sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Reflexões sobre parceria entre Brasil e Irã

A visita de Lula ao Irã em 15 de maio já começa a causar polêmica. Aliás, mesmo que Lula fosse à República Islâmica a passeio, estar no país que é a bola da vez das sanções internacionais já é notícia por si só. O fato é que a coluna de hoje do jornalista do Globo, do Rio de Janeiro, Merval Pereira traz informações surpreendentes que só jogam ainda mais lenha na fogueira no encontro entre o presidente brasileiro e o controverso parceiro iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

São dois os pontos que me parecem mais importantes: a afirmação de Merval Pereira de que membros do Gabinete de Segurança Nacional brasileiro estudam a possibilidade de um acordo nuclear com o Irã – ele vai além e afirma que o país construiu uma centrífuga em Aramar, São Paulo, capaz de enriquecer urânio.

Outra informação fundamental é de que, no encontro com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) marcado para maio, o Brasil simplesmente não assinaria um novo protocolo do organismo que pede livre acesso de seus inspetores a todas as instalações nucleares existentes no país. Segundo a coluna, Brasília argumentaria já haver garantias suficientes quanto aos propósitos pacíficos do programa nuclear brasileiro.

Achei tudo isso um tanto temerário. Mas meu bom-senso indica que é melhor aguardar as respostas oficiais a tantas e graves denúncias de hoje. Afinal, não haveria justificativas para romper com a AIEA e se aliar ao Irã. Não tem sido essa a postura do governo nos últimos oitos anos e não há porque mudar de forma tão radical agora.

Além do mais, mesmo que fosse esta a intenção de Lula, custo a acreditar que ele daria material tão farto à oposição às vésperas das eleições. Até porque um dos maiores adjetivos que os oposicionistas tentam agregar à candidatura de Dilma é justamente a preferência por parceiros e atitudes radicais.

Comprar a briga do Irã neste momento é dar um tiro no pé em relação aos objetivos internos de Lula e do PT. Tenho certeza de que o presidente brasileiro considera mais importante fazer seu sucessor a arrumar uma saída para Ahmadinejad frente às novas sanções que deve enfrentar muito em breve.

Esta preocupação está no centro da visita da secretária de Estado Hillary Clinton, no próximo dia 3. Muito interessante perceber que, apesar de sempre ter considerado o Brasil um importante ator global, este status conferido por Washington nunca se traduziu na criação de uma relação "especial" entre os dois países. E, quem diria, talvez Barack Obama tenha que correr para estreitar laços com o Brasil antes de Ahmadinejad.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Argentina mostra equilíbrio, mas ainda não há solução para as Falklands-Malvinas

Ainda sobre as ilhas Falklands-Malvinas, acredito que a Argentina tem tido uma postura bastante equilibrada. Enquanto Londres não admite qualquer negociação, autoridades do governo Kirchner reforçam o interesse do país de discutir o status do território com os britânicos. A postura argentina nem poderia ser diferente, afinal somente o Reino Unido tem algo a perder nessa história toda.
Em encontro com o secretário geral da ONU, Ban Ki-Moon, o ministro das Relações Exteriores argentino, Jorge Taiana (foto), pediu somente mediação para um eventual encontro com o governo britânico. E citou o argumento principal de Buenos Aires, explicado no texto de ontem.
"Este é um ato unilateral (iniciar a perfuração em busca de petróleo) inserido numa cadeia de atos unilaterais realizado pelo Reino Unido. É contrário ao direito internacional e às resoluções expressas das Nações Unidas, que condenam atos unilaterais que agravem a disputa por soberania", disse em Nova Iorque.
O grande ponto me parece ser o fato de a plataforma de exploração Ocean Guardian já estar em funcionamento. Quanto mais tempo as discussões levarem, mais consumada a questão estará. Os britânicos já iniciaram a exploração de recursos sem consultar os argentinos.

Bem anterior à guerra travada em 1982, a disputa remonta a 1820, quando a Argentina estabeleceu postos avançados na ilha e reclamou sua soberania. Trezes anos depois, a Grã-Bretanha entou no jogo, expulsando os argentinos. Desde então, são eles os mandatários do território.

