segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Obama e Cuba: o jogando com a coerência

No processo de reconciliação entre Cuba e EUA, Obama usou toda a sua capacidade de análise política – sua sagacidade estava em baixa, pelo menos em relação à política internacional. Ao anunciar publicamente a retomada de relações com Havana, o presidente ainda aproveitou para expor o Congresso para o mundo todo. Lembrando que este Congresso se opõe a ele e é um dos principais responsáveis pelos entraves internos. 

O foco do problema está na Câmara, onde um dos mais ferrenhos opositores à presidência, o republicano John Boehner, exerce liderança definidamente anti-Obama. E o presidente americano, ao anunciar ao mundo a conquista mais importante de seu mandato, fez questão de reforçar: o embargo é lei e, como tal, só pode ser derrubada pelo Congresso. Está dado o recado a quem quiser juntar as peças. De certa maneira também, Obama indica os caminhos que serão seguidos pelo seu sucessor, uma corrida em aberto mas cujo concorrente possivelmente será apadrinhado do atual presidente. Obama já é um nome forte na história do país e também nas fileiras do partido Democrata. Quem quer que venha a sucedê-lo no partido (possivelmente Hillary Clinton) irá assumir o compromisso de dar continuidade à política de abertura com Cuba. E os mesmos embates com o Congresso devem continuar. Principalmente se a configuração Republicana da Câmara se mantiver. 

Para além desta questão, a vitória diplomática de Obama é também uma conquista da coerência – algo raro na política, certamente raro na política internacional, mas que todo líder político tenta usar a seu favor. O jornalista James Fallows, do Atlantic, consegue resumir a grande contradição existente no impasse entre EUA e Cuba com o seguinte argumento:

“Se sucessivas administrações Republicanas e Democratas puderam enxergar o mérito em tentar interagir (e não excluir) com um Estado de partido único, repressivo e comunista – mesmo que este Estado tenha quatro vezes mais cidadãos do que os EUA, além de capacidade nuclear e adversário regional de vários aliados americanos – quanto é óbvia a situação de uma pequena ilha localizada à distância do olhar do território americano e que certamente irá cair diante da influência cultural e econômica dos EUA se lhe for dada a oportunidade?”. 

Fallows se refere ao que está na cara de todo mundo: a ambiguidade do discurso oficial no contraste que marca há décadas a distinta relação entre EUA e China. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Cuba e EUA: o dia em que Obama voltou a ser Obama

Ao anunciar a retomada de relações formais com Cuba, Obama reviveu seus dias mais gloriosos – aqueles esquecidos no passado recente de 2008 quando se tornou um fenômeno popolítico (ele merece o neologismo). 

Este é Barack Obama que lotou as ruas de Berlim, na Alemanha, no histórico discurso de julho de 2008. O presidente americano era a esperança de mudança, principalmente na política externa americana. Mas, desde que assumiu o cargo em janeiro de 2009, não conseguiu imprimir sua marca pessoal. Gosto sempre de fazer a ressalva da gravidade dos problemas que encarou. Como esta semana trágica mostrou, é muito mais complicado encontrar saídas quando existe um abismo profundo na maneira de interpretar o mundo. Como deixar o Iraque e o Afeganistão? Como combater os talibãs? Como encerrar de maneira lógica a Guerra ao Terror? 

Ainda não foi possível encontrar essas respostas. E mesmo as tentativas de Obama de ser pragmático não foram eficientes. No Oriente Médio, ainda não foi capaz de articular a retomada de negociações entre israelenses e palestinos. Pode parecer que já faz tempo, mas Washington (e, para ser justo, ninguém no Ocidente) não conseguiu ser parte do processo de transformação prometida pela Primavera Árabe que de fato não aconteceu. Muito pelo contrário. Se em 2011 o mundo foi surpreendido com a possibilidade de queda de ditaduras históricas e mudança de paradigmas, agora a realidade local é completamente diferente daqueles dias que se pretendiam transformadores. O Oriente Médio enfrenta os dilemas impostos pelo Estado Islâmico. A Primavera Árabe soa agora como um sonho do passado distante. 

Diante de tudo isso, Obama fez o óbvio. E fez certo, claro. Sua possibilidade de conseguir um feito que será lembrado para sempre estava logo ali ao lado. É muito mais fácil negociar com a racionalidade de Cuba do que continuar a tentar encontrar um caminho no Oriente Médio. Demorou quase seis anos, mas este dia chegou. O dia em que Barack Obama deixou sua marca na política externa americana e na História mundial.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O cenário mais amplo do atentado que chocou o mundo

O atentado suicida a uma escola no Paquistão foi um dos eventos mais chocantes do ano. Ele está inserido na disputa interna paquistanesa e, principalmente, no confronto entre o governo central em Islamabad e o chamado Talibã paquistanês, um arremedo de diversos grupos terroristas cujo principal objetivo é derrubar o governo e estabelecer a sharia, a lei islâmica. Assim como os acontecimentos no Oriente Médio, as disputas no limite entre o próprio Oriente Médio e a o Sudeste Asiático ganham proporções que extrapolam fronteiras nacionais. 

No caso específico do Talibã – e de sua “filial” no Paquistão –, os confrontos envolvendo os interesses do grupo no Paquistão têm a ver também com a Guerra ao Terror iniciada na sequência dos atentados de 11 de Setembro de 2001. Portanto, além do governo paquistanês, há também outros atores envolvidos, os EUA, por exemplo, além da ONU e dos demais países que passaram a combater o Talibã afegão. 

A região de fronteira entre Paquistão e Afeganistão é perene e extensa. Além da dificuldade de policiamento e controle de quem transita entre os dois países, o Talibã paquistanês tem bases de treinamento instaladas nesta área. Outros elementos para além da oposição entre Talibã e o governo de Islamabad são os fatores regionais mais amplos, como a oposição histórica entre Índia e Paquistão. Especificamente sobre as atitudes de Islamabad em relação ao Talibã paquistanês, vale lembrar que a pressão governamental sobre o grupo aumentaram após o atentado terrorista realizado em junho deste ano no aeroporto de Karachi, a maior cidade do país e principal centro econômico. As ações do exército do Paquistão se concentram no chamado Waziristão do Norte (veja a imagem acima). 

No próximo texto, vou publicar uma análise de uma jornalista paquistanesa.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A lógica da barbárie

Não há lógica na barbárie. A barbárie não precisa de explicações ou justificativas, mas de oposição e condenação da comunidade internacional. Os acontecimentos na escola paquistanesa são um exemplo de como o mundo precisa estar atento ao radicalismo. O fundamentalismo islâmico do Talibã e tudo o que ele representa ainda é uma ameaça real. Até para as crianças do Paquistão

O blog é de análise e continuarei a fazer isso. Mas o atentado do Talibã a uma escola é o tipo de evento que choca pela simples razão de ter acontecido. Por que mais de cem crianças que estavam estudando viraram alvo? Para o Talibã tudo se justifica:

“Nossos suicidas entraram na escola. É a vingança pela ofensiva do exército (paquistanês) no Waziristão do Norte”. Essas são as palavras do porta-voz do Talibã. Pois é. O Talibã entende que existe explicação capaz de justificar um atentado suicida dentro de uma escola. 

Nada mais a dizer.

O próximo texto vai ter mais análise. Este é só um lamento. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Ataque na Austrália apresenta a nova face do terrorismo internacional

O sequestro num café australiano é um ato terrorista. Na verdade, muito mais do que a reprodução do imaginário sobre o terrorismo, é um dos capítulos iniciais de eventos que devem se desdobrar de agora em diante; quando os atentados de 11 de Setembro inauguraram o século 21, a humanidade foi exposta ao terrorismo em sua configuração clássica: grandes grupos e suas células que passam meses ou anos em preparação, estudos e levantamento de recursos para a realização de ataques. O novo terror é exatamente o oposto disso. 

E o evento na Austrália é importante por mostrar ao restante do planeta esta modificação das ações terroristas. Se o início do século 21 apresentou o terrorismo em sua maneira mais organizada, a metade final de 2014 apresenta sua nova versão: a individualização do terrorismo, o que chamo de “terrorismo por inspiração”. O sujeito que sequestrou os clientes e funcionários do café australiano não é um membro formal do Estado Islâmico (também conhecido como ISIS), mas um identificado com sua ideologia e métodos. Certamente tem acompanhado a evolução do grupo desde seu rompimento com a al-Qaeda, certamente é atingido por suas mensagens no Twitter, certamente assiste aos vídeos de decapitações de ocidentais no Youtube. O modo de operação é muito similar ao de outro ataque individual ocorrido em outubro no Canadá. Na ocasião, um homem decidiu por conta própria atacar um soldado canadense em guarda num memorial de guerra e depois invadiu o parlamento. Acabou morto por um oficial. 

