Os membros da Corte Internacional de Justiça (CIJ) estão reunidos em Haia, na Holanda, para discutir a legalidade da declaração de independência do Kosovo. Apesar de grande oposição da Sérvia, os kosovares anunciaram unilateralmente a independência nacional em 17 de fevereiro de 2008. Até o dia de hoje, 69 países reconheceram legalmente o novo país. Não é o caso do Brasil e da maior parte dos Estados latino-americanos, por exemplo. Mas a maioria dos europeus reconhece a soberania kosovar. Tratarei mais sobre o assunto no texto desta quinta-feira.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Paquistão e Índia ameaçam entrar em nova disputa e atrapalham planos regionais dos EUA
A intenção americana é tentar diminuir ao máximo a área de atuação de talibãs e outros radicais no Afeganistão. Por isso, muito além de se dedicar a reconstruir o país, os EUA pretendem evitar que os Estados vizinhos possam servir de abrigo e posto de abastecimento para os muitos grupos fundamentalistas que combatem a coalizão ocidental. Não é segredo o quanto são porosas as fronteiras do Paquistão. Mesmo o governo de Islamabad admite as grandes dificuldades que enfrentar para vigiar seu território. E essa fragilidade tem sido fundamental para a tomada de decisões de Obama na região.É aí que reside um grande risco. Há grandes problemas políticos e diplomáticos a serem resolvidos. Washington não pode simplesmente ordenar que sua força militar se desloque para o lado paquistanês da fronteira de forma a conter talibãs. Tampouco consegue justificar militarmente para o público político interno americano que os soldados fiquem de braços cruzados enquanto assistem aos radicais se armarem e receberem fundos e treinamento no Paquistão. Por isso, a secretária de Estado Hillary Clinton está na região. A estratégia americana é comer pelas beiradas.
O ponto principal é simples. Ou melhor, não é simples no sentido de que seja fácil, mas bem direto quanto a seu objetivo: impedir que o Paquistão se distraia em disputas infrutíferas com a velha rival Índia. Não cabe neste momento fazer um histórico dos grandes embates entre os dois poderosos e nucleares vizinhos, mas é importante mencionar duas informações: o processo de paz entre Nova Déli e Islamabad está parado desde que militantes paquistaneses mataram 163 pessoas em Mumbai, na Índia, em novembro de 2008; os dois países se encontram, atualmente, envolvidos numa divergência em torno de recursos naturais. Mais precisamente, lutam pelas águas glaciares da Caxemira.
Como ambas as economias são sedentas por energia, o recurso é visto como fonte de abastecimento importante. Trabalhadores indianos já se dedicam à construção de uma hidrelétrica na região historicamente disputada. E então vem a grande mão americana para afagar a ansiedade paquistanesa. Clinton anunciou, na última segunda-feira, uma ajuda financeira ainda mais generosa para o Paquistao: o despejo de 7,5 bilhões de dólares na economia do país, a construção de represas e a melhoria nas instalações hidrelétricas e no sistema energético.
Hoje, os Estados Unidos decidiram pagar para que o Paquistão colabore no esforço de guerra em curso no Afeganistão. Se não puder ajudar com medidas práticas, que ao menos não arrume mais problemas com a vizinha Índia - país também aliado de Washington.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Até 2014, afegãos serão os responsáveis pela segurança do Afeganistão
Em Conferência realizada em Cabul, no Afeganistão, foram anunciadas decisões importantes sobre a retirada das tropas internacionais: até 2014, as forças de segurança afegãs serão as responsáveis pela condução de todas as operações de segurança. A grande questão, já debatida por aqui em outras ocasiões, é entender as mudanças de ambições sobre o Afeganistão ocorridas desde o início da guerra, em outubro de 2001.Naquela época, o governo de George W. Bush acenava com objetivos pragmáticos: derrubar a cúpula Talibã que permitiu à al-Qaeda se instalar no país. Isso foi feito. O problema é que os membros da rede terrorista que sobreviveram fugiram para o Paquistão ou se organizaram para resistir à ocupação. Ficou claro que as alianças construídas na região eram mais complexas. Livrar-se da ideia criada pela al-Qaeda e de seus milhares de seguidores voluntários seria muito mais difícil do que se imaginava. Havia conexões não apenas entre bandos de camponeses radicais armados, mas espalhadas até mesmo na alta cúpula das forças de segurança do aliado Paquistão.
