Por Henry Galsky
Em novembro de 2006 a Americanas.com se fundiu com o site de comércio eletrônico Submarino. A operação marcou o nascimento do maior grupo de vendas eletrônicas do Brasil. O que poderia parecer uma simples compra de empresas viria a marcar – menos de dois anos depois – uma profunda mudança no comportamento econômico e cultural de parte da classe média do país. Tudo porque, em janeiro de 2007, a fagocitação mercadológica terminaria (?) na concretização de um dos maiores sonhos do mundo dos negócios nacional: a aquisição, por parte deste mesmo grupo, da franquia Blockbuster.
Por 186,2 milhões de reais, as Lojas Americanas passaram a controlar 99,9% das ações da maior rede de locações brasileira. Às vezes distante, os efeitos da compra puderam ser sentidos em muitas das esquinas das grandes metrópoles. O que antes eram simples – tá bom, nem tão inocentes assim – pontos de aluguel de filmes passaram a funcionar como verdadeiras lojas de vender qualquer coisa – desde filmes, passando por tinta de cabelo, até videogames.
Em pouco tempo, estávamos todos muito bem acostumados a pegar um filme, comprar um chocolate Hershey e esticar fazendo um crediário pelo cartão Taii. As Americanas-Blockbuster passaram a estar em toda parte, uma espécie de loja de conveniência de posto de gasolina, deprimida e vazia quase saída de uma beira de estrada de Pequena Miss Sunshine.
Não deixa de ser curioso o sucesso de uma rede que oferece tudo e nada ao mesmo tempo. Não é nem locadora - menos ainda centro cultural -, nem farmácia, nem loja de jogos.
Os videogames estão ali, enquanto o vendedor masca um chiclete e parece um pouco incomodado quando é perguntado sobre algo da loja. Crianças correm atrás de Toy Story e semelhantes; uma moça olha a seção de - novamente! - tinta pra cabelo.
Pode parecer ruim - e é mesmo -, mas a Blockbuster diz muito sobre o Brasil de hoje. Um lugar repleto de aparelhos eletrônicos de alta tecnologia, caros, mas que ainda sim são vendidos para a ascendente classe média. Tudo se parcela em até 72 vezes, e o pessoal quer assistir ao novo dvd do Alexandre Pires - cujo verso brilhante de seu último sucesso informa que ele quer "continuar a fazer tudo o que já fez e beber sua gelada". O importante é o meio, o tubo, a tecnologia como satisfação de desejos de equiparação social.
O crescimento econômico é muito bom - se acompanhado de acesso à cultura, informação relevante e reflexão. O canadense Philip Ohxorn, professor associado da McGill University, no Canadá, se dedica a estudar o impacto das reformas econômicas nos países da América Latina. E este me parece ser o ponto central da questão. Seu principal argumento - absolutamente incontestável - é que as conseqüências políticas e sociais foram simplesmente esquecidas, em nome da grande festa que ainda se faz em torno do crescimento do pib e do valor de mercado da Petrobrás, da queda da inflação, da criação de uma nova massa de consumidores para empresas estrangeiras. Como narra com orgulho a nova propaganda da Vivo, "somos 40 milhões. Você faz parte disso".
Em seu livro "What Kind of Democracy? What Kind of Market? - Latin America in the Age of Neoliberalism", ele tenta entender como, desde o processo de redemocratização dos países do continente - e principalmente dos da América do Sul - os índices de pobreza, criminalidade e empregabilidade no setor informal cresceram de maneira absurda. O mix de problemas sociais - vai aí uma ironia ao mix de produtos dos publicitários, queiram me desculpar - está diretamente conectado à adoção de um modelo econômico que deixa claro que o conceito de cidadão já era. Somos todos consumidores e por isso nosso valor está nos produtos que podemos comprar.
Seguramente esta é uma reflexão que vai muito além da simples locação do Shrek. Enquanto estamos neste rendez-vous sem fim do parcelamento da viagem da criançada à Disney no pacote CVC, o IBGE informa que os cofres públicos responderam por apenas 38,8% do total das despesas relacionadas à saúde. As famílias gastaram 60,2%. Ora, os dados deixam claro que as contas estão nas nossas costas. O governo – não somente este, mas o que implementou este modelo, há já distantes 14 anos – optou por ser apenas um cobrador de impostos. E, é claro, um facilitador do estabelecimento de Americanas/Blockbuster nas esquinas do país.
