terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Mavi Marmara retorna à Turquia. Relações com Israel continuam estremecidas

Um dos acontecimentos internacionais mais importantes do ano parece ter encerrado seu ciclo nesta semana. O navio turco Mavi Marmara retornou a Istambul para delírio da multidão que aguardava o maior símbolo da deterioração das relações entre Israel e Turquia. O episódio ocorrido em 31 de maio é fato histórico que conseguiu atingir seu objetivo: isolar ainda mais Israel. Com sofisticado pensamento estratégico e bem sucedida utilização dos meios de comunicação, os militantes que participaram do evento conseguiram sucesso simultâneo em duas frentes distintas: a condenação internacional a Jerusalém e a flexibilização do bloqueio a Gaza.

De quebra, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, alavancou sua popularidade não apenas no país, mas em todo o mundo islâmico. A crise desencadeada pela flotilha foi apenas o ponto alto de uma nova forma de condução da política externa por Ancara. Ao se aproximar de países como Síria e Irã, fragilizar as relações com os israelenses era apenas uma questão de tempo.

Os acontecimentos do final de maio foram a forma mais inteligente encontrada para levar a cabo tal projeto. Não apenas conseguiu manter os diálogos com Israel no nível mínimo, mas também encontrou resultados muito raros politicamente: a equação conhecida como ganha-ganha. A Turquia maximizou seus lucros sob todos os pontos de vista.

Agora, com o retorno do Mavi Marmara, a polêmica é reacesa. E é claro que a situação se mantém na mesma. O governo turco exige um pedido formal de desculpas por conta da morte dos noves militantes a bordo. O governo israelense diz lamentar as mortes, mas reafirma que não irá se retratar justamente por manter a posição de que seus soldados agiram em legítima defesa. Este impasse deve continuar.

A diferença, no entanto, é que o alto-escalão político de Israel conta com um poderoso adversário interno: o ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman continua a expor todo a cúpula do governo com seus comentários sinceros e de pouca capacidade de análise de cenários. A última polêmica foi classificar o primeiro-ministro e o chanceler da Turquia de mentirosos, e a Autoridade Palestina, de ilegítima.

 
Como a intenção de Lieberman não é definitivamente exercer qualquer função produtiva para seu país, mas apenas capitalizar ganhos ao próprio partido, é possível entender onde ele quer chegar com suas declarações. Para ele, quanto pior, melhor. E com isso conseguiu se transformar numa tremenda dor de cabeça interna. O problema é que sua legenda é parte da coalizão que sustenta o governo de Benjamin Netanyahu. Ciente disso tudo, Lieberman age como bem entende. Essas as razões explicam comportamento tão inadequado a alguém que ocupa pasta tão importante.

 
O imbróglio entre turcos e israelenses irá continuar. Principalmente por conta das eleições parlamentares que acontecerão em junho de 2011 na Turquia. Na ocasião, o país também discutirá os termos de sua nova constituição. Certamente, o AKP, partido do primeiro-ministro Erdogan, vai refrescar a memória dos eleitores ao reacender o episódio da flotilha de Gaza. Como o caso mexeu com os corações turcos e alçou o status de Erdogan, retomar boas relações com Israel seria uma espécie de gol contra.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Crise entre Coreias representa oportunidade para a China

A animosidade entre as Coreias pode ter despertado o senso internacional chinês. Ainda não se pode avaliar o que isso irá significar, mas o fato é que, por acaso ou não, a proximidade única entre China e Coreia do Norte transformou Beijing em protagonista diplomático - algo que não acontece todos os dias, vale dizer. Isso deve ter um impacto bastante significativo no novo ciclo do jogo político.

Estudiosos sul-coreanos alertam para a possibilidade de Pyongyang levar a cabo novos testes com mísseis de longo alcance ou realizar seu terceiro teste nuclear. Enquanto isso, está todo mundo de olho nas ações do governo chinês, cujos compromissos diplomáticos estão bem movimentados na virada do ano. Em janeiro, o presidente Hu-Jintao se encontra com Obama, nos EUA. No mês seguinte, os ministros de Defesa de China e Coreia do Sul se reúnem em Beijing.
A crise na península coreana não apenas colocou a China no foco, mas também mudou a forma de relacionamento entre o ocidente e o país. Por exemplo, se ao longo do ano os EUA não se cansaram de criticar a maneira muito particular chinesa de se expandir economicamente, o discurso americano mudou neste momento. Como lembra o Washington Post, oficiais do alto-escalão do governo Obama passaram a elogiar a postura de Beijing durante o fogo-cruzado entre as duas Coreias.

Curiosamente, a apatia chinesa foi duramente criticada no auge do episódio. O governo chinês não agiu diretamente e se mostrou pouco disposto a exercer papel mais ativo. Como único aliado dos norte-coreanos, os EUA depositaram muitas expectativas de que Beijing pudesse fazer mais. Isso não aconteceu.
Sem a menor dúvida, a interpretação deste cenário levou as autoridades chinesas a perceber uma oportunidade.

Não se trata de preencher as expectativas ocidentais, muito pelo contrário. Mas compreender que o episódio pode ser útil politicamente. A ambiguidade apresentada pelos norte-coreanos durante as fracassadas negociações de seis partes é um comportamento que pode ser adotado pela China.

A situação mais confortável é perceber que o país é o único capaz de acalmar as ansiedades ocidentais e sul-coreanas. Se Pyongyang conseguiu enrolar as grandes potências - e a própria China, diga-se de passagem - por que não usar a mesma estratégia? Trata-se de um pensamento pragmático e que tem tudo para funcionar. Os EUA já dão mostras de terem abandonado o discurso do confronto. Se em janeiro Hu-Jintao irá encontrar Obama, por que não discutir os impasses que envolvem os norte-coreanos e ao mesmo tempo aproveitar para apresentar uma lista de reivindicações políticas e econômicas?

