sexta-feira, 12 de junho de 2009

Nada muda no Irã

Com os resultados preliminares das eleições iranianas sendo divulgados, a vitória de Ahmadinejad está muito próxima. A euforia criada pela imprensa mundial em torno da candidatura do “reformista” Mousavi se mostrou um engodo.

De todo modo, é preciso deixar claro – como alguns veículos sérios fizeram nesses dias – que mesmo uma hipotética virada eleitoral no Irã mudaria pouca coisa na relação do país com o ocidente. Simplesmente porque o presidente iraniano não é a principal figura no que concerne a decisões sobre política internacional, aproximação com os Estados Unidos e o programa nuclear – esses assuntos ficam por conta do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, herdeiro político e religioso do aiatolá Khomeini.

Houve uma precipitação em torno da candidatura de Mousavi. Ou melhor, a imprensa brasileira – diga-se de passagem, seguindo uma tendência mundial amplificada pelas agências de notícias – deu a entender que a vitória do principal candidato de oposição a Ahmadinejad poderia levar quase a uma mudança real no destino do Irã e até mesmo um relaxamento das diretrizes que regem a república islâmica.

“Somente candidatos que mostrem lealdade suficiente aos ideais ‘revolucionários’ são autorizados pelo Conselho dos Guardiões a concorrer. O Conselho é composto por 12 ‘super delegados’ indicados direta ou indiretamente pelo supremo líder”, escreve o iraniano Karim Sadjadpour, pesquisador do Instituto Carnegie de Paz Internacional, na revista Foreign Policy.

De qualquer forma, a população iraniana deixou claro que deseja mudanças. E isso não será ignorado, principalmente por um regime inteligente e que pretende se perpetuar no poder. Por isso, acredito que mesmo Ahmadinejad deve dar um tempo nas provocações e aceitar o diálogo direto proposto por Barack Obama. Isso não significa, no entanto, que abrirá mão de seu programa nuclear, até porque o próprio presidente americano declarou, no discurso realizado no Cairo, que não se opõe aos objetivos nucleares iranianos desde que tenham fins pacíficos. As palavras de Obama serviram somente para assinar embaixo do maior projeto de governo de Ahmadinejad e podem mesmo ter sido decisivas para alimentar a reeleição deste último.

Seja como for, o poderio e a importância do Irã ficaram cada vez mais evidentes na intensa cobertura jornalística destinada às eleições do país. E isso pode ser um fator positivo, pelo menos para aqueles que desejam um arrefecimento das ambições militares de Teerã.

Como já escrevi neste espaço, quanto mais óbvio o objetivo estratégico do Irã de se tornar a grande potência do Oriente Médio, maior será a união entre os países sunitas para se opor à concretização deste cenário.

É exatamente sobre isso que escreve Jeffrey Goldberg, da revista Atlantic, de Nova Iorque, citando uma fonte anônima do governo dos Emirados Árabes Unidos.

“Mesmo que possamos nos esquecer que o Irã está em busca da obtenção de capacidade nuclear, todos os países árabes e do Golfo estão extremamente insatisfeitos com o envolvimento iraniano em nossa região. Vemos isso no Iraque, no Líbano, no Iêmen. Acabamos de ver Marrocos quebrar os laços diplomáticos com o Irã por causa disso. De um modo ou de outro, isso também está acontecendo em Afeganistão, Paquistão e Sudão”, diz.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Perigos do Jornalismo militante. Aliás, e isso lá pode existir?

