quinta-feira, 28 de agosto de 2014

EUA devem entrar na Síria para combater a ISIS

Os EUA devem apresentar em breve uma estratégia mais ampla de combate à ISIS. É o que informa o site Daily Beast. O presidente Obama requisitou a assessores próximos e secretários do governo um plano de ação o mais rapidamente possível. Os americanos já estão em guerra contra o grupo terrorista, tanto que realizaram até agora mais de cem ataques. No entanto, estavam restritos ao Iraque. A discussão do momento em Washington é quanto à expansão das ações também em território sírio.

Isso significa, na prática, levar o país a se envolver na guerra civil síria, em curso desde 2011 e responsável pela morte de mais de 180 mil civis. Houve ocasiões em que a Casa Branca esteve próxima de realizar ações diretas na Síria, mas esta possibilidade nunca se concretizou. Até agora. 

A ameaça da ISIS e sua crescente expansão no Oriente Médio é vista por Washington como risco a aliados regionais e mesmo ao próprio território americano, uma vez que a retórica fundamentalista do grupo já conseguiu cooptar cidadãos do país e existe o temor de que ações sejam realizadas dentro das fronteiras dos EUA. Obama, no entanto, está cauteloso por uma série de razões:

As guerras no Oriente Médio que marcam a política externa norte-americana desde 2001 e seus prejuízos políticos, militares e econômicos; a aliança com os grupos que combatem Bashar al-Assad na Síria (cujas fidelidades são questionáveis); e, claro, a eficácia dos ataques aéreos como forma de abordagem à ISIS. Seja como for, o fato é que Obama já tem como prioridade a destruição do grupo. Ou, ao menos, sua contenção. Isso porque, na prática, acabar com organizações terroristas tem se provado um objetivo pouco viável. 

Resta saber qual será a decisão final do presidente americano em relação à estratégia a ser adotada. O ponto principal, no entanto, parece já estar decidido: os EUA devem entrar na Síria como forma de impedir que a ISIS continue intocável no território.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

As principais dúvidas sobre o mais recente cessar-fogo entre Hamas e Israel

Por que agora? Por que nessas condições? Essas são duas perguntas básicas que muita gente tem feito sobre o fim do atual conflito entre Hamas e Israel. Na minha visão, há respostas a essas duas questões.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer o que menciona este acordo de cessar-fogo: Israel irá permitir a passagem de ajuda humanitária e material de construção pelos postos de controle. Também vai permitir pesca no limite de até 9,6 km de distância da costa. O ponto de passagem de Rafah, na fronteira entre Gaza e Egito, será reaberto. As próximas negociações devem acontecer daqui a um mês. 

Dito isso, vamos às principais perguntas: 

Israel diz que este cessar-fogo é exatamente o mesmo apresentado pelo Egito – e com o qual os israelenses concordaram – em 15 de julho, uma semana, portanto, após o início do conflito. A diferença principal é que, naquele momento, o Hamas não havia conquistado os objetivos estratégicos atuais (mesmo que às custas de milhares de vidas palestinas, com as quais o grupo não se importa minimamente). Agora, o Hamas reforça seu papel de “resistência” e marginaliza a Autoridade Palestina no processo político interno e regional. Para completar, trouxe, mesmo que não totalmente, o Qatar, seu principal financiador, para o centro das negociações. 

Além disso, sob o ponto de vista do prolongamento da retórica de resistência, fazer a guerra perdurar por 50 dias permitiu ao Hamas dois ganhos: afirmar ser capaz de sobreviver a um conflito de médio prazo com Israel; e causar quase 70 baixas ao Estado judeu, lançando mais de 4,5 mil mísseis a partir de Gaza. Esses fatores aumentaram o prestígio do grupo. Isso sem falar no óbvio: o simples fato de continuar a existir após o conflito já é considerado como vitória. 

Para completar, ao aceitar o cessar-fogo, o Hamas freia um movimento internacional que ganhava força: o de exigir a desmilitarização do grupo, tema sobre o qual escrevi amplamente durante o conflito. A partir do momento em que esta exigência deixou de ser somente uma prerrogativa israelense e se transformou em base da proposta europeia para encerrar a guerra e ajudar no processo de reconstrução de Gaza, a natureza do Hamas passou a estar sob ameaça aberta. 