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Referendo no Sudão é o primeiro grande desafio político e humanitário de 2011

O primeiro grande evento do próximo ano já tem data para acontecer: 9 de janeiro. Neste dia, o mundo vai saber se o Sudão vai mesmo se dividir em dois. Na verdade, é muito grande a possibilidade de que o projeto de independência do Sudão do Sul se torne realidade. Este não é um evento despropositado, mas estabelecido há cinco anos, quando um acordo conseguiu encerrar 22 anos de guerra civil no país. No centro de toda essa história, um elemento muito conhecido: a disputa sangrenta entre o norte - muçulmano - e o sul - cristão.

Foto: eleitores se registram para votar no referendo

Levando-se em consideração que o presidente do país é o genocida Omar Hassan al-Bashir, é muito pouco provável que este processo se consuma sem qualquer incidente. E ao lembrar que o número total de mortos em Darfur passa de 300 mil, usar o termo "incidente" soa hipócrita, admito. Até porque Bashir já fez questão de deixar claro que não considerará válido o resultado do pleito.
Mais ainda, o presidente sudanês disse em pronunciamento oficial neste domingo que pretende adotar a lei islâmica, a sharia, como fonte única da constituição, caso a secessão se confirme. Ou seja, Bashir quer alimentar ainda mais as diferenças religiosas. A situação pode piorar, como sempre. Grandes países muçulmanos da região, Egito e Líbia já se colocaram contrários à divisão do país. O presidente egípicio, Hosni Mubarak, teme ter o acesso ao Nilo prejudicado; Muammar Khadafi diz acreditar que a criação do Sudão do Sul pode assustar investidores e incentivar novos movimentos separatistas no continente.

Na prática, nenhum dos países quer ficar alheio ao processo. Egito e Líbia estão profundamente incomodados por não serem protagonistas nesta questão. Ao apoiar Bashir, pretendem marcar posição. Ainda mais porque a existência deste novo Estado de maioria cristã conta com o apoio das potências ocidentais.

Ninguém sabe o que pode acontecer após a declaração de independência do Sudão do Sul, mas considero provável que se repita o fenômeno do deslocamento populacional. Como há minorias religiosas dos dois lados, não é impossível imaginar que elas decidam correr em sentido contrário, em busca dos países onde são maioria. Não seria a primeira vez que a humanidade assistiria a algo do tipo. E tampouco creio que esta eventual marcha aconteça sem sustos, a não ser que organismos multilaterais garantam a segurança dos deslocados.

Nunca é demais lembrar que, em agosto de 1947, Índia e Paquistão protagonizaram fenômeno semelhante. Com o fim do domínio colonial sobre o subcontinente asiático e a criação dos dois países, muçulmanos que viviam na Índia e hindus do Paquistão se realocaram. Assutados com a possibilidade de serem minorias nos novos países, seis milhões de muçulmanos deixaram a Índia, e oito milhões de hindus, o Paquistão. Esta grande troca populacional deixou dois milhões de mortos pelo caminho.

Considerando o histórico recente do Sudão, a confirmação de um cenário trágico como o descrito acima é sempre uma possibilidade bastante real.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Aprovação do novo governo do Iraque oculta as muitas complicações que ainda estão por vir

E então, depois de nove meses de impasse, o parlamento iraquiano aprovou o novo governo a ser comandado pelo primeiro-ministro Nouri al-Maliki. Isso não significa que o país caminha para se transformar na democracia exemplar sonhada por George W. Bush. Pelo contrário; os sinais não me levam a acreditar nisso. Como o Oriente Médio tem ensinado a duras penas nos últimos anos, a tentativa ocidental de moldar Estados de acordo com seus próprios princípios é absolutamente infrutífera.


A diferença no caso iraquiano é que certamente Maliki não irá tentar qualquer virada mais brusca neste momento. Seu maior objetivo agora é preparar o país e evitar qualquer grande mudança até a saída das tropas americanas prevista para o final do ano que vem. O primeiro-ministro iraquiano é uma figura de muitas facetas. Internacionalmente, tenta ser conciliador. Muitos apostavam, inclusive, que seria facilmente manipuldo pelos ocidentais.

Mas, como sempre, a vida real se mostrou muito mais complexa e repleta de nuances. Ao contrário de seu antecessor Saddam Hussein que privilegiava a minoria sunita, Maliki seguiu caminho oposto. A diferença em relação a Saddam não vai muito além disso, uma vez que, assim como o ditador deposto por Bush, o líder iraquiano gosta bastante de reter poder em suas mãos. Não é mera coincidência ele ter deixado de apontar ministros para pastas importantes, como Defesa, Interior e Segurança Nacional. Sabem quem vai cuidar desses assuntos por tempo indeterminado? O próprio Maliki.

Além disso, sua aproximação com o regime xiita iraniano não causa surpresa. Assim como Ahmadinejad e Khamenei, o líder iraquiano também tratou de colocar seus homens de confiança na chefia das forças armadas e busca desempenhar pessoalmente papel central nas agências de segurança. Também como acontece no Irã - onde a prisão de Evin é o símbolo mais importante do tratamento dado aos dissidentes políticos -, Maliki é acusado pela Anistia Internacional e a Human Rights Watch de manter suas próprias prisões e centros de tortura.

 
O governo iraquiano é elogiado pelos EUA por conseguir ser representativo dos muitos grupos que compõem a sociedade local. Na prática, no entanto, existe uma clara preferência pelo controle centralizado xiita. Por exemplo, o novo vice-primeiro-ministro na área de energia, Hussain al-Shahristani, declarou que todos os contratos assinados pelo semiautônomo Curdistão com empresas estrangeiras são ilegais.

 
Enquanto isso, os EUA parecem anestesiados. Diante de tantas frustrações em sua política externa, a mera ilusão de que a situação no Iraque pode se resolver já satisfaz o suficiente. No entanto, não creio ser impossível que, num futuro próximo, o país possa novamente se transformar numa ditadura fantasiada de democracia, assim como o Egito, por exemplo. Se isso acontecer, os EUA terão simplesmente mudado o cetro de mãos. E com a real perspectiva de terem aberto as portas para a influência iraniana. Este seria certamente o pior dos cenários para os americanos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Brasil, processo de paz no Oriente Médio e o senso de oportunidade do presidente palestino

O ex-presidente americano Jimmy Carter concedeu entrevista à Folha de São Paulo nesta semana. Dentre outros assuntos, comentou sobre o processo de paz no Oriente Médio. Talvez por falar com um jornal brasileiro, talvez por uma ponta de convicção, disse acreditar que o Brasil pode participar das negociações - até mesmo como protagonista. "O Brasil pode ajudar porque tem muita influência entre os países em desenvolvimento. Pode ser um dos líderes deste processo", disse.

