quinta-feira, 30 de junho de 2011

Grécia expõe fragilidade da União Europeia

No dia seguinte à publicação do texto onde dizia não acreditar que a Grécia pudesse provocar um banho de sangue contra seus próprios cidadãos, as informações sobre os confrontos entre forças policiais e manifestantes são um tanto assustadoras; já se fala em mais de 300 feridos. Para que feridos se transformem em mortos, basta apenas que a repressão continue por mais tempo, sejamos realistas. Apesar disso, tenho certeza de que a situação por lá é bem diferente da repressão estatal promovida por Bashar al-Assad, na Síria. Um ponto importante que distancia os dois cenários é a liberdade de imprensa. Os olhos do mundo inteiro estão na Grécia. Jornais, televisões e agências de notícias trabalham livremente.

Como escrevi nesta quarta-feira, a crise extrapolou a mera discussão econômica. Já se trata de um evento político importante e que, certamente, não se restringe à história grega. Se os bancos franceses e alemães estavam muito preocupados com a aprovação do pacote de austeridade no parlamento em Atenas, a situação agora pode sofrer um revés importante. Afinal de contas, está cada vez mais óbvio o quanto a União Europeia é um organismo frágil sob o ponto de vista mais básico; as lideranças dos Estados-membros não tem em mente qualquer projeto sério de entidade supranacional. As atuações de Sarkozy e Merkel neste momento têm reafirmado o que muita gente já supunha: durante uma crise interna europeia, cada um que cuide de si e lute pelos próprios interesses.

E, nunca custa lembrar, a grande ironia disso tudo é que os governos de França e Alemanha estão mais preocupados com a “saúde” financeira do bloco e de seus próprios bancos do que com a vida dos cidadãos gregos. Tudo bem, há um tanto de purismo neste comentário, mas, afinal de contas, a Grécia e os gregos não deveriam ser mais importantes para a União Europeia do que os bancos? Sinceramente, não sei qual a impressão que os cidadãos gregos têm hoje da própria UE, da França e da Alemanha, mas imagino que eles não devem estar lá muito satisfeitos. Na prática, há também uma grande quebra do contrato social – parte importante do conceito de cidadania europeia – quando a qualidade de vida das pessoas deixa de ser prioritária.

E por falar em prática, toda esta discussão em torno da aprovação do pacote de austeridade já tem uma consequência óbvia: a UE está rachada. A fratura é até bem simples de ser compreendida e está exposta em toda a parte: virou lugar-comum se referir à Grécia, Espanha, Itália, Irlanda e a Portugal como Estados europeus “periféricos”. Se isso vai causar a exclusão desses países em algum momento é especulação. Mas, acho que pode ser o início do fim do bloco que, durante alguns anos, foi sinônimo de prosperidade e sucesso político e econômico.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Grécia: crise econômica pode se transformar num profundo impasse político

Apesar da greve, dos confrontos de rua e das muitas tentativas de impedir a aprovação do pacote de austeridade na Grécia, as medidas restritivas foram acatadas pelo parlamento nesta quarta-feira. É bom que se diga, no entanto, que o resultado da votação mostra que não há unanimidade nem mesmo entre os parlamentares. Foram 155 votos a favor, 138 contra e sete abstenções. Não se sabe se isso reflete algum tipo de crítica à solução apresentada pelos “solidários” parceiros da União Europeia ou dá conta de um temor individual de carregar esta mancha na biografia política. Pode ser os dois, inclusive.

A questão agora sobe de nível. Quer dizer, não basta aprovar o pacote, mas conseguir implementá-lo. E aí a situação fica bem complicada porque, na prática, o poder está com a população. Para ser bem prático, a Grécia não dá os passos considerados necessários pelos bancos credores alemães e franceses se o país simplesmente parar. Se o impasse permanecer, não há produtividade, economia e, finalmente, recolhimento de impostos. O futuro está em boa parte com a população economicamente ativa – a mesma que está nas ruas e cuja camada jovem está amplamente desfavorecida pela realidade atual. São mais de 35% de jovens gregos sem emprego e, pior, desprovidos de qualquer perspectiva de melhora.

É impossível desvincular esta crise econômica de uma gigantesca crise política. E, para deixar muito claro, a economia pode parar. A Grécia é um estado democrático e muito possivelmente não irá procurar resolver o assunto apenas com o poder coercitivo. Se a massa de trabalhadores simplesmente se recusar a voltar a produzir, a polícia e as forças armadas não deverão recorrer a um banho de sangue como forma de pôr o trem de volta nos trilhos.

