sexta-feira, 26 de junho de 2015

Os atentados terroristas pelo mundo e o modo de operação do Estado Islâmico

Os atentados em três continentes realizados nesta sexta-feira podem ter sido realizados pelo Estado Islâmico ou por autointitulados membros do grupo terrorista. Se foram realizados por terroristas com alguma participação formal no EI importa pouco. O que mais importa é a aderência da ideologia, o poder do discurso. Hoje, o EI já se sobrepôs à al-Qaeda e está estabelecido – de fato e no imaginário – como a principal ameaça à segurança internacional. Se em 2001 a al-Qaeda inaugurou a era do terrorismo “franqueado”, o EI conseguiu, 14 anos depois, pôr em prática a lógica perversa de trabalhar a partir dos elementos distintos que as realidades ocidental e oriental apresentam.

No Oriente Médio, o grupo se sente bastante à vontade e já conta com conquistas territoriais significativas na Síria e no Iraque. Nesta sexta-feira, também assassinou 146 pessoas na cidade de Kobane, na fronteira entre Síria e Turquia. Seus inimigos são sempre os não-sunitas. Na prática, os muçulmanos são as principais vítimas. A ideia é reforçar a identidade do EI como uma espécie de protetorado dos sunitas – mesmo que a população muçulmana sunita jamais tenha feito tal pedido. A lógica é dividir para conquistar. E daí a intenção, cada vez mais evidente, de reforçar a guerra étnica entre os próprios muçulmanos. 

No Kuwait, país de maioria sunita mas com importante minoria xiita, os terroristas mataram 27 pessoas num atentado a uma mesquita xiita (foto). É o primeiro ataque do grupo a um Estado do Golfo Pérsico. Isso é particularmente importante, na medida em que a disputa regional do Oriente Médio passa pela aliança entre as monarquias do Golfo que se contrapõem ao eixo xiita liderado pelo Irã. Em comum a todos, o temor ao EI e a seu objetivo de acabar com as fronteiras nacionais em nome do projeto de restauração do Califado. No Kuwait, especificamente, não há registros significativos de hostilidades entre xiitas e sunitas. Está claro que o EI procura mudar esta situação, evidenciando a estratégia regional do grupo: a guerra sectária. 

Na Europa, a estratégia é diferente. O EI se aproveita do ciclo político local. A cada recrudescimento da extrema-direita europeia, a cada tentativa de tornar os muçulmanos comuns reféns das consequências de atos da bárbarie do fundamentalismo, o EI comemora. O abismo é a única maneira de existência, não há qualquer possibilidade de um caminho comum entre as culturas. E aí os atentados desempenham papel fundamental neste projeto, já que alimentam o discurso político dos partidos mais radicais e enfraquecem os moderados. É na Europa também que o EI pretende encontrar adeptos. E quanto mais marginalização, mais ressentimento, mais exclusão da sociedade, melhor. Esses elementos estão na base de muitos dos europeus que buscam adesão ao EI e no isolamento dos muçulmanos que vivem nos países europeus. 

Não se pode examinar os acontecimentos desta sexta-feira trágica sem levar em consideração todos esses fatores. 

O acordo com o Irã pode mudar o rumo das eleições nos EUA em 2016

No próximo dia 30 expira o prazo para que o P5+1 (EUA, Grã-Bretanha, Alemanha, França, Rússia e China) alcance os termos finais de um acordo que normatize e limite as pretensões nucleares iranianas. Entre todos os países envolvidos nas negociações nenhum está mais interessado no sucesso das conversações do que os EUA – o Irã também, claro, na medida em que espera ficar livre das sanções internacionais. Mas, sob o ponto de vista do impacto político, o governo Obama precisa tanto deste acordo quanto os iranianos necessitam dele para recuperar suas perdas econômicas.

No entanto, da mesma maneira como aconteceu em abril – quando houve consenso quanto a um acordo preliminar –, a reta de chegada desta última semana de junho promete muita tensão, discussão e questionamento. Na última quarta-feira, o aiatolá Ali Khamenei, maior autoridade do Irã, já deixou claro que espera a suspensão das sanções antes da assinatura do acordo. Era tudo o que a Casa Branca não precisava. Se já há muita resistência interna nos EUA, as palavras de Khamenei acrescentaram ainda mais desconfiança.