Acho que há um tanto de confete na declaração. Mas não se pode negar que esta primeira década do século 21 mudou a ordem mundial significativamente. E este não é um fenômeno visto somente do ponto de vista da diplomacia brasileira. A atual situação de impasse no Oriente Médio reflete a perspectiva - altamente favorável aos palestinos - de que a hegemonia americana sobre as conversações está ruindo a cada dia.

Tal mudança não se deve apenas a este novo mundo que se consolida, mas às articulações. Acredito que o acaso está presente em boa parte da existência humana. A política não fica de fora, claro. Se hoje há um governo mais liberal na Casa Branca, Benjamin Netanyahu e uma aliança de partidos conservadores determinam os rumos da política israelense. A incongruência desses elementos gera inevitável frustração. E não poderia ser diferente, uma vez que as perspectivas das partes são completamente distintas.

O impasse entre EUA e Israel é interpretado como oportunidade pela Autoridade Palestina, assim como pelo Brasil. O presidente Mahmoud Abbas decidiu agir com inteligência e usar todo o poder de relações públicas. Neste domingo, recebeu em Ramallah parlamentares de Israel para pedir apoio. No foco do evento está a demanda da AP ao encerramento dos assentamentos e o projeto político que pretende declarar a independência palestina até agosto do ano que vem.
"Tal diplomacia pessoal encontra poderoso precedente na visita do ex-presidente egípcio Anwar Saddat, em 1977, a Jerusalém, que ajudou a angariar apoio público em Israel para as concessões territoriais que levaram aos acordos de paz de Camp David, em 1979, entre Israel e Egito", lembra o Christian Science Monitor.


Nunca é demais dizer que a assinatura do acordo de paz custou a vida a Sadat, morto posteriormente por radicais islâmicos. No caso do presidente Abbas, a situação é um pouco diferente. Ele não tem nada a perder. O Hamas já não o considera como o líder legitimo palestino e seu governo se restringe à Cisjordânia. Se não fizer nada, ele já não conta com a aprovação dos radicais em Gaza e tampouco com a solidariedade ou o respeito do Hezbollah, no Líbano, e do Irã. Portanto, é melhor procurar os pacifistas israelenses - que ao menos estão dispostos a ouvi-lo e sabem que é preferível se sentar com um presidente que manda pouco a não ter ninguém para dialogar.


Enquanto isso, Abbas tem o tempo a seu lado, de certa maneira. Quanto mais desgastada for a relação entre EUA e Israel, mais espaço haverá para novos atores - a maioria deles, como o Brasil, por exemplo, mostram-se bastante dispostos a criticar os israelenses.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Antonio Patriota substitui Celso Amorim no Ministério das Relações Exteriores

Dilma anunciou o substituto de Celso Amorim no Ministério das Relações Exteriores: o diplomata de carreira Antonio Patriota, que desde 2009 ocupa o cargo de secretário-geral do Itamaraty. Amorim definiu a escolha como uma homenagem à política externa do governo Lula. E a nomeação de Patriota é isso mesmo; o carimbo de continuidade da doutrina internacional adotada nos últimos oito anos.

 
Um ponto interessante é que a nomeação lembra de certa forma a recente substituição promovida pelo Irã. Ao escolher Ali Akbar Salehi como ministro das Relações Exteriores, o presidente Ahmadinejad tinha muitos objetivos pessoais, mas o novo ocupante do cargo possui algo em comum com Patriota: a conexão com os EUA. É claro que esta comparação se trata apenas de um exercício, até porque a pauta internacional brasileira - e, principalmente, sua forma de atuação - é bem diferente da iraniana.

O futuro ministro brasileiro é reconhecidamente um articulador político hábil que teve atuação decisiva na aproximação de Lula e George W. Bush, por exemplo. Patriota ocupou a embaixada em Washington a partir de 2006 e conseguiu construir boas relações com autoridades americanas. Tais contatos permanecem até hoje e sua nomeação deve agradar ao governo do EUA. É possível dizer que a escolha foi um tanto óbvia, uma vez que as características do novo ministro são únicas.

A proximidade com os americanos é proporcional à disciplina e ao rigor com que segue o pensamento da diplomacia brasileira recente. É importante se relacionar com os diversos atores nacionais, sem perder de vista os objetivos particulares brasileiros: a busca por reconhecimento e, principalmente, a vaga no Conselho de Segurança da ONU. Patriota partilha desta teoria e sua dedicação ao assunto rendeu, inclusive, um livro de mais de 200 páginas contando a história do Conselho de Segurança.

"A opção pelo embaixador Antônio Patriota para chefiar o ministério de Relações Exteriores revela pelo menos duas decisões da presidente eleita, Dilma Rousseff: o Itamaraty terá prestígio no novo governo, já que se manteve a prática do governo Luiz Inácio Lula da Silva de nomear diplomatas de carreira para os postos-chave do ministério; e a política terá preponderância sobre a economia: o novo ministro escolhido acredita que a ação da diplomacia deve ser pautada por critérios mais amplos que os interesses comerciais", escreve Sergio Leo, do Valor Econômico.