O escopo de atuação da Otan, amplamente liderada pelos EUA, aumentou. Vale deixar claro que, entre o simples objetivo de derrubar o Talibã, caçar os seguidores de bin Laden e o despejo de bilhões de dólares para inventar um Estado afegão viável há um grande intervalo de tempo e vidas humanas perdidas. Não creio que ninguém premeditou invadir o Afeganistão pelo simples prazer de exercitar a capacidade de reconstruir um país praticamente do zero. Os passos foram tomados um após o outro, como uma sucessão de decisões encadeadas que, nove anos depois, resultaram na grande conferência burocrática de hoje.
Como contraponto, é importante citar o Iraque. Derrubar Saddam Hussein e estabelecer em seu lugar um regime político e democrático era o objetivo americano desde a invasão do país, em 2003. A ideia, que me parece ao mesmo tempo ambiciosa e ingênua, era transformar o modelo iraquiano em inspiração para seus vizinhos no Oriente Médio. A democracia e o novo regime seriam tão bem sucedidos que influenciariam as massas da região a promover a derrubada dos ditadores e grupos dominantes locais. Não foi isso o que aconteceu e não me parece que algo parecido possa ocorrer num futuro próximo.
O Afeganistão se tornou outra fonte incessante de gastos porque é preciso, antes de qualquer coisa, fazer política. Obama escolheu este como um de seus mais importantes focos internacionais. Portanto, é preciso resolvê-lo. E bem. É importante dizer também que, quando o atual presidente assumiu a chefia do governo americano, o Afeganistão já era um problema estabelecido. Ele não tinha como justificar a retirada unilateral e jogar os esforços e prejuízos da guerra que já durava quase oito anos pelo ralo.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
A guerra indireta entre Irã e EUA
A disputa entre Irã e EUA tem adquirido contorno parecido aos confrontos indiretos entre EUA e URSS durante a Guerra Fria. Nenhum dos dois países pretende entrar numa guerra aberta. Todos têm muito mais a perder do que a ganhar. Fica claro, no entanto, que ambos os governos consideram-se mutuamente suas próprias antíteses. E buscam influenciar, negligenciar, desqualificar o outro. As acusações por parte de Teerã de que Washington estaria por trás dos atentados ocorridos no Irã na última quinta-feira são apenas o exemplo recente desta prática. O grupo sunita Jundallah, que assumiu a autoria dos ataques responsáveis pela morte de 28 pessoas (na região mostrada no mapa), pode até contar mesmo com apoio americano. Não creio, no entanto, que o presidente Obama soubesse dos condenáveis planos dos atentados que atingiram civis inocentes. Não apenas por questões éticas, mas porque a Casa Branca não se arriscaria somente em nome do objetivo de desestabilizar o Irã.
Acredito que o Jundallah - do qual já tratei em textos anteriores. Leia aqui - tenha apoio logístico americano. Porque se trata de um grupo sunita e é esta a grande guerra em curso na região. Como se sabe, os EUA apoiam o eixo sunita. O Irã é sustentado por estados xiitas e sunitas que enxergam nos objetivos de Teerã a oportunidade de mudança dos paradigmas de poder e hegemonia no Oriente Médio.
Vale lembrar que o regime de Ahmadinejad ainda se depara com problemas internos. E eles podem representar os maiores entraves a suas ambições internacionais. Os atentados da semana passada são um exemplo. Mas há outros, muito embora mereçam pouca divulgação - por conta até das restrições ao fluxo de informação impostas pelo governo. Alguns dos acontecimentos recentes: o incêndio de uma refinaria na cidade de Abadan, no sul do país; o assassinato de um importante membro do regime, em Damasco, na Síria; explosões em partes da prisão de Evin, em Teerã, onde se encontra boa parte dos presos políticos.
