segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Com a crise europeia, os chineses não se contêm de tanta felicidade

Após o estabelecimento da crise europeia e da solução encontrada para injetar dinheiro nos bancos, parece que todo mundo resolveu dizer que já sabia dos problemas que originaram esta convulsão. Isso é engraçado e fruto da natureza humana. Faz até algum sentido, mas não deixa de ser curioso que, até bem poucos anos, as vozes dissonantes ao projeto europeu e ao euro fossem pouco ouvidas. Uma das interpretações para o momento de quase falência atual conecta economia e política, claro.

Era difícil que o euro tivesse sucesso de longo prazo sem deixar os nacionalismos europeus de lado. A ideia inicial da União Europeia era formar um Estado supranacional, respeitando as características locais, mas sempre tendo claro que a UE representaria a todos eles. Isso não foi possível por algumas razões: faltou combinar com as pessoas. Elas não apenas questionam esta representação continental, como desconfiam de práticas já existentes. Por exemplo, o parlamento europeu tem sua legitimidade discutida com alguma frequência. Tanto que foram necessárias seguidas pressões e eleições para aprovar o funcionamento da instituição como porta-voz da política externa europeia.

Fora isso, o racha interno prejudicou o estabelecimento real de determinações. Grã-Bretanha, Dinamarca e Suécia jamais toparam aderir à moeda única (assim como outros sete estados).Transformar este projeto num bloco unificado de verdade exige sofisticação e mudanças de paradigmas e pensamento.

Se bem sucedida, a experiência certamente englobaria os demais membros e continuaria a servir de atrativo para os países que ainda estão de fora. No entanto, este momento não permite grande otimismo e a UE corre risco até de acabar. O que está para acontecer dá a dimensão da situação que está por vir: para salvar os bancos à beira da falência por conta da crise, serão necessários nada menos do que um trilhão de euros. E, diante da escassez, onde é possível encontrar tal quantia? A resposta vem dentro de um biscoitinho da sorte (ou do azar, dependendo da perspectiva). A China é o único país do mundo capaz de tirar a Europa deste buraco.

E, além do óbvio, esta ajuda vai custar um preço muito alto. A China vai cobrar que os europeus reconheçam a economia de mercado do país, o que alavancará ainda mais o poder chinês, facilitando a entrada de produtos no continente europeu.

Ou seja, para se salvar, a UE vai abrir mão da competitividade econômica e será inundada legalmente pelo poder da China – um golpe que pode demorar muito tempo para ser assimilado e cujos estragos poderão ser permanentes. Isso sem falar, claro, no capital de prestígio que os países do bloco deverão perder. Se juntarmos uma crise à outra e lembrarmos que Beijing também é a principal detentora de títulos do tesouro americano, entenderemos o resultado desta equação: graças a seu poder econômico, a China parece ter conseguido inverter a balança mundial. E assim nasce uma nova ordem planetária.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O ciclo da Primavera Árabe começa a se fechar na Tunísia

A Tunísia fechou a primeira parte do ciclo. Depois de ser o primeiro país a derrubar seu ditador, conseguiu realizar eleições limpas (aprovadas, inclusive, por observadores internacionais) que contaram com ampla participação popular, como não poderia deixar de ser. Mais de 90% dos quatro milhões de eleitores aptos a votar participaram do pleito. Foram 80 partidos disputando as 217 cadeiras do parlamento. E, sem grandes surpresas, o Ennahda (ou Al Nahda) recebeu o maior percentual de votos. O partido islâmico promete agir moderadamente e manter as conquista políticas, sociais e os direitos femininos.

É até certo ponto natural que um país mantido fechado durante décadas por uma ditadura encontre no movimento islâmico a solução mais óbvia para seus problemas. Isso porque, apesar do sistema de partido único ter existido desde 1956 – ano da independência da Tunísia – , a militância islâmica contrária ao regime continuou a atuar. Isso não somente fortaleceu seus militantes como também lhe deu organização e estrutura. Numa democracia nascente, como é o caso, é previsível que os demais grupos estivessem dispersos ou não existissem até este ano.

