quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Imprensa internacional e a cobertura sobre a violência no Rio: o Brasil ainda está no lucro

Era só uma questão de tempo até que a onda de violência no Rio merecesse a devida atenção internacional. Como este período em que vivemos é marcado pela instantaneidade, a preferência dos veículos estrangeiros pelo Brasil era só uma questão de escolha mesmo. Esta escolha foi feita na medida em que a crise entre as Coreias parece ter sido reduzida a um episódio pontual.

Assim, o Brasil retorna às manchetes de uma maneira muito familiar. No final dos anos 1980, o país disputava cabeça a cabeça com a Colômbia o imaginário de violência latino-americana. Depois da estabilização econômica e, finalmente, dos últimos oito anos de crescimento, participação em fóruns e protagonismo até diplomático, subimos alguns muitos degraus. Não acredito que esta crise momentânea irá conseguir deslegitimar todas as boas credenciais adquiridas recentemente.

Sem a menor dúvida, no entanto, é um presente de grego para o final de mandato de Lula, presidente empenhado em tornar o Brasil ator relevante. O projeto do Itamaraty é bem sucedido, não se pode negar. Aliás, talvez por isso, até agora as reportagens de veículos do exterior não tem partido para a condenação das ações policiais. Muito pelo contrário.

"O estabelecimento das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) há dois anos testemunhou a primeira tentativa de quebrar o ciclo, introduzir as leis nas favelas e conquistar corações e mentes da próxima geração".

Ao contrário do que possa parecer, este não é um trecho de qualquer comunicado oficial do governo estadual do Rio de Janeiro, mas parte da reportagem do britânico Telegraph que pretende explicar os acontecimentos desta semana.

Como não poderia deixar de ser, há também uma comparação entre a situação de Colômbia e Brasil para justificar as medidas tomadas pelo governador Sérgio Cabral.

A maior parte das reportagens tem seguido este rumo. De certa forma, as políticas de relações públicas brasileiras podem ser consideradas efetivas porque, ao contrário do que ocorre na maioria de situações conflituosas, os grandes jornais não estão – pelo menos até este momento – questionando qualquer medida oficial. Quem acompanha os acontecimentos internacionais sabe que situações deste tipo costumam causar controvérsia.

No caso do Rio, alguns fatores talvez expliquem o momentâneo vácuo de críticas: a falta de familiaridade da imprensa e do público internacionais com a situação; e a dificuldade de acesso aos traficantes que combatem a polícia. Os grupos armados que atuam nas favelas estão a anos-luz de distância dos paralelos radicais que combatem em outras partes do planeta e que investem pesado na construção de discursos para validar suas posições.

Isso porque há grande diferença entre esses grupos. Se no Oriente Médio, por exemplo, há grande escopo ideológico por trás das ações armadas, por aqui o único interesse é manter o tráfico. Por mais que originalmente parte dos grupos armados cariocas tenha tentado se vincular a movimentos ideológicos, a prática atual deixou claro que, assim como determina a economia ocidental, o mercado é o único ente a ser venerado. Não há espaço ou interesse de misturar qualquer discurso a ele. 

Não é possível dizer se a suavidade quanto ao olhar interpretativo sobre as ações brasileiras neste caso será mantida. Tudo vai depender de como a polícia e o governo – e Brasília deverá ter um papel ainda mais ativo – agirem nos próximos dias. Enquanto isso, é bom que se saiba que os estragos internacionais foram mínimos.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Coreia do Norte: autoestima de Kim Jong-il é esquizofrenia nacional

As incongruências entre as expectativas norte-coreanas e as concessões internacionais podem acirrar os conflitos iniciados ontem. Perceber que Pyongyang pretende se estabelecer como potência atômica planetária reforça o que já escrevi. Para analisar os passos do regime de Kim Jong-il é preciso ter em mente mais uma característica humana transportada às ações governamentais: a autoestima está alta demais.