O secretário de Estado John Kerry, que está à frente das negociações pelos americanos, procurou minimizar as palavras e alegou que se trata de um discurso doméstico. O problema para Kerry é que esta é, na prática, uma situação sem saída. Nem pode elevar o tom – sob ameaça de interromper o diálogo –, nem pode dar a entender que P5+1 estaria disposto a fazer mais concessões.
Vale lembrar também que em novembro de 2016 ocorrem as eleições americanas. Após oito anos de governo democrata, Hillary Clinton navega por águas tranquilas em sua candidatura até agora (os republicanos ainda não apresentaram um nome que pudesse rivalizar com a ex-primeira dama e ex-secretária de Estado). Por isso a oposição não vai pensar duas vezes em tentar mudar este cenário com as armas que tiver disponíveis. Sejam elas quais forem.

Um dos principais nomes no comando desta missão é o senador republicano Bob Corker (foto), representante do partido no Comitê de Relações Externas do Senado. O objetivo dos republicanos não é apenas questionar ideologicamente o projeto de acordo defendido pelo governo, mas também atuar politicamente para dificultar sua aprovação. Corker é autor da lei, já em vigor, que obriga o presidente Obama a submeter um eventual entendimento com o Irã ao Congresso até o dia 9 de julho. Quando isso acontecer, as duas Casas (Senado e Câmara dos Deputados) terão 30 dias para se posicionar sobre os termos acordados em Viena. Obama pode vetar qualquer parecer dos congressistas – e deve mesmo fazer uso desta possibilidade.

Mas aí o Congresso tem uma maneira de driblar o veto presidencial. E aposto que este deve ser o assunto que irá movimentar o debate político em Washington – e principalmente as negociações de bastidores – em algum momento do segundo semestre deste ano. Os deputados e senadores podem ter a palavra final sobre o acordo com o Irã caso dois terços dos congressistas americanos das duas Casas se oponham à decisão do presidente.

Esta é uma possibilidade real e, se realmente ocorrer, irá movimentar todas as forças políticas dos EUA. Este é o tipo de discussão tão desgastante que pode mudar inclusive o que parece ser um caminho tranquilo para os democratas nas próximas eleições. E é justamente em função disso que acredito que os republicanos não irão perder a oportunidade de alongar este assunto ao máximo. Já escrevi por aqui que, na maioria das situações, questões de política externa não costumam influenciar decisivamente em eleições. Se este cenário que descrevi se confirmar, haverá um exemplo bastante representativo de que, em algumas circunstâncias, esta premissa não se aplica. 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

As razões por trás da decisão americana de alocar equipamentos militares na Europa oriental

A Rússia reage mal quando pressionada. Esta não é uma novidade. Com Putin à frente do país, a política de enfrentamento com o Ocidente passou a ser determinante às ambições nostálgicas do presidente. Diante da divulgação do projeto americano de armar Estados do leste europeu, a tendência é que Moscou reaja. OS EUA irão alocar na Europa oriental tanques, veículos de guerra e artilharia. A ideia é reforçar a Otan, a aliança militar ocidental, e responder principalmente às demandas do leste europeu – que se sente cada vez mais ameaçado pela Rússia.

Houve uma sucessão de acontecimentos desde a invasão russa à Ucrânia no ano passado. A decisão de Putin de anexar a Crimeia e Sevastopol causou alarme aos ex-membros da União Soviética e da chamada Cortina de Ferro. Este era um movimento de certa maneira já previsto pelos russos, mas, mesmo que Putin imaginasse uma reação ocidental mais assertiva, ele tinha a seu favor os eventos de agosto de 2008, quando a Rússia invadiu a Geórgia e, na prática, não foi confrontada pela comunidade internacional. A Ucrânia pode ter sido mais uma tentativa de testar os limites. Por mais que as sanções ainda estejam em vigor e a economia russa perceba seus efeitos reais (principalmente neste momento de crise), a resposta militar não aconteceu. Ou, pelo menos, alguma sinalização disso. 

Os países do Báltico (Estônia, Letônia e Lituânia) jamais se sentiram seguros. Se os russos se consideram ameaçados pelas incursões ocidentais em sua antiga esfera de influência, há no Báltico a certeza de que é lá onde Putin dará a sua próxima cartada no jogo político internacional. O Kremlin nunca aceitou de fato a adesão de ex-repúblicas soviéticas à Otan. 

Este jogo de soma zero ganha agora elementos da Guerra Fria; os americanos aportam armamento na fronteira russa; os russos acrescentam mais 40 mísseis balísticos intercontinentais em seu arsenal nuclear. Há uma evidente escalada e os dois lados já deixaram o discurso para trás. Por ora, em termos práticos, a Rússia deu os passos mais importantes (e ousados): na guerra da Geórgia, em 2008, e na anexação de parte do território ucraniano, em 2014. Nenhuma dessas ações foi respondida. Até agora. 