A boa notícia para a Tunísia é que a vitória do Ennahda não foi esmagadora. A maioria absoluta não foi atingida e o partido será obrigado a articular alianças. Formará um governo de coalizão com dois partidos laicos: Congresso para a República (CPR, em francês) e Ettakatol (Fórum Democrático para o Trabalho e as Liberdades). O que está em jogo a partir de agora é mesmo a reconstrução do país, por isso o momento é tão importante. O que é curioso é que, ao contrário de outras situações, as pessoas por lá parecem ter isso claro. Há discussões de todos os tipos, e os parlamentares que assumirão seus cargos têm a difícil missão de definir como será a Tunísia do futuro. Um futuro pós-ditadura.

A ideia é redigir uma nova constituição. O debate foi cerceado por tantos anos que a efervescência do momento produz sem parar. Há 12 rascunhos em pauta. Como chegar a um consenso diante de tantas opções? Se isso soa caótico, a mim parece um ponto positivo. Numa sociedade tão vigiada por décadas, as muitas ideias e as forças que se anulam são positivas. É importante que não haja nenhum partido ou grupo que se sobreponha aos demais. E, por isso, a divisão deste momento não é ruim, pelo contrário: é uma marca da democracia. Regimes democráticos existem para conciliar interesses distintos, é assim mesmo.

No final das contas, a Tunísia acaba por ser mais uma plataforma de expansão do modelo turco, que no fundo é tunisiano. A Turquia se afirma como potência regional e força no mundo islâmico como “exportadora” do sistema que alia democracia e islamismo. A Tunísia agora assumidamente se espelha neste exemplo através do Ennahda. Pouco se fala nisso, mas um dos líderes do partido na Tunísia – Rachid Ghannouchi – foi um dos primeiros que buscou conciliar as duas correntes, no início dos anos 1980. Seus textos influenciaram as lideranças turcas. Agora, o ciclo retorna a seu lugar de origem. Resta saber se este modelo será adotado também por Egito e Líbia, por exemplo. E até que ponto será possível manter o equilíbrio entre religião e política nesses países que se reconstroem.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Empresas privadas querem acabar com o WikiLeaks

Lembram-se do WikiLeaks, a importante organização que subverteu o conceito de notícia ao espalhar material bruto governamental secreto a veículos de comunicação em todo o mundo? Pois é. Ela agora corre sério risco de deixar de existir, uma vez que sua única fonte lucrativa secou. Segundo Julian Assange, seu polêmico fundador, as empresas que repassavam as doações ao site passaram a restringir e mesmo impedir as remessas. Assange comprou – ou foi obrigado a provocar – uma briga com alguns dos principais agentes econômicos privados mundiais: Paypal, Visa e Mastercard.

Interessante nisso tudo não é apenas o fato, mas as mudanças intrínsecas a este evento. Em primeiro lugar, o WikiLeaks é simultaneamente fornecedor de material aos veículos jornalísticos mas também é protagonista frequente das notícias. Seja pelos processos que atingem seu fundador, seja pela natureza do material que divulga. Outro aspecto que chama a atenção – ou ao menos deveria – é que, pelo menos aparentemente, a briga da vez se resume ao bem impalpável que é a informação. Para completar, apesar dos Estados nacionais estarem profundamente interessados em acabar com o WikiLeaks, neste caso específico as empresas privadas representam os interesses dos países (da cúpula política desses países, para ser mais claro). Na maior parte das vezes na história recente, acontece o oposto – o Estado trabalha para o bem-estar das corporações.

Boa parte da lógica foi invertida porque o site de Assange também mudou regras tradicionais. Publica informações secretas de governos, repassa a jornais sem qualquer custo e vive de doações (e, aparentemente, apenas delas). Se vazar material secreto sempre foi o sonhos dos veículos de comunicação, o WikiLeaks é um serviço novo porque não lucra diretamente com isso. Democratiza sem exigir contrapartidas, publica tudo no site e não requer assinaturas mensais ou qualquer compromisso de fidelidade dos leitores. O único furo deste sistema, sob o ponto de vista da organização, passa justamente por sua manutenção. O site precisa de dinheiro para continuar a existir. E, por isso, segue a ordem tradicional de transações financeiras. Ainda não há alternativa neste caso. E foi justamente esta fraqueza que pode custar sua existência.