À parte da disputa petrolífera, acho um tanto desnecessário este imbróglio todo. Primeiro porque, no mundo de hoje, nem britânicos, nem argentinos precisariam manter "colônias" ou postos estratégicos no Atlântico Sul. Acho viável que Buenos Aires e Londres encontrem uma solução econômica que beneficie a ambos. Por exemplo, dividir os royalties do petróleo.

Até porque, simplesmente transferir as Falklands-Malvinas para controle argentino certamente desagradaria à população da ilha. Os quase 3 mil moradores são britânicos ou seus descendentes, falam inglês e usam a libra local como moeda - cujo valor é igual ao da libra esterlina.

Curiosamente, num cenário onde a Argentina dominasse as ilhas, encontraria uma população totalmente hostil a seu domínio e identificada nacionalmente à Grã-Bretanha. Ou seja, o governo de Buenos Aires seria uma espécide de "potência" ocupante, comportamento internacional muito criticado pelos países latino-americanos. É algo a se pensar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Nada é tão óbvio quanto parece nas Falklands-Malvinas

A retomada da polêmica sobre as ilhas Falklands-Malvinas é curiosa. Mais oportunista do que curiosa. Em primeiro lugar, é preciso dizer que há muitos equívocos nas declarações e alguns pontos muito interessantes de reflexão. Não acho que este seja o assunto mais importante a ser discutido pelos países latino-americanos, como ocorreu na reunião do Grupo do Rio no México, mas o fato é que tudo acabou girando em torno desta questão. Afinal, nada como ressucitar a oposição entre primeiro e terceiro mundos - como se este não fosse um dilema mais velho do que o século vinte.

Seja como for, além dos líderes latino-americanos, essa briga acabou caindo nas graças da imprensa britânica. À parte da BBC, os outros veículos têm exagerado na defesa venal da soberania do Reino Unido. Dizer que a ilha só foi lembrada por conta do interesse de perfurar petróleo é lugar-comum, mas faz um pouco de sentido neste caso.
O que, no entanto, não faz o menor sentido é o "esquecimento" de que para explorar os recursos das Falklands-Malvinas a Grã-Bretanha precisa de consentimento por parte da Argentina. E isso não é bravata, mas consta dos acordos mediados pela ONU entre os dois países quando eles restabeleceram os laços diplomáticos, em 1990. Pouca gente tem lembrado de algo tão importante neste momento de escalada das declarações. Aliás, principalmente a imprensa britânica, que decidiu comprar o discurso oficial.
Acho que há um tanto de oportunismo envolvendo esta situação. O presidente venezuelano atropelou a própria colega argentina ao anunciar estar disposto a enviar tropas no caso de uma guerra. Não haverá conflito, como tem repetido a presidente Cristina Kirchner. A questão será colocada em pauta pelo ministro das Relações Exteriores, Jorge Taiana, durante conversa com o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon. E aí sim as discussões vão começar.
Os países latino-americanos fecharam com Kirchner, algo previsível. Mas alguns argumentos muito fracos foram usados para defender esta posição. Mesmo Lula derrapou ao afirmar não entender como "um país a mais de 14 mil quilômetros tinha diretos sobre uma ilha ao lado da Argentina".
Este não é o ponto. Estados não são entidades naturais, mas políticas. E, como tal, são construções absolutamente artificiais. Da mesma forma que as fronteiras brasileiras foram criadas por acordos políticos e comerciais, não é natural que um país tenha soberania sobre um território simplesmente porque fica mais perto dele. Se fosse assim, a Groenlândia não seria território dinamarquês, o Havaí, americano ou a Ilha de Páscoa, chilena.
Lula manteve esta posição e aproveitou para questionar a legitimidade do Conselho de Segurança da ONU. Sempre escrevo - e não é segredo pra ninguém - que o objetivo internacional brasileiro é conseguir vaga permanente no órgão. Por isso, Brasília não perde a oportunidade de reafirmar que o Conselho precisa ser modificado para realmente se tornar representantivo. Lula disse isso textualmente ontem.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Momento crucial da guerra no Afeganistão

Enquanto Paquistão, Egito e Arábia Saudita apresentam mudanças que podem ser interpretadas positivamente, a situação no Afeganistão não inspira tanta confiança. O epicentro da guerra ao terror americana se equilibra sobre pilares bastante tênues nos últimos dias. Aliás, na última semana, cada novo dia apresentou novidades tão importantes quanto alarmantes.