Ou seja, a política externa brasileira deve continuar a mesma, marcada pelo que chamo de ambiguidade estratégica: se por um lado o Brasil está disposto a se relacionar com todos os países de maneira pragmática, por outro mantém um traço bastante marcado ideologicamente.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Por que Lula está satisfeito com vazamentos promovidos pelo WikiLeaks

Há cerca de uma semana, o presidente Lula defendeu publicamente o WikiLeaks. Para ele, a questão é muito simples: o meio de divulgação não pode ser culpado pelo conteúdo das informações tornadas públicas. Este é um raciocínio coerente. No final das contas, o governo brasileiro perdeu muito pouco com o vazamento, pelo contrário. As impressões dos representantes americanos sobre as diretrizes políticas brasileiras de certa forma fizeram muito bem à linha determinada não apenas pelo Palácio do Planalto, mas também pelo Itamaraty.
Correspondências enviadas por oficiais americanos mostram preocupação dos EUA com a relação próxima entre Brasil e Irã. Esta não é uma novidade e, de fato, Brasília não esconde o desejo de se tornar mais presente nos palcos de negociações internacionais. A proximidade com os iranianos é encarada pelo Itamaraty como o trampolim viável para levar a cabo este projeto.
Em outro trecho vazado, um vice-secretário americano diz que Hugo Chávez é louco e "nem mesmo o Brasil estaria disposto a apoiá-lo". Esta é uma revelação neutra, que beira a positividade. Se uma das críticas de parte da sociedade brasileira e dos EUA é justamente o relacionamento entre Lula e o presidente venezuelano, quando autoridades dos EUA já questionam tal apoio o Brasil não tem mais nada a provar, certo?
Outro ponto interessante trata da recusa brasileira, em 2005, de acolher prisioneiros de Guantánamo. Neste aspecto, o país não foi o único a não cooperar. Na verdade, a maior parte dos países fez o mesmo. E, se a política externa do Itamaraty se pretende independente, o governo brasileiro adotou postura coerente neste caso.

A única contradição - mas que mesmo assim não é negativa sob o ponto de vista das relações internacionais ocidentais - é a cooperação velada de Brasil e EUA na busca empreendida a suspeitos de planejar ou apoiar o terrorismo na América do Sul. Obviamente, Brasília nega tal aliança com por conta das diretrizes externas do governo. E também por isso o país não possui legislação específica destinada a coibir o terrorismo.
Revelação recente dá conta de que o general Jorge Armando Félix afirmou ao ex-embaixador dos EUA que o Brasil deveria estar preparado a pagar um preço alto se quisesse se envolver em ações militares internacionais. O preço alto no caso seria a morte de soldados do país durante tais operações. Por mais doloroso e sincero que seja este depoimento, as palavras de Félix simplesmente representam o prolongamento prático da doutrina em vigor no Itamaraty - para qual o Brasil precisa se expor mais internacionalmente em nome do reconhecimento futuro.
Para completar, o partido do presidente Lula ainda recebeu um presentão: o vazamento de documentos que dão conta de que José Serra teria prometido a empresas petrolíferas americanas se empenhar a alterar as regras de exploração do pré-sal, se eleito presidente.

As companhias dos EUA estão descontentes com mudanças impostas pelo governo brasileiro na legislação que aprofundam o papel do Estado sobre o setor. Serra já divulgou nota negando tal informação. Mas acredito que o estrago já está feito. E ele não atinge apenas o ex-candidato, mas o próprio PSDB. Afinal, o partido fica em situação muito delicada, uma vez que um de seus principais nomes teria prestado fidelidade a empresas privadas americanas em detrimento dos interesses brasileiros. É uma denúncia grave que precisa ser muito bem esclarecida.
Diante de todo este cenário, realmente não há como Lula estar chateado pelos vazamentos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Irã substitui ministro das Relações Exteriores e mantém ambiguidade estratégica

Há muitas teorias e interpretações sobre a repentina decisão do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, de substituir Manouchehr Mottaki, ministro das Relações Exteriores. O episódio sofreu críticas contundentes de setores da imprensa do Irã principalmente por ter ocorrido enquanto Mottaki estava em viagem ao Senegal. Há significados distintos que de certa forma explicam o gesto. O mais claro deles é a disputa interna, que coloca em lados opostos o presidente - que conta com o apoio do líder-supremo, o aiatolá Ali Khamenei - e o parlamento.

 
Desde as controversas eleições de 2009, há uma disputa que varia entre velada e aberta. Ahmadinejad é visto com desconfiança por parte dos 290 membros da Assembleia Nacional devido às suspeitas de fraude e remanejamento do orçamento sem a aprovação prévia dos parlamentares. O presidente, inclusive, trava disputa pessoal com a prefeitura de Teerã - ocupada por Mohammad Baqer Qalibaf, seu rival político. O líder do parlamento, Ali Larijani, é um dos porta-vozes da disputa com Ahmadinejad.

 
Neste ambiente de confronto interno, o presidente - mais uma vez apoiado por Ali Khamenei - deu uma demonstração de força ao demitir Mottaki. Além de o agora ex-ministro ser outro de seus adversários políticos, os motivos dos constantes embates entre os dois explicam os rumos que a República Islâmica tem seguido.

 
"Mottaki era comprometido com o decoro diplomático e não seguia as atitudes de Ahmadinejad", explica Ahmad Bakhshayesh, professor de política da Universidade de Teerã à AFP. Excluir alguém com este perfil de uma pasta tão importante é uma bela forma de demonstrar quais as diretrizes do governo, certo? Mais ou menos. Como a realidade ensina, a complexidade do Irã não permite conclusões simples. Se a ambiguidade do país tem conseguido segurar decisões militares drásticas ocidentais até agora é porque há bastante mérito nesta prática.

 
Se a guerra política iraniana explica em parte a decisão de trocar o titular do Ministério das Relações Exteriores, do ponto de vista internacional a substituição não é necessariamente ruim. Pode, inclusive, servir aos propósitos de melhorar o diálogo sobre o programa nuclear com as grandes potências. O novo ministro, Ali Akbar Salehi (foto), é o chefe da Organização de Energia Atômica do Irã. Salehi tem perfil mais cosmopolita - com licença poética para empregar o termo. Estudou na Universidade Americana de Beirute, no Líbano, e no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos EUA.

 
O olhar de Teerã pode ter conciliado os interesses internos do presidente Ahmadinejad e uma boa dose de pragmatismo internacional. Sob este ponto de vista, seria como dar às grandes potências ocidentais o que elas mais querem. Se a grande preocupação é o programa nuclear iraniano, então que simbolicamente a pasta das Relações Exteriores seja ocupada por um especialista no assunto que, ao mesmo tempo, vai defender os interesses do país de acordo com as diretrizes do presidente e de Ali Khamenei.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A vingança dos nerds

É uma besteira condenar o WikiLeaks. O site não pode ser responsabilizado como se fosse uma organização de governo por ter vazado as informações. Julian Assange não é funcionário de qualquer agência de inteligência ou segurança e, por isso, não está comprometido com ninguém. Lutar para tentar fechar o site simplesmente alavanca ainda mais o movimento dos que o defendem.