Do lado de Israel, o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, vai fazer o que puder para convencer o público interno de que foi capaz de vencer o Hamas. Mas não foi. Porque derrotar totalmente o Hamas significa garantir o retorno de calma e segurança às cidades e comunidades do sul do país. Agora, exatamente como no estágio anterior ao conflito atual, esta situação depende exclusivamente do interesse do Hamas de seguir com a trégua. Por mais que o argumento seja de que Israel foi capaz de destruir a maior parte da capacidade militar do grupo, a chuva de mísseis sobre o céu do território israelense pouco antes do cessar-fogo vigorar foi uma demonstração do Hamas de que seu arsenal está longe de ter sido completamente erradicado. Além dos prejuízos com perdas econômicas e isolamento internacional, a liderança de Israel preferiu encerrar o conflito justamente como forma de impedir o crescimento do protagonismo do Qatar no Oriente Médio. E, claro, fortalecer a aliança e o papel geopolítico deste atual governo egípcio. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A falência de três países do Oriente Médio é exemplo da deterioração regional

Olhando de uma maneira mais ampla, hoje o Oriente Médio apresenta um cenário novíssimo quando comparado com dez anos atrás. Além da novidade chocante da ISIS – que não é exatamente uma surpresa –, temos a falência relativa ou total de três Estados nacionais: Líbia, Síria e Iraque. 

O ciclo de acontecimentos foi rápido demais: os ataques de 11 de Setembro, a invasão a Afeganistão e Iraque (as duas guerras em Iraque e Afeganistão), a Primavera Árabe, a derrocada e consequente troca de lideranças em Tunísia e Egito; a eclosão de revoluções em Líbia e Síria e as guerras civis nesses países;  a resistência violenta de Bashar al-Assad diante da igualmente violenta oposição cujos grupos constituintes incluem toda a sorte de espectros políticos regionais (a al-Qaeda e a própria ISIS, por exemplo). 

Todo o processo está tão acelerado desde a virada do século 20 para o 21, que ainda não houve tempo para racionalizar ou pensar em logo prazo. Desde a primeira tentativa de o Ocidente influenciar, houve estímulos e respostas sucessivas e ininterruptas. Hoje, 13 anos depois, há alguns resultados catastróficos. E aí retorno ao que escrevi inicialmente: sob o ponto de vista de estabilidade política e econômica, a situação no Oriente Médio é hoje pior, muito pior, que aquela existente no início do século 21. 

Mantendo estritamente a linha de raciocínio pragmático, sob o ponto de vista ocidental, o Oriente Médio com Bashar al-Assad na Síria, Muamar Kadafi na Líbia e Saddam Hussein no Iraque era um lugar estranho, distante, perigoso, mas certamente muito menos problemático do que é hoje. As lições têm sido ensinadas a duras penas – e aí termino com o exemplo da ISIS –, mas Estados falidos são piores que Estados ruins (mesmo que aí estejamos falando de países ditatoriais, sem qualquer traço de democracia e certamente sem imprensa ou instituições livres e independentes). 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O temor defensivo diante da ISIS

O Ocidente não sabe enfrentar inimigos não-convencionais. Ao se aventurar pelo Oriente Médio contemporâneo, as chamadas potências ocidentais se deparam batalha após batalha com entidades que não estão dispostas a assumir qualquer compromisso com formas de enfrentamento que pressupõem a concordância ao menos com as leis internacionais. Esta questão está no centro de qualquer estratégia que venha a existir para impedir o avanço do Estado Islâmico (ISIS). 

A ISIS é a radicalização dos radicais. Foi rejeitada pela Al-Qaeda na Síria porque não estava lá para derrubar Bashar al-Assad – um objetivo prático – , mas para lutar pelo sonho do Califado (sobre o qual já escrevi aqui no blog). Esta é a natureza da ISIS. Agora, o grupo já controla um território no Iraque maior que a extensão de Israel e Líbano, por exemplo. Segundo é possível entender por seus membros, a organização não se satisfaz com fronteiras, mas limites. Isso quer dizer que a ISIS está disposta a seguir conquistando território enquanto obtiver sucesso. Isso também quer dizer que é muito pouco provável que haja qualquer forma de negociação com quem quer que seja. Nada além da restituição do Califado irá abrandar seu ímpeto. 