Os casos são semelhantes e apresentam um novo momento do jogo internacional. A configuração em que qualquer um identificado com o fundamentalismo islâmico age por conta própria e consegue usar praticamente qualquer objeto comum como arma para matar pessoas apresenta desafios complexos às autoridades. Na prática, não há como impedir a realização de ataques desta natureza. E tudo isso mostra como a estratégia específica do IS tem funcionado. Vale lembrar a declaração de Abu Muhammad al-Adnani que se encaixa perfeitamente nos eventos ocorridos na Austrália: 

“Se você puder matar um descrente americano ou europeu (...) ou australiano ou canadense ou qualquer outro dos descrentes em guerra – incluindo os cidadãos dos países-membros da coalizão contra o IS –, então confie em Alá e o mate de qualquer maneira (possível)”. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A grande chance de Obama II

Ainda sobre as dificuldades de Obama, vale lembrar a divulgação do relatório sobre a prática de tortura produzido pelo Comitê de Inteligência do Senado americano. A investigação confirma que muitos presos foram torturados de forma a revelar o que sabiam sobre possíveis ataques aos EUA. Isso já não era segredo, mas certamente é mais um infortúnio que se soma a tantos com os quais a atual administração tem de lidar. 

Como escrevi no texto anterior, a questão envolvendo a violência de policiais brancos contra cidadãos negros é um assunto especialmente caro a Obama – e ao imaginário que ele mesmo construiu diante do público, além da questão óbvia que diz respeito à própria identidade de Barack Obama como pessoa comum. Da mesma maneira, qualquer assunto relacionado a direitos humanos – e, claro, à transgressão desses direitos por autoridades regulares dos EUA – tem igual poder de mobilizar a presidência. 

Obama é o vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2009 (mais pelo o que ele representava e pelo o que se esperava dele), durante a primeira corrida presidencial viajou o mundo e lotou estádios. Fez discursos que deixaram claro que, se eleito, representaria uma importante mudança de paradigma no cenário político americano e, claro, na evidente importância que um presidente americano com valores distintos a seu antecessor teria em relação a todo o mundo. Obama prometeu em campanha que fecharia Guantánamo – o que não aconteceu até agora. 

É importante dizer que a simples produção desta relatório já é uma marca relevante, um sinal de amadurecimento democrático. Documentos como este – em certa medida, como o relatório da Comissão da Verdade aqui no Brasil – mostram independência dos poderes. O governo investigando o governo. É parte do jogo democrático. Mas Obama vai precisar tomar esses dois grandes problemas para si. Porque se tratam de dois de seus grandes valores (pessoais e políticos). E transigir diante dessas duas grandes infrações não pode uma possibilidade. Não quando Obama é o presidente. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A grande chance de Obama

Este tampouco é um bom ano aos EUA. Sob o ponto de vista de sua política internacional, o presidente Obama ainda não conseguiu apresentar resultados relevantes a ponto de ser lembrado como um líder que conduziu o país em suas empreitadas internacionais de maneira gloriosa. Por ora, sua gestão não pode ser considerada como um marco para as próximas gerações. 

É preciso olhar em perspectiva para ser justo com Obama; é dele a responsabilidade de levar os EUA a gradativamente se recuperar da crise econômica. E ele tem conseguido obter algum sucesso nesta tarefa para lá de complicada. O presidente americano também tem recebido desafios muito complexos (certamente muito mais complexos do que enfrentou o também democrata Bill Clinton nos anos 1990, por exemplo). Quando Obama parece disponível para se desvencilhar dos problemas internos e se dedicar a resolver os impasses internacionais americanos (Iraque e Afeganistão, para ser mais específico), eis que surge o Estado Islâmico, uma espécie de mutação genética do terrorismo fundamentalista que inaugurou o século 21. 

Quando Obama começa a se preparar para entender o Estado Islâmico e suas implicações no Oriente Médio, foi surpreendido por eventos catastróficos em casa, eventos para os quais Obama se preparou durante toda a sua vida: os assassinatos de cidadãos negros por policiais brancos que mobilizam a opinião pública de seu país. É neste momento que o líder admirado nacionalmente e que venceu duas eleições em sequência deveria se manifestar. Obama se preparou para isso e é a pessoa certa no cargo certo. Esta é a hora em que o presidente deveria dar o grande salto e promover um amplo debate nacional sobre racismo e violência policial contra a população negra. Se não o fizer, perderá uma chance única de salvar seu mandato e dar sentido ao fenômeno que sua primeira candidatura provocou em 2008. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

As eleições em Israel e os desafios do parlamentarismo

As eleições em Israel acontecerão em 17 de março. Como de costume, eleições em Israel provocam interesse internacional, ainda mais após os acontecimentos deste ano de 2014. Ao contrário do Brasil, Israel segue um sistema parlamentarista, o que implica estar sujeito a muitas idas e vindas. Na prática, se os partidos que compõem a coalizão do governo decidem abandoná-lo, novas eleições precisam ser convocadas. 

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu dissolveu a coalizão que o sustentava e novas eleições ao parlamento serão realizadas. O líder do bloco partidário que mais receber votos se tornará o próximo primeiro-ministro. Até aí, tudo bem. O problema é que no parlamentarismo os membros do parlamento tem de fato o poder de derrubar o governo. Ainda não cheguei a conclusões sobre o melhor sistema: este em que os membros do congresso podem causar reviravoltas políticas a qualquer tempo e forçar a convocação de eleições (não foi o caso desta vez em Israel, mas poderia ter sido, como em tantas outras ocasiões) ou o presidencialismo em que o presidente exerce seu mandato durante todo o período para o qual foi eleito, mas cujo congresso pode paralisar o governo na prática (os nossos nobres parlamentares por aqui usam o termo “trancar a pauta” para se referir a este situação em que medidas provisórias não são votadas). 

Em termos comparativos, vale dizer que este é o décimo-nono Knesset, ou seja, a décima-nona configuração parlamentar israelense. Isso num país cuja refundação aconteceu há somente 66 anos. A média simples é de um novo parlamento a cada pouco mais de três anos, sendo que seus membros são eleitos para mandatos de quatro anos de duração.

Ao longo dos próximos textos tentarei apresentar uma visão mais ampla sobre o quadro político israelense que está em formação para as eleições de março de 2015. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Estado judaico e democrático

Este é um momento delicado para Israel. Aliás, este é um dos piores anos de Israel desde a declaração de independência, em 1948. A guerra em Gaza, o grande número de mortos, a solução que interrompeu momentaneamente o conflito, mas fortaleceu o Hamas e não a Autoridade Palestina (AP), o crescimento do antissemitismo, o novo modelo de atentados em Jerusalém e, finalmente, a tentativa do primeiro-ministro Netanyahu de aprovar a lei do Estado Nação Judaico, que reafirma o caráter judaico de Israel.

Em Israel as questões normalmente extrapolam fronteiras. Mesmo sendo um assunto nacional, as deliberações transbordam para o Oriente Médio e para o mundo. A lei em si é desnecessária, na medida em que a declaração de independência já estabelece Israel como um Estado judeu e retomar este assunto agora, meses após a guerra em Gaza, no momento de maior tensão em Jerusalém na década e, acima de tudo, com o processo de paz estacionado, causa estranheza. Há temores de que a ideia seja relativizar a natureza democrática de Israel, justamente a característica que diferencia de forma substancial o país de todos os demais Estados nacionais da região. 