Na foto: manifestante sul-coreano em Seul queima bandeira da Coreia do Norte

Isso poderia não ser ruim necessariamente. O problema é quando ela passa a denunciar uma boa dose de loucura. Loucura do grande líder transformada em insanidade institucional. Como menciona o texto de ontem, o Ocidente enfrenta grandes dificuldades para entender a Coreia do Norte porque todas as explicações levam em consideração certo bom-senso.

Agora, depois do primeiro impacto causado pelos bombardeios, já é possível estabelecer novos paradigmas de análise. Um dos mais interessantes é o seguinte:

"O que eles (os norte-coreanos) desejam há ano é reconhecimento diplomático de seu país pelos EUA. Eles estão frustrados porque entraram nas negociações de seis partes, fizeram testes nucleares e todo o tipo de ameaças, mas ainda não conseguiram levar os americanos à normalizar relações", diz à CNN Wenran Jiang, cientista político da Universidade de Alberta, no Canadá.

Ora, a premissa apresentada mostra total falta de conhecimento do modo de operação de Washington. Algum Estado que minimamente acompanhe a política externa americana desde o início do século 20 saberá que os EUA não costumam aceitar chantagens em troca de relações diplomáticas. Há três administrações presidenciais americanas – a partir de Bill Clinton, em 1994 – existe um consenso de que é preciso interromper o programa nuclear norte-coreano. Houve muitos erros de análise por parte dos EUA, mas em nenhum momento qualquer presidente do país ou autoridade mostrou a mínima disposição de conviver com a possibilidade de uma Coreia do Norte com capacidade atômica.

Em artigo publicado no Wall Street Journal, Michael J. Green e William Tobey, dois ex-oficiais de segurança dos EUA, informam que fontes da Coreia do Norte dizem que o interesse de seu governo é negociar com os americanos um acordo de controle de armamentos. Isso é tão improvável de acontecer que soa ridículo. Se os EUA enfrentam dificuldades para ratificar internamente um tratado de redução de arsenal nuclear com a Rússia (Start, na sigla em inglês), imagina como os congressistas reagiriam a uma proposta deste tipo para fazer algo semelhante com os coreanos? Não faz qualquer sentido.

Washington está em conversações com Moscou porque no século 20 houve algum paralelo entre a capacidade militar dos EUA e da ex-URSS. Definitivamente, o mesmo raciocínio não pode ser aplicado à Coreia do Norte.

Se Pyongyang deposita na aceitação americana de sua autoestima como forma de dar fim a esta nova série de provocações, é melhor que a Coreia do Sul se prepare para novos ataques. Aliás, os EUA já despacharam para a região o porta-aviões George Washington acompanhado de navios militares para conduzir exercícios com os aliados de Seul. Esta primeira resposta oficial deixa claro que as expectativas estão em patamares muito distintos.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Coreia do Norte manifesta ambiguidade. Mais uma vez

O ataque de hoje promovido pela Coreia do Norte à ilha de Yeonpyeong, no lado sul da disputada fronteira marítima entre as duas Coreias, pode ser interpretado de muitas maneiras. Não há dúvidas de que a escalada de violência na região deixa o mundo todo em alerta. Mas a globalização aponta algumas semelhanças entre países suspeitos de prosseguir com programas nucleares cujos fins seriam militares: quanto mais inconsequente – ou quanto mais parecer inconsequente –, melhor.

Esta é uma forma de manter em permanente estado de alerta aqueles que tentam negociar com potências atômicas. A característica humana da insanidade é propositalmente transportada para governos – por mais estranho que isso possa parecer. Desta maneira, o Irã tem conseguido, bem ou mal, se equilibrar. Desta maneira também está agindo a Coreia do Norte.

Desde o estabelecimento das negociações de seis partes (como são chamadas as seguidas rodadas de conversas entre Pyongyang e potências internacionais), em agosto de 2003, o regime de Kim Jong-il deu muitos passos adiante e outros tantos em sentido contrário.