 
Os líderes do grupo autointitulado Anonymous passaram a distribuir ferramentas virtuais para quem quiser participar da operação de vingança aos detratores do WikiLeaks. Os combatentes estão muito distantes do modelo tradicional de soldado. São jovens usuários de computador. A guerra virtual alardeada coloca em lados opostos também gerações distintas. De um lado os decanos congressistas americanos; de outro, uma geração que sabe não ter nada a perder. A internet é etérea e não é muito difícil para um hacker esconder sua identidade real.

 
Todas essas questões contribuíram para tornar Assange uma celebridade. E o fundador do WikiLeaks conseguiu atingir o objetivo do mercado: mobilizar a juventude. Assange é um líder para uma geração não identificada com qualquer das velhas e desgastadas ideologias políticas. Num mundo que caminha para a pasteurização, o australiano sensibilizou quem até então não estava nem aí para as lideranças tradicionais.

 
Assange é um gênio, é bom dizer. Mas mesmo os gênios precisam de sorte. E todas as circunstâncias contribuíram para criar este fenômeno. Sua popularidade decorre do fato de esses jovens identficarem na luta contra a repressão aos vazamentos um prolongamento de suas próprias reivindicações. 

"Antes do WikiLeaks, o alvo inicial da Operação Payback era a indústria fonográfica americana, eleita por suas perseguições aos usuários que baixam música", lembra reportagem do Guardian. Num efeito cascata, a batalha foi rapidamente vinculada à liberdade de expressão. Ora, é preciso ser claro e ter coragem para falar sem meias-palavras: a luta pela liberdade de expressão é muito justa e antiga. Mas nem por isso teve - inclusive nesses pouco mais de dez anos de popularização da internet - apoio em massa dos usuários. Menos ainda, dos jovens usuários.

 
Esta é uma briga comprada pelos nerds. E quanto mais correr o boato de que Assange fez sexo com duas suecas - duas suecas, é bom ressaltar -, maior será a idolatria em torno dele. Deixando de lado as brincadeiras, o "serviço" oferecido pelo WikiLeaks é um caminho sem volta. Daniel Domscheit-Berg, que trabalhou no WikiLeaks, diz nesta segunda-feira que criará seu próprio portal de vazamento de informações.

 
Como tudo é mercado, o australiano apenas deu o pontapé inicial para a existência de um nicho poderoso e com grande potencial de crescimento. A diferença é que o OpenLeaks - como o concorrente vai se chamar - não vai contar com a equipe de jornalistas de Assange para checar as informações antes de repassá-las aos jornais. No final das contas, do ponto de vista dos governos, era melhor não ter dado tanta importância ao vazamento inicial. A situação sempre pode piorar.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O Oriente Médio volta à pauta de interesses dos EUA

Agora que a política externa americana está exposta nua e crua, as autoridades de Washington iniciam o processo de recuperação dos danos. A melhor forma de mostrar bons serviços no exterior é atacar os pontos óbvios. O mais óbvio deles, o conflito entre israelenses e palestinos, constitui sempre um atrativo especial. Não apenas porque conseguir pequenos avanços já rende muitos frutos, mas também porque, a partir do início do ano que vem, começam os primeiros movimentos para a sucessão de Obama.

O campo de batalha política dos EUA ainda está totalmente aberto. Não poderia ser diferente, é bom dizer. Mas alguns símbolos deste novo cenário americano estão bastante amadurecidos. Um dos mais importantes deles é Sarah Palin, figura representativa dos conservadores do Tea Party. Adivinha para onde ela planeja ir neste final de ano? Israel e Grã-Bretanha. A viagem de Palin a Israel é importante por dois motivos: marca bem o apoio internacional do movimento e pretende atacar um dos principais pontos fracos da futura, quem sabe, candidata a candidata republicana; a política externa.

A secretária Hillary Clinton também está empenhada em emendar as articulações internacionais americanas. Encontra-se com o negociador-chefe palestino, Saeb Erekat, e com o primeiro-ministro, Salam Fayyad. Também tem reuniões com o ministro de Defesa de Israel, Ehud Barak. Eu não duvidaria que, apoiada pelo marido e pela falta de popularidade de Obama nos EUA, Hillary Clinton desse o troco e se firmasse como candidata democrata.

Em meio a tanta ansiedade, o fundamental: as negociações entre Israel e Autoridade Palestina estão paradas. A verdade é que seus três protagonistas estão incrédulos e demonstram ter abandonado o barco: o governo de Benjamin Netanyahu insiste na manutenção dos assentamentos; os palestinos permanecem divididos entre Fatah e Hamas; e os americanos não apresentam qualquer solução criativa para novas bases de diálogo porque estão neste momento mais preocupados com outras questões, principalmente com os muitos problemas internos do país. Esta zona de conforto costuma anteceder grandes conflitos na região.

A ofensiva diplomática palestina que pretende declarar unilateralmente a criação de seu Estado pode parecer uma solução ao impasse. Mas não é. Pelo contrário. O Estado palestino viável não será criado sem negociações. E a explicação para isso é óbvia. Por mais que todos os pacifistas sejam contrários aos assentamentos judaicos na Cisjordânia, é preciso admitir a realidade. Há 400 mil cidadãos israelenses que vivem atualmente em território palestino. Isso quer dizer que, se os palestinos declararem independência, precisarão lidar com pouco menos de meio milhão de população hostil a tal empreitada.

Este é um problema real porque certamente os colonos irão se manifestar. Ou alguém acha que, de uma hora para outra, eles simplesmente abandonarão suas casas e passarão a aceitar que Israel deve existir até somente as fronteiras pré-1967? Se um Estado palestino for unilateralmente declarado, há algumas opções: Israel parte para a defesa de seus cidadãos e declara guerra; Israel não faz nada e os colonos se organizam militarmente; os palestinos decidem expulsar os colonos e Israel parte para defender seus cidadãos.

