quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

2011: um ano para entrar na História

Está na hora da virada do ano. E não se pode dizer que 2011 seja um desses anos que passarão batidos pela História humana. Definitivamente, este é um daqueles momentos em que pudemos notar as páginas sendo escritas. E o que torna tudo muito único e especial é que os acontecimentos se tornaram populares. Não apenas os protagonistas da maior parte deles são, em sua maioria, pessoas comuns, mas também os consumidores de informação globais são pessoas comuns.

O fato mais relevante foi, sem dúvida, a Primavera Árabe. Como escrevi ao longo dos posts, a tal “revolução” ainda não se concretizou. É, por ora, apenas um clichê bacana adotado pela imprensa internacional. Ninguém pode prever o destino do mais populoso dos países árabes, o Egito, mas o que aconteceu por lá reverberou regional e globalmente. Foi a primeira vez que manifestantes não filiados a partidos ou movimentos islâmicos tomaram as ruas exigindo a queda do regime, democracia, liberdade, eleições limpas e, principalmente, oportunidades para construir um país mais justo. A Praça Tahrir se transformou em símbolo da indignação popular mundial e também do constrangimento das potências ocidentais.

Afinal de contas, os mesmos países que consideravam as ditaduras árabes do Oriente Médio e do Norte da África como fato consumado – e se aliaram a elas, vale lembrar – tiveram de dar meia-volta e se expor diante de todo o mundo. E por conta disso o presidente Barack Obama decidiu invadir a Líbia. É claro que houve manifestações populares por lá também. E é claro que Kadafi deu aos rebeldes o tratamento padrão destinado aos opositores. E este foi seu maior erro. A guerra travada contra os próprios cidadãos se transformou na justificativa perfeita para os EUA embarcarem no bonde certo da Primavera Árabe. Assim, com mais dificuldade do que se imaginava, a coalizão que armou rebeldes, promoveu ataques aéreos e acabou por criar um modelo de intervenção quase antiséptica, derrubou Kadafi e entregou a Líbia numa bandeja de prata a sabe-se lá quem. Entre os rebeldes há de tudo um pouco: ex-membros do próprio governo Kadafi, representantes das tribos líbias e até jihadistas islâmicos.

No ano de 2011 o mundo assistiu a um fato raro; os acontecimentos da rua árabe influenciaram movimentos similares no Ocidente: os indignados na Espanha, na Grécia e até o movimento Occupy Wall Street, em Nova Iorque (que por sua vez rendeu outros tantos protestos populares em diversas cidades americanas). Esta é uma mudança importante que mostra também a grande virada que já está em curso: a do eixo de poder internacional. Se as potências ocidentais não deverão deixar de usufruir de poder global, as graves crises econômicas nos EUA e na Europa forçaram um recuo desses países. E as circunstâncias acabaram muito favoráveis aos emergentes, principalmente ao Brasil, que termina 2011 com a notícia de impacto global de ter tomado da Grã-Bretanha a sexta colocação no ranking das maiores economias do planeta. Definitivamente, este foi o ano de grandes e profundas mudanças de paradigma.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O novo colapso do Iraque

A série de atentados cometidos nesta quinta-feira no Iraque é ruim para todo mundo. Pelo menos para aqueles que pretendem encontrar alguma forma de acomodação política no país que seja capaz de permitir a seus cidadãos algo parecido a uma vida normal. Depois de Saddam Hussein e das milhares de mortes e perdas materiais ocorridas durante o período de presença das forças americanas, as pessoas comuns estão cansadas, muito cansadas. Quando atentados coordenados voltam a matar centenas de civis, como aconteceu nesta quinta, a população teme por um retrocesso significativo. Quem já perdeu demais conhece os sinais de uma tragédia iminente. Se os ataques terroristas já representam por si só catástrofes humanitárias óbvias, fica também o alerta de que a estrutura nacional construída a duras penas está novamente ameaçada.

E isso somente quatro dias depois de as tropas dos EUA deixarem oficialmente o Iraque. Na raiz dos problemas atuais a velha conhecida divisão sectária entre sunitas e xiitas. Se este é o dilema geopolítico mais amplo de todo o Oriente Médio, é no instável território iraquiano que ele revela sua faceta mais conturbada. Nos anos de Saddam Hussein a minoria sunita (cerca de 20% da população) era beneficiada pelo ditador. Com a queda de Saddam, os sunitas foram os principais insurgentes a combater a coalizão anglo-americana por motivos óbvios. Eles temiam o que poderia acontecer se o país fosse comandado pela maioria xiita (60% dos iraquianos).

De forma muito sagaz, Washington buscou um modelo político que pudesse abrandar as rivalidades, dando representação a todos os principais setores nacionais. Os xiitas ficariam com o cargo de primeiro-ministro, os curdos, com a presidência, e os sunitas, com a vice-presidência. E assim foi feito. Aliás, este é um projeto que bem ou mal funciona no Líbano. No caso iraquiano, os sinais de que algo iria dar errado já eram percebidos durante o duro processo de formação do governo, que por meses deixou o país num vazio político. Por fim, o xiita Nuri al-Maliki assumiu a liderança, tendo o sunita Tareq al-Hashemi como vice-presidente.

O principal bloco político sunita, o Iraqiya, acusa Maliki de tentar tomar todo o poder para si. Por isso, seus membros abandonaram o parlamento no último sábado. Agora um adendo externo: o primeiro-ministro é apoiado politicamente pela maior potência xiita do Oriente Médio, o Irã. Em meio ao embate geopolítico entre as alianças de Estados sunitas e xiitas, transformar o Iraque em aliado – com o poder nas mãos exclusivamente dos xiitas – é o melhor cenário para os iranianos. Ainda mais neste momento em que o país de Mahmoud Ahmadinejad e Ali Khamenei está em desvantagem numérica. Do ponto de vista da população sunita – que, obviamente, não está alheia aos acontecimentos externos –, impedir tal aliança parece ser a única alternativa para evitar o que ela imagina que pode se transformar numa grande vingança xiita pelos anos de privilégios concedidos aos sunitas durante o regime de Saddam Hussein.

Agora, de volta ao Iraque. O primeiro-ministro Nuri al-Maliki pôs o vice Tareq al-Hashemi na ilegalidade. Acusando-o de ter participação num atentado contra membros do governo há cinco anos, Maliki determinou sua prisão. Hashemi fugiu para Erbil, capital da região curda autônoma no norte do país. Portanto, é preciso dizer claramente: o governo iraquiano está em colapso. As rivalidades sectárias entre sunitas e xiitas estão formalmente de volta ao tabuleiro menos de uma semana depois da partida dos soldados americanos. Num olhar mais amplo e que leva em conta a situação internacional, o Iraque hoje está no centro das disputas. Isso porque as províncias de maioria populacional sunita (Anbar, Diyala e Salahuddin) passaram a reivindicar autonomia política. Para completar, Anbar faz fronteira com a Síria, cuja maior parte da população é sunita, e, assim que Bashar al-Assad cair, deve se aliar formalmente aos sunitas iraquianos.

Se o Iraque de fato for fracionado – e esta é uma possibilidade real – a guerra sectária que tomou conta do país voltará a acontecer. E, desta vez, será ainda pior porque os diversos interesses regionais se manifestarão com mais força no território iraquiano: os sunitas apoiados por Arábia Saudita e o eventual novo Estado sírio; e os xiitas apoiados pelo Irã. E este é apenas o cenário mais restrito do novo confronto que está por vir.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Os próximos passos de Coreia do Norte, EUA e China

Mais além da morte de Kim Jong-il está um dos confrontos silenciosos mais importantes do mundo de nossos dias: a batalha retórica entre China e EUA. Aliás, nem tão retórica assim. Os dois países respondem pelas duas maiores economias do planeta e competem não apenas por influência – esta é uma questão menos relevante aos chineses, mais preocupados com mercados do que com simpatizantes –, mas pela posição de liderança no ranking econômico internacional.

Antes de entrar no mérito de como a Coreia do Norte é sujeito desta história, uma pequena explicação que considero fundamental: sou adepto da teoria de George Friedman, fundador e presidente do Stratfor, o principal instituto privado de análise política dos EUA. Grande parte dos estudiosos e mesmo a imprensa costumam ignorar o papel do comércio no jogo geopolítico. Pode parecer discurso do século 18, mas não é. Escoar produção ainda continua a ser peça-chave de nossos tempos. E, para isso, é preciso ter acesso ao mar. E ninguém supera até hoje os americanos em seu privilegiado posicionamento geográfico que permite controlar o Atlântico e o Pacífico – e, além disso, as empreitadas militares e políticas ainda deram aos americanos a capacidade de manter presença no Golfo Pérsico, principal centro exportador de petróleo.

