São tantas as eleições desta semana que é até difícil saber por qual delas começar o texto de hoje. Acho que a mais simples é a europeia, cuja vitória dos conservadores era manjada há um tempo. Na equação proposta pelas urnas, os eleitores deram uma boa margem para a direita que, diante de uma crise financeira sem precedentes e de taxas de desemprego assustadoras – como a de mais de 17% na Espanha –, tem como programa de governo para os próximos anos a velha e conhecida caça aos imigrantes. Nenhuma novidade nisso.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Derrota do Hezbolah no Líbano pode ser o começo de uma virada no Oriente Médio
São tantas as eleições desta semana que é até difícil saber por qual delas começar o texto de hoje. Acho que a mais simples é a europeia, cuja vitória dos conservadores era manjada há um tempo. Na equação proposta pelas urnas, os eleitores deram uma boa margem para a direita que, diante de uma crise financeira sem precedentes e de taxas de desemprego assustadoras – como a de mais de 17% na Espanha –, tem como programa de governo para os próximos anos a velha e conhecida caça aos imigrantes. Nenhuma novidade nisso.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Muito mais que palavras em apenas cinco meses
Uma das grandes críticas da opinião pública e dos governos árabes e muçulmanos ao discurso de Obama de ontem é de que as palavras corajosas do presidente americano não se traduzem
Desde que tomou posse, em janeiro, Obama praticamente fez uma cruzada estratégica de mudança dos parâmetros de relações internacionais dos Estados Unidos.
Por mais que tenha aumentado o efetivo militar no Afeganistão, algumas atitudes contrárias às diretrizes do governo Bush são emblemáticas. A determinação de fechar Guantánamo, a aproximação com os países árabes e muçulmanos, o repetitivo – e por vezes desgastante para Washington – processo de tentativa de levar o Irã à mesa de negociações, o fortalecimento dos laços com a Europa e até mesmo uma relativização do apoio a Israel.
Nesta semana, os Estados Unidos não vetaram o retorno de Cuba à Organização dos Estados Americanos (OEA), vigente desde 1962.
Não se pode dizer que Obama não tomou medidas práticas. É injustiça e má-vontade.
Por mais que tenha criticado Israel no Cairo, o presidente o fez muito mais para agradar a seus interlocutores muçulmanos do que por convicções políticas, ideológicas ou pessoais. Ele mesmo acrescentou que a aliança com os israelenses é indissolúvel.
Obama sabe que tem uma missão – e ele gosta disso, pra ser bem sincero – e quer tomar a dianteira. No caso específico do fechamento de Guantánamo, no entanto, precisa da colaboração de mais países. Por mais que todo mundo seja favorável ao fim da prisão americana em Cuba, até o momento somente a Alemanha se comprometeu a receber os terroristas presos.
E isso vai de encontro às críticas direcionadas a Obama. Neste caso, por exemplo, ele quer tomar medidas práticas. São os outros que se recusam a agir.
As críticas a Obama que têm sido feitas pelos países árabes e muçulmanos são parte do processo de pressão exercido neste momento que o presidente americano deixa claro que o Oriente Médio é um foco importante de seu governo. Essa pressão vai continuar como uma espécie de barganha para conseguir que Washington ceda o máximo possível aos argumentos desses Estados durante o rascunho de uma solução que Obama pensa ser possível para o conflito entre Israel e os palestinos.
É uma estratégia que pode ser vitoriosa, caso a atual administração dos EUA deixe ainda mais claro que precisa de rapidez, boa vontade e parceria dos líderes da região.
Em tempo – combatendo a proliferação do lugar-comum, disponibilizo aqui um mapa que mostra a distribuição do petróleo extraído do Oriente Médio. Como se vê, não há produção em Israel ou nos territórios da Autoridade Palestina.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Obama faz discurso corajoso no Cairo
Não há como negar que o discurso de 55 minutos de Obama no Cairo tenha sido espetacular. Com tantas metáforas, conexões, alusões e poesia, bem poderia ter sido de autoria do Cara. Como se esperava, o presidente americano conseguiu criar um clima de otimismo capaz de constranger qualquer um que ambicione mais uma guerra na região.
Houve de tudo. Como um professor, Obama pontuou cada item e, assim, conseguiu agradar a todo mundo. Dentre os pontos mais aguardados, falou sobre as semelhanças entre judaísmo, cristianismo e islamismo; reafirmou os laços “indissolúveis” entre EUA e Israel; usou o termo Palestina para mencionar a solução de dois Estados para dois povos vivendo em paz lado a lado; e cutucou o atual governo israelense pela continuidade da construção dos assentamentos na Cisjordânia.