Sobrepor o caráter judaico ao democrático é desestabilizar os pilares sobre os quais Israel se sustenta. O país tem cerca de 75% de população judaica e está fundado sobre os princípios judaicos. Existe uma preocupação interna em Israel sobre a chamada balança demográfica, ou seja, a possibilidade de Israel conseguir se manter em longo prazo como um Estado judeu – um país onde os judeus sejam maioria. Esta possibilidade não vai ser alcançada por qualquer lei, mas por meio dos fatos reais. A única chance de isso acontecer é de conhecimento de todo mundo: um acordo de paz justo que permita aos palestinos constituir seu Estado na Cisjordânia e em Gaza. Israel deixou Gaza em 2005, mas é preciso também sair da Cisjordânia, onde vivem 2,6 milhões de palestinos. Um acordo de paz sério é a única maneira de Israel permanecer como em sua declaração de independência: um Estado judaico e democrático. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Sob a sombra do atentado, o presidente Mahmoud Abbas perde uma grande chance

Ainda sobre o atentado de ontem, é importante fazer algumas reflexões. Acho que, pelo menos por ora, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, pode ser o mais prejudicado politicamente. Abbas perdeu algumas chances de demostrar estar disposto a colaborar com o processo de paz. Decisões erradas e comentários no mínimo inoportunos podem prejudicar sua legitimidade como parceiro das iniciativas de paz e suas pretensões de encontrar apoio principalmente de líderes europeus e americanos. 

Após as recentes polêmicas envolvendo o Monte do Templo/Esplanadas das Mesquitas (clique aqui para mais detalhes), o presidente palestino optou por surfar na onda do lugar-comum (para dizer o mínimo). Conclamou os palestinos a “proteger” a área e ameaçou uma “guerra santa” se a região fosse “contaminada” pelos judeus. Esta certamente não é a postura de um líder internacional que se pretende legítimo pelos parceiros para pavimentar os diálogos para a paz. 

Nesta terça-feira, após o ataque à Sinagoga, Abbas condenou os assassinatos. As próprias autoridades de segurança de Israel têm dito que o presidente palestino não tem contribuído com o terrorismo. Mas daí a fazer essas declarações e imaginar que elas não reverberariam entre os palestinos seria ingenuidade. E claro que Mahmoud Abbas não é ingênuo e sabia que ratificar as posições religiosas e nacionalistas em torno do Monte do Templo/Esplanada das Mesquitas seria o equivalente a riscar o fósforo. E foi isso o que aconteceu. 

O processo de paz nunca esteve tão ameaçado. Não em função apenas do que aconteceu na sinagoga em Jerusalém. Mas porque Mahmoud Abbas abandonou a postura moderada. Mesmo que seja apenas publicamente, mesmo que intimamente ele continue comprometido com o pragmatismo, não é suficiente. Os grandes líderes devem ter a coragem de expor publicamente suas posições sobre o que julgam correto. Abbas fez exatamente o contrário. 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Atentado contra sinagoga em Jerusalém reforça posição de radicais

Ao ler sobre o ataque à sinagoga no bairro de Har Nof, em Jerusalém Oriental, nesta terça-feira, foi impossível não ficar com a sensação de premonição em relação ao texto que publiquei no último dia 13 de novembro. Se havia alguma dúvida sobre a nova “tendência” dos atentados em Israel, essa dúvida já não existe mais. As ações levadas adiante por indivíduos sem filiação formal a grupos terroristas passou a ser o padrão.

Isso, claro, em razão das dificuldades impostas pela rede de segurança israelense e aí também – mesmo que controversa – graças à barreira de segurança construída pelo país. Ataques como o desta terça-feira costumam repercutir de maneira dramática na escalada de violência. Basta lembrar a recente guerra entre Israel e o Hamas em Gaza; a espiral de violência começou após o sequestro e posterior assassinato de três adolescentes judeus. Normalmente, esses eventos atrozes de violência mascaram esquemas políticos mais complexos. Quando o fio começa a ser puxado eles costumam vir à tona. 

Ainda não há evidência quanto à motivação política dos indivíduos responsáveis pelo atentado à sinagoga em Jerusalém. O que se sabe, no entanto, é que a situação na cidade, onde havia certa tranquilidade, vai mudar. A segurança será reforçada e o gabinete político de Israel vai anunciar medidas para restringir o movimento na parte oriental da capital do país. Isso certamente levará a manifestações e ondas de violência da população árabe. O diferencial desta vez é a tentativa de ressaltar a separação entre árabes e judeus. Notem que usei esses termos pela primeira vez por aqui. A ideia política sobre a qual escrevi no parágrafo acima pode ter a ver com isso. Na medida em que o ataque premeditado teve como alvo uma sinagoga durante o Shaharit, o serviço matinal de orações judaicas, a ideia era justamente reforçar a posição religiosa também dos responsáveis pelo atentado. Mais ainda, deixar claro que judeus e árabes estão dissociados religiosamente e que este é um fator relevante para o futuro geopolítico do Oriente Médio. 

Este conceito dos responsáveis pelo ataque pode ter implicações aos árabes-israelenses, muitos deles moradores de Jerusalém Oriental. E certamente é uma tentativa de deslegitimar a posição dos pragmáticos que pretendem reduzir impasses e diferenças e pensar em soluções para retomar o processo de paz. Por essas razões todas os membros do Hamas comemoraram o ataque, inclusive distribuindo doces nas ruas de Gaza. A tentativa de transformar o conflito entre israelenses e palestinos em disputa entre judeus e árabes atende aos anseios de grupos como o Hamas. Mesmo que não esteja diretamente envolvido no ataque desta terça-feira, seus membros se sentem representados por esta linha de raciocínio. Aos pragmáticos dos dois lados, resta lamentar o ataque e reforçar as posições mútuas de impedir que a diferença religiosa se transforme na questão central em disputa. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Novo formato de atentado em Israel é muito mais desafiador às autoridades do país

Na última semana escrevi sobre a nova onda de violência em Israel, especificamente em Jerusalém. Para retornar muito rapidamente a este assunto, acredito que pode estar em curso uma mudança nos padrões de ataques ao país. 

E isso seria muito surpreendente, mesmo para as autoridades israelenses – que convivem há muito tempo com o terrorismo organizado. O modo de operação dos ataques recentes apresenta uma nova realidade: pequenos assassinatos nas ruas das cidades (Jerusalém inicialmente, mas nesta semana também em Tel Aviv). 

Há alguns elementos novos e curiosos nesta prática: ela aparentemente mobiliza cidadãos árabes-israelenses; esses cidadãos árabes-israelenses não estão vinculados a grupos terroristas tradicionais. Esses dois fatores podem parecer simples, mas mudam completamente a realidade e as respostas possíveis de Israel (anteriores e posteriores aos atentados). 

As duas questões estão interligadas. Por isso, a principal análise diante delas é a seguinte: se alguns cidadãos árabes de Israel (cerca de 20% da população do país) se mobilizam a ponto de um dia jogar o carro num grupo de pedestres, como prevenir esses ataques? 

Historicamente, Israel usa fontes de informação para prevenir tentativas de atentado, mantém uma rede de informantes mesmo dentro dos territórios palestinos e os serviços de segurança estão sempre atentos aos movimentos de grupos armados, como o Hamas, por exemplo. Mas como impedir que pessoas que jamais estiveram vinculadas a esses grupos – e com cidadania israelense – um dia se levantem da cama e decidam, por elas mesmas, atacar outros cidadãos? Parece um raciocínio simplório, mas ainda não há resposta a isso. Até porque, na prática, é possível que nunca haja uma fórmula para impedir este tipo de ataque, principalmente porque os agentes das ações não estão “mapeados” como possíveis ameaças. 

Se esta nova realidade se mostrar uma tendência, não acredito que irá demorar muito tempo para que os grupos terroristas encontrem neste tipo de empreitada individual um caminho a ser seguido. E aí Israel terá de enfrentar uma ameaça nova, possivelmente sistemática e com possibilidade de prevenção muito mais complicada. 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Jerusalém está de volta ao centro das tensões entre israelenses e palestinos. E isso era o que de pior poderia acontecer

A construção da barreira de segurança por Israel é controversa e, desde seu início, em 2002, há protestos veementes por parte dos palestinos e de sua vasta rede internacional de aliados – incluindo aí número importante de Estados nacionais do Ocidente. O fato, no entanto, mostra que a barreira – composta por trechos de cerca e muro, mais de cerca que muro – tem sido efetiva no que se propõe: reduziu em 90% o número de atentados terroristas em Israel, principalmente os de suicidas que se explodiam em boates e ônibus lotados, padrão na vida israelense dos anos 1990. 

