sábado, 11 de outubro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
As muitas faces da Assembléia Geral da ONU
Por Henry Galsky
No discurso de abertura da 63ª Assembléia Geral da ONU, em Nova Iorque, o secretário geral da organização, o sul-coreano Ban Ki Moon, lembrou aos 192 países-membros que o mundo de hoje enfrenta problemas graves e pediu união entre os Estados. "Os desafios estão mais ligados à cooperação do que ao confronto. As nações não podem mais simplesmente pensar em proteger seus interesses ou avançar no bem-estar de seus cidadãos sem estabelecer parcerias entre si. E com uma liderança global forte, vamos conseguir atingir esses objetivos", disse.
Depois dos aplausos, o presidente Lula fez seu discurso e lembrou a atuação da Unasul durante a crise política na Bolívia, criticou a especulação financeira e voltou a pedir a reforma do Conselho de Segurança, onde o Brasil pleiteia uma vaga.
O presidente George W. Bush reafirmou o esforço norte-americano no combate ao terrorismo internacional e pediu sanções à Coréia do Norte e Irã pelo desenvolvimento de seus programas nucleares.
O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, disse, por sua vez, que Israel está prestes a desaparecer e a economia dos Estados Unidos, próxima de ruir.
Em pouco tempo, as palavras de Ban Ki Moon já haviam sido esquecidas. Muito porque todos os países têm direito de discursar e não existe uma pauta que determine os assuntos a serem abordados. É claro que pega muito mal um membro da ONU – instituição cujo objetivo primordial é manter a paz no planeta – pedir o fim de outro, como o Irã vem fazendo sistematicamente em relação a Israel. Mais do que isso, a prática é proibida pelo estatuto das Nações Unidas.
Mas, além desses discursos que geram manchete nos jornais de todo o mundo, cada país aproveita a oportunidade para reafirmar a própria agenda internacional. Pedro Pires, presidente de Cabo Verde, por exemplo, defendeu a segurança alimentar do continente africano.
Sinalizando união interna, o presidente do Sri Lanka, Mahinda Rajapaksa, foi o primeiro chefe de estado a discursar no idioma tamil no palanque da Assembléia Geral – a guerrilha separatista da etnia tamil luta desde os anos 1970 pela independência da região norte do país em confrontos que já mataram mais de 60 mil pessoas.
Entretanto, até o dia 1 de outubro, quando terminaram os debates, a política de bastidores foi a responsável pelas decisões mais importantes. E aí alguns esforços diplomáticos mereceram destaque, como o empenho dos oficiais norte-americanos para convencer os russos a concordar com novas sanções ao Irã e à Coréia do Norte. Na quarta-feira,
Além das tensões políticas envolvidas, a ONU promoveu um encontro para debater as Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDGs, em inglês). O objetivo era estabelecer e discutir medidas concretas para a erradicação da pobreza no mundo até 2015. O fórum permitiu aos líderes dos governos a análise do progresso de iniciativas e a identificação de obstáculos que impedem o acesso das camadas da população mais desfavorecida do planeta a uma vida digna.
Ao final da reunião, foram arrecadados 16 bilhões de dólares. Apesar do otimismo com este número, vale uma comparação que mostra bem qual o peso do combate às desigualdades no orçamento mundial: os países desembolsam 6 bilhões de dólares em gastos militares. Em pouco menos de um dia e meio.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
A saída sem glamour de Olmert
Por Henry Galsky
Quase 33 meses após assumir o cargo de primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert entregou seu pedido formal de renúncia ao presidente Shimon Peres. Sem dúvida, é um ponto final muito longe do esperado para uma figura política que dedicou sua vida a cargos públicos importantes no país: foi prefeito de Jerusalém, ministro e vice-primeiro-ministro.
Vice da chapa do então recém-criado partido Kadima, Olmert assumiu em maio de 2006, quatro meses após o derrame do primeiro-ministro Ariel Sharon. A legenda nasceu com o projeto pragmático de tomar decisões difíceis e, se não houvesse jeito, unilaterais. Foi graças a este programa que, depois de um enorme embate político envolvendo toda a sociedade, o exército israelense pôs fim a todos os assentamentos judeus em Gaza, em setembro de 2005.
Restava saber se Olmert teria força política para continuar a desatar nós geopolíticos que ainda emperram o futuro da região – as difíceis questões em torno das negociações com os palestinos, as fronteiras definitivas do Estado e, num otimismo acima do real, a assinatura de um acordo de paz global com todos os países árabes e muçulmanos.
Mas Olmert não é Sharon, líder carismático que, antes do coma, contava com a aprovação de cerca de 60% dos israelenses. Em 14 de setembro, no que seria seu último encontro ministerial, Olmert lembrou da necessidade de frear a construção de novos assentamentos na Cisjordânia como forma de manutenção de Israel como um Estado Judeu (maioria de população judaica). “Precisamos dividir os territórios se não pretendemos nos tornar um Estado binacional”, disse.
Ele sabe que, por maior que seja a pressão dos grupos religiosos, quanto mais a leste a fronteira devido aos assentamentos judaicos na Cisjordânia, maior a quantidade de árabes-palestinos a ser incorporada ao Estado Judeu. E, por questões demográficas, a balança populacional é favorável aos árabes.