O problema deste início de século 21 é que o centro do comércio mundial está mudando. Com a China à frente da economia, a Ásia passou à região estratégica também sob o ponto de vista comercial. E quem controla o Mar da China? Esta grande movimentação representa uma ameaça à soberania comercial americana, justamente num momento de profunda crise. Por isso os EUA têm buscado reforçar suas posições na região. Em novembro passado, o presidente Obama fez visita oficial aos aliados na Ásia. Algumas das decisões anunciadas neste giro regional são o envio de 2,5 mil marines para a Austrália, o fortalecimento da cooperação militar com as Filipinas e o deslocamento de navios de combate a Cingapura. Está claro o que isso significa, certo?

Agora sim, de volta à Coreia do Norte. O vácuo deixado por Kim Jong-il deve ser observado dentro deste contexto. Como escrevi na segunda-feira, a morte do “Querido Líder” é um evento ainda inconcluso. Ou seja, as correntes de interpretação levantam a bola em duas direções opostas: oportunidade de abertura ou aprofundamento do regime de silêncio, paranoia e espionagem interna. Sinceramente, acredito que a balança tende mais à segunda possibilidade. Isso porque a China tem muito interesse nisso. E é, de fato, a única com algum poder de influência sobre Pyongyang. Os chineses são responsáveis por 90% do investimento no país e respondem por 80% do comércio da Coreia do Norte. Na prática, são os únicos que estão com os pés por lá.

Ex-diretor para assuntos asiáticos da Casa Branca, Victor Cha extrapola e cogita, inclusive, a possibilidade de a China anexar a Coreia do Norte, tornando-a mais uma de suas províncias. Não me arrisco nesta previsão, mas acredito mesmo que Beijing se fará ainda mais presente no país –

menos por interesses humanitários e econômicos e mais para evitar qualquer presença ostensiva americana. Por falar nisso, não duvidem que esta janela de oportunidade para reforçar os laços asiáticos de Washington se aprofunde nos próximos meses. E este discurso da Casa Branca pode passar a assumir contornos mais concretos de duas maneiras: defendendo a reunificação das Coreias – sob liderança dos governantes da Coreia do Sul, claro – ou defendendo uma intervenção militar por conta das frustradas negociações em torno do programa nuclear norte-coreano (considero esta possibilidade a mais remota).

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A morte de Kim Jong-il

A morte do ditador norte-coreano, Kim Jong-il, não tem absolutamente nada a ver com a Primavera Árabe. Mas, em meio a tantos eventos internacionais importantes, acho bem curioso que o regime mais fechado do planeta perca o seu “Querido Líder” – seu vocativo compulsório no país – justamente neste ano. Admito ser um tanto forçado fazer comparações mais profundas entre os acontecimentos no Norte da África e no Extremo Oriente, mas este é um período de simbolismos, correto?

Nada mais simbólico que o vácuo momentâneo deixado pelo mais esquizofrênico dos líderes mundiais. Perto da Coreia do Norte, Cuba, Irã e Arábia Saudita são acampamentos de verão. Se a morte de Kim Jong-il encerra um ano marcado pela queda de algumas das ditaduras mais consolidadas do mundo, é preciso lembrar também que a “revolução” alardeada pela imprensa internacional ainda não aconteceu em países importantes como Egito e Síria.

Curioso também é assistir à reação internacional ao evento mais importante da Coreia do Norte. Há expectativas quanto ao jovem ditador que está para surgir; ninguém pode afirmar o que vai ser do país sob o comando de Kim Jong Un, o rapaz de 29 anos de idade , filho de Kim Jong-il e que deve ser seu sucessor. Sabe-se que recebeu uma parte da educação no Ocidente, numa escola de alto padrão na Suíça. Mas 2011 e a história recente das ditaduras globais não permitem a associação entre este fato e qualquer possibilidade de abertura: Bashar al-Assad, o presidente sírio que comanda um governo responsável pela morte de cerca de 5 mil de seus próprios cidadãos, é formado em medicina, estudou e fez residência em Londres, nos anos 1990; Saif al-Islam, o filho mais conhecido de Kadafi, estudou na prestigiada London School of Economics.

É importante notar também as distintas abordagens dos governos ao regime norte-coreano. Os ocidentais querem novas negociações e esperam interromper o ciclo nuclear de Pyongyang. Há informações, inclusive, de que os EUA teriam conseguido autorização para novas inspeções de funcionários da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em troca do envio de 240 mil toneladas de alimentos à Coreia do Norte. O comunicado da China, a potência que não permite interferências no Mar da China e principal aliada de Kim Jong-il, tem conteúdo bastante distinto: “o povo continuará a avançar na causa do socialismo norte-coreano”. Pois é.

Em meio a essas slogans, é preciso ser claro e dizer que a população está faminta e desempregada. Se Kim Jong Un tiver um pouquinho mais de humanidade que seu pai, abrirá o país e tentará desenvolver indústrias e empresas.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O que está por trás da atual troca de acusações entre EUA e Rússia

A nova rodada de tensões entre EUA e Rússia soa, para muita gente, como o lançamento de uma espécie de filme vintage sobre a Guerra Fria. Faz sentido. Principalmente porque as razões deste novo enfrentamento retórico entre os dois países se deve, em boa parte, à luta por influência regional. Os americanos não querem abandonar seus aliados da Europa Central; os russos consideram uma afronta que Washington vá se meter numa área de influência que ainda toma como a sua própria. É ou não é um jogo de poder um tanto empoeirado?

As eleições parlamentares realizadas na Rússia – cujos resultados são para lá de suspeitos – levaram para o centro das discussões internacionais um assunto que andava marginal. Principalmente porque a Casa Branca não quer repetir na Rússia o erro que cometeu no Egito e na Tunísia, quando demorou a reagir aos protestos populares que exigiam a queda dos respectivos regimes. O problema é que a complexidade geopolítica não permite uma simples esquematização dos acontecimentos. Não é possível aplicar a “fórmula” dos países árabes; primeiro porque a Rússia tem uma história completamente diferente; segundo porque os 60 mil manifestantes reunidos em Moscou na maior manifestação contra o governo desde o fim do comunismo não são os egípcios da Praça Tahrir.

Por mais que o número de gente protestando contra o regime de Putin-Medvedev seja grande, ainda não está claro se este é um movimento de massa contra o primeiro-ministro do país ou contra as fraudes eleitorais. E, além disso, a influência americana em assuntos internos russos sempre é um tema crítico.

Mais além desta troca de acusações mútuas (Putin já reforçou o discurso de que os russos contrários a seus projetos políticos estão, na verdade, obedecendo a ordens diretas da Secretária de Estado americana, Hillary Clinton), as disputas geopolíticas que de fato importam: a história não é novidade. Trata-se da batalha pela implantação do Sistema de Defesa de Mísseis Balísticos. A iniciativa americana é antiga e formalmente justificada como uma proteção do continente europeu diante das ameaças representadas pelo Irã. O problema é que, segundo o plano da Casa Branca, este armamento será instalado logo ali, ao lado da fronteira russa.

E, claro, Putin tem tudo isso em mente neste momento. Não será surpresa, por outro lado, se o governo americano passar a reforçar o discurso de democracia em Moscou. Afinal, o descontentamento do Kremlin pode induzir à dificuldade da passagem de suprimentos americanos para as tropas do Afeganistão, por exemplo. Esta polarização pode ter consequências mais graves. A Rússia já costumava embarreirar os interesses de Washington no Conselho de Segurança da ONU. Agora, deve tornar compulsória esta oposição.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Obama e o avião perdido para o Irã

O pedido do presidente Barack Obama para o Irã devolver o avião não-tripulado capturado no último dia 4 é o símbolo máximo da ingenuidade de Washington. Ou então de uma sagacidade ainda incompreendida por todo mundo. Como não acredito que a política externa da maior potência mundial é construída sobre esses pilares, fico com a posição de que a Casa Branca quer, mais uma vez, demonstrar não estar disposta a levar adiante qualquer tipo de confronto mais aprofundado com Teerã.

Isso porque, como escrevi na última semana, os americanos sabem que o momento atual é de disputa interna na República Islâmica. E a guerra política por lá pode ter consequências regionais ainda mais profundas. Se com Ahmadinejad na presidência é ruim, com Qassam Suleimani, comandante da Guarda Revolucionária, a situação pode e deve ser pior. Talvez isso explique, em parte, a acomodação dos EUA neste caso – até porque, por mais que haja riscos de a inteligência iraniana extrair dados militares americanos deste avião, ao que parece esses riscos são mínimos; trata-se de um equipamento que envia imagens para quem o opera em terra, mas não armazena informações em quantidade significativa.