Escrevi tudo isso porque nas últimas três semanas há um movimento em curso, especialmente em Jerusalém. Nesta quarta-feira, um homem numa van atropelou um grupo de pedestres, ferindo 13 pessoas e causando a morte de um policial. Na semana passada, Yehuda Glick, ativista judeu religioso, foi atingido por um tiro de um palestino numa moto quando deixava o Centro Cultural Menachem Begin. Nas últimas duas semanas, três atentados aconteceram em Jerusalém, elevando a tensão na cidade que, naturalmente, já é palco de disputas político-religiosas. Capital de Israel reunificada durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, Jerusalém já é dividida na prática: na parte oriental, fica a chamada Cidade Velha, onde vive a maior parte dos árabes da cidade (que têm cidadania israelense) e onde ficam também seus importantes lugares sagrados. Aos judeus, o Muro Ocidental (que é mais conhecido por aqui como Muro das Lamentações), aos árabes, o Domo da Rocha e a Mesquita de al-Aqsa. A imagem acima da BBC mostra bem esta divisão. Não comentei sobre os lugares sagrados aos cristãos porque eles não se relacionam às disputas entre israelenses e palestinos. Pelo menos, não num primeiro momento. 

O ponto de maior tensão nos últimos dias é a Esplanada das Mesquitas, que os judeus chamam de Monte do Templo porque era justamente nesta área onde ficava o grande Templo judaico da cidade, o principal marco da história judaica no mundo. Dele restou o Muro Ocidental somente. E nesta área os muçulmanos construíram as duas mesquitas mostradas na imagem – a mesquita de al-Aqsa é o terceiro lugar mais sagrado do islamismo (perde em importância para Meca e Medina). 

Com a tensão religiosa retornando a Jerusalém, a tendência é que as soluções políticas e pragmáticas acabem se distanciando da pauta das discussões. Cabe a Israel e à Autoridade Palestina silenciar e punir os seus radicais religiosos, não comprar as suas brigas. Este jogo interessa apenas ao Hamas, grupo terrorista que já fez questão de assumir a autoria do ataque a civis israelenses nesta quarta-feira (o caso do atropelamento em Jerusalém). Por ora, os acontecimentos na capital israelense podem indicar uma mudança de padrão. Abordarei este tema especificamente em textos futuros. Mas fiz questão de escrever esta grande explicação porque ela será necessária para analisar as possíveis mudanças que podem estar a caminho. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Bolsa Família, alvo principal da militância virtual

No último texto, escrevi sobre a manifestação do Brasil Virtual durante a campanha eleitoral. Para encerrar por ora o assunto, queria abordar rapidamente um dos aspectos mais criticados pelos militantes virtuais: o Bolsa Família. 

Em primeiro lugar, queria dizer que considero importante examinar com rigor o cadastro dos beneficiados. Esta é uma atribuição das prefeituras. Há muita reclamação sobre beneficiários cadastrados indevidamente, pessoas que já têm renda e não precisariam receber o complemento do programa. Essas situações devem ser investigadas. Um programa social como o Bolsa Família precisa, claro, contemplar quem de fato necessita desta renda para viver.

Dito isso, quero abordar um dos lugares-comuns mais repetidos durante as manifestações virtuais: a ideia de que o Bolsa Família não deveria existir porque “cada um deve correr atrás” de seu sustento e sobrevivência. Acho importante fazer um exame sobre este ponto específico. 

Para isso, vou contar uma parte de minha própria história de vida. Sou filho da classe média baixa e urbana do Centro-Sul brasileiro. Do Rio de Janeiro, mais especificamente. Meus pais são profissionais liberais. Meu pai, técnico em eletrônica; minha mãe, professora primária. Graças a seus esforços – e, para ser justo, graças à abnegação de minha mãe – tive uma boa educação formal. Estudei numa boa escola, fiz cursos de idiomas, cursei ensino superior e pós-graduação. E aí digo com a maior tranquilidade: isso não é correr atrás. O que fiz simplesmente foi estudar e ler muito. Isso é aproveitar as oportunidades que a vida e os esforços dos meus pais – e da minha mãe, principalmente – me proporcionaram. 

A minha história tem muito a ver com as oportunidades que o Brasil historicamente nega a muitos de seus cidadãos. Se eu não tivesse nascido numa família de classe média urbana, certamente não teria tido acesso às oportunidades educacionais que tive. Repito o que escrevi acima; isso não é “correr atrás”, pelo menos não no sentido acusatório usado pelos detratores do Bolsa Família durante a campanha eleitoral. 

Se eu tivesse nascido no sertão de Alagoas, Pernambuco ou no Vale do Jequitinhonha (uma das regiões mais pobres do Brasil), certamente não teria conseguido dar os passos educacionais tão naturais à classe média urbana do Centro-Sul do país. 

Expus parte da minha história de vida porque sei que este exemplo se assemelha a tantos outros – inclusive de quem se orgulha de ter “corrido atrás”. Ignorar voluntariamente que o Brasil não é um país justo e que oferece as mesmas oportunidades a seus cidadãos (independente do lugar onde nasceram) distorce o debate de ideias. E, em muitos casos, parece que foi justamente isso o que aconteceu quando se discutiu o Bolsa Família, um dos alvos prioritários da militância virtual. 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Brasil do WhatsApp e do Facebook é um lugar estranho

Discordo da presidente reeleita Dilma Rousseff: o Brasil é um país dividido. E nem me refiro somente ao resultado apertado que deixou claro que existe de fato uma divisão da sociedade. O Brasil atravessou meses de uma disputa ideológica que marcou, pela primeira vez, um grande embate virtual. Em 2010, ainda com o Facebook em ascensão, a guerra na internet não provocou a ruptura nacional de agora. 

Desta vez, o Brasil de WhatsApp e Facebook mostrou a que veio. E este Brasil Virtual é um lugar estranho, muito estranho. O Brasil de Whastapp e Facebook é um terreno fértil e afeito às teorias de conspiração. É um lugar onde todo preconceito é válido e está legitimado. É um espaço onde qualquer um – sob o prisma do anonimato – se julga no direito de ferir. Onde os brasileiros aprenderam que podem repetir o que quiserem sem medo de consequências. 

No Brasil Virtual vale tudo o tempo todo. Neste país cheio de preconceitos e rancor, todos os nordestinos são migrantes em potencial. Todos os migrantes enchem o Centro-Sul de pavor. Todos são beneficiários do Bolsa Família. E o Bolsa Família é, para este Brasil Virtual, necessariamente um programa de governo para sustentar a boa vida de “vagabundos”. Este Brasil Virtual cheio de preconceitos e rancor acordou sonolento e deprimido.

Este Brasil do WhatsApp e Facebook deveria nos envergonhar. Mas ele está aí para quem quiser ver. Este Brasil Virtual, cheio de certezas e ofensas, mostrou que veio para ficar. Resta saber, a partir de agora, como o Brasil real se fundirá com o Brasil Virtual. Resta saber que Brasil irá emergir desta fusão.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Egito e Sudão se unem para intervir na Líbia

O Egito tem um objetivo claro ao tentar frear o avanço de grupos terroristas na
Líbia: a reaproximação com o Ocidente. Após todo o confuso processo pós-Primavera Árabe, o Estado Egípcio perdeu fontes de receitas importantes, como o turismo, por exemplo. Para o pragmatismo dos militares que atualmente comandam o país é chegada a hora de retomar o rumo da relação com americanos e europeus. 

Na visão de Abdel Fattah El-Sisi, general e presidente egípcio, nada melhor do que a crise na Líbia para mostrar aos ocidentais que seu país é um parceiro confiável. A Líbia é o retrato do fracasso das decisões tomadas pelo Ocidente ainda no susto da Primavera Árabe. Consertar a situação local seria um grande resultado a apresentar. El Sisi considera ser capaz de lidar com os diferentes grupos terroristas líbios porque ele não tem os compromissos e vulnerabilidades dos países ocidentais. 

Para ser mais claro, o Egito não tem lá grandes amarras, como a zona de exclusão aérea da então coalizão ocidental. Seus militares farão o que for preciso para retomar partes do território líbio sem a necessidade de dar muitas explicações. A operação deve levar pelo menos seis meses, de acordo com autoridades egípcias. E, notem bem, a cobertura internacional sobre o assunto é praticamente nula. Sem chamar a mesma atenção de uma coalização internacional como a liderada por EUA, El Sisi está virtualmente livre para fazer o que quiser na Líbia. Tanto que seu parceiro na empreitada é ninguém menos que Omar al-Bashir, presidente do Sudão acusado de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional. Em Darfur, já há mais de 480 mil mortos, além de 2,8 milhões de pessoas deslocadas. 