E assim, sempre aceitando enormes quantias de dinheiro quando promete interromper seu programa nuclear, a situação segue exatamente no mesmo ponto. Aliás, há duas semanas o Ocidente teve uma bela resposta: a Coreia do Norte convidou Siegfried Hecker, ex-diretor dos laboratórios Los Alamos, nos EUA, para conhecer as instalações nucleares do país. Foram três horas e meia de visita às centrífugas de enriquecimento de urânio. No auge do senso de humor, o governo jura que pretende apenas produzir eletricidade.

O ataque de hoje é permeado de explicações muito plausíveis por sinal: seria uma reação norte-coreana aos exercícios militares conduzidos pela Coreia do Sul realizados próximos à chamada Linha de Limite ao Norte, fronteira marítima entre os dois países reconhecida pela ONU, mas que não conta com a aprovação da Coreia do Norte; ou marca o início do processo de sucessão de Kim Jong-il – segundo o pesquisador sul-coreano ouvido pela revista Time Cheong Seong-Chang, Kim Jong Un, o filho do ditador, estaria sob influência de um grupo de generais ainda mais linha-dura.

Acredito mesmo que tais motivos tenham contribuído para os ataques de hoje. Mas acho também que a demonstração de força segue a linha de reforçar ainda mais o perfil inconsequente construído pelo regime mais fechado do planeta. As interpretações sobre os acontecimentos são sempre lógicas demais, muito embora a Coreia do Norte dê repetidas mostras de ambiguidade internacional. Por exemplo, o bombardeio acontece no dia seguinte ao envio de delegados do país à Coreia do Sul para discutir, com o auxílio da Cruz Vermelha, o envio de ajuda a Pyongyang.

A explicação menos politicamente correta e mais compatível com o contexto vem de Praveen Swami, editor de Diplomacia do britânico Daily Telegraph.

"Ao atacar uma ilha sem qualquer valor estratégico, o regime disfuncional – mas eminentemente racional – da Coreia do Norte pretende mostrar ao mundo quanta dor pode causar se não for subornado para se comportar. Ambos os lados querem riqueza, não guerra – e o armamento nuclear é o meio norte-coreano de obter isso", escreve.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O envolvimento do Hezbollah no assassinato de Rafik Hariri e o futuro do Oriente Médio

A Canadian Broadcasting Corporation (CBC) investigou e deu o furo mundial do dia – e, quem sabe, do ano. Segundo o grupo de comunicação canadense, o Tribunal Especial do Líbano estabelecido pela ONU chegou à conclusão de que o Hezbollah esteve diretamente envolvido no assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri (foto). Mais tarde, o atentado à bomba que matou o líder nacionalista libanês culminaria na Revolução de Cedro, movimento popular que conseguiu encerrar a ocupação síria.

A reportagem da CBC mostra que gravações telefônicas apontam contatos frequentes entre oficiais do Hezbollah e os proprietários dos telefones celulares usados na detonação dos explosivos que mataram Hariri. Leia a matéria completa aqui.

Já escrevi em outubro passado sobre a comissão que investigava o caso (leia aqui). As consequências das descobertas podem ser gravíssimas. A posição oficial do Hezbollah – e não poderia ser outra, claro – era de que Israel teria participado do ataque. Os israelenses sempre negaram as acusações.

A divulgação das informações colhidas pela CBC deve mudar profundamente o rumo do Oriente Médio. Como se sabe, a milícia xiita libanesa recebe ajuda financeira e militar iraniana. Acuada, deve reagir muito mal. Isso significa que pode seguir dois caminhos: ou manter o empenho em deslegitimar o tribunal da ONU – o que deve ficar mais difícil agora – ou tentar até mesmo promover um golpe de Estado. Esta não é uma possibilidade remota. Nunca é demais lembrar que as forças do Hezbollah possuem mais armas e são mais preparadas que o exército regular libanês.

Além disso, é muito provável que, se optar por esta decisão, a milícia conte com ainda mais apoio dos aliados Irã e Síria. Não é difícil imaginar que os dois países ratifiquem apoio ao grupo em nome de uma suposta defesa dos interesses nacionais libaneses em confronto com Israel e EUA. Este discurso mobiliza parte considerável da opinião pública interna, além de muitos setores em todo o Oriente Médio.