Tendo a ética como parâmetro profissional desde sempre, confesso que me envolvi em alguns dilemas ao decidir escrever este texto. Mas a insatisfação com informações equivocadas acerca de alguns pontos relativos ao resultado das eleições no Líbano me convenceu a encontrar uma solução alternativa de forma a expor minhas opiniões e, ao mesmo tempo, não prejudicar um colega de profissão.
Sendo assim, antes de entrar no assunto propriamente, preciso ressaltar que este texto tem por objetivo corrigir um dano que talvez seja incorrigível, uma vez que a avaliação do colega foi exibida no canal a cabo de jornalismo de maior audiência do Brasil.
O fato é que, diante do otimismo gerado pela derrota do Hezbolah, o jornalista em questão assina uma matéria televisiva de Beirute onde coloca a disputa entre os dois principais grupos concorrentes de uma forma nada pertinente à realidade do país. Segundo ele – e esses foram os termos usados –, a coalizão conhecida como 14 de Março, “de direita e apoiada pelos Estados Unidos”, derrotou o Hezbolah, “grupo militante de esquerda”.
Tomei um susto tremendo na mesma hora em que assistia à reportagem. Baseado em quê o colega simplifica de tal forma as complexas disputas que há muito tempo tomam o país? Como considerar o Hezbolah um “grupo” de “esquerda”?
Reconhecidamente usando métodos terroristas e adotando um discurso extremista abertamente, o Hezbolah jamais foi ou pretendeu ser uma facção somente política. E muito menos de esquerda, cujos valores estão historicamente associados a princípios como direitos femininos, liberdade de expressão, respeito às minorias e busca por soluções pacíficas de conflitos. Ao menos em teoria essas são algumas das bandeiras reivindicadas por aqueles que militam em partidos ou grupos de esquerda.

Por mais que exista uma inegável estrutura de assistência social patrocinada pelo grupo xiita, penso que é irresponsável qualificá-lo como pertencente à esquerda. Simplesmente por três grandes motivos: 1 – o xeque Hassan Nasralah, líder do Hezbolah, não cansa de realizar discursos onde pede o uso de todos os meios por muçulmanos de todo o mundo para destruir Israel; 2 – as bases de discussão política no Líbano jamais foram se as distintas representações e segmentos da sociedade do país estão sob os amplos “guarda-chuvas” de esquerda, direita ou centro, classificações tipicamente ocidentais; 3 – o Hezbolah foi fundado em 1982 para combater Israel e, inicialmente, criar uma república islâmica nos moldes do Irã – país que, por sinal, é até hoje seu grande financiador, ao lado da Síria.

Com todas essas informações básicas sobre o movimento extremista xiita libanês, qualificá-lo de partido de esquerda é no mínimo desinformação. Como a imprensa exerce uma função fundamental na formação de opinião pública, o ocorrido se transforma em irresponsabilidade.
Levando-se em consideração que o jornalista em questão mora no Líbano há mais de 20 anos, seguramente ele não desconhece as práticas e o discurso do Hezbolah, tornando o fato ainda mais imperdoável porque me leva a pensar que talvez o sujeito seja mesmo um partidário do grupo. E fica o questionamento neste caso: é possível ou honesto ser jornalista e militante do Hezbolah ao mesmo tempo? E se for este o caso, não seria mais justo que o colega viesse a público para expor suas filiações ideológicas?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Derrota do Hezbolah no Líbano pode ser o começo de uma virada no Oriente Médio


São tantas as eleições desta semana que é até difícil saber por qual delas começar o texto de hoje. Acho que a mais simples é a europeia, cuja vitória dos conservadores era manjada há um tempo. Na equação proposta pelas urnas, os eleitores deram uma boa margem para a direita que, diante de uma crise financeira sem precedentes e de taxas de desemprego assustadoras – como a de mais de 17% na Espanha –, tem como programa de governo para os próximos anos a velha e conhecida caça aos imigrantes. Nenhuma novidade nisso.

Interessante e surpreendente mesmo foi a vitória do grupo conhecido como 14 de Março, no Líbano. A coalizão, apoiada retoricamente pelos americanos, conseguiu derrotar o grupo extremista xiita Hezbolah.

Ainda é difícil avaliar os resultados práticos desta derrota dos radicais libaneses. Mas ela pode ser interpretada de algumas maneiras: 1 – a visita do vice-presidente americano Joe Biden ao país, em 22 de maio, e o discurso de Obama no Cairo, na última semana, podem ter surtido efeito direto no resultado, o que seria um sinal de que aos poucos os EUA conseguem dissolver o poder da retórica antiamericana na região; 2 – o momento é muito importante: na sexta-feira, as eleições no Irã podem mesmo decidir o futuro do Oriente Médio a curto e longo prazos.