A cooperação entre Sudão e Egito não inspira lá muita confiança. Mas, como sempre escrevo por aqui, quando se trata de direitos humanos, a comunidade internacional é bastante seletiva quanto a que grupos merecem solidariedade. As centenas de milhares de sudaneses mortos nunca receberam apoio internacional. E Omar al-Bashir continua presidente. E faz até acordos de cooperação regional. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O retrato político da Líbia hoje

Para ilustrar o texto da última sexta-feira, vale mostrar a divisão interna na Líbia que, pelo menos por ora, acabou com o país. 

Do ponto de vista prático, o parlamento não existe. Os parlamentares líbios eleitos em junho tentam trabalhar baseados num hotel a mil quilômetros de distância da capital, Trípoli. Já em Trípoli, esses parlamentares não são reconhecidos. Por lá, os parlamentares anteriores se recusam a deixar seus cargos e continuam a trabalhar. Em Benghazi, cidade onde o embaixador americano foi morto, mas também epicentro do movimento que derrubou Kadafi, em 2011, o fundamentalismo islâmico do grupo terrorista Ansar al-Sharia é a autoridade local – e, claro, a al-Qaeda e sua rede de conexões participam da “gestão”.

Este é o cenário na Líbia, um ex-Estado nacional tradicional. Acrescentado ainda mais elementos, o Egito lidera uma ofensiva para retomar Benghazi do controle terrorista. A ideia é conseguir o que a ofensiva ocidental não teve tempo e interesse para concretizar em 2011. Após a derrubada de Kadafi, o Ocidente se dispersou, ainda na tentativa de entender os acontecimentos da Primavera Árabe. Agora, curiosamente, os egípcios decidiram ao menos tentar retomar o controle de parte da Líbia. É curioso na medida em que o atual regime no Cairo está longe de qualquer traço democrático e certamente não representa a ideia inicial da Primavera Árabe. Desenvolvo este assunto num texto mais adiante.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Fracasso na Líbia é o fantasma ocidental mais recente no Oriente Médio

Na semana passada escrevi sobre o cansaço do governo norte-americano em relação ao Oriente Médio. Enquanto as atenções estão voltadas para o bem sucedido avanço do Estado Islâmico (IS), acho importante lançar luz sobre a Líbia, o grande exemplo recente do fracasso da intervenção ocidental na região. 

Desde a morte de Kadafi, em outubro de 2011, a ideia da reconstrução líbia como um Estado democrático – e modelo para os demais países que viveram os movimentos conhecidos como “Primavera Árabe” – se mostrou, no mínimo, pouco provável. Especialmente os EUA experimentaram no país uma situação de oposição muito representativa da degradação do cenário de estabilidade local. Em 11 de setembro de 2012, portanto menos de um ano após a queda e morte de Kadafi, o grupo terrorista Ansar al-Sharia invadiu o consulado americano em Benghazi, no nordeste do país, matando o embaixador americano e mais três oficiais. 

Na Líbia, ficou evidente um novo modelo de guerra regional, onde grupos terroristas de diversas fidelidades se aliam para derrubar o ditador local transformando, na sequência, o país num território livre. Muitas oportunidades surgem do Estado falido a partir de seus escombros: armamento, dinheiro e negócios (o mercado negro é sempre muito lucrativo e envolve venda ilegal de petróleo e contrabando de obras de arte e descobertas arqueológicas). Tudo isso explica, em boa medida, a indecisão de americanos e europeus para se posicionar em relação à guerra civil síria. Temem, com razão, que o ocorrido na Líbia se repita após a queda de Bashar al-Assad.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O IS próximo a Bagdá deixa Obama vulnerável

No texto de sexta-feira, comentei sobre o problema envolvendo o atual estado de reação dos EUA aos eventos no Oriente Médio. Assim como o surto do vírus ebola na África ressalta o abandono e pobreza do continente, a ascensão do Estado Islâmico (IS) expôs o desgaste do governo americano com a região, especialmente no Iraque. 

A retirada das tropas americanas do país no final de 2011 não foi unanimidade em Washington. Mas o presidente Obama considerava necessário deixar o país pela falta de garantias legais às tropas. John Nagl, ex-militar dos EUA que serviu nas duas guerras do Iraque, lembra o episódio no site Politico:

“O Secretário de Defesa, Leon Panetta, a secretária de Estado, Hillary Clinton, o diretor da CIA, David Petraeus, e os chefes do Estado Maior recomendaram a manutenção de uma presença consultiva (de militares) no Iraque. A Casa Branca decidiu o contrário, argumentando que o governo iraquiano não daria a imunidade legal necessária (aos soldados)”. 

A tendência agora é que Obama sinta de novo a pressão, principalmente após a entrevista de Martin Dempsey (foto), chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. O principal assessor militar da presidência americana disse que foi preciso enviar helicópteros Apache para resgatar militares iraquianos em combate com terroristas do IS que estavam há cerca de 25 quilômetros de distância do aeroporto de Bagdá. A declaração, claro, causou alarde, na medida em que a possibilidade de tomar o aeroporto da capital iraquiana evidencia ainda mais a fragilidade da situação real. O IS deixou de ser uma ameaça distante no meio do deserto para se tornar um inimigo capaz de pôr tudo a perder no território onde os EUA mais lutaram para reconstruir o cenário político local.

Obama já está no foco. Se Bagdá cair, receberá muito mais críticas. E, lembrando, em 4 de novembro haverá eleições legislativas nos EUA para definir o Congresso americano nos próximos dois anos. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

EUA e Obama já não aguentam mais o Oriente Médio

O editorial desta sexta-feira do New York Post procura vincular a situação crítica da cidade de Kobane, na fronteira entre Síria e Turquia, a um desastre da estratégia regional americana. Apesar de não concordar com esta premissa, consigo compreendê-la. 

Em primeiro lugar, explico: não acredito que a ideia do fortalecimento do IS seja uma derrota explícita da política externa de Obama. Isso porque esta ideia parte do princípio de que os EUA têm uma estratégia para o Oriente Médio. E aí devo dizer que os americanos já estiveram mais preocupados com as questões da região. Hoje a situação é um pouco diferente; é claro que não se pode imaginar os passos de qualquer governo em Washington traçando os caminhos das relações internacionais do país deixando o Oriente Médio de fora. Mas, 13 anos após 11 de Setembro e duas guerras que parecem não se concluir, os americanos estão cansados do Oriente Médio. E quando me refiro aos americanos me refiro inclusive a seu presidente. 

Barack Obama não teve lá grandes vitórias internacionais. Mesmo tendo recebido o prêmio Nobel da Paz em 2009, o presidente Obama teve muitas dores de cabeça tratando do posicionamento americano no mundo. E isso é muito curioso na medida em que a comunidade global depositou muitas esperanças em Obama desde a sua ascensão meteórica para vencer as eleições presidenciais de 2008. Mas a verdade é que os frutos de suas decisões internacionais não lhe renderam grandes vitórias. Vale lembrar o caso líbio, quando os EUA também coordenaram uma ofensiva de países que acabou resultando na queda e morte de Muammar Kadafi, em 2011. A Líbia acabou falindo como Estado nacional minimamente organizado, causando um fenômeno estranho: a sensação de que vencer foi perder. 

Tudo isso levou os EUA – e o presidente Obama como personificação do cansaço nacional – a reagirem mais do que agir. E por isso Obama admitiu, na última semana de setembro, ter subestimado a capacidade do IS. Porque Washington, os EUA e Obama já sabem que, no Oriente Médio, os esforços são muito grandes e os resultados, mínimos. O IS é hoje a representação deste impasse; é a representação da ideia de que se envolver no Oriente Médio não vale a pena. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Com Kobane em risco, Erdogan está no foco

Com a cidade de Kobane no centro dos combates entre IS e coalizão, a posição turca se agrava ainda mais. Para o presidente Recep Tayyip Erdogan, a opção é ganhar tempo porque sua situação é bastante complicada. A cidade na fronteira entre Síria e Turquia se transformou numa espécie de símbolo da divisão interna da Turquia e da vulnerabilidade momentânea de seu presidente e homem forte. 