É provável que a perda do avião seja um mal menor para os americanos. Que Ahmadinejad leve esta vitória política, que sirva ao menos para impedir Suleimani de ganhar ainda mais força. Este raciocínio pode parece absurdo, mas vale lembrar que, quando se trata do Irã, Obama tem optado por acomodar a situação, empurrando o quanto pode qualquer definição mais clara. E vai fazer isso pelo menos até as eleições presidenciais de 2012.

O problema desta estratégia silenciosa é justamente fornecer munição política ao Partido Republicano. O que Obama espera que seja esquecido certamente será usado nos debates do ano que vem. Os republicanos vão tomar o caso do avião não-tripulado como o símbolo máximo da capitulação Democrata diante da República Islâmica. E, não se enganem, este é o tipo de retórica bastante poderosa nos EUA.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A Turquia se transforma no superestado do Oriente Médio

A situação cada vez mais deteriorada na Síria é importante do ponto de vista regional e global. Ela também explica em boa parte a ascensão de um ator mundial que dia a dia assume status de crescente influência: a Turquia. O governo de Ancara talvez seja um dos principais beneficiados da Primavera Árabe, mesmo que o movimento não se consuma sobre os pilares dos sonhos ocidentais.

A Turquia mantinha uma política externa que parecia muito clara: forjou alianças com os atores islâmicos de poder (Síria e Irã) na tentativa de obter popularidade entre a população islâmica. Afinal de contas, Ancara era um governo aliado às ambições de “libertação” contra as muitas tentativas de presença ocidental no Oriente Médio e, ao mesmo tempo, usufruía de condições únicas (como já listei algumas vezes por aqui); assento na Otan, economia de mercado relevante e que mantém índices de crescimento bastante consideráveis mesmo nesses tempos de crise e, finalmente, um sistema político que conjuga islamismo e democracia. A Turquia é popular graças ao primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, mas também porque conseguiu se estabelecer como a representação oficial dos muçulmanos junto ao Ocidente. E, principalmente, uma representação que sabe jogar pesado quando necessário, que não se curva diante das pressões.

Este discurso é muito poderoso e as autoridades turcas sabem fazer uso dele com muita habilidade. A repressão que Bashar Assad coordena aos manifestantes antirregime desde março acabou por mudar um pouco a linha de raciocínio da cúpula política de Ancara. Os turcos adaptaram parte de sua estratégia; “o grande pai dos islâmicos” que patrocinou a Frota da Liberdade, por exemplo, passou a incluir a proteção à população muçulmana também quando ela é vítima de seus próprios governantes. A Turquia precisou ser flexível e foi bastante perspicaz ao entender rapidamente as mensagens das ruas árabes durante as manifestações populares.

Assim, no lugar de simplesmente ser parte do eixo político contestador, o país deixa claro que se transformou num ator independente que não mantém necessariamente vínculos com os Estados muçulmanos, mas com a população comum muçulmana. Este foi o pulo do gato de Erdogan. E por isso rompeu com o presidente sírio Bashar al-Assad. Esta estratégia tem se mostrado vitoriosa de uma maneira muito rara. Hoje, a Turquia é admirada pelos cidadãos comuns dos países islâmicos, mas também é reconhecida pelo Ocidente. EUA e União Europeia enxergam em Erdgoan e em seu governo uma ponte para o Oriente. Este é o melhor dos cenários porque coloca a Turquia na posição privilegiada de superestado, quase uma entidade a representar justiça e bom-senso na região mais conturbada do planeta.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Irmandade Muçulmana sai na frente nas eleições no Egito

Os primeiros resultados das eleições egípcias não são nada animadores ao Ocidente. O islamismo político obteve 60% dos votos, provocando um clima de desapontamento e preocupação pelo menos entre EUA e União Europeia. Não é possível dizer, no entanto, que esta situação seja surpreendente. Vitoriosa na Tunísia e amplamente popular graças à Turquia, a união entre religião e política aparece como o grande modelo de sucesso entre esses países que acabaram de derrubar seus ditadores históricos.

A equação encontrada pela Turquia é sonho de consumo não simplesmente pela forma como promove uma maneira de manter o islamismo aliado à democracia. Longe disso. O governo de Ancara é líder regional indiscutível e o primeiro-ministro Erdogan é a figura política mais popular nos países muçulmanos. Todas essas características não podem simplesmente ser esquecidas quando se pensa em alguma forma de análise quanto ao futuro do Egito. No entanto, é bom que se diga que não necessariamente a Irmandade Muçulmana aplicará o modelo turco – o que, diante das demais alternativas, seria de bom grado a EUA e UE.

Agora, em relação à ascensão política da Irmandade Muçulmana: é um fato que desaponta por conta também de uma visão um tanto inocente da imprensa ocidental. Todos acreditavam que a queda de Mubarak seria sucedida por um governo democrático nos moldes de França, EUA, Brasil etc. A democracia não resolve todos os problemas e ela não é resposta a tudo. Todo mundo acreditou que a democracia egípcia seria seguida também pelo respeito às liberdades individuais e aos direitos humanos. Este pensamento é lógico no Ocidente pela simples razão de que a ideia de um regime democrático jamais é dissociada desses valores.

Todos parecem se esquecer da ascensão política do Hamas por meio de eleições democráticas palestinas em 2006. O simples processo eleitoral democrático não garante absolutamente nada. E é exatamente isso o que ocorre no Egito neste momento. A Irmandade Muçulmana recebeu, por ora, 37% dos votos; os salafistas – que defendem, dentre outras iniciativas, a adoção de impostos adicionais aos cristãos egípcios pelo simples fato de eles não serem muçulmanos – estão em segundo lugar com 24%. A massa de gente que brigou na Praça Tahrir causou uma ilusão coletiva de que o Egito estava pronto para se tornar um Estado laico e democrático. Por ora, as urnas mostram que esta não é a vontade popular. Tanto que o partido liberal Bloco Egípcio conquistou somente 15% dos votos.

O melhor a fazer neste momento é justamente esperar e ver o que deve acontecer. Acredito que mesmo um governo liderado pela Irmandade Muçulmana deverá tentar algum tipo de acomodação com os ocidentais. Principalmente porque, como escrevi, o Egito conta com três bilhões de dólares em ajuda anual dos EUA. Não me parece que o sucessor de Mubarak poderá abrir mão desta quantia. Atualmente, o turismo está parado (por motivos óbvios), o país perde um bilhão de dólares por mês em reservas cambiais e 25% dos jovens estão desempregados. Este é um cenário que praticamente obriga qualquer líder a deixar ideologias de lado e a pensar de maneira pragmática.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Rússia: está na hora de Putin e Medvedev pegarem leve

Os resultados das eleições parlamentares na Rússia mostram um quadro desfavorável a Putin e Medvedev – respectivamente, primeiro-ministro e presidente do país. Os aliados que se revezam no poder há quase 12 anos sofreram um revés que tem sido classificado pela imprensa internacional como humilhante. A Rússia Unida (RU), a legenda de ambos, recebeu pouco menos de 50% dos votos. Ainda é um número expressivo, mas aponta redução de 77 cadeiras na Duma, o parlamento russo, forçando o partido a formar coalizões com os demais.

Na prática, o processo eleitoral do país tem repercutido também pelas evidências de fraude. Jornalistas russos denunciam ter visto grupos de partidários do RU votarem mais de dez vezes; há vídeos e imagens postados no Facebook e Youtube mostrando coerção oficial a eleitores e urnas violadas. Observadores europeus não avalizaram as eleições por todas essas razões.


Diante de tudo isso, mesmo os pouco menos de 50% conquistados por Putin e Medvedev representam uma marca muito boa para eles. Se fosse possível extrair um resultado limpo, no entanto, é bem possível que o RU obtivesse uma votação bastante inferior. Seja como for, os dois líderes estão assimilando o recado. Por mais insistentes que sejam, por mais autoconfiantes que se apresentem diante do público, vão sentir o golpe das urnas. O próximo desafio é a campanha presidencial cujas eleições estão marcadas para março do ano que vem. Alguém tem dúvidas de quem será o vencedor?