O resultado do pronunciamento pode ser considerado positivo. Com direito a aplausos da plateia e até gritinhos de “eu te amo”. Uma espécie de Rock in Rio da política externa.
Alguns dos principais atores internacionais já deixaram claro que gostaram do que ouviram. O porta-voz da Autoridade Palestina disse estar “animado e com boas expectativas” depois do pronunciamento do presidente americano; o chefe de política externa da União Europeia, Javier Solana, usou o adjetivo “extraordinário”; até o governo israelense disse partilhar da visão apresentada por Obama, dizendo esperar que o discurso seja o início de uma era de conciliação entre o país e o mundo árabe e islâmico.
O ponto fora da curva ficou por conta do Irã. Em meio às comemorações pelos 30 anos da Revolução Islâmica, o líder supremo iraniano, o Aiatolá Ali Khamenei, fez um comunicado público em que afirmou que os muçulmanos de todo o mundo “odeiam a América do fundo de seus corações.
O discurso de Obama serve para amenizar as feridas. De fato, é bem provável que um novo começo com os países muçulmanos seja mesmo possível.
Mas existem grandes pontos de divergência e acho pouco viável que os EUA abram mão de valores considerados fundamentais em nome de uma aliança com os países da região – para ser mais claro, o próprio discurso de hoje reiterou a posição americana de não negociar com o Hamas enquanto o grupo não aceitar a existência de Israel e tampouco deixar de se utilizar de métodos terroristas.
Como a cooperação de governos muçulmanos vai depender em boa parte dos passos tomados na prática pelos Estados Unidos, a situação é de esperança, mas com reservas. O que se pôde ver hoje foi o presidente americano ansioso por pôr a mão na massa. Ele disse que vai se envolver pessoalmente na busca pela resolução do dramático impasse entre Israel e os palestinos, mas sem maniqueísmos que simplifiquem a situação.
“O conflito árabe-israelense não deve mais ser usado como forma de distrair a população dos países árabes de seus próprios problemas”, disse.
É preciso coragem para mandar esta mensagem tão direta. Acho que o pronunciamento de hoje pode ser o começo de um caminho.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Otimismo de Obama contrasta com realidade do Oriente Médio
Pela primeira vez desde que assumiu a posição política mais importante do planeta, Barack Obama concedeu uma entrevista à BBC. É a primeira entrevista também a um veículo de comunicação do Reino Unido. Não significa muito, mas, segundo a própria megacorporação britânica, a empresa foi escolhida pela equipe de Obama porque seu objetivo é alcançar os rincões do mundo. E a BBC está em boa parte das parabólicas mesmo nos lugares mais isolados.
E esse foi um esquenta importante para a empreitada do líder americano. Conforme informado no texto de ontem, o aguardado discurso de quinta-feira, no Cairo, irá simbolizar uma aproximação ainda maior com o mundo islâmico. E por isso o próprio presidente dos EUA fez questão de enfatizar à empresa britânica dois dos mais importantes e sensíveis temas aos muçulmanos: a relação dos Estados Unidos com o Irã, e a posição norte-americana acerca de uma solução do conflito entre israelenses e palestinos.
Jogando pra galera, Obama disse que pretende conseguir progresso com os iranianos até o final do ano através de contatos diplomáticos firmes e diretos. Sobre o conflito entre Israel e os palestinos, a posição é a mesma de sempre: “é interesse dos Estados Unidos que existam dois Estados convivendo lado a lado em paz e segurança”, disse. É um discurso bonito, um tremendo lugar-comum, mas não uma solução definitiva (para ler o que escrevi sobre isso, clique aqui).
Enquanto é criado este clima de otimismo, os fatos “on the ground” – como gostam de dizer os analistas internacionais – mostram que as expectativas da região são opostas.
Desde domingo, Israel realiza o maior exercício civil de sua história. O objetivo é avaliar as reações de diversas áreas de segurança e da própria população para o caso de um ataque de grandes proporções ao país.
A mobilização nacional termina na quinta-feira – mesmo dia do discurso de Obama logo ali ao lado, no Egito –, quando equipes médicas, de resgate e segurança vão se deparar com cenários pessimistas diversos, incluindo simulações de explosões de armamento químico dentro de Israel. Precisa dizer mais alguma coisa?
