan e suas intenções regionais.

O AKP chegou a ser considerado modelo para o Oriente Médio. Visto como empenhado na manutenção da democracia turca, pareceu exemplo a países da região que, em 2011, não sabiam como equilibrar as intenções da Primavera Árabe (eleições livres e transparentes, imprensa independente, crescimento econômico etc) às características locais (o peso da religião e a importância de manter costumes sem negar o mundo contemporâneo). 

Houve momento também em que Erdogan se tornou o líder muçulmano mais admirado nos países islâmicos (árabes ou não). Em maio de 2010, a Turquia foi a principal patrocinadora de uma frota de seis navios que tentou furar o bloqueio de Israel a Gaza. O episódio foi amplamente capitalizado pelo então primeiro-ministro turco, e o embate retórico pessoal entre ele e os israelenses contribuiu bastante em sua tentativa de resgatar o prestígio da Turquia no Oriente Médio.  

Mas o tempo passou e Erdogan se deixou seduzir pelo poder. Em 2013, pôs em prática repressão pesada a protestos contrários à decisão de transformar a área do Gezi Park, em Istambul, num shopping. Em cenas que pouco tempo depois seriam vistas aqui no Brasil, policiais foram violentos na abordagem aos manifestantes, lançando gás lacrimogêneo e canhões d’água. 

Erdogan chegou a bloquear o acesso a Youtube e Twitter, passando também a processar jornalistas e lutar pela aprovação de uma lei que penaliza participantes de manifestações que não tenham sido autorizadas pelas autoridades. As perseguições sistemáticas a opositores e dissidentes levantaram ainda mais suspeitas sobre o ex-primeiro ministro e atual presidente, mas o realismo político das relações internacionais não permite a parceiros comerciais – mesmo críticos às práticas turcas – ignorar o poder do país, Estado nacional estratégico e cuja importância geopolítica e econômica é evidente neste momento de crise europeia e mudanças no cenário do Oriente Médio. 

Nessas eleições, os curdos da Turquia também tentam, pela primeira vez, concorrer como grupo político organizado. Se o Partido Democrático do Povo Curdo (HDP) obtiver ao menos 10% dos votos, estará representado de maneira unificada no parlamento. A situação curda não é tranquila. Maior minoria étnica e linguística do país, os 14 milhões de curdos representam 18% da população turca. Seja qual for o resultado das eleições, a situação deve permanecer tensa; no parlamento, podem ser oposição a Erdogan. Se não forem eleitos, podem optar por buscar autonomia por conta própria, sem negociação com Ancara. 

No ano passado, Erdogan se tornou o primeiro presidente eleito da Turquia (entregou o cargo de primeiro-ministro a Ahmet Davutoglu, seu ex-chanceler). Se o partido o AKP conquistar ao menos 330 dos 550 assentos do parlamento neste domingo, o líder turco poderá realizar um referendo nacional de forma a alterar a constituição para que o país adote o presidencialismo. Na prática, está em jogo uma espécie de aprovação às próprias ambições políticas de Recep Tayyip Erdogan e aos últimos 12 anos do AKP no poder. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Bashar al-Assad, a luta contra o EI e as prioridades americanas no Oriente Médio

Neste texto (clique aqui para ler) expus a estratégia do presidente sírio, Bashar al-Assad, para se manter no cargo. Ele admitiria perder parte do território – pelo menos temporariamente – ao Estado Islâmico em nome de reforçar o pragmatismo ocidental em torno de si. Sem Assad, a vitória estaria garantida ao EI. Por alto, é por aí. O texto explica de maneira mais aprofundada. Mas, de qualquer maneira, é importante deixar claro que isso não significa que o presidente sírio irá abrir mão da Síria. Sua posição deve ser a de reforçar enclaves na região costeira, Damasco, Hama e Homs. Assad também se vale do conflito sectário regional mais amplo, o que coloca em disputa os eixos de Estados e atores não-estatais de xiitas e sunitas. 

A família Assad é alauíta, minoria muçulmana – e minoria na Síria – que seria mais próxima aos xiitas. Os sunitas do EI pretendem construir o califado islâmico sunita. Assad sabe que nem ele nem seus aliados xiitas fazem parte deste projeto. E, claro, os Estados nacionais da região não estão dispostos a cooperar para o próprio fim. Em virtude disso, a guerra entre xiitas e sunitas está em curso da maneira mais dramática. Deixou de ser apenas uma espécie de batalha silenciosa local e foi posta em prática na Síria e no Iraque. Assad aposta também em seus aliados regionais: a milícia xiita libanesa Hezbollah (já em operação na Síria) e o Irã – o Estado xiita regional cujas pretensões de hegemonia no Oriente Médio são históricas e que agora chegaram ao ápice. 

O caso iraniano é emblemático. É uma história de idas e vindas; em 1979, a revolução local estabeleceu um sistema que rompeu com os EUA. As relações com o Ocidente ficaram rarefeitas. O programa nuclear iraniano impulsionou negociações com os ocidentais, e o governo do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad isolou o país. Discursos favoráveis ao fim de Israel e a sistemática – e provocativa – negação do Holocausto transformaram a relação entre Ocidente e o Irã num problema. O temor de guerra regional deu ao projeto nuclear iraniano o caráter de prioridade internacional. A posse de Hassan Rouhani, em agosto de 2013, foi interpretada como possibilidade de distensão. Considerado moderado, seu governo acenou ao Ocidente. Em abril deste ano, o acordo preliminar com o chamado P5+1 (grupo formado por EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China) foi extensamente capitalizado como vitória – pelos dois lados, é bom dizer. O  acordo final precisa ser alcançado até o final do mês de junho. Este é o prazo formal estabelecido, pelo menos até agora. 