Tampouco é improvável imaginar que o Hezbollah volte a adotar estratégias militares do passado recente. Acredito que, se de fato a ONU bancar as conclusões reveladas pela CBC e decidir indiciar membros do Hezbollah até o final deste ano, a milícia xiita opte por voltar a lançar mísseis sobre o norte de Israel. Como o líder Hassan Nasrallah declarou muitas vezes, o grupo teria se rearmado desde a guerra contra os israelenses de 2006 e hoje estaria em situação ainda melhor do que naquele período.

Envolver Israel num novo confronto militar atende a alguns interesses importantes: une internamente o país e mobiliza seus aliados regionais. Por outro lado, há uma grande parcela da população libanesa que não está mais disposta a pagar por tal decisão. Será preciso encontrar um modo de atacar Israel sem deixar evidente que se trata de uma retaliação às evidências apresentadas pelo tribunal das Nações Unidas. E será muito difícil levar este projeto adiante.

Travar uma nova guerra com Israel pode também precipitar um ataque israelense às instalações nucleares iranianas. Se isso acontecer, Jerusalém poderá contar com o apoio de Washington – o que não interessaria ao Irã neste momento. Por tudo isso, acho que este é o pior momento da história do Hezbollah.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Como a epidemia de cólera no Haiti pode afetar as posições internacionais brasileiras

Revoltas populares, barricadas, queima de pneus e represálias policiais não são incomuns. Curioso é quando o alvo da ira é a ONU. No caso, os soldados da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) chefiada pelo Brasil. Talvez este seja o primeiro grande desafio internacional de Dilma Rousseff. Na verdade, como já escrevi tantas outras vezes, era apenas uma questão de tempo para que o Brasil deixasse de ocupar o posto de "queridinho" mundial. Este é o preço natural que se paga quando se assume um papel mais arrojado na política externa. Na prática, é muito simples: lutar por espaço certamente incomoda muita gente - ou, no caso, os muitos países concorrentes que se acotovelam na briga por protagonismo neste novo mundo em formação.

 
Vai ser no mínimo curioso entender como Brasília reagirá a partir desta mudança de cenário. O governo brasileiro, pela primeira vez desde a Guerra do Paraguai (1864-1870), pode estar mudando de lado na bancada. Não necessariamente os conflitos no Haiti vão se encaminhar desta forma, mas é uma possibilidade. Se o clima hostil entre a Minustah e a população piorar ainda mais, poderemos testemunhar mortes de civis e, por consequência, o comando militar brasileiro local - em coordenação com o Itamaraty - tendo de explicar suas ações.

 
No entanto, é bom deixar claro que o Brasil não é o causador desta revolta popular. A epidemia de cólera que já registra mais de 18 mil doentes e mais de mil mortos é a origem dos distúrbios. A população acredita que soldados nepaleses que compõem a Minustah são os responsáveis por levar a doença ao país. Ainda não há uma posição final quanto a isso, mas já se sabe que o vírus presente ao Haiti é o mesmo em circulação no sul da Ásia e que chegou ao país através de uma única fonte ou evento.

De qualquer maneira, a epidemia é a gota d'água numa sociedade atingida pela fome, miséria e falta de acesso a recursos básicos de higiene. Se antes do terremoto devastador de janeiro somente 17% dos haitianos usufruíam de saneamento, hoje a situação é muito pior. E não é por falta de dinheiro, mas pelo caminho tortuoso que a ajuda financeira segue. Há hoje no país 10 mil Organizações Não-Governamentais (ONGs). Segundo Allyn Gaestel, jornalista do Atlantic baseado em Porto Príncipe, menos de 38% dos recursos captados após a tragédia do início deste ano foram aplicados na construção de infraestrutra.

E aí cabe dizer que há um erro fundamental na alocação do dinheiro: o Estado haitiano ficou em segundo plano. O principal destino do montante é este amontoado de ONGs instaladas no país. O processo é descentralizado, gerando ainda mais dificuldades de regulamentação, fiscalização e aplicação prática dos recursos. Fora que, agora, o Haiti pode estar pagando um valor altíssimo pelas estratégias da política externa americana recentes.