Na quarta-feira, fontes militares norte-americanas ouvidas pela agência de notícias Associated Press disseram que o país já trabalha com a possibilidade do envio de uma pequena tropa de forças especiais para combater a ISIS no Iraque. Os EUA têm especial preocupação com o destino do Iraque porque foram os principais responsáveis pela mudança de regime, fruto da invasão ao país em 2003. Assim, a ISIS também ameaça diretamente a política externa americana, uma vez que sua eventual vitória e tomada do território poderia significar a interpretação de que o Iraque foi derrotado por Washington e entregue, finalmente, ao pior grupo radical do Oriente Médio. Ou, ao menos, aquele para o qual nenhum ator internacional encontrou uma forma de controle até agora. 

O sucesso da ISIS ameaça também a região de forma mais ampla. Como está muito claro, o grupo não aceita impedimentos pacíficos ou fronteiras internacionais. As monarquias regionais e os demais regimes do Oriente Médio temem seu avanço. Se derrotar o Estado Islâmico é apenas uma questão militar – pelo menos esta é a única alternativa até o momento –, os países da região não se mostraram dispostos até agora a enviar tropas para combater em sua origem. O que existe é somente a manutenção de posições defensivas, com cada país mobilizando militares e serviços de inteligência para impedir que a ISIS influencie nacionalmente. 

O que é possível fazer, no entanto, é esvaziar eventuais alianças do grupo. Fica para um próximo texto. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Guerra silenciosa no Oriente Médio pode ajudar a entender o fim da trégua entre Hamas e Israel

O colapso da trégua e das conversações indiretas entre Israel e membros do Hamas pode ter a ver com o quadro de rivalidades e disputas mais amplo do Oriente Médio. De acordo com o Al Hayat, jornal árabe publicado a partir de Londres, o Qatar estaria por trás do fracasso das negociações. 

Segundo informação publicada na edição de quarta, o Qatar teria forçado o Hamas a retomar o lançamento de mísseis sobre Israel, chegando inclusive a ameaçar de expulsão de seu território o líder político do grupo, Khaled Meshal (que vive no Qatar desde 2010). Se isso soa estranho, vale fazer algumas considerações que ajudam a entender este processo menos óbvio – e certamente pouco abordado. 

Já expliquei por aqui algumas vezes que a região é dividida hoje entre dois principais eixos: de um lado, os sunitas Egito, Autoridade Palestina, Jordânia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, além de Israel e EUA. Esta é uma aliança de interesses mútuos e, evidentemente, velada. Do outro lado, Turquia, Qatar, Síria, Irã, Hamas e Hezbollah. O Hamas não é um grupo xiita, mas era parte desta união de forças e fidelidades por questões pragmáticas. Esta última aliança foi desfeita, principalmente em função do apoio do Hamas aos grupos que combatem Bashar al-Assad na Síria. No entanto, o eixo está mais fechado entre três membros: Turquia, Qatar e Hamas. Curiosamente, nesses esses três membros a maioria da população é sunita. 

A divisão entre esses eixos é pragmática. O foco da política externa do Qatar é estar à frente do processo de tomada de decisão política e econômica do Oriente Médio. Para isso, claro, alguém tem que perder. O problema com seus vizinhos do Golfo Pérsico é que eles também têm seus próprios objetivos. E aí é que começa o conflito, até agora silencioso, entre todos esses atores – e que influencia nos rumos da guerra entre Israel e Hamas. 

Para o Qatar, a forma de enfraquecer seus inimigos geopolíticos é apoiar os adversários internos desses países, colocando em risco a estabilidade interna de cada um deles. A questão é que democracia passa longe de Egito, Arábia Saudita, Jordânia e Palestina. No entanto, a região tem assistido ao fortalecimento dos grupos islâmicos que se pretendem também protagonistas políticos. Isso aconteceu no Egito e na Tunísia pós-Primavera Árabe, por exemplo. Este também é um movimento forte – e presente no círculo de poder – na Turquia do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. 

Qatar, Hamas e Turquia se concentram no fortalecimento dos movimentos islâmicos. Por sua vez, esses movimentos representam uma ameaça às monarquias regionais, como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Jordânia. Entre os palestinos, o Hamas é sua expressão e põe em risco o protagonismo da Autoridade Palestina. No Egito, a Irmandade Muçulmana chegou ao poder, mas foi derrubada pelo atual governo militar, causando baixa no eixo que estava se consolidando. 