Ou seja, apesar do aparente clima de normalidade, há muita agitação conduzida pelos opositores de Mahmoud Ahmadinejad. Acredito que, por conta disso, Ahmadreza Radan, oficial de alta patente da polícia iraniana, defenda o direito de seu país de procurar rebeldes e membros do Jundallah no Paquistão. Não apenas é uma forma de encontrar um problema externo - uma velha fórmula usada para unir o país em torno do governo -, mas também busca atingir a política regional americana. Afinal, o Estado paquistanês é um importante aliado de Washington na região: recebe, anualmente, 1,5 bilhão de dólares do governo dos EUA.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Direitos humanos pioram na Síria
Relatório divulgado nesta sexta-feira pela organização de direitos humanos Human Rights Watch afirma que a situação na Síria piorou nos últimos anos. O jovem Bashar al-Assad, subtituto de seu pai, Hafez, no poder, não conseguiu pôr em prática os planos de abertura do país. Na verdade, o atual presidente sírio teve de fazer uma escolha pessoal: dava mais abertura e corria o risco de sofrer um golpe ou mantinha a política de repressão aos dissidentes e permanecia no cargo.Já se sabe o que aconteceu. O relatório dá mais detalhes sobre as contradições de Assad, o filho, desde sua posse, há dez anos. Após o discurso que marcou o início de seu governo, a oposição saiu do esconderijo incentivada pelo próprio presidente eleito. A sociedade civil novamente passou a se reunir em grupos abertamente. Parecia que os ventos de mudança haviam atingido o país.
Mas, transcorrido menos de um ano de mandato, a situação sofreu um revés importante: opositores voltaram a ser perseguidos e foram parar na cadeia por exigir mais liberdade; a imprensa independente foi colocada na ilegalidade. Como lembra Nadim Houry, pesquisador da Human Rights Watch dedicado a analisar Síria e Líbano, os dois únicos jornais privados autorizados a cobrir política no país pertencem a empresários ligados ao governo de Assad.
A Síria é hoje um país aberto ao investimento estrangeiro. De fato, passou a ser um destino turístico bastante procurado pelos europeus. Essa foi a principal marca da administração atual.
Pode até ser que Bashar al-Assad pretendesse modificar de verdade a Síria. Mas por lá, como em boa parte dos países vizinhos, existe grande resistência das tradicionais oligarquias políticas e de poder internas. E isso explica os motivos que levaram o presidente a retroceder. Mais do que isso, as distintas ramificações religiosas existentes no país acabaram por se transformar em impedimentos para a implantação de uma nova realidade.
O clã Assad é parte da minoria alauíta. Vistos por parte dos muçulmanos como hereges, os alauítas correspondem a apenas 12% da população síria - cuja maioria, 74%, professa o islamismo sunita. O partido presidencial, o também alauíta Baath, ameaçou abandonar Bashar al-Assad. Caso desse continuidade às reformas, ele seria deposto e substituído por oficiais do exército do país. Se isso não justifica a esquizofrenia em que hoje se encontra a Síria, pelo menos explica boa parte do regime linha dura que se reproduz no poder.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
O caso do cientista iraniano desaparecido
O desaparecimento e o retorno a Teerã do cientista iraniano Shahram Amiri (foto) se tornou mais um caso misterioso do cenário internacional. Curiosamente, uma semana após o desfecho da troca de espiões entre EUA e Rússia. Tratam-se de casos parecidos, mas não iguais. Ao que parece, não haveria um plano de concretizar um acordo - mesmo que sigiloso - entre a Casa Branca e o governo de Mahmoud Ahmadinejad. Muito embora houvesse suficiente material humano para eventual projeto do tipo. Haveria possibilidade de o sumiço de Amiri estar relacionar, de alguma maneira, aos três jovens americanos mantidos prisioneiros no Irã desde 2009. Não parece ser este o ponto. Pelo menos não após a publicação de reportagem na edição de hoje do Washington Post. Segundo a matéria, o cientista teria recebido 5 milhões de dólares da CIA para revelar segredos sobre o programa nuclear iraniano.
E isso faria algum sentido. Ainda mais quando levamos em consideração que ele desapareceu durante peregrinação religiosa na Arábia Saudita, há 14 meses. É importante mencionar a grande parceria mantida entre sauditas e americanos - bastante polêmica, por sinal. De forma a não levantar suspeitas para o sempre vigilante regime iraniano, nenhum plano me parece mais coerente do que deixar o Oriente Médio rumo aos EUA a partir do país que abriga as cidades de Meca e Medina, as duas cidades mais importantes para o islamismo.