Na Rússia não há este tipo de questão. Putin não apenas apresentou sua candidatura, como também anunciou que será o próximo presidente. De novo. Neste cenário, o agravamento da polarização entre o futuro chefe de governo e a população pode precipitar um movimento urbano bastante similar ao da Primavera Árabe. Uma das grandes lições deste ano diz respeito justamente ao limite da pressão exercida sobre os insatisfeitos. Governantes que pretendem se estabelecer em seus cargos – não simplesmente ocupá-los por tempo determinado – passaram de temidos a desafiados. A votação na Rússia neste domingo reafirma esta mensagem.

Agora, Putin e Medvedev têm duas alternativas: ou pegam leve na repressão a jornalistas, dissidentes e membros da oposição ou mantêm a repressão atual e correm o risco de aprofundar o clima de impaciência vigente (principalmente em Moscou e São Petersburgo). E 2011 não parece um ano aconselhável para isso.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Irã ainda mais afastado da comunidade internacional

O distanciamento entre o Irã e o Ocidente chegou a seu momento mais agudo nesta semana. A invasão à representação diplomática britânica em Teerã é o ponto mais flagrante de uma relação que tem piorado ano após ano. Não se pode descontextualizar o momento, por isso é importante deixar claro que os iranianos estão especialmente incomodados não somente com as sanções, mas também com medidas “paralelas” tomadas pelos potências ocidentais para frear seu programa nuclear.

Vamos às mais relevantes: a sabotagem por computador das centrífugas de enriquecimento de urânio, os assassinatos de três cientistas nucleares do país e uma explosão ocorrida na última semanada na cidade de Isfahan que acabou por matar um general diretamente envolvido no desenvolvimento balístico. Todos esses eventos – ainda não esclarecidos – estão relacionados à guerra indireta que já está em curso. A escalada de acontecimentos, no entanto, deixa em aberto quais serão os próximos passos deste conflito cada vez menos silencioso.

O que fica claro, pelo menos por ora, é que o Irã está mais isolado da comunidade internacional do que nunca. Isso também se deve ao contexto regional: a Síria está envolvida com seus muitos problemas; e a Turquia parece ter rompido com Teerã pela razão óbvia de que os dois países estão mais para competidores pelo protagonismo no Oriente Médio do que para aliados. Os turcos estão muito preocupados com a situação na Síria por conta da crise humanitária no vizinho e também porque temem a possibilidade mais real do que nunca de fragmentação do Estado Sírio – o que deixaria os curdos em polvorosa e com chances reais de criação de seu país.

Curiosamente, a estratégia de isolamento sempre foi constante no discurso e nas práticas do próprio presidente Ahmadinejad. Direcionada a Israel, as táticas eram compartilhadas com os turcos e atingiram seu ponto alto com o episódio da “Frota da Liberdade”, no final de maio do ano passado. O problema para os iranianos é que, por conta da divulgação do relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o mundo voltou olhos e esforços para a iminente produção de armamento nuclear pela República Islâmica. E os iranianos reagem mal, muito mal, às pressões internacionais.

A tomada da embaixada britânica é uma retaliação. O problema para o Irã é que este tipo de operação serve apenas para deixar seus aliados ainda mais constrangidos. China e Rússia, por exemplo, se uniram ao uníssono coro internacional de condenação – o que é muito raro, diga-se de passagem. No entanto, as autoridades de Teerã parecem estar mais preocupadas no momento em conseguir uma espécie de união nacional. Isso é muito ruim porque dá a impressão de que o país se prepara para eventos externos graves e também porque distancia ainda mais os iranianos da comunidade internacional, deixando o caminho aberto para a eleição de um previsível governo ainda mais radical e nacionalista do que o representado pelo presidente Ahmadinejad.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O ataque à embaixada britânica no Irã e a reviravolta política iraniana

O ataque de “estudantes” à embaixada britânica carrega em si uma série de significados sobre as relações internacionais do Irã e também acerca das questões políticas internas da República Islâmica. Para começar, a interação entre iranianos e britânicos nunca foi das melhores, uma vez que Teerã – e os líderes que estão no poder há pelo menos três décadas – nunca perdoaram de verdade o apoio do Reino Unido ao xá Reza Pahlevi. Não foram poucas as vezes, inclusive, que o próprio Mahmoud Ahmadinejad exigiu que EUA e Grã-Bretanha pedissem desculpas pelo golpe que, em 1953, derrubou o então primeiro-ministro, o nacionalista Mohammad Mossadegh.

As invasões às duas representações britânicas em Teerã têm a ver com isso, sem a menor dúvida. Mas há outras razões que explicam esses eventos. A primeira delas é muito recente e foi amplamente divulgada: a nova rodada de sanções aplicada por Canadá, EUA e Grã-Bretanha. Coube a Londres tocar fundo num ponto realmente importante aos iranianos; o Banco Central. Ao impedir transações com o principal agente financeiro governamental de Teerã, os britânicos conseguiram atrair o mais profundo ódio da esfera política da República Islâmica. Tanto que, depois disso, houve quase unanimidade entre os parlamentares iranianos quanto à redução dos contatos políticos entre os dois países. Dos membros do parlamento, somente quatro se posicionaram contra as medidas. E esses quatro se opuseram porque queriam que as relações fossem totalmente rompidas, não reduzidas.

É claro que esta votação no parlamento, realizada no último domingo, teve influência direta nos acontecimentos desta terça-feira. Mas há um outro fator por trás deste movimento. O crescente radicalismo da política iraniana não atende pelo nome de Mahmoud Ahmadinejad, por mais incrível que isso pareça. Conhecido por sua retórica antissemita, antiocidente e antiamericana, o atual presidente sofre enorme pressão política interna. Seu maior rival é Qassem Suleimani (foto), comandante da Força Quds, unidade responsável pelas operações internacionais da Guarda Revolucionária. As imagens das invasões de terça mostram muitos dos “estudantes” carregando cartazes com fotografias de Suleimani.

Cada vez mais popular internamente, a Guarda Revolucionária se reafirma como pilar político doméstico. Como informa o jornal britânico Guardian, as Forças Quds – e a Guarda Revolucionária como um todo – dependem dos dividendos do petróleo para continuar a operar. Como as transações comerciais de petróleo dependem, por sua vez, do Banco Central, basta ligar um ponto a outro. Está muito claro que as novas sanções surtiram efeito. O problema, agora, é decidir o que se espera com isso. É claro que essas medidas são preferíveis a um ataque militar, mas elas também podem ter consequências igualmente graves.

Afinal de contas, se a situação com Ahmadinejad é ruim, com Suleimani ela certamente será muito pior. Uma eventual vitória política de um duro comandante militar pode marcar o rompimento definitivo entre o Ocidente e o Irã.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Eleições no Egito e as complicadas transformações geopolíticas locais

O processo eleitoral egípcio não é somente longo, mas também lento e confuso. As eleições que começaram nesta segunda-feira serão realizadas em três etapas, tendo como ponto final o dia 11 de março de 2012. Aliás, o esforço de burocratização é tão grande que há inúmeras questões nisso tudo. Por exemplo, mesmo após encerradas no terceiro mês do ano que vem, ainda haverá muitas dúvidas. Os parlamentares já estarão escolhidos, mas ninguém poderá dizer se o país será de fato um Estado democrático.

Principalmente devido à lacuna que mais atormenta os manifestantes da praça Tahrir: quando o Conselho Supremo das Forças Armadas irá largar o poder? Por mais que eleições parlamentares supostamente limpas (e esta também é uma dúvida em aberto) representem por si só um avanço, os manifestantes que estão nas ruas exigem um governo civil. E isso o Egito não tem hoje. O cronograma oficial estabelece a realização da eleição presidencial somente em julho de 2012. Até lá, ninguém sabe o que poderá acontecer.

Mesmo depois disso, o futuro egípcio permanecerá como um grande ponto de interrogação. Principalmente porque há a promessa de o parlamento e também da junta militar redigirem uma nova constituição. E aí reside um dos aspectos mais intrigantes de todo este processo: qual será o papel do islamismo político na condução deste “novo” Egito? Ainda é cedo para elucubrações por conta dos resultados ainda desconhecidos deste pleito parlamentar. Mas não há dúvidas quanto à presença do islamismo político na formação do Egito pós-Mubarak – o que causa pavor aos EUA.

Aliado histórico americano, influente ator árabe, pilar de sustentação do Oriente Médio e primeiro país árabe a assinar um acordo de paz com Israel, o Egito é um dos Estados mais importantes da região por muitos motivos distintos. Se a Casa Branca parece não ter se importado com a vitória do partido islâmico Ennahda na Tunísia é porque o peso do país é muito menor e também porque o islamismo político tunisiano também é bem diferente daquele representado pela Irmandade Muçulmana. O Ennahda quer aplicar na Tunísia um modelo similar ao da Turquia e se autodeclara uma legenda moderada. Como se sabe, não é este o caso dos islâmicos egípcios.

