sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O Brasil na Blockbuster

Por Henry Galsky

Em novembro de 2006 a Americanas.com se fundiu com o site de comércio eletrônico Submarino. A operação marcou o nascimento do maior grupo de vendas eletrônicas do Brasil. O que poderia parecer uma simples compra de empresas viria a marcar – menos de dois anos depois – uma profunda mudança no comportamento econômico e cultural de parte da classe média do país. Tudo porque, em janeiro de 2007, a fagocitação mercadológica terminaria (?) na concretização de um dos maiores sonhos do mundo dos negócios nacional: a aquisição, por parte deste mesmo grupo, da franquia Blockbuster.

Por 186,2 milhões de reais, as Lojas Americanas passaram a controlar 99,9% das ações da maior rede de locações brasileira. Às vezes distante, os efeitos da compra puderam ser sentidos em muitas das esquinas das grandes metrópoles. O que antes eram simples – tá bom, nem tão inocentes assim – pontos de aluguel de filmes passaram a funcionar como verdadeiras lojas de vender qualquer coisa – desde filmes, passando por tinta de cabelo, até videogames.

Em pouco tempo, estávamos todos muito bem acostumados a pegar um filme, comprar um chocolate Hershey e esticar fazendo um crediário pelo cartão Taii. As Americanas-Blockbuster passaram a estar em toda parte, uma espécie de loja de conveniência de posto de gasolina, deprimida e vazia quase saída de uma beira de estrada de Pequena Miss Sunshine.

Não deixa de ser curioso o sucesso de uma rede que oferece tudo e nada ao mesmo tempo. Não é nem locadora - menos ainda centro cultural -, nem farmácia, nem loja de jogos.

Os videogames estão ali, enquanto o vendedor masca um chiclete e parece um pouco incomodado quando é perguntado sobre algo da loja. Crianças correm atrás de Toy Story e semelhantes; uma moça olha a seção de - novamente! - tinta pra cabelo.

Pode parecer ruim - e é mesmo -, mas a Blockbuster diz muito sobre o Brasil de hoje. Um lugar repleto de aparelhos eletrônicos de alta tecnologia, caros, mas que ainda sim são vendidos para a ascendente classe média. Tudo se parcela em até 72 vezes, e o pessoal quer assistir ao novo dvd do Alexandre Pires - cujo verso brilhante de seu último sucesso informa que ele quer "continuar a fazer tudo o que já fez e beber sua gelada". O importante é o meio, o tubo, a tecnologia como satisfação de desejos de equiparação social.

O crescimento econômico é muito bom - se acompanhado de acesso à cultura, informação relevante e reflexão. O canadense Philip Ohxorn, professor associado da McGill University, no Canadá, se dedica a estudar o impacto das reformas econômicas nos países da América Latina. E este me parece ser o ponto central da questão. Seu principal argumento - absolutamente incontestável - é que as conseqüências políticas e sociais foram simplesmente esquecidas, em nome da grande festa que ainda se faz em torno do crescimento do pib e do valor de mercado da Petrobrás, da queda da inflação, da criação de uma nova massa de consumidores para empresas estrangeiras. Como narra com orgulho a nova propaganda da Vivo, "somos 40 milhões. Você faz parte disso".

Em seu livro "What Kind of Democracy? What Kind of Market? - Latin America in the Age of Neoliberalism", ele tenta entender como, desde o processo de redemocratização dos países do continente - e principalmente dos da América do Sul - os índices de pobreza, criminalidade e empregabilidade no setor informal cresceram de maneira absurda. O mix de problemas sociais - vai aí uma ironia ao mix de produtos dos publicitários, queiram me desculpar - está diretamente conectado à adoção de um modelo econômico que deixa claro que o conceito de cidadão já era. Somos todos consumidores e por isso nosso valor está nos produtos que podemos comprar.

Seguramente esta é uma reflexão que vai muito além da simples locação do Shrek. Enquanto estamos neste rendez-vous sem fim do parcelamento da viagem da criançada à Disney no pacote CVC, o IBGE informa que os cofres públicos responderam por apenas 38,8% do total das despesas relacionadas à saúde. As famílias gastaram 60,2%. Ora, os dados deixam claro que as contas estão nas nossas costas. O governo – não somente este, mas o que implementou este modelo, há já distantes 14 anos – optou por ser apenas um cobrador de impostos. E, é claro, um facilitador do estabelecimento de Americanas/Blockbuster nas esquinas do país.

3 comentários:

Bruno Moreno disse...

Meu grande irmao e imperador eterno,

eu vou imprimir esse seu texto e colocar na cabeceira para le-lo antes de dormir. Todos os dias.

Vc é genio. Até que enfim voltou a escrever!! bjs!

Henry Galsky disse...

Brunão,
você é e sempre foi um de meus grandes motivadores a escrever. Cara, queria que soubesse que você faz muita falta mesmo. Quero um dia poder voltar a refletir sobre este monte de coisas pessoalmente contigo.
Estou longe de ser genial. Os geniais não precisam de inspiração. A rotina se encarrega disso. Como está tudo por aí.
Manda um beijo na Ciana também.
Um beijo!

Ciana Lago disse...

Henry, vou recomendar esse texto pra todos esses argentinos que ficam estupefatos de como o Brasil está MUITO BEM!!