O que pode acontecer a partir disso é uma tremenda e terrível incógnita. O colapso econômico que já existe pode ser acrescido também da falência política. E este cenário nem é tão improvável assim. Para mudar de vez a realidade que está posta basta somente que uma – apenas uma – das instituições a serviço da ordem e do governo decida refletir sobre o papel que deve exercer. E se a instituição for o exército, por exemplo? Vale lembrar sempre que graças à adesão das forças armadas aos manifestantes no Cairo o presidente Hosni Mubarak foi deposto.

Além de a Grécia já ter sido governada pelos militares, os soldados são gente comum. A hora em que um movimento interno questionar a fidelidade aos bancos em detrimento dos interesses dos cidadãos, a dinâmica será completamente diferente.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Crise na Grécia: população comum é a maior vítima do pacote de austeridade

A Grécia está prestes a entrar em guerra civil. Não se trata de uma guerra entre distintas facções ideológicas, mas de um conflito aberto e polarizado entre camadas distintas. De um lado, estão os políticos que pretendem aprovar nos próximos dois dias o pacote de 25 bilhões de euros em cortes públicos, aumentos de impostos e privatizações. Do outro, a população, que não teve nada a ver com a maquiagem econômica do governo anterior e decidiu descruzar os braços justamente parando de trabalhar. E isso faz bastante sentido.

Parar de trabalhar não é apenas uma oposição previsível a esta loucura protagonizada pelos políticos gregos. A greve geral de dois dias colocada em prática pelos dois maiores sindicatos do país carrega uma mensagem intrínseca sofisticada: por que manter a economia produtiva se justamente os responsáveis por isso são os grandes prejudicados pela perversa equação econômica enfiada goela abaixo pelos Estados mais “economicamente saudáveis” da União Europeia? E, para ser franco, pouco importa se o objetivo da greve seja esse também. O que vale é esta interpretação possível.

O que está acontecendo neste momento na Grécia é uma tentativa de punir coletivamente toda a população. Não é à toa que 80% dos gregos se opõem ao plano de austeridade. Quem seria louco de apoiar um projeto que, sob qualquer perspectiva, prevê absurdos tais como o aumento de impostos aos que recebem salário-mínimo ou a privatização de quase 20% da empresa responsável pela produção de energia ou a privatização de 50 bilhões de euros em bens do Estado?

Tentar convencer os gregos – justamente o povo que inventou o conceito de cidade, democracia e tantos outros valores que regem o Ocidente – é como argumentar sobre uma espécie de suicídio nacional e acreditar que toda uma população seja capaz de aceitar este discurso. É loucura ou ingenuidade – talvez uma mistura dos dois – imaginar que cidadãos de um país estejam dispostos a esquecer de uma vez por todas o próprio princípio da noção de Estado nacional. A confusão é tão grande que o governo socialista grego é o responsável por tentar levar as pessoas a considerarem a ideia de que os políticos e administração pública devem empenhar todos os seus esforços na aprovação deste pacote de austeridade.

Ah, o pacote de austeridade é considerado fundamental pelos altos-funcionários da UE e pelos governos de França e Alemanha para manter em funcionamento o sistema financeiro internacional, os bancos franceses e alemães e a própria moeda europeia. Ou seja, os gregos comuns deveriam se colocar ao lado de seu próprio governo e aceitar todas as restrições práticas a partir de agora em nome da salubridade de bancos privados estrangeiros e deste ente sem rosto chamado de “sistema financeiro”. É sério que alguém espera convencer a população da Grécia com “poderosos” argumentos como esses?

Também é preciso dizer que, mesmo se aprovado, há divergências sobre se todos esses cortes representariam a melhor solução para a situação grega. Um grupo importante de economistas defende que seria preciso estimular a produção e o consumo, não o oposto. Aliás, a perversidade deste momento também está no fato de todo este grande projeto restritivo ser apresentado como a única alternativa – sendo que, está claro, não há nenhuma garantia quanto a isso.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Nova frota marítima a caminho de Gaza testa criatividade israelense

Assim como no ano passado, uma nova frota de navios abarrotada de ativistas internacionais pretende furar o bloqueio marítimo israelense a Gaza. Em 2010, a iniciativa foi muito bem sucedida. Se ela não atingiu seu objetivo declarado, conseguiu alcançar metas políticas muito mais significativas: a abordagem de Israel promoveu uma onda de condenação internacional ao Estado Judeu, deixando evidente a incapacidade do governo de Benjamin Netanyahu de enxergar um palmo além do óbvio. Fora isso, o isolamento de Jerusalém também foi seguido pelo esfriamento completo das relações com a Turquia, país cada vez mais importante no Oriente Médio.