É uma pena, mas neste momento o otimismo no Oriente Médio está representado somente por boas intenções e discursos cinematográficos. E para por aí mesmo.
PS: ao contrário do que evidenciam os fatos, em encontro com seu parceiro de cargo na Rússia, o ministro das Relações Exteriores israelense, Avigdor Lieberman, disse à imprensa que Israel não tem intenções de atacar o Irã.
“Não queremos que um problema global seja resolvido por nossas mãos”, declarou.
Talvez ele esteja blefando. Talvez seja uma estratégia para despistar. O exercício civil envolvendo vários setores do país pode ser uma forma de mandar um recado para o Irã de que Israel está se preparando. Quem confunde sai na frente. O Irã confunde o mundo com a ambiguidade de declarações políticas e o sigilo em torno de seu programa nuclear. É possível que Israel tenha decidido fazer o mesmo. Todas as possibilidades estão abertas.
terça-feira, 2 de junho de 2009
A guerra da mídia
Na próxima quinta-feira, o presidente americano, Barack Obama, estará no Cairo, capital do Egito, onde fará um dos mais aguardados pronunciamentos do ano. Segundo o analista Howard Fineman, da Newsweek, o objetivo de seu discurso é nada menos do que reconciliar Islã e modernidade. Mas, em meio a tanto otimismo, alguns dados chegam da guerra travada pelos EUA no Iraque.
É verdade que o ex-país de Saddam ficou meio esquecido nas últimas semanas. A luta entre talibãs e forças governamentais do Paquistão tem merecido maior destaque. Além, é claro, da escalada de ameaças e testes nucleares na Coreia do Norte.
Um fato ocorrido nesta segunda-feira me chamou a atenção. A divulgação dos recentes números sobre a violência no Iraque. É chocante e interessante notar como uma mesma notícia pode ser veiculada de várias maneiras. Tudo depende somente da empresa de comunicação responsável pela publicação e de suas filiações e simpatias ideológicas.
No caso, as duas empresas enxergam o mundo de maneira diferente, muito embora ambas sejam referências internacionais. Dando nome aos bois: The Wall Street Journal e BBC.
A matéria da BBC leva o título “mortes de americanos no Iraque aumentam em maio”.
“Em maio, 24 soldados dos EUA morreram, aumentando o número total de mortos americanos desde a invasão de 2003 para pouco mais de
No terceiro parágrafo, entretanto, o leitor fica sabendo que houve uma queda significativa na quantidade de baixas civis. Citando os ministérios do Interior e Saúde iraquianos, a BBC divulga a informação de que 124 civis morreram
Já o olhar do Wall Street Journal é repleto de um otimismo absolutamente oposto ao da BBC. A manchete é “mortes no Iraque diminuem” e o subtítulo é ainda mais explícito: “o mês de maio apresentou o menor número de mortes violentas desde 2003 (o ano da invasão ao país)”.
Logo em seguida, o texto cita as mesmas informações da matéria da BBC em relação ao número de civis mortos e a comparação com o mês de abril.
Com o Oriente Médio em evidência desde o 11 de Setembro e as ofensivas militares que se sucederam, informação é um bem valioso e que serve a interesses diversos. Neste caso específico, o maniqueísmo é claro: os dados podem ser interpretados de maneira favorável ou contrária à guerra contra o terror.
Por outro lado, as fontes estão aí pra quem quiser procurar. A guerra da mídia pode ser tão disputada quanto a real.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Atentados no Irã podem representar disputas políticas e militares da região
Depois dos seguidos atentados terroristas promovidos pelo Talibã no Paquistão, foi a vez de o Irã ser o alvo do extremismo. Ontem e hoje dois ataques causaram mortes e uma boa dose de estranhamento. Por que o país de Ahmadinejad – cujos discursos e ações definitivamente não se contrapõem ao terrorismo – foi a vítima do momento?
É difícil entender a lógica da situação, mas quando se analisa o quadro mais amplo é possível elencar algumas possibilidades. Antes de apresentá-las, porém, sinto-me na obrigação de expor que sou completamente avesso a teorias da conspiração. Não creio em nenhuma delas e acho que a humanidade perdeu e assassinou demais em nome desse tipo de bobagem.