A ofensiva lançada há dez dias no distrito de Marjah, na província de Helmand, tem alcançado resultados positivos, mas um erro das forças da Otan causou a morte de 27 pessoas, levando inclusive o general americano Stanley McChrystal - comandante da aliança militar ocidental no Afeganistão - a se desculpar na TV.
Antes disso, porém, a coalizão comandada pelos EUA já sofrera a considerável baixa representada pela confirmação de que a Holanda irá retirar até agosto deste ano seus 1,6 mil soldados combatentes no país asiático. Por mais que ainda haja outros 60 mil militares - que serão acrescidos de outros 30 mil a serem enviados por Barack Obama -, o movimento pode dar início a uma tendência política que, sem a menor dúvida, esvaziará os esforços de Washington num momento crucial.
A ofensiva de Marjah mostra a disposição de reverter o impasse na luta contra o Talibã, mas há problemas políticos e econômicos profundos. Mesmo o governo de Cabul sofre uma tremenda crise de credibilidade internacional e local. Para pôr mais lenha na fogueira das contestações da eleição do ano passado, o presidente afegão, Hamid Karzai, anuncia hoje outra medida polêmica. Ele passa a usufruir do poder de apontar os cinco membros da Comissão Eleitoral Afegã, a mesma responsável por denunciar as fraudes do próprio Karzai no pleito de 2009.
A guerra no Afeganistão não será ganha somente com esforços militares, mas principalmente com medidas políticas e sociais capazes de promover a simpatia dos afegãos comuns com as forças que combatem o Talibã.
O grupo fundamentalista não apresenta tropas tão numerosas, mas conta com o suporte financeiro ainda intocado pelas forças ocidentais: os 3 bilhões de dólares de lucros anuais representados pela indústria do ópio que os talibãs controlam. A título de comparação e usando os dados do texto de ontem, a quantia representa o dobro do volume de ajuda financeira fornecido pelos EUA ao Paquistão, maior parceiro americano na região. Além do mais, frear os delírios de poder de Hamid Karzai é um desafio tão grande e importante quanto dobrar a resistência Talibã.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Novidades de aliados islâmicos dos EUA

Há algumas boas notícias internacionais para o presidente Barack Obama. Três de seus principais aliados no mundo islâmico têm mostrado sinais de cooperação, possibilidade de reforma política e uma pequena grande mudança em relação aos direitos das mulheres. Respectivamente, os sinais positivos vêm de Paquistão, Egito e Arábia Saudita, atores muito importantes no cenário político com o qual a Casa Branca lida.