Foto: embarque da frota em 2010

Apesar de tudo isso, apesar de todos os seríssimos prejuízos a Israel, Netanyahu parece estar disposto a repetir a fracassada estratégia de 2010. Tudo bem, errar uma vez é compreensível. Errar pela segunda vez e da mesma maneira é de uma burrice astronômica.

A velocidade das mudanças é incrível. Um ano e um mês após a monumental derrota de Israel, a região está completamente diferente. Hosni Mubarak não é mais o presidente egípcio, e o bloqueio a Gaza já deixou de existir. A nova administração do Cairo decidiu abrir a passagem de Rafah – que liga Gaza ao Egito – e, na prática, não há maiores impedimentos ao trânsito de bens e pessoas entre o território palestino e o egípcio. Israel argumenta que aceitaria receber o suposto carregamento humanitário a bordo dos navios que rumam para Gaza em algum porto israelense e diz contar com a aprovação das autoridades egípcias para que a carga também possa ser recebida na cidade de El-Arish, no norte do deserto do Sinai – e de lá seria repassada por terra para Gaza.

Tudo isso faria sentido se o bloqueio entre Gaza e Egito ainda estivesse vigente. Por mais que o temor israelense de que o carregamento a bordo dos navios possa incluir armas, este deveria ser o momento de calcular o menor dos prejuízos. É até bastante simples de entender: se houvesse mais do que ajuda humanitária no interior das embarcações e elas fossem descarregadas no Egito, o armamento chegaria a Gaza de qualquer maneira, na medida em que o bloqueio entre os territórios não existe mais. Agora, se Israel novamente abordar os navios e um novo confronto acontecer, o prejuízo aos israelenses será ainda maior.

A iniciativa de furar o bloqueio marítimo não se propõe meramente ao enfrentamento com os soldados de Israel em alto-mar. A ideia é, mais uma vez, criar um evento midiático e geopolítico que acabe por expor e isolar ainda mais o país. Isso aconteceu no ano passado e pode se repetir agora. O atual governo israelense não apenas parece incapaz de compreender e lidar com óbvio, como também oferece de presente alguns “brindes” a seus inimigos. Por exemplo, emitiu comunicado oficial em que alerta aos jornalistas estrangeiros a bordo do navio que eles poderão ser impedidos de entrar em Israel pelos próximos dez anos. Ou seja, justamente no momento em que a região está em processo de profunda mudança, Israel acaba por voluntariamente abrir mão de um de seus maiores diferenciais em relação a todos os países vizinhos: a liberdade de imprensa. A troco de nada, vale dizer (acabo de ler no New York Times que, demonstrando inteligência, o Escritório Geral de Imprensa israelense retirou o aviso e informa que os jornalistas poderão cobrir o evento sem qualquer restrição).

Inclusive, esta nova frota tem tudo para estar um tanto esvaziada. O número de participantes estimado inicialmente era de 1,5 mil. Agora, já se fala em no máximo 500. A Turquia, país que incentivou e financiou a empreitada do ano passado, sugeriu que a viagem fosse cancelada ou adiada, “por conta de fatos regionais mais relevantes” (o foco de Ancara está nos acontecimentos na Síria e no crescente contingente de refugiados provocado pela perseguição de Bashar al-Assad a seus próprios cidadãos).

Existe uma maneira interessante e criativa de Israel exercer seu direito de defesa. Basta permitir que os navios desembarquem em Gaza. Simples assim. Seria uma demonstração de compreensão sobre este novo mundo, em que atos midiáticos e de relações públicas podem muitas vezes ser mais importantes que argumentos políticos. Mas como Benjamin Netanyahu e seu ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, parecem incapazes de perceber isso, a próxima quinta-feira promete mais um gol-contra deste governo.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Por que a Guerra do Afeganistão não favorece Barack Obama

O presidente Barack Obama fará um pronunciamento aos americanos na noite de hoje em que, apostam todos os comentaristas políticos, deverá divulgar algumas informações sobre o início da retirada das tropas do Afeganistão. Para quem não se lembra, durante a campanha presidencial, em 2008, ficou relativamente claro que o então fenômeno de mudança Obama considerava a guerra do Iraque um problema de George W. Bush, mas o Afeganistão era um caso a ser levado a sério, um conflito justificável porque o território era controlado pelo Talibã e também era o principal refúgio dos membros da al-Qaeda, responsável pelos atentados de 2001.