"Em 2000, um empréstimo de 54 milhões de dólares do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) deveria ter sido repassado ao governo haitiano como forma de reabilitar seus sistemas de saneamento urbanos e rurais. Mas os EUA queriam desestabilizar o governo democraticamente eleito de (Jean-Bertrand) Aristide. Fontes sugerem que o governo americano teria pedido ao BID que bloqueasse o envio deste dinheiro, assim como outras remessas totalizando 146 milhões de dólares que seriam investidos em educação, saúde e infraestrutura santiária (...)", escreve Isabeau Doucet, correspondente do Guardian no Haiti.

Esta é uma denúncia gravíssima que precisa ainda ser provada. Mas é pouco provável que tal investigação ocorra agora, até porque colocaria Washington em posição muito delicada. O fato é que esta bomba-relógio de graves consequências humanitárias está no colo do Brasil, de certa forma. E talvez configure o primeiro grande desafio internacional de Dilma. Dependendo de como a situação irá transcorrer, o Haiti pode ter um papel determinante na história política brasileira, marcando o momento em que o Brasil passaria de pedra a vidraça.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Crise na Irlanda: todo mundo é culpado, mas caberá somente ao povo o ônus da austeridade

A confusão econômica europeia atinge em cheio a Irlanda. A discussão sobre se vale ou não a pena aceitar o pacote monetário de resgate oferecido pela União Europeia gira em torno também das variáveis políticas. Os irlandeses se sentem especialmente incomodados com a possibilidade de a Grã-Bretanha ser uma das principais agentes de salvação. É interessante que o debate de ideias tenha seguido por este caminho.

Ao que parece, Dublin deve ceder às fortes pressões. Segundo o dirigente do Banco Central Irlandês, Patrcik Honohan, o país vai receber um empréstimo bastante substancial, muito embora o governo da Irlanda negue mesmo ter pedido a ajuda.

No centro deste imbróglio está o Fianna Fáil, partido no comando do país desde a criação do Estado nacional irlandês. Não seria espantoso se a crise econômica levasse junto o movimento. Ou ao menos revigorasse a oposição, o que seria bastante natural. O que tem dificultado, inclusive, a possibilidade de a Irlanda aceitar o pacote de resgate é justamente a posição adotada pelo Fianna Fáil de que a soberania do país está em jogo.

Este discurso não é completamente inválido, na medida em que todo mundo conhece as pesadas contrapartidas exigidas pelo FMI - um dos protagonistas da injeção monetária - em troca da suposta "salvação" econômica. Talvez o partido político irlandês não esteja comunicando corretamente sua posição. Ou esta seja uma estratégia proposital de forma a evitar alarmismos. De qualquer maneira, a diretriz oficial está longe de ser unanimidade.

"Em certo ponto, a intervenção de UE e FMI não é necessariamente ruim. Signfica que as decisões de como podemos viver de acordo com as nossas condições serão forçadas goela abaixo dos interesses competitivos que bloquearam qualquer resposta nacional genuína à crise", defende editorial do Irish Times.

Enquanto as conversas teóricas mantêm passo firme, a situação econômica do país é cada vez mais catastrófica. O déficit já alcançou a incrível marca de 32% do PIB. Se parece não haver mais tempo para decidir, é preciso que o governo seja muito cuidadoso com o caminho que irá escolher. Acho que isso explica a aparente inércia de Dublin diante do caos iminente. Se for isso, seus dirigentes apresentam comportamento ético único em todo mundo. Não se poder atribuir o ônus à população.

Esta guerra verbal capitaneada pela Alemanha se enquadra bem neste dilema. Como escrevi ontem, Berlim tem usado seu status econômico como prerrogativa para desancar os demais países. Isso é contraditório hoje, na medida em que, de certa maneira, se não fosse a "irresponsabilidade consumista" dos tempos de vacas gordas em boa parte do Estados europeus hoje na penúria, as empresas alemãs - e por consequência o país inteiro - não estariam entre as mais "saudáveis" e lucrativas do continente. Por isso tendo a concordar com a posição de Alan Posener, comentarista da Die Welt e um dos mais influentes blogueiros alemães.