Existe a esperança de que o a vitória do 14 de Março no Líbano possa ser o início de uma onda de ascensão de governos e grupos moderados no Oriente Médio. Na minha opinião, se isso acontecer, Obama não precisará fazer mais nada nos próximos quatro anos para inscrever seu nome na lista dos maiores presidentes americanos de todos os tempos. Mas acho que é prematuro para chegar a qualquer conclusão.

De qualquer forma, fica também o marco de independência do povo libanês. Depois de ir as ruas e dar um sonoro "não" ao domínio sírio, em 2005, a mensagem agora ratifica a decisão de quatro anos atrás. Como se sabe, o Hezbolah é um importante aliado de sírios e iranianos no país. Para ser mais claro, vale citar o apelo de última hora emitido pela Igreja Maronita libanesa, avisando que a identidade árabe do Líbano estava ameaçada – uma clara referência ao Hezbolah e a seu patrocinador, Irã.

Até o momento, o próprio Hezbolah aceitou o resultados das urnas. Segundo o editor-chefe da revista síria Forward Magazine, Sami Moubayed, está é a posição também do presidente Bashar Assad, em Damasco.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Muito mais que palavras em apenas cinco meses

Uma das grandes críticas da opinião pública e dos governos árabes e muçulmanos ao discurso de Obama de ontem é de que as palavras corajosas do presidente americano não se traduzem em ações. Essa é uma visão equivocada, de quem enxerga sempre um copo meio vazio.

Desde que tomou posse, em janeiro, Obama praticamente fez uma cruzada estratégica de mudança dos parâmetros de relações internacionais dos Estados Unidos.

Por mais que tenha aumentado o efetivo militar no Afeganistão, algumas atitudes contrárias às diretrizes do governo Bush são emblemáticas. A determinação de fechar Guantánamo, a aproximação com os países árabes e muçulmanos, o repetitivo – e por vezes desgastante para Washington – processo de tentativa de levar o Irã à mesa de negociações, o fortalecimento dos laços com a Europa e até mesmo uma relativização do apoio a Israel.

Nesta semana, os Estados Unidos não vetaram o retorno de Cuba à Organização dos Estados Americanos (OEA), vigente desde 1962.

Não se pode dizer que Obama não tomou medidas práticas. É injustiça e má-vontade.

Por mais que tenha criticado Israel no Cairo, o presidente o fez muito mais para agradar a seus interlocutores muçulmanos do que por convicções políticas, ideológicas ou pessoais. Ele mesmo acrescentou que a aliança com os israelenses é indissolúvel.

Obama sabe que tem uma missão – e ele gosta disso, pra ser bem sincero – e quer tomar a dianteira. No caso específico do fechamento de Guantánamo, no entanto, precisa da colaboração de mais países. Por mais que todo mundo seja favorável ao fim da prisão americana em Cuba, até o momento somente a Alemanha se comprometeu a receber os terroristas presos.

E isso vai de encontro às críticas direcionadas a Obama. Neste caso, por exemplo, ele quer tomar medidas práticas. São os outros que se recusam a agir.

As críticas a Obama que têm sido feitas pelos países árabes e muçulmanos são parte do processo de pressão exercido neste momento que o presidente americano deixa claro que o Oriente Médio é um foco importante de seu governo. Essa pressão vai continuar como uma espécie de barganha para conseguir que Washington ceda o máximo possível aos argumentos desses Estados durante o rascunho de uma solução que Obama pensa ser possível para o conflito entre Israel e os palestinos.

É uma estratégia que pode ser vitoriosa, caso a atual administração dos EUA deixe ainda mais claro que precisa de rapidez, boa vontade e parceria dos líderes da região.

Em tempo – combatendo a proliferação do lugar-comum, disponibilizo aqui um mapa que mostra a distribuição do petróleo extraído do Oriente Médio. Como se vê, não há produção em Israel ou nos territórios da Autoridade Palestina.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Obama faz discurso corajoso no Cairo

Não há como negar que o discurso de 55 minutos de Obama no Cairo tenha sido espetacular. Com tantas metáforas, conexões, alusões e poesia, bem poderia ter sido de autoria do Cara. Como se esperava, o presidente americano conseguiu criar um clima de otimismo capaz de constranger qualquer um que ambicione mais uma guerra na região.