Com Osama Bin Laden morto e sua organização cada vez mais enfraquecida, o problema americano está em boa parte resolvido. Há alguns muitos dados interessantes e importantes que devem ser conhecidos e são peças fundamentais da decisão de Washington de começar a desmantelar a estrutura militar no país. A quase exatos 500 dias das eleições americanas, pesquisa do conceituado Pew Research Center mostra que 58% dos cidadãos americanos acreditam que os EUA provavelmente deverão alcançar seus objetivos no Afeganistão. Dos entrevistados, 56% são favoráveis ao retorno dos soldados o mais rapidamente possível. Mesmo entre os 34% dos que julgam que os EUA não terão sucesso e não conseguirão atingir as metas estabelecidas nesta guerra, 75% apoiam a remoção das tropas.

Ou seja, ordenar a retirada gradual dos militares americanos agrada a todo mundo. Seja qual for a ideologia ou a opinião sobre os rumos da política externa, uma maioria importante da população é favorável ao retorno dos soldados. Este é um dado importante e que pauta decisões por dois motivos: primeiro, porque estar ao lado da opinião pública favorece o objetivo pessoal de Barack Obama de buscar a reeleição; segundo, porque reafirma a imagem do presidente de ser o porta-voz da mudança. E em boa parte ocupar este perfil no imaginário é ser diferente dos candidatos e presidentes anteriores. Nada melhor do que estreitar a distância entre o pensamento institucional de Washington e da população.

Ordenar a diminuição considerável das forças em combate no Afeganistão também reafirma o compromisso – não cumprido, diga-se de passagem – de redução dos gastos militares. Num momento de crise, os EUA não apenas aumentaram muito as despesas na luta contra o Talibã, como também se viram envolvidos em mais uma guerra, a da Líbia – conflito que se imaginava curto, rápido e eficaz, mas que já está em curso há três meses.

No entanto, é bom que se saiba que Obama pode ser – e vai ser – muito contestado durante a próxima campanha presidencial. Os dados reais da guerra são muito pouco favoráveis a ele. Quando a disputa eleitoral começar nas urnas, o número de militares americanos no Afeganistão deve chegar a 70 mil. Ou seja, mais do que o dobro dos 34 mil soldados que estavam no país quando o atual presidente tomou posse. Hoje, há 102 mil militares dos EUA em combate em território afegão. Em 2008, ainda durante a presidência de George W. Bush, o gasto anual com a empreitada foi de 43 bilhões de dólares. Em 2011, vai chegar a 118 bilhões. Para completar, desde 2001, 1.632 americanos morreram no Afeganistão. Deste total, 696 (43%) perderam suas vidas durante o mandato de Barack Obama.

Vai ser complicado se defender desta saraivada de dados negativos.

terça-feira, 21 de junho de 2011

A Grécia a caminho da falência

Enquanto as passeatas na Espanha mobilizam milhares de pessoas, a insolvência do Estado grego não inspira melhores dias. O primeiro-ministro George Papandreou passa por votação no Parlamento, onde os demais países europeus esperam que seja aprovado o pacote que possivelmente não salvará a vida financeira da Grécia, mas deve frear interminávelo ciclo de débitos. As medidas de austeridade são as mesmas adotadas pelos espanhóis e por muitos líderes do continente. A ideia de sempre é cortar gastos. Na prática, isso significa que as pessoas comuns – que nada tiveram a ver com os gastos excessivos promovidos pelos políticos e com a maquiagem fiscal que enrolou investidores – vão pagar não apenas com seus bolsos, mas também com as próprias vidas.

E, claro, isso não tem nada de justo. Por isso, mesmo aprovados, os planos restritivos serão enfrentados por manifestantes enfurecidos, pobres, desempregados e desprovidos de qualquer expectativa de melhora. As decisões são tomadas de cima para baixo. Neste caso e em tantos outros do gênero, os cidadãos serão os responsáveis por salvar a pele de grandes instituições. Os membros da União Europeia depositam sobre o governo grego a culpa e a esperança pela continuidade, inclusive, da moeda comum, o Euro.