Eu acredito num cenário mais complexo, que une a última alternativa a ações por parte de Hezbollah e Hamas para intervir neste conflito que me parece certo, no caso da declaração de independência unilateral palestina. Como tenho certeza de que as autoridades americanas já traçaram todas essas análises, não tenho dúvidas de que os EUA irão se voltar para o Oriente Médio novamente.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Tyler Durden do mundo real

Em todo este imbróglio em torno do WikiLeaks há um tanto de transposição das fantasias ocidentais de destruir seus próprios ícones econômicos. A sociedade do consumo sempre foi alvo de admiração e horror. O que acontece neste momento serve também para lembrar que a intervenção fundamentalista oriental - cujo paralelo exacerbado foi a destruição de um dos mais óbvios símbolos capitalistas, em 2001 - nunca foi necessária. O debate em torno dos valores ocidentais é realizado mesmo no coração da sociedade que os aprova, consome e reprova com a mesma intensidade.

O vazamento que causa tamanha polêmica é superdimensionado pelas circunstâncias. Não há dúvidas quanto ao conteúdo das informações, mas a verdade é que elas apenas formalizam o que todo mundo já sabia. Por exemplo, alguém duvidava das impressões americanas sobre Berlusconi ou Putin? Quem já não sabia que Israel se preocupa com o programa nuclear iraniano? Ou que os EUA têm conhecimento sobre o repasse de armamento da Síria para o Hezbollah?

Acho que talvez mais importante do que tudo isso seja perceber que a sociedade ocidental está insatisfeita com seus próprios resultados. O WikiLeaks é veículo da manifestação deste descontentamento. Nunca é exagerado lembrar que toda esta confusão acontece exatamente no meio do furacão de restrições, greves e diminuição de benefícios econômicos aos cidadãos comuns da maior parte dos países europeus.

O caso envolvendo Julian Assange é um cigarro aceso numa banheira de gasolina. Não é mero acaso que os ativistas digitais tenham escolhido como alvos preferenciais os maiores símbolos deste novo mundo cibernético: portais de Visa e Mastercard e, de acordo com especulações, a Amazon seria a próxima da lista. Como retrato deste momento, é importante dizer que o "Anonymous" - grupo que comprou a briga do WikiLeaks e se responsabiliza pelos ataques virtuais - foi organizado num fórum da internet. Seus membros descrevem o australiano fundador do portal como um "mártir da liberdade de expressão" - juro que não li esta entrevista antes de escrever o texto de ontem.

Os acontecimentos desses dias são especiais. Podem mudar a forma de reivindicação e mostram uma grande disposição de se colocar em prática elementos da ficção. Em 1999, o diretor David Fincher lançou o longa-metragem Clube da Luta. Acho que vale a pena assistir ao filme novamente. Em certo momento, a organização clandestina liderada por Tyler Durden decide explodir as sedes de grandes bancos e cartões de crédito. Assange já disse que suas próximas revelações serão capazes de pôr no foco da justiça alguns grandes bancos. Seus admiradores já derrubaram os portais das duas maiores empresas de cartões de crédito do mundo. Não se trata de crendice, mas de perceber as semelhanças.

Colunista da Vanity Fair e da Slate Magazine, Christopher Hitchens mostra um olhar crítico a Tyler Durden. Ou a Julian Assange, não faz muita diferença. Em meio a tantos acontecimentos, ele propõe uma reflexão interessante sobre o homem que tem sido o responsável pela exposição dos segredos da maior potência mundial.

"A astúcia da estratégia montada por Julian Assange é que ele fez com que todo mundo se tornasse cúmplice de sua decisão pessoal de tentar sabotar a política externa americana. Em suas fantasias, ele se vê provavelmente como uma espécie de guerrilheiro, mas no mundo real é apenas alguém que se ressente da civilização que o criou", escreve.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Assange a caminho de se transformar em mártir

A prisão de Julian Assange, nesta terça-feira, em Londres, foi absolutamente inútil, sob a perspectiva dos muitos governos que querem apagar o incêndio causado pela divulgação das centenas de milhares de documentos secretos. Levando-se em consideração a intenção clara de acabar com o WikiLeaks, prender seu fundador é uma tremenda bola fora. E nem era difícil imaginar as muitas reações em sentido contrário.

 
Em primeiro lugar, o mundo virtual politizado e militante funciona sob regras próprias. Uma delas - e há um tanto de exagero nisso, mas esta é uma forma de raciocínio - é imaginar que se alguém está causando tanta preocupação e alvoroço é porque detém verdades muito incovenientes (para não fugir do lugar-comum).

Este olhar desconfiado sobre as ações em torno de Assange é o responsável pelo crescimento em progressão geométrica de seus admiradores virtuais. Tanto que o WikiLeaks já se reproduz em outras centenas de portais. Ou seja, e aí vai mais um mandamento de política da rede, o que está escrito não pode ser apagado nunca mais. E isso demonstra mais força neste caso, uma vez que, de fato, o conteúdo divulgado por Assange incomodou bastante.

A revista alemã Der Spiegel classifica o fundador do WikiLeaks como o inimigo público número um dos EUA. Não há paralelos para um aposto como este. A capacidade de mobilização em torno de tal slogan é imensa. Assange está plenamente satisfeito pelo enorme favor que Washington e as potências europeias estão lhe fazendo.

A guerra "limpa" que empreende e a maneira como se transformou no maior vilão da sociedade ocidental o colocam num lugar único e inédito. É como se Assange fosse um bin Laden laico, desarmado e disposto a manter em funcionamento suas bombas de informação. Quantas centenas de milhares de organizações anarquistas, movimentos antiglobalização, pacifistas e toda a sorte de questionadores não passaram a ver em Assange um líder nato, alguém que conseguiu finalmente dobrar as grandes lideranças políticas mundiais?