O WikiLeaks vaza conteúdo secreto dos governos desde 2007. Pode ser incômodo, indiscreto e desagradável à cúpula de poder dos países e principalmente das potências. Mas este é um serviço justo quando se muda o foco. Por que as populações não podem ter acesso a este material? Afinal de contas, os governos representam as pessoas e nada mais coerente que seus cidadãos conheçam suas entranhas e também as incoerências dos discursos que adotam. Li muitos textos argumentando que Assange é um anarquista que quer acabar com esta ordem mundial. E isso importa neste caso? Sinceramente, não creio. As ideologias do fundador do WikiLeaks e seus sonhos até certo ponto ingênuos não alteram em nada o que está em jogo nesta situação. O fato é muito simples: as corporações querem impedir a divulgação de informações relevantes às pessoas. Além de isso não fazer sentido e ser injusto sob qualquer ponto de vista, acaba dando às empresas privadas um poder que elas não têm e não deveriam ter: o benefício de decidir em nome dos cidadãos o que deve ou não ser divulgado.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

As vitórias internacionais de Barack Obama

Perceberam como aos 45 minutos do segundo tempo o presidente americano, Barack Obama, está conseguindo virar o jogo a seu favor? Isso vale, pelo menos, para a política externa. Em apenas uma semana, a Casa Branca conseguiu duas importantes vitórias políticas: a queda de Kadafi, na Líbia, e o fim da guerra do Iraque. É importante dizer, no entanto, que este último resultado é, em grande parte, fruto da vontade pessoal de Obama. Era sua carta na manga a ser usada quando a situação se estabilizasse e, principalmente, quando julgasse ser o melhor momento.

Foto: Obama em Las Vegas, nesta segunda-feira

E, claro, política é pragmatismo. Portanto, o melhor momento é durante a curva de ascensão rumo às eleições presidenciais. Dar fim à guerra do Iraque era mesmo uma promessa de campanha e coube à astúcia do presidente dos EUA reverter uma situação que o desagradava. Houve pouco comentário a respeito, mas o fato é que a retirada de todas as tropas não era o cenário ideal a Washington. A ideia era alcançar um acordo com o primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, e manter bases americanas no país, além de milhares de soldados. Não houve consenso entre as partes. Por isso, ao invés de anunciar isso simplesmente, Obama preferiu dar o passo definitivo e encerrar a guerra.

É uma estratégia interessante de sua parte não apenas pela situação relativamente mais pacífica no Iraque, mas também porque o anúncio acabou sendo catapultado pela execução de Kadafi, na Líbia. Em uma semana, Obama encerrou dois conflitos no Oriente Médio. Dá para negar o poder de resultados como esses? Ainda mais numa região que o imaginário internacional interpreta e comunica como a mais problemática do mundo.

A morte de Kadafi deu fim aos problemas da Otan e dos EUA, é bom que se diga. Desde o início da intervenção, há sete meses, era muito questionável a estratégia adotada. O que fica muito claro para mim é que as potências ocidentais entraram neste conflito interno líbio mais para não perder o bonde da Primavera Árabe do que por qualquer argumento humanitário. Se a preocupação com o assassinato em massa das pessoas comuns e indefesas em luta por liberdade fosse a única questão envolvida, esta mesma intervenção que derrubou Kadafi partiria agora para a Síria. Mas isso não vai acontecer. No final das contas, a morte de Kadafi deu sentido à operação, uma vez que nunca ficou claro o objetivo da empreitada militar ocidental. Até agora, jamais seus comandantes chegaram a um consenso sobre as metas finais. Matar Kadafi, exilá-lo, forçá-lo a realizar eleições eram opções que nunca foram assumidas publicamente.

Agora, após a execução de Kadafi, fica fácil cantar vitória. Com o ditador líbio fora do jogo, Obama e a Otan podem respirar aliviados. O problema não está plenamente resolvido porque mantenho a minha posição de sempre; por mais que apostar no Conselho Nacional de Transição seja a única alternativa, no fundo não dá para garantir que este emaranhado de fidelidades e ideologias irá mesmo transformar a líbia numa democracia real. Por ora, no entanto, Obama está cheio de conquistas a apresentar: um modelo de guerra na Líbia que não custou a vida de nenhum cidadão americano, a captura de Osama bin Laden e o fim da guerra do Iraque. Na prática, são resultados muito melhores do que os alcançados pela administração anterior.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Primavera Árabe: o risco do termo se sobrepor à realidade

Não acredito em qualquer espécie de pasteurização sistemática da Primavera Árabe. Explico: não creio que a política possa ser interpretada como uma sucessão de acontecimentos previsíveis. Nem a política, nem a história humana permitem a leitura dos fatos como se fossem peças de uma máquina cujo funcionamento ou não das engrenagens leva a resultados esperados. A morte de Kadafi é uma tentação ao estabelecimento de paralelos a outros países onde a população está nas ruas contra o próprio governo. Eu mesmo farei algum tipo de análise a respeito, mas não me arrisco a cravar certezas.