Existe também a possibilidade de a Grécia se tornar o primeiro país a abandonar a zona do euro. Esta é uma possibilidade remota, mas que mostra como a situação é desesperadora. A briga no interior do bloco é grande. Há um racha entre os Estados considerados centrais – Alemanha, França e Reino Unido – e os “periféricos” – Grécia, Espanha, Portugal, Itália e Irlanda. Ninguém sabe onde isso vai dar, mas há quase um consenso de que os cidadãos desses países mais saudáveis economicamente carregam os periféricos nas costas. Há um equívoco neste pensamento, uma vez que está repleto de um preconceito já muito familiar aos europeus e que também acaba reafirmando a própria versão institucional de divisão de responsabilidades.

Mesmo publicações importantes, como a Economist, acabaram entrando no jogo e têm usado expressões perigosamente preconceituosas como “possibilidade de contágio a partir da periferia”. Estranho isso, não? Como alternativa à falência grega, uma boa medida sugerida seria unificar ainda mais a política econômica da UE, de forma a evitar possíveis erros que provocam grandes crises como essa. Esta me parece ser não apenas uma solução dentre algumas outras, mas, na verdade, a única possibilidade de evitar mais caos. A questão é que ela esbarra num tabu muito caro aos países do bloco: o individualismo estatal. Afinal, não me parece provável que todos os países estariam dispostos a entregar seus destinos econômicos ao Banco Central Europeu, por exemplo. Curiosamente, este momento de crise ofereceria a possibilidade de os países refletirem sobre o próprio futuro do bloco. Quais os limites da unificação? Porque se a ideia inicial era criar um Estado supranacional em algum momento, agora existe uma oportunidade real de dar passos concretos rumo a este projeto.

Quem não tem muita alternativa é a Grécia. Seja lá quais forem os caminhos escolhidos, os gregos já estão certos de que o país estará falido daqui a pouco, em 2015. Seus débitos serão de propriedade da própria EU, do Banco Central Europeu e do FMI. Este é um futuro nada glorioso.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A origem das manifestações na Espanha

As manifestações sociais europeias estão conquistando cada vez mais adeptos. O movimento espontâneo, democrático e sem liderança aparente é francamente inspirado na Primavera Árabe. E este já é um fato bastante curioso por si só. Aliás, aponta para este novo mundo que aos poucos substitui a dinâmica do século passado. A implosão da ordem que determinava a replicação das diretrizes mundiais a partir do norte do planeta já é uma realidade. Ela pode deixar de existir no futuro, mas não agora.

Os protestos no mundo árabe já constituem marcas de mudança e retroalimentação. Cidadãos comuns desvinculados de filiações partidárias – em sua maioria – foram às ruas inspirados pelo conceito ocidental de democracia, dentre outros valores e reivindicações. Lutaram para depor regimes autocráticos que os impediam de exercer livre expressão, mas também representavam um Estado falido desprovido de competência para oferecer emprego, saúde, moradia e educação. Todos esses itens foram realidade consolidada principalmente na Europa do século 20, continente que se tornou sinônimo de qualidade de vida até bem pouco tempo, quando governos de centro-direita e de direita reduziram salários, adotaram pacotes de austeridade e buscaram a redução das funções do Estado.

Neste domingo, 200 mil espanhóis foram às ruas das principais cidades do país em busca deste passado tão recente e tão perdido. É uma continuidade do movimento que começou em 15 de maio, em Madri, e que, por sua vez, tem origem no sucesso das marchas populares realizadas em Egito e Tunísia, em março. Neste mundo cheio de velocidade e mudança, fica claro que há um tanto de cultura cibernética em tudo, inclusive na ideologia não-ideológica. E quando me refiro à internet não quero simplesmente fazer menção à articulação por Twitter e Facebook, mas à própria natureza dos protestos. Não há traços marcantes de autoria, bem como não há uma linha reta de acontecimentos. Os movimentos estão naturalmente articulados e se inspiram mutuamente.

No final das contas, a origem de grandes manifestações como essas é bem conhecida da história humana. O desespero, a pressão que se torna insuportável. Aos cidadãos de Egito, Tunísia, Iêmen, Síria, Marrocos a corrupção de seus políticos, o desemprego, a falta de perspectiva. A espanhóis e gregos, o desemprego de 40% dos jovens e a sensação de traição. Se nos países árabes o governo e as instituições sempre representaram uma grande farsa, os europeus não parecem dispostos a quebrar seus paradigmas em nome de metas econômicas que, dentre outros objetivos, devem manter economias “saudáveis”. É complicado empurrar aumento de impostos e redução de salários em nome de algo tão vago e disforme.