Prender o criador do WikiLeaks é o mesmo que transformá-lo num mártir da informação. Um revolucionário que encontrou uma forma de expor as contradições mundiais sem disparar um tiro sequer. Quanto mais o portal for censurado mundialmente, mais seu líder será visto como um Gandhi contemporâneo digital.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Julian Assange: The Walking Dead

Acho que toda a confusão causada pela divulgação dos documentos secretos americanos permite algumas reflexões. A primeira delas é perceber que Julian Assange pode ser considerado o primeiro revolucionário digital. Ele não é pioneiro ao empreender ações virtuais que constrangem países ou organizações internacionais. A diferença é que ele faz isso sem se posicionar a favor deste ou daquele país ou em nome de qualquer empresa. Seu objetivo é tão somente expor as posições de bastidores, como alguém que pretende perturbar a ordem da diplomacia e das decisões por trás dos caros jantares e recepções de gala.

Assange é um inovador de fato por alguns motivos: não apenas criou uma ferramenta completamente nova, como também não permite ser classificado sob qualquer rótulo existente. Não é jornalista, investigador, empresário. O WikiLeaks aparentemente é mantido somente através de doações. A revolução em curso não se restringe às informações sigilosas publicadas, mas também à reação de toda a sociedade. E, como poucos, o portal que promove os vazamentos conseguiu respostas em escala global.

Não apenas os governos estão furiosos, mas também empresas. Por exemplo, o serviço de Pay-Pal - até então responsável pelas tranferências de pagamentos enviadas ao site - decidiu suspender a parceria.

Obter os documentos divulgados não é tarefa simples, mas também não se trata de algo extraordinário. Vazamentos que constrangem governos acontecem há muito tempo e a história recente está repleta de casos importantes que, inclusive, culminaram em renúncias, exonerações e consequências graves de todas as formas. A diferença agora é que, como o próprio Assange faz questão de afirmar, seu alvo não é um governo específico, mas todos. E mais: o criador do WikiLeaks de certa maneira copia a sociedade que ele mesmo diz combater ao transformar a exposição de documentos sigilosos em modo de operação.

Ou seja, a exposição e distribuição de informações aos maiores jornais do mundo não se trata apenas de uma denúncia pontual, mas de uma prática de trabalho corrente. O WikiLeaks não é um site de reportagens que neste momento apresenta dados internos, mas ele existe para este propósito.

Quando me refiro ao poder de inovação de Assange é porque acredito que seu grande mérito tenha sido perceber o mundo a seu redor e uní-lo a suas próprias ideologias, à demanda reprimida e às ferramentas disponíveis. Há três milhões de americanos com livre acesso a documentos confidenciais. São funcionários das muitas agências de segurança do país e das forças militares. Quantos insatisfeitos podem existir nesta massa de gente? Quantos deles estariam dispostos a vazar informações anonimamente?

Assange sabe de tudo isso. E é assim que tem conseguido levar adiante sua revolução. Uma revolução que ele promete estender agora à Rússia e China, arriscando ainda mais sua própria vida. Uma revolução cuja maior arma é simplesmente informação. E nada mais.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Novos documentos vazados pelo WikiLeaks ajudam a entender a política externa brasileira

No domingo à noite recebi um telefonema de uma entusiasta do blog que se apressou a compartilhar comigo os segredos revelados no final de semana pelo Wikileaks, projeto dedicado a encontrar e divulgar documentos secretos. Como não costumo acessar a internet com frequência nos finais de semana, corri ao computador para entender o que havia acontecido. De fato, os mais de 250 mil textos e telegramas sigilosos que revelam as ansiedades, opiniões e o pensamento internacional do governo americano poderiam pautar este site por um bom tempo.

Por conta disso, decidi me dedicar sem qualquer pressa ao assunto e neste primeiro momento pretendo examinar as interessantíssimas posições diplomáticas brasileiras. Sim, deste total de documentos descobertos, há 1.948 dedicados somente ao Brasil. Antes que se questione o volume, é bom dizer também que as informações cobrem correspondências entre embaixadas americanas e Washington entre 28 de dezembro de 1966 e 28 de fevereiro de 2010.

Um dos aspectos interessantes – e o WikiLeaks estrategicamente divulgará todas as informações em intervalos de tempo de forma a manter o assunto vivo – é verificar mais sobre a relação de Washington e Brasília durante a ditadura militar brasileira.

De qualquer maneira, os dados disponíveis ajudam a entender não apenas as relações atuais entre Brasil e EUA, mas também a política externa do governo Lula. Há vários sinais que mostram a ratificação de uma linha de raciocínio sofisticada. Por exemplo, em relação ao terrorismo, a embaixada americana traça um perfil sobre o comportamento do Itamaraty.

Documento do então embaixador Clifford Sobel elogia as ações de combate ao terrorismo, mas deixa claro que o Brasil não quer tornar públicas tais práticas. O texto afirma que as autoridades brasileiras prendem com frequência indivíduos ligados ao terrorismo. Ainda segundo o ex-embaixador, o país evitaria estardalhaços devido ao "medo de estigmatizar a grande comunidade muçulmana no Brasil" ou "prejudicar sua imagem como destino turístico". Também "evita parecer com o que é visto como uma política agressiva dos EUA de guerra ao terrorismo".

Há muito para ser dito diante de tantas revelações. Em primeiro lugar, acho que a maneira como Sobel interpreta a preferência de Brasília por não divulgar ações antiterror é limitada. É claro que há esforços para não estigmatizar os 1,5 milhão de muçulmanos que vivem no país ou mesmo de não arranhar a imagem como destino turístico. Mas isso não é tudo. O Brasil não quer se colocar como agente da guerra ao terrorismo na América Latina justamente porque internacionalmente defende um discurso de busca por negociações e frequentes críticas à maneira como países que enfrentam ameaças terroristas lutam contra elas.

Além do mais – e aí o ex-embaixador faz uma ótima análise – haveria grandes estragos às pretensões internacionais brasileiras se o país passasse a ser visto como parceiro americano em questões de segurança global. O Brasil perderia onde quer mais ganhar politicamente: no posicionamento como líder equilibrado do movimento dos Estados "não-alinhados". Como poderia requisitar tal status ao se colocar voluntariamente ao lado dos EUA num assunto tão sensível a parceiros que Brasília considera fundamentais?