Justamente nesta semana, o presidente Rouhani reafirmou sua aliança com Bashar al-Assad (“Teerã não esqueceu suas obrigações morais com a Síria e continuará a fornecer ajuda e apoio em seus próprios termos ao governo e à nação Síria”). Há aí alguns aspectos a serem analisados: o primeiro deles é o peso que o Irã deve dar a esta questão. Evidentemente, as autoridades do país entendem a dinâmica regional. A relação entre iranianos e o governo Assad é de interdependência. O Irã precisa fortalecer seus aliados regionais de forma a conter o eixo sunita e não se isolar ainda mais. Bashar al-Assad precisa dos iranianos para manter a aliança xiita. Neste jogo global, o Irã é agora mais um porta-voz dos interesses xiitas (e do governo Assad) diante do Ocidente. Nas negociações de bastidores do acordo definitivo com o Irã, o P5+1 deve ser questionado sobre os avanços do Estado Islâmico e a manutenção de Bashar al-Assad como presidente da Síria. 

O outro lado da história tem a ver com o posicionamento dos EUA. O presidente Obama não conseguiu se transformar no presidente americano que resolveria as pendências globais. Esta era a expectativa internacional. Era também a imagem que a equipe de Obama construiu do então candidato. No ano que vem, os americanos vão às urnas novamente, e Obama precisa apresentar resultados (como já expliquei anteriormente, nenhum país vota em função da política internacional, mas é importante construir narrativa vencedora até para que o candidato Democrata possa argumentar nos debates). Diante da impossibilidade prática de alcançar resultados determinantes no conflito entre israelenses e palestinos, a atual administração percebeu que pode terminar o mandato com duas grandes conquistas: a reaproximação com Cuba e o acordo definitivo com o Irã – visto com um dos patrocinadores do terrorismo internacional, o acordo já tem sido defendido internamente nos EUA como a desmobilização de um dos mais importantes opositores aos interesses de americanos e seus aliados. 

Todos esses elementos tornam a situação na Síria bastante delicada em Washington; os EUA não nutrem qualquer afeição a Assad, principalmente após o episódio de uso de armas químicas no país (leia aqui). Por outro lado, precisam negociar com o Irã, encontrar algum ponto de acomodação em troca do acordo; e, ao mesmo tempo, manter os Estados sunitas aliados (Egito, Arábia Saudita, países do Golfo) conformados. A divergência entre as monarquias do Golfo Pérsico e o Irã é histórica, da mesma forma que a aliança entre americanos e sauditas. Como é pouco provável equacionar todos esses elementos, os americanos deverão eleger prioridades. E as prioridades deste momento são o acordo nuclear com o Irã e a manutenção dos aliados sauditas. O governo de Bashar al-Assad talvez consiga se beneficiar deste cenário. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Para começar a vencer o EI, Iraque precisa superar rupturas internas

A derrota do exército iraquiano em Ramadi (tema de texto aqui no site, leia) deu ainda mais dramaticidade ao encontro dos membros da coalizão internacional. Em Paris, ao menos 20 dos 60 Estados participantes da ofensiva de contenção ao Estado Islâmico devem ao menos reavaliar as estratégias colocadas em prática. Mas, se a perda – mesmo que se prove temporária – de Ramadi lança evidentemente um alerta generalizado, há muita expectativa sobre o atual primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi. 

Se há algo de permanente nos últimos anos no Oriente Médio é a divisão sectária entre sunitas e xiitas. Este não é um fenômeno novo, mas os acontecimentos recentes deixam claro o aprofundamento das hostilidades entre os dois grupos. A Primavera Árabe e o alinhamento dos Estados regionais a partir desta premissa não deixam dúvidas. E os grandes atores internacionais sabem disso, claro. Entendem também que os governos iraquianos não têm contribuído para acalmar os ânimos internos e esfriar rivalidades. E é deste vácuo de costura nacional, desta ausência de empenho, que o EI tem se aproveitado.

O EI se reafirma como o grupo representante dos sunitas – o que é especialmente atraente à minoria sunita iraquiana. Ao reforçar as cores da divisão sectária, o EI se fortalece diante desta parcela da população do Iraque que se percebeu deslocada do processo de tomada de decisões e desprestigiada pelo país que emergiu do vácuo deixado pelo ditador Saddam Husssein. Os sunitas iraquianos (cerca de 40% dos cidadãos) foram abandonados durante os dois mandatos do ex-primeiro ministro, o xiita Nouri al-Maliki (2006 a 2010 e 2010 a 2014).

Por mais que as estratégias militares internacionais estejam na pauta das discussões em Paris, a melhor maneira de convencer esta parcela dos iraquianos a desconsiderar o discurso do também sunita EI é correr para concretizar um Estado nacional que supere as rivalidades sectárias. É evidente que isso não acontece de um dia para o outro, mas é impossível solucionar as questões nacionais iraquianas desconsiderando este fato óbvio. Isso não irá derrotar o EI, mas enfraquecerá seu apelo interno.