Houve de tudo. Como um professor, Obama pontuou cada item e, assim, conseguiu agradar a todo mundo. Dentre os pontos mais aguardados, falou sobre as semelhanças entre judaísmo, cristianismo e islamismo; reafirmou os laços “indissolúveis” entre EUA e Israel; usou o termo Palestina para mencionar a solução de dois Estados para dois povos vivendo em paz lado a lado; e cutucou o atual governo israelense pela continuidade da construção dos assentamentos na Cisjordânia.

O resultado do pronunciamento pode ser considerado positivo. Com direito a aplausos da plateia e até gritinhos de “eu te amo”. Uma espécie de Rock in Rio da política externa.

Alguns dos principais atores internacionais já deixaram claro que gostaram do que ouviram. O porta-voz da Autoridade Palestina disse estar “animado e com boas expectativas” depois do pronunciamento do presidente americano; o chefe de política externa da União Europeia, Javier Solana, usou o adjetivo “extraordinário”; até o governo israelense disse partilhar da visão apresentada por Obama, dizendo esperar que o discurso seja o início de uma era de conciliação entre o país e o mundo árabe e islâmico.

O ponto fora da curva ficou por conta do Irã. Em meio às comemorações pelos 30 anos da Revolução Islâmica, o líder supremo iraniano, o Aiatolá Ali Khamenei, fez um comunicado público em que afirmou que os muçulmanos de todo o mundo “odeiam a América do fundo de seus corações.

O discurso de Obama serve para amenizar as feridas. De fato, é bem provável que um novo começo com os países muçulmanos seja mesmo possível.

Mas existem grandes pontos de divergência e acho pouco viável que os EUA abram mão de valores considerados fundamentais em nome de uma aliança com os países da região – para ser mais claro, o próprio discurso de hoje reiterou a posição americana de não negociar com o Hamas enquanto o grupo não aceitar a existência de Israel e tampouco deixar de se utilizar de métodos terroristas.

Como a cooperação de governos muçulmanos vai depender em boa parte dos passos tomados na prática pelos Estados Unidos, a situação é de esperança, mas com reservas. O que se pôde ver hoje foi o presidente americano ansioso por pôr a mão na massa. Ele disse que vai se envolver pessoalmente na busca pela resolução do dramático impasse entre Israel e os palestinos, mas sem maniqueísmos que simplifiquem a situação.

“O conflito árabe-israelense não deve mais ser usado como forma de distrair a população dos países árabes de seus próprios problemas”, disse.

É preciso coragem para mandar esta mensagem tão direta. Acho que o pronunciamento de hoje pode ser o começo de um caminho.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Otimismo de Obama contrasta com realidade do Oriente Médio

Pela primeira vez desde que assumiu a posição política mais importante do planeta, Barack Obama concedeu uma entrevista à BBC. É a primeira entrevista também a um veículo de comunicação do Reino Unido. Não significa muito, mas, segundo a própria megacorporação britânica, a empresa foi escolhida pela equipe de Obama porque seu objetivo é alcançar os rincões do mundo. E a BBC está em boa parte das parabólicas mesmo nos lugares mais isolados.

E esse foi um esquenta importante para a empreitada do líder americano. Conforme informado no texto de ontem, o aguardado discurso de quinta-feira, no Cairo, irá simbolizar uma aproximação ainda maior com o mundo islâmico. E por isso o próprio presidente dos EUA fez questão de enfatizar à empresa britânica dois dos mais importantes e sensíveis temas aos muçulmanos: a relação dos Estados Unidos com o Irã, e a posição norte-americana acerca de uma solução do conflito entre israelenses e palestinos.

Jogando pra galera, Obama disse que pretende conseguir progresso com os iranianos até o final do ano através de contatos diplomáticos firmes e diretos. Sobre o conflito entre Israel e os palestinos, a posição é a mesma de sempre: “é interesse dos Estados Unidos que existam dois Estados convivendo lado a lado em paz e segurança”, disse. É um discurso bonito, um tremendo lugar-comum, mas não uma solução definitiva (para ler o que escrevi sobre isso, clique aqui).

