Waheeh Ali e Mohammed Shakil foram condenados a sete anos de prisão há pouco. Eles foram julgados culpados da acusação de conspiração contra a Grã-Bretanha e também por planejar frequentar campos de treinamento terroristas no Paquistão em 2007.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Grã-Bretanha inocenta suspeitos de ataques de 2005
O julgamento de três suspeitos de terem participado dos atentados de 7 de julho de 2005 em Londres terminou. O resultado causou frustração aos parentes dos 52 mortos e 700 feridos nos ataques. O veredicto – dois considerados culpados por conspiração e que devem ser julgados novamente nesta quarta e mais um declarado inocente – trouxe decepção. A maior investigação da história da Grã-Bretanha até hoje deu água.
Acima de tudo, o caso deixa à mostra a enorme dificuldade apresentada por países ocidentais que ainda não aprenderam a lidar com esta categoria de crime hediondo. E, mais ainda, revela como tem sido difícil o embate judicial enfrentado quando se deve dar uma resposta concreta ao terrorismo.
Estados Unidos, Inglaterra e Espanha – somente falando de países ocidentais recentemente atingidos por ataques terroristas. Israel já é alvo há muito mais tempo – não sabem o que fazer com pilhas de documentos produzidos a partir das longas investigações. Ou melhor, não sabem como e a quem punir.
No caso específico da Inglaterra, três homens foram julgados. Todos conheciam os autores dos atentados e passearam com dois deles por Londres em dezembro de 2004. Mas dar uma volta pela cidade com alguém que mais tarde será um homem-bomba não configura crime. Pelo menos não a princípio.
As câmeras de segurança da capital inglesa – uma das cidades mais vigiadas de todo o mundo – flagraram o tal passeio. Além da Roda do Milênio (London Eye), eles estiveram no Museu de História Natural e no Aquário de Londres.
A questão é que o tour que os acusados qualificam apenas como um passeio inocente é interpretado de outra maneira pelos promotores; estes garantem que os três homens ajudaram os terroristas a pesquisar os melhores alvos para o ataque. No final das contas, um ônibus e estações do metrô foram os locais escolhidos para as bombas.
Está claro como água que a teoria da promotoria – que foi derrotada, diga-se de passagem – é a mais correta. Os acusados compartilham declaradamente da ideologia jihadista. Mais ainda, dois deles foram condenados por terem comprovadamente participado de treinamentos militares comandados por terroristas no Paquistão.
A viagem aconteceu justamente em companhia de Mohammad Sidique Khan, um dos homens-bomba responsáveis pelos ataques de 2005. Prova irrefutável de participação no ataque? Para o júri britânico, não.
Enquanto o ocidente continuar a dar veredictos como este, os grupos internacionais de promoção da cruzada fundamentalista terrorista terão terreno fértil por muito tempo. E vão continuar a dar risada às custas do sofrimento de inocentes.
terça-feira, 28 de abril de 2009
À beira do caos
A seguinte declaração da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, serve de alerta – pelo menos aos que estão dispostos a ouvir:
“Se o pior, o impensável, estiver para acontecer, e o avanço do Talibã com apoio da al-Qaeda e outros extremistas derrubar o governo (do Paquistão) por sua incapacidade de derrotar (os terroristas), então estes terão as chaves para o arsenal nuclear do país”, disse.
A figura política do mais alto escalão de política externa da maior potência do planeta já trabalha com a possibilidade de que um dos oito países conhecidos detentores de tecnologia nuclear seja tomado pelo grupo fanático-religioso do Talibã.
Pouca gente deu atenção às palavras de Clinton. Mas o que fazer diante desta ameaça que, como mencionado no texto desta segunda-feira, torna-se mais concreta a cada dia?
Como não é possível reverter os erros do passado – responsabilidade que em boa parte deve ser creditada ao próprio governo paquistanês –, é preciso agir rápido para conter o avanço do Talibã.
E essa solução passa inevitavelmente pelo deslocamento de tropas americanas do Afeganistão para o noroeste do Paquistão. Se no passado não houve qualquer intervenção internacional a ponto de o caos estar instalado a
Se já foram repassados 12 bilhões de dólares a corruptos e incompetentes governantes do Paquistão que preferiram desviar os recursos para uso próprio ou compra de armamentos para se contrapor à Índia, é chegada a hora de dar um basta.
Está claro que a diretriz do governo Obama é tentar a conciliação a qualquer custo e basear suas decisões numa oposição teórica a Bush. É justo e muitas vezes funciona. Mas impedir que o Talibã tenha acesso ao arsenal de cerca de 60 – ou mais, ninguém sabe ao certo – bombas nucleares do Paquistão é um objetivo mais do que nobre.