O cientista teria entrado em território americano através de um programa clandestino conduzido pela própria CIA. A agência de inteligência pode levar para o país até 100 pessoas sem que elas necessitem passar pelos procedimentos legais de imigração. Resta uma pergunta importante sobre isso tudo: com 5 milhões de dólares na conta e o futuro garantido, por que Amiri teria decidido retornar para o Irã?
Porque a família do cientista continuava em solo iraniano. Quando as autoridades da república islâmica se deram conta de seu desaparecimento, bastou encontrar o filho de Amiri para reverter a situação. E agora é só juntar os pontos. Receoso quanto ao futuro dos que ficaram para trás, ele não viu alternativa a não ser inventar toda a história de sequestro. Foi um gesto de desespero para salvar seus familiares.
O problema é que seus momentos de glória como herói nacional no Irã devem ser bastante breves. Como possivelmente as autoridades do país já devem estar cientes de sua colaboração com os EUA, o destino do cientista, na melhor das hipóteses, deve ficar relegado ao ostracismo. Isso se as consequências não forem ainda piores.
Diante das opções que tinha diante de si, não se pode nem condenar as decisões que tomou. Seus dias de desespero ao aceitar o acordo com os americanos muito provavelmente variavam entre duras escolhas: a riqueza solitária e culpada no ocidente com a real possibilidade de nunca mais poder ver a família; ou retornar ao Irã, perder todos os ganhos financeiros obtidos, mas tentar proteger o filho de alguma maneira.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Terrorismo na África: algumas lembranças importantes
Se hoje a Somália é um espaço anárquico - sem nenhum romantismo no termo -, o caos atual se deve às frequentes intervenções externas. Por conta delas, o país é um apanhado de distintos grupos em luta interna e, como se pode ver pelos últimos acontecimentos, cada vez mais dispostos a internacionalizar bandeiras. O governo de Uganda anunciou ter frustrado um quarto atentado. O colete-bomba foi encontrado numa casa noturna da capital Kampala. Mas o al-Shabab conseguiu o que queria: instalou a sensação de insegurança absoluta entre os ugandenses.Quanto ao estado de lamúria em que se encontra a Somália, ponto de origem do grupo terrorista, vale lembrar alguns fatos importantes: antes do fim da União Sovética, em 1991, o país também era alvo de disputa na Guerra Fria. O ditador Mohamed Siad Barre, que governava a Somália, foi derrubado por milícias de oposição. Como a situação não encontrou ajuste imediato, os conflitos que sucederam o fim do regime causaram a morte de 20 mil pessoas. E aí foi a vez de a ONU agir.
A ajuda humanitária enviada também se tornou foco de violência. Os grupos armados se apropriavam dos alimentos e os usavam como moeda de troca para obter mais armamento. Foi então que uma intervenção liderada pelos Estados Unidos tentou controlar a situação. Incrivelmente, as forças americanas se retiraram após encontrar grande resistência por parte do bando de Siad Barre, o ditador deposto. O episódio, inclusive, foi retratado no filme Falcão Negro em Perigo (cuja imagem do cartaz está reproduzida ao lado do primeiro parágrafo), do diretor Ridley Scott.
Já no início dos anos 2000, o ex-presidente americano George W. Bush investiu pesado para apoiar financeiramente grupos supostamente dispostos a combater a atuação da al-Qaeda no país. Os militantes receberam o dinheiro com muito gosto, mas passaram a lutar entre si pelo poder. Simplesmente, ignoraram os motivos que levaram à equivocada decisão de Washington de armá-los.
Não acredito realmente que a Casa Branca irá incorrer nesses mesmos erros. Os EUA já têm conflitos internacionais demais para administrar. Penso, no entanto, que Obama irá manter a atual política para a região. O presidente americano conta com a ajuda de importantes aliados que já ocupam a Somália, casos de Uganda e Etiópia. Não por acaso, como mencionei no texto de ontem, um restaurante etíope da capital ugandense foi o principal alvo dos ataques terroristas.
O episódio é injustificável. Mas sua realização não tem nada a ver com nenhuma das explicações apresentadas até agora. Não se tratou de um gesto de repúdio ao modo de vida ocidental, nem tampouco de uma luta em defesa do islã - como mencionou um dos líderes do al-Shabab.
Assinar:
Postagens (Atom)