Se a Irmandade Muçulmana conseguir a maioria dos assentos e um papel de protagonismo no Egito, causará problemas ao presidente do EUA. Barack Obama será obrigado a interagir pela primeira vez com um grupo que tem no discurso anti-israelense uma de suas principais plataformas. Obama precisará encontrar uma solução complicada para esta equação, já que não será possível simplesmente ignorar o novo governo egípcio, mas também terá de lidar com pesadas críticas domésticas às vésperas das eleições presidenciais americanas.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Uma possibilidade real e preocupante no Egito

Essa nova onda de protestos no Egito é muito inconveniente aos EUA, mas bastante satisfatória à Irmandade Muçulmana. A situação de tranquilidade do grupo é fruto da incompetência na gestão do país pelo Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), da conjuntura regional e também de um pouco de sorte.

O CSFA se atrapalhou graças à própria ambição. Se tivesse agido conforme prometido, teria providenciado eleições parlamentares e presidenciais o mais rápido possível. Mas, ao sentar sobre o poder e ser seduzido pela possibilidade de liderança política, perdeu a mão e a credibilidade junto à população. Os protestos são a consequência mais óbvia disso. Os militares no Egito são como aqueles zagueiros atrapalhados que, ao recuar a bola para o goleiro, acabam deixando o atacante adversário na cara do gol. E é isso o que está acontecendo.

A Irmandade Muçulmana já estava em vantagem desde fevereiro. Porque, mesmo durante os anos da ditadura Mubarak, conseguia eleger seus representantes sob o subterfúgio da candidatura independente dos parlamentares. Assim, como alardeado durante o processo de derrubada do ex-presidente, o grupo é o mais organizado politicamente. Um outro aspecto importante diz respeito à visão da população mais humilde. Para esta camada, a Irmandade foi a única a conseguir se firmar como oposição a Mubarak. E há alguma razão nisso.

A conjuntura regional também é favorável. Na Tunísia, os islâmicos organizados politicamente saíram vitoriosos do novo processo eleitoral. Com a pretensão declarada de aplicar um modelo similar ao da Turquia, seduziram não apenas os eleitores, mas também o ocidente. Se é possível conviver com os islâmicos de Ancara, também é possível negociar com os da Tunísia.

A sorte da Irmandade Muçulmana egípcia está no conjunto de todos esses fatores, mas também no fato de que o grupo não precisa fazer nada em oposição ao que o próprio ocidente espera que aconteça. Pelo menos, não por ora. A luta da população contra a junta militar é para que ela realize eleições. A Irmandade Muçulmana quer o mesmo. Justamente porque sabe que, no pleito que tem início na próxima segunda-feira, ela tem tudo para se tornar o grupo com maior representatividade no parlamento. É a democracia trabalhando a favor de um grupo islâmico abertamente radical em suas posições.

Não será a primeira vez que isso vai acontecer. Logo ao lado, em Gaza, em 2006, o Hamas participou e venceu as eleições parlamentares palestinas. E o que aconteceu? O grupo matou integrantes do Fatah – partido majoritário que compõe a moderada Autoridade Palestina – e os que sobreviveram à guerra interna foram expulsos para a Cisjordânia. Até hoje, não podem retornar. É claro que ninguém pode garantir que o mesmo irá acontecer no Egito (até porque se trata de um país estabelecido, com 80 milhões de habitantes e membro pleno da comunidade internacional), mas é uma lembrança recente de um evento de características parecidas. É o bastante para deixar todo o mundo preocupado.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

As forças armadas possivelmente irão recuar no Egito

Com o número de mortos aumentando no Egito, a situação num dos principais pilares do Oriente Médio se torna ainda mais grave. Se a derrubada de Hosni Mubarak após 18 dias de protestos provocou otimismo internacional, houve uma falsa interpretação de que os egípcios haviam resolvido o problema. O país era o ponto de ebulição da Primavera Árabe e também receberia suas primeiras benesses. Por se tratar de um aliado americano e com grande penetração nos organismos multilaterais, deveria ser o que mais facilmente se adaptaria às demandas populares.

O Egito seria uma espécie de palco de vanguarda deste novo mundo árabe. A queda de Mubarak marcaria o início de uma nova era nacional que, se bem trabalhada – e havia indícios para se acreditar nisso –, poderia se espalhar pela região positivamente. O Egito tinha tudo para ser um belo exemplo aos demais países árabes. O problema é que havia um impedimento prático a isso: os militares.

É importantes dizer que as forças armadas egípcias se apoderaram de funções pouco comuns a militares.São os principais agentes econômicos do país e estão direta ou indiretamente ligados à gestão ou participação de 70% dos negócios nacionais. Como escrevi durante a derrubada do ditador Mubarak, o espectro de empresas vai de tanques de combate à fábricas de liquidificadores. Ou seja, qualquer um que conhecesse um pouco do tecido social e econômico egípcio poderia supor que o exército não estaria satisfeito com o papel de mero coadjuvante nesta nova oportunidade política que se descortinou.

Deu no que deu. O problema é que esta sede por poder pode se transformar num tiro no pé e num tiro para o alto – este último pode cair bem perto dos EUA. O exército passou de herói a vilão na visão das pessoas comuns. Isso está muito claro. O problema é que, desde a queda de Mubarak, os EUA têm estabelecido contatos próximos e intensos com as principais figuras militares do Egito porque, na prática, simplesmente ficaram sem interlocutores num aliado importante no Oriente Médio. Antecipando-se à ira popular, Washington adotou a única estratégia possível: condenar a morte de civis durante a nova leva de protestos e exigir que as eleições presidênciais democráticas sejam realizadas o quanto antes.

O tiro no pé que mencionei diz respeito a uma informação bastante conhecida. Maior financiador do Egito, os americanos entregam aos cofres egípcios três bilhões de dólares anuais. Deste total, 1,3 bilhão em ajuda militar. Caso não cumpram a cartilha americana, a Casa Branca tratará de fechar as torneiras. Simples assim. Por isso, é bem possível que as forças armadas recuem diante da enorme pressão popular e internacional.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A revolução em risco no Egito

Quando eu colocava muitas barreiras antes de classificar a derrubada de Hosni Mubarak, no Egito, como uma revolução era porque temia que o termo fosse banalizado. O que está acontecendo neste instante no Cairo mostra que é preciso mais cuidado do que entusiasmo ao se analisar um fenômeno político. Ninguém discute que a queda do presidente egípcio que comandou o país por 30 anos seja um evento de grande importância, tanto que se insere num contexto mais amplo de mudanças regionais. No entanto, não se trata de uma revolução. Pelo menos, não ainda.

Revolução é reforma, mudança de paradigma mesmo. Se – ou quando – houver uma democracia de verdade no Egito, aí sim a revolução terá de fato existido. Por ora, o que se vê é simplesmente o poder mudando de mãos. O Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) que controla o país deveria ser, em tese, um mero instrumento de transição entre o fim da ditadura Mubarak e a posse de um governo civil democraticamente eleito. No entanto, há cada vez mais sinais de que os militares não estão dispostos a largar o osso tão facilmente. Por conta disso, a mesma dinâmica de manifestações que derrubou o ex-presidente voltou a tomar a simbólica Praça Tahrir (talvez o lugar mais importante do ano em todo o mundo). A diferença está na reação do exército.

Se em fevereiro deste ano os militares contrariaram as ordens de Mubarak e se uniram aos protestos, desta vez agiram de maneira distinta. Segundo dados oficiais, já há mais de 1,5 mil feridos e 23 mortos. E aí fica a questão: a menos de uma semana das eleições parlamentares, por que agir desta maneira? Por que o padrão de comportamento militar mudou de forma tão abrupta? A atuação do CSFA desde sábado também coloca em dúvida a própria capacidade deste governo transitório de realizar eleições limpas.

Os egípcios estão ansiosos para mudar o país. Não apenas pelas décadas de Mubarak, mas também pela força que a população percebeu deter ao ir às ruas e forçar o fim da ditadura. No entanto, se as eleições da semana que vem ficarem sob suspeita, ninguém sabe qual será o futuro não apenas do Egito, mas também da Primavera Árabe e da própria atuação americana na região. Por ora, os EUA têm trabalhado em silêncio ao lado do CSFA, na esperança de que a situação se normalize e os militares cumpram o prometido de não intervir no processo político. Mas, se o exército for acometido por um desejo incontrolável de tomar o poder (e já há rumores de que o regime de transição planeja realizar eleições presidenciais somente em meados de 2013), Washington irá se afastar desta administração militar.