Mesmo tendo este ponto claro para si, Olmert deixa o comando do país sem qualquer avanço considerável nas negociações de paz. Apesar das boas intenções, seu governo não conseguiu se dedicar seriamente à costura de um acordo. Acabou se perdendo nas acusações de corrupção e na enorme confusão que foi a Segunda Guerra do Líbano, em julho de 2006, apenas dois meses depois de assumir.
E é sobre esses escombros que a vencedora das primárias do Kadima, a ministra do exterior Tizipi Livni, fez campanha com os militantes do partido assumindo um slogan que anda na moda ultimamente: mudança. “Vamos votar e ajudar a mudar a imagem do Kadima. Mostrem que vocês estão realmente cansados da mesma política de sempre”, pediu a partidários.
Apesar de ainda não ser a primeira-ministra do país – começa agora um desgastante processo político de formação de coalizões que podem levar inclusive à realização de eleições gerais possivelmente em março do ano que vem – , Livni conta com apoio da população e é o nome mais forte até o momento dentre os concorrentes ao cargo. Mais ainda, ela é a atual negociadora-chefe do lado israelense do processo de paz e conta com o apoio dos parceiros palestinos. Para eles, será mais fácil dar continuidade ao trabalho com Livni e não recomeçar do zero com um governo totalmente novo.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
A Mãe Rússia está louca
Por Henry Galsky
A relação com os Estados Unidos não tem sido melhor. Em tom acusatório, Putin chamou a guerra na Geórgia de “uma provocação incitada pelos norte-americanos”. E, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, estuda armar sua frota no Báltico com ogivas nucleares.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
O Brasil na Blockbuster
Em novembro de 2006 a Americanas.com se fundiu com o site de comércio eletrônico Submarino. A operação marcou o nascimento do maior grupo de vendas eletrônicas do Brasil. O que poderia parecer uma simples compra de empresas viria a marcar – menos de dois anos depois – uma profunda mudança no comportamento econômico e cultural de parte da classe média do país. Tudo porque, em janeiro de 2007, a fagocitação mercadológica terminaria (?) na concretização de um dos maiores sonhos do mundo dos negócios nacional: a aquisição, por parte deste mesmo grupo, da franquia Blockbuster.
Por 186,2 milhões de reais, as Lojas Americanas passaram a controlar 99,9% das ações da maior rede de locações brasileira. Às vezes distante, os efeitos da compra puderam ser sentidos em muitas das esquinas das grandes metrópoles. O que antes eram simples – tá bom, nem tão inocentes assim – pontos de aluguel de filmes passaram a funcionar como verdadeiras lojas de vender qualquer coisa – desde filmes, passando por tinta de cabelo, até videogames.
Em pouco tempo, estávamos todos muito bem acostumados a pegar um filme, comprar um chocolate Hershey e esticar fazendo um crediário pelo cartão Taii. As Americanas-Blockbuster passaram a estar em toda parte, uma espécie de loja de conveniência de posto de gasolina, deprimida e vazia quase saída de uma beira de estrada de Pequena Miss Sunshine.
Não deixa de ser curioso o sucesso de uma rede que oferece tudo e nada ao mesmo tempo. Não é nem locadora - menos ainda centro cultural -, nem farmácia, nem loja de jogos.
Os videogames estão ali, enquanto o vendedor masca um chiclete e parece um pouco incomodado quando é perguntado sobre algo da loja. Crianças correm atrás de Toy Story e semelhantes; uma moça olha a seção de - novamente! - tinta pra cabelo.
Pode parecer ruim - e é mesmo -, mas a Blockbuster diz muito sobre o Brasil de hoje. Um lugar repleto de aparelhos eletrônicos de alta tecnologia, caros, mas que ainda sim são vendidos para a ascendente classe média. Tudo se parcela em até 72 vezes, e o pessoal quer assistir ao novo dvd do Alexandre Pires - cujo verso brilhante de seu último sucesso informa que ele quer "continuar a fazer tudo o que já fez e beber sua gelada". O importante é o meio, o tubo, a tecnologia como satisfação de desejos de equiparação social.
O crescimento econômico é muito bom - se acompanhado de acesso à cultura, informação relevante e reflexão. O canadense Philip Ohxorn, professor associado da McGill University, no Canadá, se dedica a estudar o impacto das reformas econômicas nos países da América Latina. E este me parece ser o ponto central da questão. Seu principal argumento - absolutamente incontestável - é que as conseqüências políticas e sociais foram simplesmente esquecidas, em nome da grande festa que ainda se faz em torno do crescimento do pib e do valor de mercado da Petrobrás, da queda da inflação, da criação de uma nova massa de consumidores para empresas estrangeiras. Como narra com orgulho a nova propaganda da Vivo, "somos 40 milhões. Você faz parte disso".