Os equipamentos militares americanos serão colocados em seis territórios: Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia e Romênia. É uma resposta clara ao temor desses países, mas também uma tentativa de reforçar a Otan, aliança cuja existência já vinha sendo questionada. De um lado, atende ao propósito de Washington de não deixar morrer uma organização importante para sua estratégia de presença global; de outro, cumpre com a promessa de mandar um recado claro aos russos sem necessidade de envolvimento direto na guerra da Ucrânia. O único problema deste caminho é que há outras questões em que os interesses americanos cruzam com os russos. Um caso especial é o Irã. No próximo dia 30, vence o prazo final estipulado pelo P5+1 (EUA, Grã-Bretanha, Alemanha, França, Rússia e China) para alcançar os termos definitivos do acordo nuclear com o Irã. Por mais que os americanos estejam à frente do processo de negociação, a Rússia tem relação mais próxima com Teerã. Não seria surpreendente se, diante do movimento americano na Europa, Moscou optasse por dificultar a situação com os iranianos. 

Putin sabe como Obama considera prioritário resolver a crise nuclear com Teerã. Este seria um dos principais legados internacionais dos oito anos de governo Obama. Com americanos e russos em rota de colisão, os eventos se misturam e as decisões dos lados influenciam diretamente em questões que, aparentemente, não estão relacionadas. 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Com indefinição da UE, Rússia se aproxima da Grécia

A cada nova decepção com a Europa, a cada perspectiva de mais exigência de austeridade, a cada novo índice negativo os dirigentes gregos desistem um pouco mais da União Europeia. O eixo das relações do país pode estar aos poucos em mudança. Em Atenas, há agora a possibilidade de buscar novos parceiros, principalmente aqueles que acenam com dinheiro neste momento de torneiras fechadas e caras amarradas em Bruxelas. O olhar da Grécia busca o leste. E o presidente russo, Vladimir Putin, busca o contra-ataque ao Ocidente. A crise da Grécia é sua grande oportunidade. 

Em menos de três meses, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, já esteve na Rússia duas vezes. Na última visita, dia 19 de junho, não saiu de mãos vazias. Em São Petersburgo, fechou com os russos um acordo preliminar no valor de 2 bilhões de dólares para a construção de um gasoduto. Rússia e Grécia têm um ponto comum: ambos se consideram injustiçados pelo Ocidente. Esta união dos rejeitados é oportuna aos dois governos. Para a Grécia, apresenta a perspectiva de ter algum trunfo nas negociações com os parceiros europeus, além de garantir, em médio prazo, uma fonte de receita permanente. Para a Rússia, as vantagens são ainda mais significativas. 

A política externa de Putin se fundamenta na formação de alianças para se contrapor ao que considera como investidas ocidentais – para Moscou, o Ocidente faz ameaças constantes ao território russo. Para Putin, o caso ucraniano é emblemático, assim como todas as tentativas de expansão da UE aos países orientais do continente. Diante da guerra na Ucrânia (em que os russos anexaram as regiões da Crimeia e Sevastopol), o governo Putin, pessoas do círculo pessoal do presidente, empresas governamentais e privadas passaram a sofrer sanções da UE e do governo americano. Com a crise instalada – a economia não deve crescer, mas encolher 4,5%, e as reservas já caíram 28% desde o início de 2014 –, é preciso buscar alternativas econômicas e geopolíticas. O negócio do gás é o grande trunfo do Kremlin. Não é novidade, os russos já fizeram uso desta carta antes, principalmente após o processo histórico que ficou conhecido como a Revolução Laranja, em 2004, também em função de eventos políticos na Ucrânia. 

A Ucrânia é um ponto de apoio fundamental à Rússia. É pelo território do país que passa a maior parte dos gasodutos russos. São esses gasodutos que abastecem cerca de 10% da demanda de gás de toda a União Europeia. Diante da guerra na Ucrânia e do confronto com a UE, a Rússia sabe que este é o momento para mudar a rota do gás. A Grécia surgiu como alternativa econômica e política. O megaprojeto de refazer os dutos irá permitir a Moscou se livrar da dependência dos ucranianos, reconstruindo os gasodutos pelos territórios turco e, possivelmente, grego. Do ponto de vista político, a Grécia é uma aliada ainda mais importante. É uma maneira de sinalizar o poder russo aos europeus. O raciocínio é simples: se a UE estiver disposta a levar a Ucrânia a seu campo de influência, a Rússia aponta que pode fazer o mesmo, mas de maneira oposta, com a Grécia. 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Grexit: a saída da Grécia