 
E aí algo curioso deve acontecer: os 3 bilhões de dólares anuais de ajuda americana podem ser suspensos até que a democracia seja restabelecida no Egito. Afinal de contas, o que a Casa Branca menos precisa agora é perder um aliado estratégico por ser identificado com o estabelecimento de mais uma ditadura no Oriente Médio.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Occupy Wall Street representa o renascimento dos EUA

Para completar a discussão em torno do movimento “Occupy Wall Street”, alguns pontos interessantes a serem discutidos. Acho que as manifestações têm surtido efeito, apesar de toda a injustificável truculência policial para contê-las. Como escrevi na quarta-feira, em tempos de tentativa de reversão da imagem internacional do Estado americano, o uso de força para acabar com protestos pacíficos representa um gol-contra daqueles. Ainda mais quando lembramos os significados e acontecimentos deste importante ano de 2011.

No fundo, ninguém esperava do país mais orgulhoso de sua democracia a condução tão equivocada dos acontecimentos . Principalmente porque o alvo do poder coercitivo são cidadãos americanos desarmados que, assim como em muitos períodos da história do país, querem apenas protestar. De qualquer forma, sob o ponto de vista dos manifestantes, já se pode dizer que eles participam de um movimento vitorioso. Li numa matéria da agência de notícias Reuters uma definição interessante e que mostra bem como a discussão está acalorada nos EUA.

“Qualquer que seja seu futuro, está claro que, até agora, os manifestantes não mudaram as opiniões em Wall Street quanto à culpa pelo período difícil que o país atravessa”. Parece-me que há uma grande incompreensão em relação aos objetivos do movimento. Certamente, a ideia não é mudar a cabeça daqueles que justamente participam desta dinâmica. Ora, quem seria inocente o bastante para imaginar que isso seria possível? Por que os maiores beneficiados por este sistema aceitariam reduzir seus lucros?

Esta premissa é furada por muitas razões, mas principalmente porque o objetivo dos manifestantes não é convencer os executivos financeiros de que eles são protagonistas de uma ordem injusta. Isso não seria apenas ridículo, mas também improdutivo. “Occupy Wall Street” venceu porque conseguiu transformar a desigualdade americana numa discussão da ordem do dia. Nos últimos anos, este assunto era tabu e estava varrido para debaixo do tapete graças ao poderoso lobby dos correligionários do Tea Party, que são simplesmente contrários à presença do Estado e, por defender este distanciamento, exigem menos cobrança de impostos (inclusive aos muito ricos).

OWS representa um sopro de vida a um país que se encontrava em estágio avançado de letargia popular.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Expulsão de manifestantes que ocupavam Wall Street é derrota institucional americana

Prefeitos das cidades americanas se uniram para acabar com os inúmeros movimentos populares que se tornaram conhecidos graças ao primeiro deles: o “Occupy Wall Street”. De forma até violenta, os políticos locais conseguiram ser “bem-sucedidos” ao encerrar acampamentos que tinham como objetivo protestar e chamar a atenção para a crescente desigualdade econômica e social dos Estados Unidos. No entanto, o que classificam como sucesso nada mais é do que um retumbante fracasso nacional.

Foto: senhora de 84 anos de idade é atingida por gás de pimenta lançado pela polícia em Seattle

Em primeiro lugar pelo o que é mais óbvio: a massa de americanos que se aglomerou principalmente nas grandes cidades é o retrato da falência do Estado naquilo em que ele deveria ter como seu objetivo principal; o bem-estar de seus cidadãos. Afinal de contas, as pessoas estão lutando por saúde, educação, moradia e trabalho. Não custa lembrar, os cidadãos americanos – assim como os de qualquer país – exigem que se faça justiça a partir dos impostos que pagam. Há um ditado cunhado pela cultura dos EUA que cabe bem neste caso: “não existe almoço grátis”.

De fato, ninguém quer nada de graça. A luta desses dias é pelo retorno do investimento que se faz diariamente através do pagamento de muitas taxas. O “almoço grátis” foi dado por Washington aos bancos privados – não à população comum – por meio da ajuda financeira que acabou nos bolsos de seus executivos. E isso parece ter sido esquecido. Este esquecimento é muito conveniente aos governos neste momento. O problema é que esta atitude é uma oposição aos chamados “valores americanos” - que nada mais são do que uma construção a partir de eventos-chave da história do país.

Quando cidadãos são expulsos sob os pretensos argumentos de que a ocupação de Wall Street viola princípios “sanitários” ou da “lei de silêncio” o Estado americano joga pela janela o histórico de lutas sociais de que tanto se orgulha. As justificativas apresentadas para pôr fim à livre e pacífica manifestação de ideias não são simplesmente ridículas, como também expõem os EUA no exterior de maneira perigosa. Como a Casa Branca diz apoiar a Primavera Árabe, por um lado, se, por outro, inviabiliza a democracia naquilo que é mais básico? Vai ser difícil desatar este nó.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Liga Árabe ameaça suspender a Síria

A Liga Árabe anunciou que pretende suspender a Síria da organização se até quarta-feira o governo de Bashar al-Assad não acabar com a violência contra os manifestantes populares, retirar seus blindados das cidades, libertar prisioneiros políticos e começar a dialogar com a oposição. É pouco provável que tantas mudanças aconteçam neste breve período de tempo. O que é importante ressaltar nisso é a própria decisão da Liga Árabe, um gesto político pouco comum de uma instituição que, sob seu “guarda-chuva”, aglutina outros Estados que infringem os direitos humanos tanto quanto a Síria.

É claro que esta decisão é digna de nota, principalmente porque demonstra um posicionamento positivo. Afinal de contas, apesar das inúmeras contradições intrínsecas à organização, não se pode esquecer que se trata de uma manifestação favorável não apenas à população comum da Síria, como também aos muitos manifestantes em diversos pontos do mundo árabe. No entanto, o poder de pressão da Liga Árabe é limitado. Diante da real e provável possibilidade de o regime Assad não atender às exigências, o que poderá ser feito? Nada, para ser bastante franco. Os exércitos árabes não se mobilizarão para conter o presidente sírio e sua matança de civis que, segundo a ONU, já tirou a vida de 3,5 mil pessoas desde março deste ano.

Num cenário mais amplo e estratégico, a quase unânime condenação a Damasco (com a aprovação de 19 dos 22 países-membros) está relacionada também à batalha silenciosa (cada vez menos silenciosa, diga-se de passagem) entre Estados sunitas e xiitas da região. Os sunitas – Egito, Qatar, Jordânia, Arábia Saudita, para citar os mais relevantes – disputam com os xiitas e seus aliados – Irã, Síria, Hamas e Hezbollah – a liderança do Oriente Médio. Já tratei deste assunto inúmeras vezes por aqui, mas é sempre importante retornar a ele na medida em que boa parte dos assuntos se relaciona a esta oposição mais ampla. A Liga Árabe e sua decisão de condenar a Síria acaba por deixar esta disputa ainda mais evidente.

Aliada ao Irã, a Síria é um dos atores regionais mais importantes do Oriente Médio. Por seu poderio militar e posição geográfica estratégica, é também um dos que causam maior preocupação. Ao colocar os sírios contra a parede, a Liga Árabe também acaba, por consequência, expondo a situação de impasse que se configura: uma ofensiva militar ocidental para derrubar Assad causaria grandes estragos regionais e transformaria a guerra retórica existente entre sunitas e xiitas num conflito de fato. Os acontecimentos que se sucederiam a partir do início de uma eventual iniciativa como a que derrubou Kadafi na Líbia são tão previsíveis que, sem medo de errar, apresento-os agora: em alguma ordem – ou talvez até simultaneamente –, o Irã atacaria a frota americana estacionada no Golfo Pérsico; a Síria mobilizaria o Hezbollah no Líbano para bombardear a fronteira norte de Israel; e, possivelmente, o Hamas lançaria mísseis em direção ao sul do território israelense.

Por tudo isso, EUA, Israel, União Europeia e a Otan não estão dispostos a pressionar Assad militarmente.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Por que é difícil aceitar os argumentos do Irã

A primeira resposta do governo iraniano ao relatório divulgado pela AIEA foi a mais óbvia de todas: deslegitimar a agência, claro. O argumento é até bastante válido. Para Teerã, o organismo é “politicamente motivado”. Esta é até uma posição que pode seduzir os mais inocentes e faz algum sucesso internacional. O que não se pode esquecer, no entanto, é que qualquer grupo ou entidade exerce sempre manifestação política sobre qualquer assunto. A própria ONU é um ator político internacional. Por que a AIEA – uma de suas agências – não seria?