E não faço isso porque entendo que os países apresentam realidades muito distintas. Na Síria, por exemplo, por maior que seja a pressão sofrida pelo presidente-ditador Bashar al-Assad, o governo ainda detém o controle de boa parte do aparato coercitivo. Pratica uma grande ofensiva contra as pessoas comuns, sofre críticas internacionais contundentes, mas, por ora, não é ameaçado de verdade. Na Líbia o governo caiu porque a Otan e as potências ocidentais articularam ataques aéreos e também decidiram bancar os “rebeldes”. Se dependesse da força interna pura e simplesmente, Kadafi ainda estaria no poder.

No Egito e na Tunísia os respectivos ditadores foram depostos basicamente porque o exército os abandonou, mudou de lado.

Reportagem do New York Times lista as singularidades da Tunísia – características que levaram o país a ser o primeiro a detonar e também encaminhar o processo que ficou conhecido como Primavera Árabe.

“Dentre os fatores a seu favor, a reduzida e homogênea população de cerca de 12 milhões de pessoas; alto nível de educação, uma grande classe-média, exército não politizado, um movimento islâmico moderado e a longa história de identidade nacional unificada”.

São credenciais importantes e que, além de não poderem ser descartadas, são difíceis de serem encontradas nos outros países da região. Assim como Tunísia e Síria são exemplos opostos, a Líbia também representa, até agora pelo menos, um caso único de intervenção internacional. Por isso, o termo Primavera Árabe serve como rótulo do processo de transformação, mas não de unificação dos destinos de todos os atores. A “Primavera Árabe” já é uma realidade, mas esta espécie de chancela internacional não garante sucesso aos seus participantes individualmente.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Morre Kadafi. Nasce o caos

A morte de Kadafi talvez seja um dos eventos mais importantes do ano (num ano cheio de eventos importantes, diga-se de passagem). No entanto, representa o mais breve clímax da Primavera Árabe. Se por um lado o ditador líbio foi a figura política que sofreu as consequências mais graves do processo de luta por mudanças profundas na região (vale lembrar que, até agora, nenhum outro líder árabe pagou com a própria vida pelos anos de poder absoluto), a Líbia pode ser o primeiro Estado nacional pós-insurgências populares a ser engolido.

A Líbia pode se transformar no caos completo e entrar no clube dos Estados falidos africanos – caso da Somália, por exemplo. E esta não é uma hipótese distante. Mahmoud Jibril, presidente do quadro executivo do chamado Conselho Nacional de Transição (CNT) – nome bacana dado aos “rebeldes” – é um dos que defendem esta posição. Tanto que decidiu abandonar o barco. Jibril era a grande esperança das potências ocidentais de dar ao CNT um formato palatável. Economista graduado nos EUA, ele percebeu que transformar a Líbia numa democracia será complicado. Até porque, se criar algo próximo a um país já é uma missão ingrata, unir este arremedo de ideologias, tribos e fidelidades distintas num regime democrático é ainda mais complicado.

Há alguns responsáveis por este caos. Aliás, todo mundo é responsável, mas as alternativas ao caos eram impensáveis. A partir do início da Primavera Árabe nos países vizinhos, os líbios foram às ruas exigir transformações internas. Como era de se esperar, Kadafi optou pela violência para impedir as manifestações. Num cenário mais amplo, as potências ocidentais decidiram agir porque estavam em péssima situação. Identificadas às forças repressoras –contestadas e derrubadas – de Egito e Tunísia, perceberam no caso da Líbia a oportunidade de mudar para o lado certo (agora representado pelas pessoas comuns que exigiram o fim dos regimes ditatoriais). Assim, em março, correram para aprovar a intervenção da Otan.