"São os gregos e irlandeses que não podem encontrar uma saída (...) e estão encarando anos de austeridade para compensar as extravagâncias do passado. Um passado em que você não escutava Mercedes, Siemens e companhia reclamarem que essas pessoas compravam um monte de coisas com as quais não poderiam arcar; um passado em que bancos, que supostamente deveriam monitorar o mercado e avisar sobre eventuais crises, permaneceram estranhamente silenciosos", escreve.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A crise econômica europeia, o fracasso do G-20 e o fim do modelo de bem-estar social

A reunião do G-20 não serviu para resolver a crise mundial. Aliás, o encontro não conseguiu sequer chegar perto disso. As discussões realmente importantes ficaram de fora das decisões finais da cúpula. Nem a China foi pressionada o bastante a ponto de ser "comovida" a flexibilizar o yuan, nem os EUA foram minimamente convencidos a interromper o fluxo de dólares que tem levado a moeda americana a se desvalorizar, prejudicando as exportações alheias – inclusive do Brasil.

Por conta desta omissão, os países têm agido isoladamente. Sem qualquer dúvida, é a Europa que atravessa o pior momento. Os líderes da zona do euro têm deixado de lado qualquer traço de unidade comunitária. Todos se atacam mutuamente.

A Alemanha, como maior economia regional, está na posição de cobrar austeridade dos vizinhos europeus. A mais recente investida é contra a Grécia, que anunciou nesta semana que, foi mal, não vai dar para reduzir o déficit governamental a 8,1% de seu Produto Interno Bruto (PIB). A meta foi estabelecida depois que Atenas recebeu 110 bilhões de euros de resgate dos países da zona do euro e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Os alemães estão especialmente incomodados porque entraram com 22 bilhões de euros desta quantia total.

Outra briga interna no continente que já foi o modelo de boa vida internacional é protagonizada pela troca de acusações entre Portugal e Irlanda.

"Se a situação está pior na Irlanda, por exemplo, ela vai contagiar outras economias da zona do euro e particularmente as que estão sob forte escrutínio dos mercados, como Portugal", disse Fernando Teixeira dos Santos, ministro das finanças português.

Não custa lembrar que, apesar deste tipo de declaração, Lisboa não tem motivos para se orgulhar. Irlandeses e portugueses estão juntos no mesmo barco furado. Portugal apresenta déficit de 9% do PIB, quando o limite para a zona do euro é de 3%. A Irlanda, por sua vez, é a maior dor de cabeça do momento. É o que a Grécia foi no ano passado. Seus bancos já perderam cerca de 80 bilhões de dólares. Ou o equivalente a 50% da economia do país, como destaca o New York Times.

Enquanto a situação vai de mal a pior na Europa, há comentaristas que conseguem enxergar nisso uma lição de algum ente divino. Ou, pior, a "evolução" em curso no continente que, finalmente, irá reduzir a presença do Estado e, por consequência, os benefícios que marcaram o imaginário mundial construído sobre a vida que seus cidadãos levaram durante boa parte do século 20. A realidade a partir de agora será bem diferente, como se sabe.

"Há algo no ar. Quase parece que pelo menos alguns (países) europeus têm aprendido lições da recessão recente. Eles perceberam – ou estão a ponto de perceber – que seus setores estatais são grandes demais. Eles estão próximos de descobrir que seus gastos públicos, que pareciam justificáveis nos bons tempos econômicos, precisam ser cortados. A classe média até sabe que seus subsídios – em hipotecas, ajudas de custo a universitários ou até tratamentos de saúde – não podem durar", escreve Anne Applebaum, colunista do Washington Post.

A derrubada do modelo de bem-estar social parece um fato consumado. Pelo menos é assim que seus detratores preferem encarar este momento.