Não se pode é, por conta desta conclusão óbvia (ela mesma uma manifestação política, diga-se de passagem), invalidar o relatório apresentado. Se a AIEA é uma instituição politicamente motivada, é bom lembrar que esta mesma instituição que o Irã tenta deslegitimar foi a maior opositora à invasão americana do Iraque, em 2003. Há menos de oito anos, ela manteve sua posição firme de que as armas de destruição em massa de Saddam Hussein se tratavam apenas de uma invenção do ex-presidente George W. Bush para justificar a nova ofensiva. Na época, quem contestou a posição da AIEA? Pois é.

O programa nuclear iraniano atrai a preocupação de boa parte do mundo por culpa mesmo de seus próprios governantes. Ora, este é o mesmo regime que não desperdiçou nenhuma oportunidade de afirmar publicamente o desejo de “varrer Israel do mapa”. Se é bravata ou mera provocação, não faz nenhuma diferença, sinceramente. Como se pode exigir que um membro da ONU aceite que outro membro da ONU que sempre fez questão de demonstrar tais intenções obtenha armamento capaz de transformar tal manifestação em realidade?

Acredito que Israel faria oposição às ambições nucleares do Irã mesmo se Ahmadinejad fosse menos radical em suas posições. Isso por conta da doutrina israelense de defesa sobre a qual comentei nesta quarta-feira. No entanto, este seria um assunto muito menos polêmico. Há alguns jornalistas e comentaristas que tentam relativizar a situação. É difícil compreender seus pontos de vista. Trabalham com uma lógica torta de que Teerã simplesmente quer entrar para um “clube” do qual já fazem parte outras potências nucleares. Seria uma espécie de direito de igualdade. Isso não faz o menor sentido. Em primeiro lugar porque a tendência é de diminuição dos arsenais nucleares, não de corrida para obter ainda mais armamento; em segundo porque o Irã não está ameaçado por qualquer outro país com arsenal atômico (diferente dos vizinhos nucleares Índia e Paquistão, por exemplo).

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Revelações sobre programa nuclear do Irã colocam todo mundo em maus lençóis

O relatório divulgado no final da tarde desta terça-feira (horário de Brasília) pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) simplesmente confirmou com mais dados e informações o que todo mundo já sabia: o programa nuclear iraniano tem fins militares. Este é o tipo de evento que divide não apenas os países, mas as próprias estratégias a serem adotadas a partir de agora. Como um leitor comentou no meu último post sobre o assunto, “não fazer nada não é uma opção”. Ele está certo. E esta certeza compartilhada pela União Europeia, EUA, Israel e até pelos Estados árabes sunitas é que muda o jogo definitivamente.

Estão lançadas algumas das pergunta que tiram o sono de boa parte dos líderes mundiais: como impedir o Irã de obter armamento nuclear? O mundo está disposto a aceitar que o regime de Teerã dê este salto estratégico? No caso específico de Israel, o Estado judeu conviveria com esta nova realidade?

Pois é, não são questões fáceis de serem resolvidas. E certamente envolvem Israel e EUA e os posicionamentos de seus respectivos governos. Do ponto de vista israelense, a doutrina de segurança determinante a todas as decisões do país é até bastante simples de ser compreendida: nenhum inimigo regional ou ator que represente alguma ameaça pode estar em condições de igualdade ao Estado judeu. Isso porque a história israelense não permite que o país corra o risco de perder algum confronto. No caso específico do Irã, acho que ninguém contesta seus “atributos” de inimigo e ameaça a Israel, certo?

Diante desta realidade, Jerusalém tem na prática que escolher entre duas opções muito difíceis: atacar o Irã – mesmo sem o apoio dos EUA e da comunidade internacional, se for este o caso – ou abrir um precedente único e histórico em sua doutrina de segurança e conviver com a sombra de um regime liderado por Khamenei e Ahmadinejad aditivado por uma bomba atômica capaz de mandar Israel pelos ares num aperto de botão. Para ser bastante franco, os israelenses não vão correr este risco. Se Teerã não interromper seu programa nuclear de uma maneira ou de outra, os iranianos serão impedidos militarmente e, se necessário, unilateralmente.

A discussão nos EUA neste momento diz respeito à disposição de Barack Obama de levar a sério esta iniciativa. Assim como abordei este assunto na última sexta-feira, muita gente tem feito o mesmo. A variável das eleições no ano que vem tem sido citada, claro. Eu concordo com ela e também me aprofundei nesta questão, inclusive. Possivelmente, a Casa Branca vai tentar de todas as formas convencer os membros do Conselho de Segurança da ONU, por um lado, e Israel, de outro, de que as medidas são fundamentais e capazes de frear o planejamento do Irã.

A tendência mesmo é que os israelenses esperem por algum período até tomar alguma atitude. O problema é que este prazo não é indefinido e talvez novembro do ano que vem seja tempo demais. E aí caberá a Obama uma das questões mais complicadas enfrentadas por um presidente americano nos últimos tempos: atacar o Irã, aumentando os gastos em tempo de crise ao iniciar uma nova guerra no Oriente Médio; ou não fazer nada e correr o risco de passar à história como o líder que colocou a própria existência do Estado de Israel em risco.

Irã nuclear: aviso aos leitores

Em meio a tantas questões internacionais igualmente importantes, optei por dedicar o texto desta quarta-feira ao relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) com novas revelações sobre o programa nuclear iraniano. A escolha segue uma lógica editorial, uma vez que os assuntos relacionados ao Oriente Médio têm sempre destaque por aqui. Mais tarde, publicarei o post.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Se a crise grega se aprofundar na Itália, o euro correrá mais riscos do que nunca

O primeiro-ministro grego, George Papandreou, topou o jogo político do possível e pediu demissão. Um governo de coalizão deve ditar os rumos da Grécia a partir de agora. No entanto, há uma grande contradição nisso tudo: o próximo líder do país será nada mais do que uma figura representativa dos interesses da União Europeia. Afinal, não há opções a serem feitas, mas é preciso armar um teatro de conformidade capaz de enfiar goela abaixo da população as mais duras medidas restritivas já vistas. A verdade é uma só: em menos de uma década, a Grécia passou de país mais rico do balcãs a protagonista da crise que pode dar fim à UE como a conhecemos hohe.

Foto: Berlusconi tem uma bomba nas mãos pior do que qualquer um de seus muitos escândalos

A ideia é cortar de cara 50% dos débitos. Mas, mesmo este corte inicial está longe de resolver os problemas. A redução em 100 bilhões de euros ainda mantém a dívida em 256 bilhões de euros. Assim, contraditoriamente, a ajuda que o país receberá ao aprovar o pacote de medidas restritivas passa como trocado. O plano prevê que este furacão político será recompensado pela liberação da parcela inicial de oito bilhões de euros. Em perspectiva, tudo soa mais trágico, não?

Aos gregos, o euro sofreu uma grande transformação. A moeda era vista como o passaporte de igualdade no bloco, a senha que confirmaria um caminho de desenvolvimento e oportunidade. Agora, no entanto, para manter o euro, os gregos precisam abrir mão do mínimo de qualidade de vida. Para ser bastante franco, acho que é muito claro que há uma geração grega perdida. Ou emigram ou levarão uma vida muito ruim por tempo indeterminado.

A próxima “vítima” dos mercados deve ser a Itália. A tendência é que a crise se espalhe e se aprofunde por mais países. O caso italiano, porém, deve ser ainda mais grave. A visão em perspectiva ajuda novamente. Todo este problema na Grécia será mínimo se comparado à Itália. A economia grega é responsável por apenas 2% do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro. Já a Itália é a terceira maior economia do bloco, atrás apenas de Alemanha e França. Se o governo de Roma não for capaz de conter esta onda de crise, o euro estará seriamente em risco.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A guerra com o Irã e o dilema de Obama

Num desses telejornais noturnos que encerram o ciclo de notícias e análises do dia vi uma explicação de um professor brasileiro sobre a eventual ofensiva ao Irã. Segundo sua posição, Israel teria interesse nesta guerra de forma a acabar com seu próprio isolamento diplomático. Por mais que respeite as muitas teorias que se criam em torno de uma possibilidade militar como esta em questão, não concordo com ela. E por razões bastante simples, que tem a ver com o texto publicado por aqui nesta quinta-feira: ora, por mais que as alianças internacionais israelenses estejam enfraquecidas, a vida do país não está parada ou ameaçada (pelo menos não é esta a situação que se possa enxergar num curto prazo).