Controlada pela filial do PKK na Síria (Partido dos Trabalhadores Curdos), Kobane agora é uma dor de cabeça. O líder turco se questiona sobre o impasse diante dos caminhos a seguir: lutar contra o IS, se contrapondo a setores radicais do próprio partido AKP (Justiça e Liberdade) que se reconhecem nas reivindicações terroristas do Estado Islâmico; abandonar Kobane à própria sorte, causando um problema de proporções incalculáveis com os 14 milhões de curdos da Turquia; aderir à coalizão internacional, virando as costas ao próprio discurso independente construído ao longo dos anos 2000.

Para piorar a situação de Erdogan, a popularidade do PKK está em ascensão. Como conseguiu acalmar os curdos da Turquia por meio de conversações de paz após 30 anos de combate, mexer neste vespeiro pode pôr tudo a perder. Mas não fazer nada também põe em risco sua opção. Por ora, em função do tamanho da complexidade, Erdogan prefere ganhar tempo. Mas esta decisão já reflete uma tomada de posição. Neste momento, enquanto não toma partido, ele vira as costas à Otan, aliança militar ocidental da qual a Turquia faz parte. Erdogan segue este caminho por saber que é possível retomar o diálogo com os ocidentais quando quiser. Enquanto isso, Kobane é o novo teatro de operações do Oriente Médio. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A corrupção no centro das eleições brasileiras

Dando um tempo no cenário internacional, acho que vale fazer uma análise rápida sobre o quadro eleitoral brasileiro a partir dos resultados de domingo. Na corrida presidencial, Aécio está em vantagem porque vive uma situação bastante confortável e vai se aproveitar dela.

O PT está no governo desde 2003, tempo o bastante para alcançar conquistas, mas também se expor. Como se sabe, o PT mais do que se expôs nesses anos. E, sem contar com qualquer simpatia por parte dos grandes veículos, acabou enredado pelos casos de corrupção. Muitos deles foram superdimensionados e o partido foi singularizado, como se corrupção fosse prática política exclusiva do PT, o que certamente não é. A corrupção do PT acabou superexposta sem nenhuma piedade. Para Aécio, ficou fácil: bastou surfar na onda do que já estava dito; bastou aprofundar a discussão. Os debates mostraram como sua situação era confortável e o candidato do PSDB conseguiu se transformar numa espécie de questionador oficial da corrupção (como se o próprio PSDB mineiro não tivesse ele mesmo criado o mensalão).

Seja como for, os papéis atuais que PT e PSDB exercem no debate são consequência dos acontecimentos desses quase 12 anos de mandatos de Lula e Dilma. A fragilidade com que Dilma se apresenta – sempre na defensiva – é culpa exclusiva do próprio partido. Ao permitir que o PSDB se aproprie desta pauta, o PT se culpou. E aí deixou de lado um valor muito caro a seus eleitores históricos – à exceção da militância partidária sempre disposta a transformar política em paixão clubista.

No segundo turno, Aécio vai insistir no assunto, na medida em que Dilma sempre acusa o golpe. Estrategicamente, o PT deveria ter feito um exame interno profundo e comunicado este processo de forma clara à sociedade. Como não fez, alimentou a oposição. E as eleições atuais – até de maneira mais intensa que as eleições de quatro anos atrás – acabaram refletindo a inabilidade do partido em se reinventar de dentro para fora. Mesmo que Dilma vença – e esta é uma possibilidade real – fica claro que o PT precisa apresentar mais, precisa se modificar como partido. Parece que a legenda ainda obtém resultados nacionais graças à força de Lula. Mas quanto Lula é capaz de dar ao partido antes de o PT conseguir retomar a pauta da discussão da corrupção para si? 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

No atentado a uma escola síria, o reflexo da incoerência internacional

Na Síria, mais uma tragédia. Desta vez levada adiante em Homs, pela al-Qaeda. O grupo terrorista explodiu dois carros-bomba perto de uma escola na área da cidade já retomada pelo governo de Bashar al-Assad. O segundo carro-bomba, inclusive, foi explodido enquanto os pais corriam para salvar seus filhos na escola. 

Dos 54 mortos, ao menos 47 são crianças. Quando inocentes morrem, é sempre lamentável. Quando crianças morrem – sejam elas sírias, palestinas, israelenses ou de qualquer nacionalidade – é ainda mais triste. O ocorrido mostra algumas questões: a primeira delas, a complexidade da guerra civil síria, onde a ditadura do presidente Assad enfrenta a oposição de grupos como a al-Qaeda, assunto sobre o qual venho tratando com insistência por aqui desde 2011. Não é simples tomar partido e, muito em função disso, a posição ocidental não está consolidada: armar a oposição a Assad é financiar uma associação nebulosa de fidelidades – entre elas a al-Qaeda. 

Outro ponto importante é a reação internacional. Como escrevi há pouco tempo, o Brasil perdeu uma grande oportunidade de demonstrar maturidade internacional ao condenar a coalizão que combate o IS. Combater grupos como o IS não é uma opção, mas obrigação de quem defende o direito internacional, as fronteiras internacionais e a autodeterminação dos povos. Quando o Brasil afirma ser favorável ao diálogo (com o IS!) está dando um tiro n’água, jogando palavras vazias ao vento. Perdendo, por consequência, uma grande oportunidade no fórum mais importante da política internacional. O IS é produto ainda mais radical da própria al-Qaeda.  

Estranho mesmo é perceber que, após este atendado em Homs, houve pouco protesto mundo afora. Não houve artigos irados, grandes condenações internacionais, protestos nas ruas das principais cidades, nada. O silêncio teve mais força. Ao contrário de tudo o que ocorreu entre junho e agosto deste ano. E ainda há aqueles que creem em coerência na condução dos assuntos internacionais...

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Agora presidente da Turquia, Erdogan retorna ao palco

Ainda sobre a ambiguidade turca, vale fazer um contraponto sobre os discursos e declarações do presidente Recep Tayyip Erdogan. Se por um lado ele concorda em combater o IS quando se encontra com autoridades do governo americano em Nova Iorque, por outro manifesta sua retórica independente – e isso significa a construção de abordagem para lá de duvidosa ao grupo terrorista. 

Ancara está prestes a aprovar a adesão de suas forças armadas – o segundo maior contingente da Otan – à coalizão internacional que luta contra o IS. Todos estão aguardando a decisão do parlamento turco. No entanto, vale ler uma parte das palavras de Erdogan em pronunciamento ao público em Istambul: 

“Enquanto a organização terrorista IS está causando desordem no Oriente Médio, no meu país há permanente terrorismo do PKK nos últimos 32 anos e o mundo nunca se importou. Por que? Porque esta organização terrorista (o PKK) não carregava o nome ‘Islã’”. 

Entenderam o que Erdogan quis dizer? Ele abriu uma brecha de interpretação que pode dar a entender que o motivo pelo qual o mundo passou a se importar com o IS tem mais a ver com o fato de se tratar de um grupo autodenominado representante do islamismo. A questão, no entanto, é bem mais simples: a ideia de combater o IS tem pouca ou nenhuma relação com o fato de ser um grupo islâmico (fundamentalista islâmico, para ser bem claro), mas com a barbaridade que marca suas ações e com a promessa que tem feito (e cumprido) de usar a violência diante de qualquer oposição. E oposição neste caso é um espectro enorme que varia desde o simples pertencimento a fidelidades islâmicas distintas à própria existência de fronteiras internacionais. A fronteira turca, inclusive. 

Mas Erdogan não abre mão deste posicionamento ambíguo de nenhuma maneira. Isso porque ele continua a querer se reafirmar como uma espécie de “pai” internacional dos muçulmanos. E, em sua linha de raciocínio bastante trabalhada nos últimos dez anos, mesmo a oposição ao IS poderia ser interpretada como uma adesão aos “valores ocidentais”. Ao mesmo tempo, o presidente turco não quer abrir mão do alinhamento lógico com parceiros estratégicos europeus e, claro, com o governo americano. Mas ele precisa disfarçar isso ao máximo, mesmo ao custo de um eventual isolamento político. 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Turquia pode ser arrastada para o caos pelo IS

Entre o Oriente Médio e a Península Ibérica, o IS ainda tem muito estrago a fazer. Uma das questões de momento gira em torno da cidade síria de Kobane, localizada próxima à fronteira turca. 