Em seu livro "What Kind of Democracy? What Kind of Market? - Latin America in the Age of Neoliberalism", ele tenta entender como, desde o processo de redemocratização dos países do continente - e principalmente dos da América do Sul - os índices de pobreza, criminalidade e empregabilidade no setor informal cresceram de maneira absurda. O mix de problemas sociais - vai aí uma ironia ao mix de produtos dos publicitários, queiram me desculpar - está diretamente conectado à adoção de um modelo econômico que deixa claro que o conceito de cidadão já era. Somos todos consumidores e por isso nosso valor está nos produtos que podemos comprar.
Seguramente esta é uma reflexão que vai muito além da simples locação do Shrek. Enquanto estamos neste rendez-vous sem fim do parcelamento da viagem da criançada à Disney no pacote CVC, o IBGE informa que os cofres públicos responderam por apenas 38,8% do total das despesas relacionadas à saúde. As famílias gastaram 60,2%. Ora, os dados deixam claro que as contas estão nas nossas costas. O governo – não somente este, mas o que implementou este modelo, há já distantes 14 anos – optou por ser apenas um cobrador de impostos. E, é claro, um facilitador do estabelecimento de Americanas/Blockbuster nas esquinas do país.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Explicação
por absoluta falta de tempo, o blog não tem sido atualizado como deveria. Mas em breve esta questão será solucionada e voltarei a me dedicar devidamente a este espaço.
Muito obrigado.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Na Noite Petropolitana
O site da prefeitura de Petrópolis não informa os detalhes, mas a administração municipal tem investido parte de sua verba em publicidade para aquecer o setor turístico da cidade. O objetivo – bastante legítimo, sem dúvida – é atrair visitantes de todo o estado a conhecer a nova região central, quase totalmente reformada. O esforço tem sido grande. No Rio de Janeiro, há outdoors em vários bairros da zona sul e peças publicitárias instaladas em diversos ônibus (“busdoors”).
“Petrópolis. Linda outra vez. Novo centro histórico. Petrópolis resgatada. Eterna. Venha conhecer”. Este frase telegráfica é o slogan da campanha. Curiosamente, as obras realizadas pela gestão do prefeito Rubens Bomtempo vêm merecendo esta grande – e, conseqüentemente cara – divulgação a poucos meses das eleições municipais. Como foi reeleito na última disputa, ele tenta conquistar a continuidade da gestão fazendo seu sucessor.
Num sábado à noite de frio e chuva a cidade imperial parece exercer sua vocação de se contrapor ao calor e à dengue da capital fluminense. As luzes alaranjadas dos postes de iluminação pública destacam ainda mais o asfalto molhado. As ruas já estão quase vazias. São mais de onze horas da noite e turmas de jovens buscam alguma aventura na noite petropolitana. Não há tempo a ser desperdiçado no momento mais aguardado da vida adolescente da cidade. E esses cidadãos cheios de vida não dão a menor importância à campanha lançada pelo seu dirigente político.
Na via mais importante, a Avenida do Imperador, um obelisco homenageia os povoadores de Petrópolis. Uma placa de bronze lista um a um os nomes das famílias européias que, na metade do século dezenove, desenvolveram a região. Suissa, Koeler, Suss, Idstein, Wilbert, Bechtluft... São poucas centenas de nomes (talvez duas) eternizadas pelo ex-prefeito de ascendência árabe Sérgio Fadel. O monumento é protegido por pesadas correntes negras – a esta altura já cobertas por grandes gotas da chuva que insiste em cair. É como se a modesta pirâmide erguida ali, no meio da cidade, desejasse enraizar o espírito europeu colonizador local.
É com um olhar que mistura estranhamento e um certo desprezo que os petropolitanos do outro lado da calçada admiram o forasteiro que estuda os nomes de suas famílias. Entre grandes engradados automáticos de cerveja, o modesto bar ao lado do tradicional teatro Paulo Gracindo abriga boa parte da juventude serrana. Não há nada de especial naquele lugar. É apenas um ponto de encontro onde se está com o objetivo simples e indisfarçável de ver e ser visto. Mas uma enorme tensão sexual pode ser percebida a metros de distância. Há muito mais homens que mulheres e isso causa um indisfarçável sentimento de frustração nos freqüentadores.
Quase em frente ao teatro, uma pequena estátua lembra os 200 soldados nascidos na cidade enviados à Europa para combater o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial. Uma moça aparentando menos de 21 anos de idade está reunida com quatro amigos. Vestem roupas pretas do grupo Metálica e riem em voz alta. Estão de pé sobre um banco da praça e apóiam as latas de bebida no braço eternamente esticado do combatente de concreto do monumento aos heróis locais.
Mas a chuva aperta na mesma medida do frio. Há uma movimentação rápida. Toldos são desfraldados na direção das mesas. A noite caminha firme rumo à madrugada e a temperatura condensada passa a dar o tom das conversas juvenis. Um corre-corre marca a luta por um abrigo contra os pingos congelantes. Neste momento, não há mais ninguém na rua ou na praça. Apenas o obelisco e o monumento dos pracinhas permancem heróica e inanimadamente enfrentando a chuva.
É como se a adversidade da natureza pudesse justificar o motivo pelos quais foram erguidos. Eles permanecem onde estão. Marcam a simbologia daquela cidade. E assim deverão continuar; concretamente simbólicos. Para sempre.