Já uma guerra aberta com os iranianos representa problemas sérios e práticos – dentre eles, inclusive, o risco de Teerã lançar armas atômicas sobre o Estado judeu. Tenho certeza absoluta que, por mais doloroso aos líderes israelenses este isolamento internacional, jogar com a própria existência do país para reforçar laços não é uma estratégia inteligente ou que faça algum sentido. E, ora, estamos falando de um governo conduzido por Benjamin Netanyahu e pelo ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman. Se as alianças internacionais de Israel tivessem sido prioridade em algum momento desde 2009, este governo teria tido outra atitude em praticamente todas as questões que dizem respeito à política externa. Como se sabe, não foi este o caso.

Agora, conforme prometido, alguns dados importantes sobre prazos que podem vir a determinar o período deste eventual – e fatal – confronto militar: um aspecto fundamental diz respeito à produção de armamentos do Irã. Segundo especialistas militares, em dois anos o país terá obtido seu sistema de mísseis balísticos. Além desta questão prática, há também os interesses políticos que correm em paralelo. Em novembro do ano que vem, o presidente Obama concorrerá à reeleição e precisará apresentar resultados positivos aos cidadãos-eleitores americanos. Na área internacional, dará ênfase à retirada praticamente completa dos soldados do Iraque, à derrubada de Kadafi, na Líbia, ao assassinato de Bin Laden e à acomodação no Afeganistão.

A partir daí, é preciso uma leitura um pouco mais aprofundada. Há duas opções em jogo: não fazer nada até as eleições, dando ainda mais prazo aos iranianos; ou entrar numa nova guerra no Oriente Médio – possivelmente, a mais complexa e arriscada delas. Se análise fosse aposta, eu apostaria que o presidente americano optará por novas sanções, freando qualquer ímpeto militar das lideranças políticas em Israel. Isso porque mandar mais americanos para morrer no exterior é o tipo de ordem que pode ameaçar de verdade o projeto de reeleição de Obama. No entanto, a situação do presidente é complicada mesmo. Se não fizer nada e de fato Teerã obter armamento nuclear a ser usado contra Israel, será acusado com veemência pelos republicanos. Afinal, este é o tipo de evento que altera a balança regional e coloca os israelenses pela primeira vez numa situação de empate com um vizinho declaradamente inimigo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Na guerra de EUA e Grã-Bretanha com o Irã, Israel é o país que tem mais a perder

O programa nuclear iraniano está de volta às manchetes. Isso porque a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) deve liberar, na próxima semana, um novo relatório com evidências de que a República Islâmica está, de fato, bem perto de produzir armamento atômico. Ao contrário do que as autoridades de Teerã afirmam, os fins não seriam pacíficos, mas militares. Segundo o britânico Telegraph, uma das principais informações deste documento a ser divulgado dá conta de que os iranianos estariam transportando urânio enriquecido das instalações de Natanz para Fordow (foto de satélite), próxima à cidade de Qom; o que causa ainda mais suspeita é o fato de esta base estar localizada no subsolo e revestida por material capaz de resistir a bombardeios.

Este é o início da retomada das discussões, é o detonador que inicia todos os demais movimentos. Segundo o jornal britânico Guardian, a nova exposição da AIEA deve ser um “game-changer”, ou seja, as informações serão tão contundentes que mudarão o cenário atual. Apesar de quatro rodadas de sanções aprovadas no ano passado, a organização deve provar com informações incontestáveis que os iranianos continuam a buscar armamento nuclear. A partir daí, caberá aos países que pretendem impedir o sucesso do Irã buscar outras opções.

À frente desta empreitada estão EUA e Grã-Bretanha. Entre os britânicos, inclusive, há certa animação para atacar o Irã. O Ministério da Defesa já trata, em linhas gerais, de como será esta guerra. Poucos soldados em terra e uso intenso das forças aéreas e navais. A frota já estuda os melhores pontos de ataque para o lançamento de mísseis Tomahawk. Mas onde fica Israel nessa história? É bom deixar claro que o Estado judeu é o maior interessado no assunto, sob todos os pontos de vista a serem analisados.

Israel é o país a que o Irã se refere como o que “deve ser varrido do mapa”. Israel é único que fica no Oriente Médio e alvo principal das provocações verbais iranianas; o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é a figura política internacional a enumerar sempre que pode as ameaças iranianas, levá-las a sério e, também, mostrar entusiasmo quando se cogita a possibilidade de um ataque às bases nucleares da República Islâmica. No entanto, atacar o Irã também significa pôr um enorme alvo no território israelense, nas representações do país no exterior e nas comunidades judaicas espalhadas pelo mundo.

Por tudo isso, esta é a grande discussão do momento em Israel. E, claro, não há unanimidade. Pesquisa encomendada pelo jornal Haaretz mostra uma divisão profunda: 41% dos entrevistados apoiam; 39% são contrários. Há ainda 12% de indecisos. Esta indecisão nacional é fruto de uma retroalimentação com o alto-escalão de poder. Enquanto Netanyahu e o ministro da Defesa, Ehud Barak, aparentam ânimo de frear as ambições nucleares iranianas militarmente, os que executariam tal tarefa mostram cautela. Figuras-chave da área de segurança e do exército não querem fazer o serviço. Pelo menos, não agora.

Se a britânicos e americanos uma guerra com o Irã acarretaria críticas internacionais, os israelenses teriam muito a perder na prática. A retaliação de Teerã seria pesada, uma vez que os mísseis de que dispõem alcançam qualquer cidade de Israel. Além disso, seus aliados na fronteira com o Estado judeu certamente iriam agir; o Hezbollah, na fronteira norte, e o Hamas, no sul. Entre todos os atores envolvidos num eventual ataque, Israel sem nenhuma dúvida receberia os danos mais graves. Mas há outros fatores que talvez empurrem o Oriente Médio para mais uma guerra. Este é um assunto para o texto desta sexta-feira.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Com a crise europeia, os chineses não se contêm de tanta felicidade

Após o estabelecimento da crise europeia e da solução encontrada para injetar dinheiro nos bancos, parece que todo mundo resolveu dizer que já sabia dos problemas que originaram esta convulsão. Isso é engraçado e fruto da natureza humana. Faz até algum sentido, mas não deixa de ser curioso que, até bem poucos anos, as vozes dissonantes ao projeto europeu e ao euro fossem pouco ouvidas. Uma das interpretações para o momento de quase falência atual conecta economia e política, claro.

Era difícil que o euro tivesse sucesso de longo prazo sem deixar os nacionalismos europeus de lado. A ideia inicial da União Europeia era formar um Estado supranacional, respeitando as características locais, mas sempre tendo claro que a UE representaria a todos eles. Isso não foi possível por algumas razões: faltou combinar com as pessoas. Elas não apenas questionam esta representação continental, como desconfiam de práticas já existentes. Por exemplo, o parlamento europeu tem sua legitimidade discutida com alguma frequência. Tanto que foram necessárias seguidas pressões e eleições para aprovar o funcionamento da instituição como porta-voz da política externa europeia.

Fora isso, o racha interno prejudicou o estabelecimento real de determinações. Grã-Bretanha, Dinamarca e Suécia jamais toparam aderir à moeda única (assim como outros sete estados).Transformar este projeto num bloco unificado de verdade exige sofisticação e mudanças de paradigmas e pensamento.

Se bem sucedida, a experiência certamente englobaria os demais membros e continuaria a servir de atrativo para os países que ainda estão de fora. No entanto, este momento não permite grande otimismo e a UE corre risco até de acabar. O que está para acontecer dá a dimensão da situação que está por vir: para salvar os bancos à beira da falência por conta da crise, serão necessários nada menos do que um trilhão de euros. E, diante da escassez, onde é possível encontrar tal quantia? A resposta vem dentro de um biscoitinho da sorte (ou do azar, dependendo da perspectiva). A China é o único país do mundo capaz de tirar a Europa deste buraco.

E, além do óbvio, esta ajuda vai custar um preço muito alto. A China vai cobrar que os europeus reconheçam a economia de mercado do país, o que alavancará ainda mais o poder chinês, facilitando a entrada de produtos no continente europeu.

Ou seja, para se salvar, a UE vai abrir mão da competitividade econômica e será inundada legalmente pelo poder da China – um golpe que pode demorar muito tempo para ser assimilado e cujos estragos poderão ser permanentes. Isso sem falar, claro, no capital de prestígio que os países do bloco deverão perder. Se juntarmos uma crise à outra e lembrarmos que Beijing também é a principal detentora de títulos do tesouro americano, entenderemos o resultado desta equação: graças a seu poder econômico, a China parece ter conseguido inverter a balança mundial. E assim nasce uma nova ordem planetária.