Enquanto é criado este clima de otimismo, os fatos “on the ground” – como gostam de dizer os analistas internacionais – mostram que as expectativas da região são opostas.

Desde domingo, Israel realiza o maior exercício civil de sua história. O objetivo é avaliar as reações de diversas áreas de segurança e da própria população para o caso de um ataque de grandes proporções ao país.

A mobilização nacional termina na quinta-feira – mesmo dia do discurso de Obama logo ali ao lado, no Egito –, quando equipes médicas, de resgate e segurança vão se deparar com cenários pessimistas diversos, incluindo simulações de explosões de armamento químico dentro de Israel. Precisa dizer mais alguma coisa? 

É uma pena, mas neste momento o otimismo no Oriente Médio está representado somente por boas intenções e discursos cinematográficos. E para por aí mesmo.


PS: ao contrário do que evidenciam os fatos, em encontro com seu parceiro de cargo na Rússia, o ministro das Relações Exteriores israelense, Avigdor Lieberman, disse à imprensa que Israel não tem intenções de atacar o Irã.

“Não queremos que um problema global seja resolvido por nossas mãos”, declarou.

Talvez ele esteja blefando. Talvez seja uma estratégia para despistar. O exercício civil envolvendo vários setores do país pode ser uma forma de mandar um recado para o Irã de que Israel está se preparando. Quem confunde sai na frente. O Irã confunde o mundo com a ambiguidade de declarações políticas e o sigilo em torno de seu programa nuclear. É possível que Israel tenha decidido fazer o mesmo. Todas as possibilidades estão abertas. 

terça-feira, 2 de junho de 2009

A guerra da mídia

Na próxima quinta-feira, o presidente americano, Barack Obama, estará no Cairo, capital do Egito, onde fará um dos mais aguardados pronunciamentos do ano. Segundo o analista Howard Fineman, da Newsweek, o objetivo de seu discurso é nada menos do que reconciliar Islã e modernidade. Mas, em meio a tanto otimismo, alguns dados chegam da guerra travada pelos EUA no Iraque.

É verdade que o ex-país de Saddam ficou meio esquecido nas últimas semanas. A luta entre talibãs e forças governamentais do Paquistão tem merecido maior destaque. Além, é claro, da escalada de ameaças e testes nucleares na Coreia do Norte.

Um fato ocorrido nesta segunda-feira me chamou a atenção. A divulgação dos recentes números sobre a violência no Iraque. É chocante e interessante notar como uma mesma notícia pode ser veiculada de várias maneiras. Tudo depende somente da empresa de comunicação responsável pela publicação e de suas filiações e simpatias ideológicas.

No caso, as duas empresas enxergam o mundo de maneira diferente, muito embora ambas sejam referências internacionais. Dando nome aos bois: The Wall Street Journal e BBC.

A matéria da BBC leva o título “mortes de americanos no Iraque aumentam em maio”.

“Em maio, 24 soldados dos EUA morreram, aumentando o número total de mortos americanos desde a invasão de 2003 para pouco mais de 4.300”, informa o texto. Este é o ponto principal da matéria.

No terceiro parágrafo, entretanto, o leitor fica sabendo que houve uma queda significativa na quantidade de baixas civis. Citando os ministérios do Interior e Saúde iraquianos, a BBC divulga a informação de que 124 civis morreram em maio. Em abril, foram 355.

Já o olhar do Wall Street Journal é repleto de um otimismo absolutamente oposto ao da BBC. A manchete é “mortes no Iraque diminuem” e o subtítulo é ainda mais explícito: “o mês de maio apresentou o menor número de mortes violentas desde 2003 (o ano da invasão ao país)”.

Logo em seguida, o texto cita as mesmas informações da matéria da BBC em relação ao número de civis mortos e a comparação com o mês de abril.

Com o Oriente Médio em evidência desde o 11 de Setembro e as ofensivas militares que se sucederam, informação é um bem valioso e que serve a interesses diversos. Neste caso específico, o maniqueísmo é claro: os dados podem ser interpretados de maneira favorável ou contrária à guerra contra o terror.

Por outro lado, as fontes estão aí pra quem quiser procurar. A guerra da mídia pode ser tão disputada quanto a real.