Ao ameaçar o Hamas e forçá-lo a não aceitar a extensão da trégua com Israel, o Qatar manda uma mensagem deste grupo político do Oriente Médio: não aceitará que o Egito pós-Irmandade Muçulmana assuma o protagonismo. E, mais importante, não dá legitimidade a este novo governo egípcio responsável pela deposição da Irmandade Muçulmana e por esta batalha perdida pelo movimento islâmico em sua guerra maior de aspirações regionais. 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Fim da trégua no Oriente Médio pode ser momento-chave para os passos seguintes

E quem achava que o conflito entre Israel e o Hamas havia terminado foi surpreendido por uma nova rodada da batalha. A trégua foi por água abaixo após o grupo palestino lançar oito mísseis sobre o território israelense nesta terça-feira. Como tenho escrito por aqui, há incongruências importantes nas expectativas dos dois lados.

Em primeiro lugar, cada um ainda está tentando garantir a vitória. Muito embora as perdas em Gaza sejam maiores, o Hamas espera dar continuidade a seu discurso de resistência, mas, para isso, precisa obter ganhos – mesmo que mínimos – capazes de convencer seu público interno de que a estratégia de lançamento de mísseis e o conflito com Israel valeu a pena. 

O problema é que Israel precisa exatamente dos resultados opostos. O país precisa convencer o público palestino que a estratégia de conflito do Hamas não dá resultados. Então, o que acontece neste exato momento é a continuidade do jogo de soma zero sobre o qual tratei bastante nas análises anteriores. Por mais que ambos os lados estejam exauridos pela guerra, é possível que ela volte a acontecer. 

Do ponto de vista de negociação, o Hamas está em pior situação. Como Israel exige a desmilitarização de Gaza, o grupo é o que tem mais a perder. A “resistência” armada é a gênese de sua existência. Portanto, com a popularização internacional de que a segurança regional e a evolução de novos acordos passa pela deposição das armas, o Hamas só tem dois caminhos possíveis a seguir: continuar com o lançamento de mísseis, colocando mais palestinos em risco e Gaza ainda mais destruída ou se desarmar totalmente (ou ao menos ludibriar a comunidade internacional), mantendo apenas a ala política em funcionamento. 

Talvez o que esteja acontecendo agora seja reflexo deste impasse interno. Pode ser que o Hamas queira ganhar tempo para pensar numa terceira alternativa.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

As difíceis escolhas diante do Hamas

Complementando o texto desta segunda-feira, se o Hamas se transformar num grupo político que aceite abandonar as armas para negociar com Israel, uma parte importante do conflito israelense-palestino estará resolvida. Resta saber se o Hamas concordará com isso em troca de alcançar legitimidade política. 

Ronen Bergman coloca a questão da legitimidade como se esta já fosse por si só uma importante vitória ao grupo. 

“Apesar de Israel estar em busca da marginalização do Hamas e do fortalecimento de Abbas (Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina), o Hamas está, pela primeira vez em sua história, prestes a ser reconhecido internacionalmente como uma parte igual da disputa entre israelenses e palestinos”. 

Novamente, tendo a não concordar que esta situação representaria uma derrota absoluta a Israel. Se o governo de Benjamin Netanyahu tiver alguma participação no processo de desarmamento do Hamas, o atual primeiro-ministro passará à história do país como o responsável pelo fim do lançamento de mísseis do Hamas e dos outros grupos armados que operam em Gaza. E quem haveria de considerar este passo como uma derrota para Israel? 

O problema para Netanyahu começa no momento seguinte. Se o Hamas se transformar numa entidade política pacífica que aceite negociar, a bola passa para o lado de Israel. E este é o ponto que aparentemente o grupo palestino ainda não interpretou corretamente. Se depuser as armas e topar negociar com Jerusalém, que eventuais argumentos Bibi terá para não suspender o bloqueio a Gaza, por exemplo?

Para o Hamas, o problema é menos a questão com Israel e mais as disputas internas palestinas. Por ora, todas as decisões envolvendo o prolongamento do cessar-fogo, a reconstrução de Gaza ou novas formas de supervisão das fronteiras do território passam pelo retorno da Autoridade Palestina. E aí, olhando a figura de maneira mais ampla, a guerra que o Hamas iniciou contra a Israel terá existido para resultar na maior perda imaginável ao grupo: abrir mão do território que controlava desde 2007 e entregá-lo de bandeja ao seus principais rivais internos.