O impasse na Grécia chegará ao fim no próximo dia 30. De alguma maneira, a situação estará resolvida – o que não significa dizer que estará solucionada positivamente a ambas as partes, a própria Grécia e a União Europeia. Este é o prazo final estabelecido para que o governo grego pague ao Fundo Monetário Internacional (FMI)  e a “parceiros” da UE pouco mais de 1,5 bilhão de euros em dívidas. As rotas de colisão estão chegando a seus limites máximos, na medida em que há, como em qualquer disputa financeira, há pontos de vista contraditórios em jogo. 

A Alemanha é a principal interessada na permanência grega, mas também a mais firme credora das dívidas do país mediterrâneo. Com economia altamente complexa e tendo como fundamento a exportação, o país precisa da União Europeia. É uma mão que afaga mas que também cobra. A saída da Grécia deixa os alemães vulneráveis. O bloco é uma espécie de âncora a suas exportações. Se os devedores abandonarem o barco e a UE se dissolver (mesmo num longo prazo), a Alemanha precisará buscar alternativas para vender seus produtos. A primeira-ministra Angela Merkel está à frente das negociações com os gregos em função disso tudo. 

A Grécia chegou ao limite. Os cidadãos não está pagando a dívida do país apenas com impostos mais altos, mas também com redução de emprego e até comendo menos. Não por acaso a esquerda venceu as últimas eleições. Os gregos optaram pelo discurso de Alexis Tsipras que prometeu acabar com a austeridade. Este é mais um elemento nas negociações; Tsipras não pode voltar a Atenas com notícias ruins – no que diz respeito ao aumento de impostos, para ser bastante claro. Tsipras não pode trair os votos que recebeu. É possível dizer que a Grécia não aceitará propostas que incluam medidas que pressionem ainda mais os cidadãos do país. 

Se a situação é delicada, é importante também lembrar que a ameaça de calote é um aspecto importante do poder de negociação de Atenas. A dívida hoje já tem peso insuportável à economia grega. Caso o país não receba ainda mais empréstimo internacional, simplesmente não terá condições de pagar. Para ser bastante claro, a única solução razoável do ponto de vista grego é a que envolve o perdão total ou parcial de seu montante de dívida. Caso isso não aconteça, a Grécia anunciará calote e entregará o problema no colo de seus credores. Mesmo que isso signifique deixar a zona do euro e buscar novos parceiros internacionais. E, para azar da UE, a alternativa de parceria aos gregos é a Rússia de Vladimir Putin. 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A crise envolvendo a cerca na Hungria é também sintoma dos graves desafios europeus

A Hungria está no centro de uma nova polêmica europeia que vai muito além das questões pontuais do país. O governo húngaro decidiu construir uma cerca de quatro metros de altura e 175 quilômetros de extensão em toda a fronteira sul. Há muitos países que criaram as próprias barreiras em regiões de fronteira, mesmo na Europa – casos de Turquia e Espanha, por exemplo.

Mas a questão húngara é interessante porque carrega intrinsecamente os muitos dilemas europeus deste século – e que devem permanecer por muito tempo. O país é governado pelo primeiro-ministro Viktor Orban, do partido de direita Fidesz. Como em muitos outros Estados do continente, a extrema-direita vem obtendo resultados significativos, atendendo a uma parcela do eleitorado que, entre outros assuntos, vê a imigração como ameaça à identidade nacional e, principalmente, aos empregos.

No entanto, a situação na Hungria não pode ser explicada somente como mais um caso local de sucesso do discurso da extrema-direita. Há outras implicações. A cerca será construída ao longo da fronteira com a Sérvia. Enquanto os húngaros são membros da União Europeia desde 2004, os sérvios ainda pleiteiam adesão ao bloco. O lado oriental do continente continua a perceber a UE como oportunidade (a situação na Ucrânia é mais um exemplo deste raciocínio), ao contrário dos vizinhos ocidentais. Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Irlanda já se beneficiaram da associação e vivem dias turbulentos de crise econômica instalada há sete anos. A Grécia inclusive pode deixar o bloco de vez.

Há nisso tudo uma espécie de movimento estratégico de médio e curto prazos; eventualmente, Estados que participaram da fundação da UE podem sair e dar lugar a novos membros – casos de Ucrânia e Sérvia, por exemplo. A Grã-Bretanha é mais um exemplo de desilusão com o bloco, na medida em que há pressão política para que seus cidadãos decidiam em referendo nacional se o país deve ou não permanecer.