A cidade acabou se tornando foco de polêmica internacional porque está na mira dos ataques aéreos da coalizão que tenta impedir os avanços do IS. Mas no Oriente Médio não há nada muito simples. A população curda do lado turco da fronteira está tendo acesso negado a Kobane. A ideia de muitos curdos é lutar contra o IS e proteger seus familiares do lado sírio da barbaridade do grupo terrorista. O problema é que a Turquia tem agenda própria e exerce com muita habilidade a política ambígua regional do ex-primeiro-ministro e atual presidente, Recep Tayyip Erdogan. 

Se de dentro para fora o discurso de Ancara é de apoio à ofensiva internacional, internamente a questão com os curdos é sensível. Há na Turquia 15 milhões de curdos e um cessar-fogo está em vigor. A expectativa do governo turco é que o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) abandone definitivamente a luta armada em troca de maior liberdade, daí a importância dos acontecimentos em Kobane. Se nada for feito rapidamente, a Turquia pode acabar reacendendo a questão curda que, aparentemente, estava a caminho de ser solucionada. 

Curiosamente, o IS tem em suas mãos a capacidade de causar um estrago político gigantesco a uma potência militar e econômica do Oriente Médio. Um país que de fato é uma ponte aos seus objetivos mais ambiciosos. Basta que o grupo alcance sucesso num eventual – e terrível – massacre da população curda da cidade. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Brasil acerta e erra na ONU

A presidente Dilma Rousseff abriu a 69ª Assembleia Geral da ONU criticando as intervenções militares. Entendo o que Dilma tentou fazer: a presidente buscou a manutenção do histórico discurso pacifista brasileiro. Este é o posicionamento do Brasil em sua diplomacia, então ela foi, em certa medida, coerente. O problema é ter colocado intervenção militar num único saco, sem fazer distinção dos diferentes conflitos internacionais.

Não se pode simplesmente reduzir a política internacional a um rótulo, fazendo análise única sobre situações tão diferentes quanto a guerra entre Hamas e Israel, Ucrânia e Rússia e IS e coalizão internacional. Quando o Brasil não diferencia as diferenças acaba soando por demais inocente. Ou desconhecedor da geopolítica. Entendo que a ideia seja reforçar pacifismo e apelo ao diálogo. Isso está correto e coerente com o histórico brasileiro. Mas criticar a ofensiva contra o IS, por exemplo, é simplório. Países árabes e EUA estão empenhados em derrotar por meio da força o grupo terrorista cujo propósito é acabar com os Estados nacionais no Oriente Médio que estão em seu caminho para a reconstrução do Califado até a Península Ibérica. 

Até que se prove o contrário, o IS não está disposto a abrir mão de seu objetivo em nome do diálogo ou negociação. Neste momento, sua ambição ameaça diretamente a existência de Iraque, Síria, Jordânia e Líbano. Neste momento também, uma coalizão internacional liderada pelos EUA e formada por Jordânia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – além de apoio logístico e certamente político de todos os países do Oriente Médio – busca combater a organização. 

No final das contas, o Brasil foi inocente e certamente perdeu uma excelente oportunidade de mostrar que sua estratégia internacional é capaz de distinguir os diferente cenários geopolíticos. 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Mesmo sem independência, a Escócia venceu

Terminou por ora a batalha pela independência do Partido Nacional Escocês (SNP). Isso não significa, no entanto, que suas aspirações tenham sido derrotadas. Na verdade, emergem deste processo mais vencedores que vencidos. O primeiro aspecto é bastante óbvio: a eleição onde o “Não” derrotou o “Sim” por uma margem de somente dez pontos percentuais deixa claro que a sociedade escocesa está dividida. E aí o líder do SNP conta com um poder de barganha tremendo para negociar diante de Londres. 

Na prática, Alex Salmond, o principal artífice do movimento pela independência da Escócia, sai deste processo fortalecido. Isso porque a tendência é que obtenha da Grã-Bretanha a renegociação dos direitos financeiros que tanto queria desde o começo. Este reequilíbrio tem sido chamado de “devo max” (máxima devolução de poderes). O parlamento escocês deve conseguir dos britânicos controle sobre impostos, receitas de petróleo, seguro nacional e aposentadorias. 

Em Londres, a partir deste novo cenário político, é melhor ceder do que perder. Vale lembrar também que os escoceses contam com um argumento a mais para colocar sobre a mesa: em 2017, a Grã-Bretanha realizará um referendo para decidir sobre a permanência na União Europeia. No espectro político deste momento, trabalhistas e conservadores pretendem manter o país no bloco. E justamente os escoceses são os grandes entusiastas britânicos da UE. Mais até do que os ingleses. Isso significa que manter a população da Escócia apta a votar no plebiscito britânico torna a permanência na UE mais tranquila (não garantida, mas menos complicada). 

Diante disso tudo, é até natural que o primeiro-ministro David Cameron acene com a possibilidade de dar ainda mais autonomia aos demais membros do Reino Unido. A federalização da Grã-Bretanha é uma possibilidade complexa, mas que agora já se apresenta no horizonte. É resultado direto do movimento de Alex Salmond. Se esta transformação de fato vier a acontecer, o líder do SNP já terá realizado um feito grandioso. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O caso da Escócia

Particularmente, quando penso sobre o plebiscito discutindo a independência da Escócia, confesso que me sinto entrando numa máquina do tempo. Um tempo onde disputas políticas internacionais eram decididas por um instrumento tão pacífico e civilizado quanto uma votação. O século 21 foi até mais longe. Não apenas deu cabo de qualquer artifício legal para a resolução de disputas, mas acabou até com as regras envolvendo as guerras. Mas este é outro assunto. 

No caso escocês, há elementos bem interessantes e que servem para que possamos fazer um intervalo nesta imersão no IS. Para ficar claro, a Escócia vai dar adeus aos últimos 300 anos de história e à aliança britânica que envolve Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte. Do ponto de vista britânico, significa um enfraquecimento político óbvio e a exclusão de 5,3 milhões de escoceses de sua população total. 

Paul Gillespie, ex-editor de Política Internacional do jornal Irish Times, tem uma visão interessante sobre o significado deste referendo: “os laços (característicos) de Império, guerra, protestantismo e bem-estar que a manteve (a Grã-Bretanha) unida durante o século 20 se desfizeram e não foram substituídos por uma narrativa alternativa convincente”, escreve. 

Pode parecer poético demais, mas, como escrevi naquele texto na sequência da derrota brasileira para a Alemanha na Copa do Mundo, países não existem apenas como um conjunto de prédios, fábricas, parques, avenidas e gente. O capital simbólico é até mais importante do que todos esses elementos. 

Um aspecto muito relevante nesta disputa é a opção política que os escoceses têm feito historicamente. Desde 1935, a Escócia não vota em governos conservadores. E, justamente em função de ser parte do Reino Unido, acabou governada por conservadores, na medida em que sucessivos primeiros-ministros do partido têm assumido o controle político em Londres. Na prática, ao contrário de muitos dos movimentos que buscam independência em todo o mundo, o caso escocês é um pouco diferente. É utópico como os demais, mas distinto na medida em que não se ampara exclusivamente no discurso nacionalista. Há a ideia de valorização da cultura escocesa, mas um dos focos principais é o fato de a Escócia não se alinhar ideologicamente às decisões políticas da Inglaterra. E como o histórico de divergência já é bastante extenso, seria chegada a hora da separação. 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O sonho radical do IS

Minha querida avó, a leitora mais importante deste blog (com todo o respeito aos demais leitores, claro), me telefonou pela manhã com uma pergunta: esta situação do IS pode dar início à Terceira Guerra Mundial? Para acalmá-la, disse que acho muito pouco provável que isso aconteça. Até porque há uma questão maior envolvendo esta situação sobre a qual tratei em outros textos por aqui; a luta do IS representa uma ameaça direta a todos os Estados nacionais que estiverem em seu caminho entre o Oriente Médio e a Espanha – por mais absurdo que pareça. 

Quando este tipo de temor real une países que normalmente têm pouco em comum (Rússia e EUA, por exemplo), a chance de o IS conseguir causar o estrago que gostaria é pequena. É claro que seria irresponsável de minha parte afirmar que a vitória é certa. Mas é bastante contrastante o potencial militar de europeus, americanos, russos e países do Golfo em relação aos terroristas do IS. A diferença entre eles é a motivação. Por mais que os ocidentais tenham receio quanto aos avanços do grupo, não dá para imaginar que seus militares estejam tão motivados quanto os extremistas. 