Em reunião nesta segunda-feira em Cabul, os chanceleres de Irã, Paquistão e Afeganistão se comprometeram a reforçar os laços mútuos de combate ao terrorismo – também foram discutidos temas como crime organizado e narcotráfico.
É claro que esses países não têm capacidade para implementar quaisquer decisões sem ajuda internacional. No caso do Irã, especificamente, o país envia mensagens no mínimo contraditórias sobre a real disposição de ser um aliado na guerra contra o terror – até porque este conceito é bastante singular na cabeça de Mahmoud Ahmadinejad.
Por ora, só nos resta esperar e torcer para duas possibilidade remotas: que o exército paquistanês consiga impedir o avanço do Talibã; ou que, se alcançando o arsenal nuclear, os fanáticos-terroristas não façam uso dele ou transfiram para quem estiver disposto a fazer (lembrando apenas que bom senso não costuma ser o ponto forte do Talibã, grupo que condenou uma menina de 17 anos a morte por ter sido vista conversando com um homem com quem não tinha nenhum grau de parentesco).
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Quanto pior, melhor
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Pequenos avanços no diálogo entre turcos e armênios
Hoje é o dia em que o mundo recorda – ou melhor, deveria recordar – o massacre de 1,5 milhão de armênios por turcos-otomanos em 1915. O genocídio é considerado o primeiro do século vinte – repleto de massacres a civis inocentes. Mas o assunto ainda é tabu, principalmente para a Turquia, que se recusa a usar o termo “genocídio”.
O momento é especial para tratar do tema. Primeiro porque a Turquia pretende ingressar na União Europeia.
Apesar de a mea culpa nacional não ser um pré-requisito para aderir ao bloco, aprender a lidar com este fantasma histórico seria considerado um ato positivo pelos países europeus. Se Alemanha e Áustria (o primeiro mais do que o segundo, é bem verdade) fizeram isso em relação ao Holocausto, por que os turcos também não podem admitir a autoria do massacre?
Em segundo lugar, o atual governo Obama enxerga na Turquia um importante aliado muçulmano no combate ao terrorismo. Mais do que isso, os turcos podem ser mediadores fundamentais em negociações com o Irã. Como justificar à opinião pública americana que um de seus principais interlocutores no combate ao fundamentalismo se recusa a admitir um erro tão grave de seu passado?
O fato é que esta semana foi marcada pela declaração do ministro das relações exteriores da Turquia de que seu país e a Armênia concordaram em estabelecer um cronograma cujo objetivo final seria a reconciliação plena entre ambos.
Numa mostra de humildade fora do comum nas relações internacionais, o presidente da Armênia, Serge Sarkisian, disse que o reconhecimento turco da responsabilidade pelo genocídio de 1915 não é um pré-requisito para o estabelecimento de relações bilaterais.
Seja como for, o impasse é maior do que simplesmente admitir crimes passados. A Turquia apoia seu aliado muçulmano Azerbaijão na disputa travada com os armênios pelo território de Nagorno-Karabakh, no Cáucaso. E esse dilmea militar-diplomático ainda está longe de terminar.
Pelo visto, a fronteira entre Turquia e Armênia – fechada desde 1927 e há mais tempo do que a fronteira entre Coreia do Sul e Coreia do Norte – deve demorar bastante para ser reaberta.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
A eficácia da política externa de Obama
Depois de Ahmadinejad discursar na conferência para debater o racismo, de Kim Jong-il lançar seu foguete com canções comunistas pelo espaço (ele jura que isso aconteceu mesmo), de Daniel Ortega, da Nicarágua, descascar os Estados Unidos durante 50 minutos na Cúpula das Américas, de Obama fazer uma reverência real ao rei da Arábia Saudita, de ser abraçado por Chávez, ufa, o mundo quer saber: qual a doutrina que vai reger a política externa da maior potência do planeta nos próximos quatro anos?
Se por um lado fica claro que Washington tem intenções conciliatórias, não se pode chamar esta característica de modelo de política externa. Até porque ela pode ser apenas uma forma bastante pessoal do novo líder americano de tratar de assuntos tão diversos.
A imprensa dos EUA dá muita importância aos pequenos gestos do presidente. A suposta reverência ao ditador saudita (ainda não está claro se foi intencional ou simplesmente um reflexo), o abraço caloroso em Chávez e o tom de conciliação adotado em relação ao Irã têm sido determinantes na polarização das discussões entre analistas.
A fauna de opiniões é bastante diversa porque tais atitudes são levadas a sério na tentativa de elaborar ao menos uma previsão de como será a política externa americana.