A recente operação conjunta entre forças americanas e paquistanesas conseguiu promover a captura do mais importante comandante militar talibã, o mulá Abdul Ghani Baradar. É a primeira contribuição significativa entre as forças de segurança do Paquistão, conhecida como ISI, e os Estados Unidos. Sempre é válido lembrar que poderosos membros das ISI são bastante simpáticos ao Talibã e muitos são acusados de contribuir monetária e logisticamente com o grupo fundamentalista.
Tudo isso só torna a captura de Baradar ainda mais significativa. Afinal de contas, as ISI atuam como um Estado dentro do Estado, boicotando o poder governamental de Islamabad quando bem entendem e tornando a luta contra os talibãs no Afeganistão e no Paquistão ainda mais complicada. Um outro dado muito importante diz respeito à ajuda financeira repassada por Washington ao governo paquistanês: 1,5 bilhão de dólares anuais, sendo que boa parte deste dinheiro acaba nas mãos dos próprios talibãs - através das ISI. Um tiro no próprio pé dos EUA.
Outro ponto importante é a possibilidade de mudança política no Egito. Com eleições marcadas para 2011, o país é governado há três décadas pelo presidente Hosni Mubarak, que vinha tentado fazer seu sucessor; ninguém menos que o próprio filho, Gamal. Mas tudo indica que a disputa vai ser acirrada. E desta vez com um nome de respeito internacional: o prêmio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, que, após 12 anos à frente da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), deixou o cargo e pretende concorrer nas eleições egípcias. Os americanos contribuem com 1,2 bilhão de dólares anualmente para o governo do Cairo. Se El Baradei for eleito, ninguém sabe se jogará conforme as regras dos EUA.
O caso mais curioso, mas não menos importante, é o da Arábia Saudita. O mais fiel aliado americano dentre os países islâmicos estuda a possibilidade de uma significativa abertura às mulheres. O governo cogita perrmitir que advogadas possam trabalhar nas cortes do país pela primeira vez. Até o momento, as mulheres podem ser empregadas apenas em escritórios. Elas tampouco podem dirigir e as que têm menos de 45 anos de idade precisam de permissão de algum homem da família para viajar. A Arábia Saudita possui cerca de 20% das reservas de petróleo conhecidas.
Talvez seja apenas coincidência, mas acho que as mudanças de Paquistão e Arábia Saudita têm a ver com as duas guerras americanas na região: contra o Talibã e o possível conflito com o Irã.
Com o sudeste asiático a caminho de um confronto com Teerã, as posições tendem a se polarizar ainda mais. Muito embora a permissão de trabalho às mulheres sauditas seja necessariamente parte da política local do regime saudita, a decisão sem a menor dúvida agrada aos EUA. O caso do Egito é a maior incógnita. Afinal de contas, ElBaradei recebeu o Nobel da Paz em 2005 por suas posições contrárias à invasão americana ao Iraque. E deve agir da mesma forma no caso de uma ofensiva contra o Irã, desestabilizando o time dos Estados árabes sunitas que, por fim, estarão ao lados de Washington numa eventual invasão americana ao Irã.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Ação israelense gera crise com europeus

Como consequência prática da operação do Mossad em Dubai, aparentemente há indícios de uma crise política entre Grã-Bretanha e Israel. Pegou muito mal o uso de seis passaportes britânicos para forjar as identidades dos membros da equipe que matou o contrabandista de armas do Hamas. Mas por enquanto as informações são confusas quanto à autenticidade dos documentos. Mesmo Londres não consegue chegar a uma conclusão: não está claro se os passaportes foram falsificados ou se foram feitas cópias dos originais.

O que se sabe por ora é que nomes de cidadãos do Reino Unido que emigraram para Israel foram usados na ação. Mas, a agência britânica responsável por monitorar o crime organizado já confirmou que as fotografias e as assinaturas não batem com as dos passaportes verdadeiros emitidos pelas autoridades do país. Ou seja, os documentos seriam falsos.

Há uma briga retórica e política envolvendo os dois países. O secretário de assuntos internacionais, David Miliband, disse estar ofendido com o uso dos passaportes. A imprensa britânica segue a mesma linha e se mostra profundamente revoltada, exigindo uma resposta do governo, talvez até um boicote a Israel.

"O roubo das identidades põe em perigo não apenas os seis britânicos que tiveram seus passaportes usados, mas qualquer um que circule com documentos do Reino Unido no mundo árabe", diz editorial do Guardian.

Acho as alegações um tanto exageradas, mas consigo compreendê-las inseridas numa disputa política. O uso dos passaportes britânicos infringe a soberania daquele país. Por mais que Inglaterra, Irlanda, França e Alemanha - países que tiveram documentos usados na ação - exijam respostas dos representantes israelenses locais, acho que esta crise será temporária.

Primeiro porque oficialmente Israel nega a autoria do assassinato. Ou seja, os embaixadores não sabem ou não estão autorizados a confirmar qualquer informação. Segundo porque há um tanto de hipocrisia nesta situação. Ora, os mesmos países que agora se mostram contrariados com o crime em Dubai condenam ações militares massivas de Israel, que colocam em risco a vida de civis palestinos. Os europeus cobram de Jerusalém o uso de alternativas de inteligência e espionagem simultaneamente a negociações de paz.