Voltando aos planos de construção da cerca, os sérvios já questionam abertamente o governo húngaro. Para a Sérvia, a barreira física pode se transformar em elemento de distanciamento ainda mais profundo do bloco europeu. A geografia ajuda a entender as razões deste impasse: a chamada rota ocidental dos Bálcãs é porta de entrada a muitos dos migrantes que fogem de conflitos na África e no Oriente Médio. O imenso contingente de pessoas que busca refúgio e uma nova vida na Europa encontra mais facilidade de chegar à UE por meio do território sérvio – e, posteriormente, húngaro.

A cerca a ser construída é sintoma de mais um dilema europeu contemporâneo (talvez o mais importante de todos): como lidar com os migrantes? De acordo com pesquisa da ONU, há hoje um total de 59,5 milhões de pessoas deslocadas à força. Ou seja, este não é um assunto que a UE poderá simplesmente esquecer.

Os europeus precisam equacionar alguns elementos bastante complexos: como não perder os países-membros fundadores e economias importantes (caso da Grã-Bretanha); como permitir a adesão de novos países sem que o bloco precise fazer investimentos financeiros para igualar economias estruturalmente desequilibradas dentro da zona do euro num período de crise; como manter a premissa fundamental da UE que prevê a livre circulação de pessoas (artigo 45 do Tratado da União Europeia); como sobreviver enquanto bloco unificado diante das pressões exercidas pelos ascendentes movimentos de extrema-direita.

Todos esses desafios são algumas das principais dificuldades que a UE irá enfrentar nos próximos anos. O prognóstico é de mudança no modelo de operação do bloco para que ele se sustente. Essa discussão por si só já será bastante prejudicial à manutenção dos atuais membros e deve comprometer a estrutura existente hoje. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Pré-candidatura de Donald Trump é a maior vitória democrata até agora

A pré-candidata democrata à presidência dos EUA Hillary Clinton deve estar rindo à toa. Neste momento, além de ser o nome mais popular na corrida presidencial, a ex-primeira dama e ex-secretária de Estado está relaxada assistindo ao debate no partido Republicano. Com seus quase 15 pré-candidatos, os republicanos estão preocupados com os nomes que têm surgido para atrapalhar a escolha interna. Nada mais sintomático do que a candidatura do bilionário Donald Trump, o acontecimento mais perturbador ao partido até agora. 

Trump conseguiu construir fortuna de nove bilhões de dólares. Além de empresário bem sucedido, conquistou fama apresentando um reality show. O problema para os republicanos é que Trump expõe as entranhas do partido. Não que os republicanos necessariamente discordam de tudo o que diz, mas Trump fala demais – e não se incomoda em ser uma hipérbole política. Muito pelo contrário. O empresário e candidato a candidato já abriu o jogo sobre suas posições em política externa. Eis algumas das declarações durante o lançamento de sua campanha:

“Vou construir uma grande, grande muralha na nossa fronteira do sul e vou obrigar o México a pagar por ela – guardem minhas palavras. Ninguém vai ser mais duro com o Estado Islâmico do que Donald Trump (como Pelé, às vezes ele também fala sobre si na terceira pessoa). (...) Vou impedir o Irã de obter armas nucleares, e não vamos usar homens como o secretário Kerry (John Kerry, secretário de Estado) que não sabe absolutamente nada de negociação, que está fazendo um acordo (com o Irã) terrível, que está sendo aproveitado (pelo Irã) enquanto eles produzem armas neste exato momento, que participa de uma corrida de bicicleta aos 72 anos de idade, cai e quebra a perna”. 

Esta não foi a declaração completa. Trump também chama de farsa o aquecimento global e diz ter um plano infalível para derrotar o EI. Ele não explica exatamente qual é sua estratégia já que se trata de um trunfo diante dos demais candidatos republicanos e porque, claro, isso tornaria o plano vulnerável. 

Em relação à economia interna, considera que políticas de estímulo do Federal Reserve (o banco central americano) ameaçam a saúde financeira e enfraquecem o dólar. Nos EUA, quando o governo dá a entender que irá participar do estímulo econômico, os republicanos iniciam uma campanha ofensiva, dando ao presidente o adjetivo mais ofensivo do cenário político local: socialista. 

Trump não deve ser o candidato republicano, mas a forma como expõe suas perspectivas para o país – e o mundo – torna o partido ainda mais vulnerável no debate com os democratas.