Dito isso, vamos aos fatos: em menos de duas semanas ocorrem as eleições no Irã. Na dicotômica luta pelo poder na República Islâmica, dois grandes grupos repletos de heterogeneidade podem ser listados: os conservadores – cujo maior expoente é o próprio presidente Ahmadinejad em busca da reeleição – e os moderados – Mirhossein Mousavi é seu principal candidato.
A população rural está em grande parte com Ahmadinejad, enquanto a urbana, com Mousavi. Este último declarou hoje que, se eleito, pretende adotar uma política conciliatória com o ocidente, tendo inclusive chamado o atual presidente iraniano de extremista.
“Não vamos abandonar nosso direito à tecnologia nuclear, mas estamos prontos a dar garantias de que ele (o programa nuclear) não tem como objetivo a fabricação de armamento”, disse à agência Reuters.
Hoje, um comitê de campanha de Ahmadinejad foi atacado por atiradores. Uma criança e dois adultos foram feridos. Na quinta-feira, uma explosão causada por um homem-bomba numa mesquita xiita deixou 19 mortos. Um grupo terrorista sunita assumiu a autoria do atentado.
Antes disso, porém, oficiais iranianos se apressaram em afirmar que os EUA estavam envolvidos no ataque – fato rapidamente e obviamente negado pelo governo americano. Oficiais esses aliados de Ahmadinejad.
Não sei se o próprio Ahmadinejad – em queda nas pesquisas e rejeitado pela intelectualidade iraniana – poderia se beneficiar dos dois atentados de modo a tornar a disputa eleitoral ainda mais polarizada e reafirmar seu potencial como o melhor contraponto aos Estados Unidos, a Israel e ao ocidente.
Por outro lado, o ataque à mesquita xiita pode ser uma prévia do grande conflito silencioso que se forma no mundo muçulmano: a batalha entre sunitas e xiitas.
Como escrevi anteriormente (leia aqui), uma provável ação militar israelense para deter o avanço nuclear iraniano colocaria em rota de colisão os países xiitas – capitaneados pelo próprio Irã – e os sunitas Arábia Saudita, Egito, Jordânia e Marrocos.
Talvez este ataque à mesquita tenha qualquer conexão com esta grande disputa militar. Mas, por enquanto, tudo não passa de mera especulação.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Esperanças de paz morrem a cada dia na Ásia
Em complemento ao texto de ontem, os fatos de hoje apresentam as conclusões quase imediatas de que pode ser impossível voltar atrás no momento de corrida armamentista e, pior, de descontrole total de Ásia e Ásia Central.
Pela primeira vez em muitos anos, começa a tomar corpo no Japão a discussão sobre se o país deve recorrer à busca por um arsenal atômico próprio. O tema é tabu para os japoneses, principalmente pela lembrança mais do que viva das bombas de Hiroshima e Nagasaki.
A opinião dos japoneses é em parte fatalista. E eles têm uma boa dose de razão nisso principalmente pelo Japão ser um dos possíveis alvos no caso de um ataque norte-coreano.
“A ameaça cresceu e devemos desenvolver nosso próprio arsenal nuclear. A Coreia do Norte vai continuar os testes até possuir mísseis capazes de atingir os Estados Unidos”, diz Toshio Tamogami, ex-comandante da Força Aérea japonesa.
Apesar disso, a questão está bem longe de ser unanimidade. Pesquisa de um canal de televisão japonês realizada em 2006 mostrava que somente 10% dos entrevistados eram favoráveis ao desenvolvimento de armas nucleares pelo país.
Na outro grande motivo de instabilidade da região, dois novos atentados realizados pelo Talibã atingiram hoje a cidade de Peshawar, no noroeste do Paquistão. Seis pessoas morreram e mais de 70 ficaram feridas.
Para se ter a exata noção de quem são os membros que compõem o Talibã, vale reproduzir o que disse Hakimullah Mehsud, “pessoa” com conexão direta ao chefe do Talibã paquistanês, Baitullah Mehsud.
A conversa telefônica foi interceptada pelas autoridades de segurança do Paquistão e mostra bem o que pensam os membros da organização terrorista.
“Os ataques devem ser direcionados às casas dos soldados. Assim, seus filhos serão mortos e aí eles vão perceber”.
Não fica claro a que ele se refere quando menciona a percepção. Mas isso não faz a menor diferença. O que é fundamental é notar os inexistentes padrões éticos, morais e minimamente humanos do grupo. É difícil ter qualquer esperança de solução pacífica quando uma declaração como a acima vem a público.