Mas não há como escapar desta sinuca mesmo. Até porque nenhum governo pode vir a público e concordar com o uso de seus documentos para este tipo de ação. Por outro lado, ninguém imagina que espiões irão usar seus próprios passaportes quando estão em serviço. Muito menos passaportes israelenses. Todos esses fatores só me levam a crer que depois de terminado o jogo de cena e a exigência de explicações, nada de mais sério vai acontecer.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Significados da operação do Mossad em Dubai

Sem a menor dúvida, a história mais interessante do período pós-carnavalesco é o misterioso assassinato do comandante militar do Hamas, Mahmoud al-Mabhouh. A polícia de Dubai, onde ele foi morto, apresentou à imprensa os detalhes que conseguiu levantar um mês após o crime. A situação adquiriu status quase espetacular por envolver uma trama com todos os ingredientes de um filme de ação. Até o momento, a conta recai unicamente sobre o Mossad, o serviço secreto israelense. Acho que vale a pena tentar entender os motivos por trás da operação.

Em primeiro lugar, acredito mesmo que os 11 membros da equipe que sufocou al-Mabhouh sejam do Mossad. Não haveria motivos para outros grupos de engajarem numa ação tão meticulosa quanto arriscada. Além disso, os passaportes falsos confecccionados usavam dados pessoais de judeus europeus que emigraram para Israel - informações a que somente instituições israelenses poderiam ter acesso.
Sobre este ponto, inclusive, acho válido relatar a análise de Ron Ben-Yishai, analista de segurança do site israelense Ynet. Para ele, não há motivos para os cidadãos que tiveram seus passaportes "clonados" temerem represálias no exterior, como vem sendo divulgado equivocadamente por alguns veículos de imprensa. Os nomes verdadeiros foram acrescidos de nomes falsos, dados como datas de nascimento e número de registro, alterados, e, mais importante, os governos europeus declararam oficialmente que os passaportes são falsos.

Dito isso, cabe entender por que assassinar Mahmoud al-Mabhouh era tão importante para Israel e, tão fundamental quanto esta avaliação, por que agora. O comandante militar do Hamas esteve envolvido diretamente no sequestro e assassinato de dois soldados israelenses em 1989. Numa operação tão rica em detalhes quanto a que o matou, al-Mabhouh levou a cabo os assassinatos disfarçando-se de judeu ortodoxo. Mas sem dúvida este não foi o único motivo que levou à formação de uma equipe de 11 pessoas para uma operação secreta e logisticamente complicada para assassiná-lo num país árabe.

Mahmoud al-Mabhouh era o responsável pelo contrabando de mísseis de longo alcance iranianos para a Faixa de Gaza. Eliminá-lo numa operação espetacular com detalhes repercutidos pela imprensa internacional atende a dois grandes objetivos geopolíticos de Israel: o primeiro deles é óbvio; interromper o fluxo de armamento para o Hamas. Importante dizer que são esses os mísseis que ameaçam a região sul de Israel onde vivem cerca de três milhões de pessoas - pouco menos da metade da população do país.

O segundo motivo é fácil de ser adivinhando, mas menos óbvio. E explica por que o Mossad realizou a operação agora.

Com um início de ano conturbado nas relações entre o Ocidente e o programa nuclear iraniano, a ação manda um recado direto a Mahmoud Ahmadinejad. O serviço secreto israelense não medirá esforços em eliminar - mesmo em território hostil - os inimigos do país. E esta explicação teórica se divide em duas outras: assassinatos seletivos no exterior em parte se apresentam como possibilidades alternativas ou paralelas a um ataque total ao Irã - projeto que por ora não conta com apoio americano - e deixam claro, neste caso, que Israel não aceitará interferências de Teerã no conflito com os palestinos - nada mais representativo do que assassinar o interlocutor logístico entre o Hamas e o Irã.