Até o momento sabemos apenas que Obama é o que chamamos por aqui de boa praça. Mesmo assim, as interpretações dos gestos de “boa vontade” do presidente são as mais diversas.
“Suponhamos que Obama obtenha sucesso em criar laços de amizade com Chávez, Castro, Ahmadinejad e o Talibã. E depois? Vamos continuar a ser o ‘guia’ da liberdade para o resto do mundo ou vamos ter nos desgastado em nome de objetivos políticos?”, questiona o escritor Shmuley Boteach.
Ao contrário de Boteach, a colunista do The New York Post Kirsten Powers crê na coerência da cordialidade de Obama mesmo em relação a tradicionais adversários externos.
“Mostrar humildade é uma estratégia inteligente, além de um sinal de boas maneiras. Ninguém gosta de uma pessoa que vai a um jantar e diz que sua casa é mais agradável, seu bairro é mais interessante e sua mulher cozinha melhor. O que leva conservadores a crer que europeus e latino-americanos querem assistir a uma palestra do presidente dos Estados Unidos mostrando como nosso país é perfeito?”, diz.
Acho prematuro diagnosticar qual a estrutura da política externa de Obama. E, mais ainda, penso que é impossível prever se ela vai funcionar ou não. Fica claro que por ora o objetivo do novo presidente é se desvincular o máximo possível da imagem do governo Bush.
Entretanto, a tática que vem sendo usada me parece simplista. Pior; arriscada. Os Estados Unidos dão a entender que a corda pode e deve ser esticada. O problema é que as consequências podem ser catastróficas.
Sobre a eficácia deste modelo que vem sendo apresentado pelo governo Obama, tendo a concordar com Clive Crook, colunista do Financial Times.
“A doutrina de política externa somente é testada quando a cooperação em busca de interesses comuns não consegue atingir resultados”, diz.
Só quando chegarmos a este ponto em questões como Irã e Coreia do Norte, saberemos se Obama está certo e, principalmente, qual a estratégia real dos EUA para superar esses desafios.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
ONU legitima circo do ódio na Suiça
Que a segunda conferência contra o racismo patrocinada pela ONU seria sequestrada não era novidade. A dúvida que fica depois do discurso do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, proferido hoje é: se já é fato que a reunião vai ser usada como palco para bombardear Israel e não para discutir o racismo no mundo, por que realizá-la mesmo assim?
Para ser ainda mais inconveniente, Ahmadinejad destilou suas palavras de ódio justamente no data oficial
É verdade que várias delegações se retiraram do salão onde o líder fazia seu discurso. Mas e daí? Até quando a ONU vai emprestar seu prestígio para a exposição midiática de ideias absolutamente contrárias a seus princípios?
Não é possível que uma reunião que tinha como objetivo a legítima discussão de propostas para acabar com o racismo seja desvirtuada desta maneira. E é asegunda vez que isso acontece – em 2001, em Durban, na África do Sul, os países árabes e islâmicos se esforçaram ao máximo para incluir no texto final do encontro a equiparação de sionismo a racismo.
O objetivo é de uma hipocrisia indescritível. E é covardia deixar os assuntos verdadeiramente importantes de lado.
No ataque verbal da vez, Ahmadinejad conseguiu ser ainda mais retrógrado ao reeditar as premissas dos Protocolos dos Sábios de Sião, farsa criada para colocar sobre os judeus a culpa por todos os males do planeta.
“O povo iraquiano sofreu grandes perdas... a ação militar não foi preparada pelos sionistas do governo americano em cumplicidade com as empresas fabricantes de armas?”, disse.
É público e notório que Ahmadinejad adota este discurso. Portanto, por que convidá-lo a se manifestar numa conferência sobre racismo? Justamente um líder mundial que preside um regime responsável por execuções públicas, que se cala diante da violência contra as mulheres e que se orgulha de que em seu país simplesmente não existe homossexualismo – como se isso fosse possível.
“É o exemplo perfeito de como as Nações Unidas dão aos maiores violadores dos direitos humanos a oportunidade para que eles se passem por pessoas qualificadas a julgar a moralidade alheia”, diz Gerald. M. Steinberg, diretor do Monitor das ONGs e membro dos departamento de ciências políticas da Universidade Bar-Ilan, em Israel.
Até o momento, quem melhor definiu o circo de horrores que está acontecendo na Suíça foi o professor de Harvard Alan Dershowitz.
“Ahmadinejad está tentando transformar os direitos humanos em erros humanos ao excluir da agenda do encontro mais de metade da humanidade: mulheres, bahais, homossexuais, judeus, não-muçulmanos etc”, disse.