No entanto, este é um mundo onde imaginar vitória por motivação é piada. O ocidente tem o poder de acabar com o IS, mas, como bem lembrou o presidente Obama, não tem poder para acabar com seus ideais. E aí retorno ao texto anterior, em que contestei os argumentos de que o IS existe pela ausência de democracia, justiça social e direitos humanos. Esta visão romântica não explica, por exemplo, o que fundamentalistas nascidos e criados no Reino Unido, por exemplo, buscam ao deixar Londres dispostos a matar e morrer na região do Levante. 

Na próspera Grã-Bretanha certamente há desigualdade como em qualquer parte, mas ninguém defende a inexistência de democracia, direitos humanos e justiça social. Os britânicos que aderiram ao IS não precisaram de razões, apenas de oportunidade para transformar “sonhos radicais” em algo tão concreto quanto cortar cabeças de jornalistas. 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Alguma ingenuidade ao analisar o IS

Para concluir a semana numa reflexão rápida sobre este novo fenômeno terrorista, acho interessante fazer algumas observações simples. Ainda mais no período em que os atentados de 11 de Setembro completaram 13 anos – não é uma efeméride tradicional, mas é sempre importante lembrar a data que considero marcar o início do século 21 (e dos acontecimentos subsequentes que ainda moldam o novo século). 

O jornalista Oudeh Basharat apresenta no jornal Haaretz uma visão interessante sobre o IS: “o desafio ao mundo árabe é drenar os pântanos que produzem essas doenças, introduzindo justiça social, democracia e direitos humanos”. Ele tem razão, mas repete um vício muito comum de quem analisa grupos como o IS: buscar, sem que os grupos tenham pedido, motivos que, em teoria, justificariam suas existências. O raciocínio é simples: em lugares onde há justiça social, democracia e direitos humanos, não haveria espaço para esses grupos. Ou melhor, eles não teriam razão para existir. 

Esta afirmação é parcialmente correta. Isso porque, de fato, esses elementos esvaziam os grupos, tornando o terrorismo menos atraente a novos seguidores. Mas no caso do IS e de tantas outras organizações terroristas, buscar encontrar dados que justificariam a realização de atentados contra inocentes soa até um pouco ingênuo. É impossível garantir que IS, Hamas, Hezbollah, al-Qaeda e afins deixariam de existir em ambientes democráticos. É possível e muito provável que teriam menos seguidores, que seus discursos fossem menos atraentes, que não protagonizassem a cena regional, mas daí a garantir que não existiriam é mera especulação. Não há qualquer dado concreto a provar que o Oriente Médio estaria totalmente livre do terrorismo. 

Para finalizar, há um elemento ignorado nesta afirmação: o terrorismo no Oriente Médio não leva em consideração somente aspectos políticos, muito pelo contrário. O terrorismo no Oriente Médio é uma extensão religiosa a partir do fundamentalismo islâmico. Osama bin Laden, por exemplo, não era um desprovido, mas herdeiro de uma família saudita rica. Osama bin Laden não era um guerrilheiro de esquerda, um altruísta que dedicou sua vida a defender as massas desprovidas. Era um radical ideológico cuja bandeira única era a reprodução de conceitos fundamentalistas e a realização de atos de terrorismo. É impossível analisar qualquer fenômeno no Oriente Médio ignorando essas características regionais. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

IS: o polo de atração dos terroristas de todo o mundo

A partir de hoje passo a chamar a ISIS de IS. O próprio grupo redefiniu seu nome, então acho que vale seguir. Aliás, o correto é o IS (Estado Islâmico, em inglês). Sobre isso, curiosamente, vale dizer que a decisão foi uma maneira de facilitar a divulgação virtual do grupo terrorista principalmente no Twitter. Pois é. 

Por mais que seja ultraconservador, tradicionalista e retrógrado, o IS é, de muitas maneiras, um retrato do mundo globalizado contemporâneo no que ele tem de pior, naturalmente. O simples fato de ser uma organização terrorista que se orgulha da própria violência conta com alguns adendos. Entre eles, a ideia de que precisa divulgar seus feitos nas redes sociais. O IS é produto deste novo mundo ainda em formação desde os atentados de 11 de Setembro. Treze anos depois da realização dos ataques, nasce um grupo que dissidente da al-Qaeda, mas que se pretende diferente pela exacerbação do radicalismo que já existia e por se imaginar como uma “empresa internacional” que não faz franquias, mas concentra seus funcionários numa luta expansionista.

Os membros do IS querem se divulgar no Twitter. Querem também mostrar que o terrorismo pode ser algo corriqueiro, então postam vídeos de seus membros fazendo exercícios físicos. Ao contrário da al-Qaeda, o IS aceita filiação internacional, inclusive de recém-conversos ao Islã. A estratégia de longo prazo, além da reconstrução do Califado até a Europa, é  transformar a organização num polo de atração de todos os radicais do mundo. O IS tem espaço a todas as linhas de terrorismo e suas agendas. Este é o aspecto responsável pelo seu sucesso temporário. Então se o ponto final de sua existência é a reconstrução do Califado, antes deste fim há um meio da caminho onde cabe lutar contra as fronteiras do Oriente Médio, desafiar os EUA e aliados e libertar a Chechênia e o Cáucaso das amarras do Estado nacional russo. 

Com todo este discurso eloquente e a concentração de todos os terroristas do mundo e suas ideias sobre desafiar todos os governos mundiais, a chance de o IS fracassar é enorme. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O temor de uma nova frente de batalha ocidental no Oriente Médio

A tentativa de empenhar forças globais no combate à ISIS é o tipo de ação demorada e controversa. Naturalmente, o assunto é complicado porque americanos e europeus não têm o menor interesse de se envolver numa nova guerra assimétrica no Oriente Médio. Durante os últimos 13 anos, os principais países do mundo entenderam que derrotar grupos fundamentalistas islâmicos não é das tarefas mais fáceis. Em Iraque e Afeganistão, a missão, definitivamente, não foi cumprida da maneira como se esperava.

A meta de refazer países e inventar democracia onde não existe ao mesmo tempo em que se luta em campo de batalha contra organizações terroristas muito motivadas é muito complicada. E todo este temor, o temor real de 13 anos de infortúnios e fracassos, está sendo revivido agora, mas de maneira muito mais aguda. A ISIS deixou de ser um assunto interno de gabinetes governamentais do Ocidente e se popularizou. Em relação a isso seus membros já podem se considerar bem sucedidos. O medo causado pelos bárbaros pós-modernos ganhou as ruas do planeta. De acordo com pesquisa do Pew Research Center em conjunto com o jornal USA Today, 67% dos americanos já consideram o grupo uma ameaça concreta aos EUA, ficando atrás somente da al-Qaeda. 

E quando este tipo de dado é tornado público os governos precisam agir. É uma pressão interna que necessita de resposta. Ninguém pode garantir que a ISIS será bem sucedida na tarefa de ampliar seu raio de ação para além do Oriente Médio. Mas os governos ocidentais não podem simplesmente não responder às demandas de seus cidadãos – mesmo que sua origem seja, por ora, somente a extensa cobertura da imprensa. 

Sobre as opiniões na imprensa americana, inclusive, o colunista do New York Times Thomas Friedman considera que o território americano não está em perigo. E, por isso, defende que os esforços americanos para derrotar o grupo terrorista devem ser compartilhados com os demais atores regionais. Entendo o que ele quer dizer; sua posição está diretamente relacionada ao que escrevi no primeiro parágrafo. No entanto, Estados nacionais não respondem como pessoas, mas como entidades políticas que, portanto, têm alianças e interesses. No caso dos EUA, especificamente, o Oriente Médio é uma área de atuação fundamental em sua política externa. Não ser protagonista da resposta regional à ISIS não é uma opção. 

Países tomam decisões e encaram grandes desafios internacionais não apenas quando seu território nacional está sob ameaça direta. Países são entidades com interesses pragmáticos e presença global. Ainda mais quando estamos falando dos EUA e de sua vasta rede de alianças e desafios. A ISIS é uma ameaça ao Oriente Médio e, portanto, a muitos dos interesses norte-americanos na região – seja por temor a ataques a aliados ou por alianças com inimigos. Como já se viu nesta sexta-feira no País de Gales, Washington não deixará de liderar qualquer esforço internacional para derrotar o grupo.