Como de costume, a pressa atrapalhou o planejamento. Kadafi já não representava um problema real aos EUA e ao Ocidente havia muito tempo. Por isso, estava esquecido do ponto de vista estratégico. Graças a este esquecimento voluntário, ninguém conhecia a fundo ou mantinha contato frequente com os opositores de Kadafi. Quando as potências ocidentais decidiram derrubá-lo, precisaram de uma força opositora interna para representar a alternativa ao regime. Foi neste momento que “surgiram” os “rebeldes”. Escrevi em 23 de agosto sobre o assunto e a realidade de então continua a valer. O Conselho Nacional de Transição, formado em sua base pelos “rebeldes”, nada mais é do que um grupo unido somente em torno do objetivo de acabar com o ditador. Há ex-membros do governo, democratas, jihadistas, berberes e representantes das muitas tribos que formam a Líbia.

Agora que Kadafi é História, cada um desses grupos passará a lutar individualmente por poder. E assim está formado o caos, fruto da sucessão de acontecimentos não apenas da Líbia, mas também resultado da nova arquitetura regional (ela mesma ainda em formação).

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Consequências possíveis da troca de prisioneiros entre Hamas e Israel

Ainda há algumas análises a serem feitas sobre a libertação de Gilad Shalit e a troca de prisioneiros empreendida após negociação indireta entre Israel e o Hamas. As grandes questões estratégicas que têm sido levantadas dizem respeito às mensagens práticas enviadas pela concretização do acordo. Há duas correntes predominantes: a primeira considera que o número de sequestros a soldados e cidadãos israelenses tende a se tornar comum; a outra acredita que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, é o grande perdedor do processo, uma vez que os ganhos através de negociação teriam dado lugar a um incentivo indireto ao caminho da violência.

Em primeiro lugar, desde que a troca foi anunciada, na semana passada, o próprio governo de Israel admitiu que ela só possível graças ao que passou a chamar de “janela de oportunidade”. Eu abordei o assunto no texto da última sexta-feira. Há elementos distintos que compõem este termo, mas um dos mais importantes é justamente o momento de grande popularidade do presidente Abbas. Havia o temor de o acordo ser interpretado como chancela aos métodos de violência e luta armada empregados pelo Hamas em detrimento ao discurso moderado do presidente palestino. Mas, curiosamente, graças ao período de alta desde o pronunciamento na ONU em busca do reconhecimento ao Estado palestino independente, Abbas não está em situação de risco iminente. E, de maneira bastante clara, por mais interessante que seja esta libertação de mil e tantas pessoas, ela não soluciona o impasse do conflito.

Caberá a Abbas deixar isso explícito. E quem assistiu ao seu pronunciamento na Cisjordânia durante a recepção dos presos já pôde notar os métodos que ele vai empregar. Visivelmente constrangido, agradeceu aos esforços do Egito no acordo. O presidente palestino vai tentar esvaziar como puder esta vitória política do Hamas. É claro que a hipótese de um recrudescimento do Hamas existe, mas, como também escrevi na semana passada, este acordo marcou a vitória do pragmatismo – e este é um fato a ser comemorado numa região repleta de ideologia.

Sobre o risco dos sequestros, é claro que ele também existe. Mas acho que ele pode ser postergado, uma vez que a intenção do Hamas é retomar o protagonismo interno e também se firmar como ator internacional legítimo. Patrocinar uma onda de sequestros seria um retrocesso, sob este ponto de vista. A eventual derrocada do governo Assad, na Síria, deixa a aliança regional em que o Hamas está inserido em suspenso por ora. Pode ser que o grupo tente movimentos militares por conta própria, mas este me parece mais um momento de recuo diante dos acontecimentos na Síria e no Irã.

Sob a perspectiva israelense, expliquei o acontecido no texto de ontem. Jerusalém precisou correr os riscos. Há uma reportagem muito interessante do jornal canadense Globe and Mail (leia aqui) que lista o passo-a-passo do processo de construção deste acordo. Um dos trechos da matéria menciona uma declaração de bastidor do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. “Eu me oponho a este acordo, a negociar com terroristas e a libertar terroristas da prisão. Mas não há nenhuma outra maneira de trazer Gilad Shalit para casa e já é hora (de isso acontecer)”. Esta, aliás, tem sido a posição declarada de Netanyahu e acho que não são necessárias maiores análises sobre ela.