O fato de manter o discurso equilibrado abertamente e combater ações, planejamento e financiamento ao terrorismo em "low profile" resume o pensamento externo corrente do Itamaraty: manter a legalidade nacionalmente e não incentivar a violência ao mesmo tempo que evita cumprir com entusiasmo o que poderia ser interpretado como a "cartilha americana".

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Eleições no Egito são importantes para o futuro próximo do Oriente Médio

No próximo domingo, dia 28, meio que na encolha por conta de tudo o que está acontecendo no mundo, o Egito realiza eleições parlamentares. Não se pode esquecer a importância estratégica regional do país e de como tudo o que acontece a partir do governo do Cairo reverbera em todo o Oriente Médio. A presidência de Hosni Mubarak deve ser "ameaçada" somente no ano que vem, quando haverá eleições para o cargo político máximo. Mesmo assim, o pleito atual pode dar algumas pistas importantes sobre o rumo a ser seguido pela controversa "democracia" egípcia.

Em primeiro lugar, é preciso apresentar uma série de contradições de um dos principais aliados americanos na região: é o partido de Mubarak – que ostenta ironicamente o título de Partido Nacional Democrático – o responsável pela verificação do processo eleitoral. Isso já seria estranho o suficiente, mas vale dizer também que o PND – representado pelo presidente – está no comando do país há 30 anos, e recentes declarações indicam que ele deverá concorrer novamente ao cargo no ano que vem. Para completar, há indícios de que a cobertura da imprensa egípicia no domingo já está comprometida com os candidatos do partido do governo.

Resta saber, então, por que os EUA apoiam um presidente que não larga o osso, direciona a imprensa e controla o parlamento. No jogo de forças políticas do Oriente Médio, Mubarak dispõe de uma característica capaz de levar os americanos a fecharem os olhos para todas as demais: ele sufoca o movimento fundamentalista Irmandade Muçulmana, que prega a islamização da política egípcia, por exemplo, e é fonte de inspiração para o Hamas, em Gaza, e diversos grupos radicais islâmicos em toda a região. Mubarak não apenas colocou o movimento na ilegalidade, como costuma sufocar qualquer manifestação de força de seus militantes.

Curiosamente, no entanto, a situação não é a representação completa do maniqueísmo. Isso porque a legislação política egípcia – ao contrário da brasileira, por sinal – permite que candidatos concorram ao parlamento como independentes. Tal brecha permitiu à Irmandade Muçulmana eleger um em cada cinco parlamentares nas últimas eleições (há 518 cadeiras no parlamento do país).

Há alguns fatos novos que podem alterar este tênue equilíbrio de poder no Egito: a mobilização de parte da sociedade – 14 mil membros de entidades civis do país pretendem fiscalizar as eleições, mas a autorização depende da Comissão Eleitoral do governo – e o retorno do ex-presidente da Agência Internacional de Energia Atômica Mohamed ElBaradei ao país. Ganhador do prêmio Nobel da paz e fundador do movimento Associação Nacional para Mudança, ElBaradei é bastante popular e representa uma terceira via para disputar politicamente as eleições presidenciais no ano que vem.

Por ora, resta observar os resultados de domingo. A tendência é de vitória em larga escala do PND, mas pode ser que a Irmandade Muçulmana – representada por boa parte dos candidatos independentes – consiga mais uma votação expressiva. Se isso acontecer, ninguém sabe como o próprio Mubarak irá reagir.

Resta a dúvida também como os demais atores regionais poderiam responder a esta injeção de ânimo. E mais: creio que, neste caso, o próprio processo de paz entre israelenses e palestinos seria ainda mais prejudicado, uma vez que o Egito exerce o papel de importante intermediário regional para as conversações.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Imprensa internacional e a cobertura sobre a violência no Rio: o Brasil ainda está no lucro

Era só uma questão de tempo até que a onda de violência no Rio merecesse a devida atenção internacional. Como este período em que vivemos é marcado pela instantaneidade, a preferência dos veículos estrangeiros pelo Brasil era só uma questão de escolha mesmo. Esta escolha foi feita na medida em que a crise entre as Coreias parece ter sido reduzida a um episódio pontual.

Assim, o Brasil retorna às manchetes de uma maneira muito familiar. No final dos anos 1980, o país disputava cabeça a cabeça com a Colômbia o imaginário de violência latino-americana. Depois da estabilização econômica e, finalmente, dos últimos oito anos de crescimento, participação em fóruns e protagonismo até diplomático, subimos alguns muitos degraus. Não acredito que esta crise momentânea irá conseguir deslegitimar todas as boas credenciais adquiridas recentemente.

Sem a menor dúvida, no entanto, é um presente de grego para o final de mandato de Lula, presidente empenhado em tornar o Brasil ator relevante. O projeto do Itamaraty é bem sucedido, não se pode negar. Aliás, talvez por isso, até agora as reportagens de veículos do exterior não tem partido para a condenação das ações policiais. Muito pelo contrário.

"O estabelecimento das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) há dois anos testemunhou a primeira tentativa de quebrar o ciclo, introduzir as leis nas favelas e conquistar corações e mentes da próxima geração".

Ao contrário do que possa parecer, este não é um trecho de qualquer comunicado oficial do governo estadual do Rio de Janeiro, mas parte da reportagem do britânico Telegraph que pretende explicar os acontecimentos desta semana.

Como não poderia deixar de ser, há também uma comparação entre a situação de Colômbia e Brasil para justificar as medidas tomadas pelo governador Sérgio Cabral.

A maior parte das reportagens tem seguido este rumo. De certa forma, as políticas de relações públicas brasileiras podem ser consideradas efetivas porque, ao contrário do que ocorre na maioria de situações conflituosas, os grandes jornais não estão – pelo menos até este momento – questionando qualquer medida oficial. Quem acompanha os acontecimentos internacionais sabe que situações deste tipo costumam causar controvérsia.

No caso do Rio, alguns fatores talvez expliquem o momentâneo vácuo de críticas: a falta de familiaridade da imprensa e do público internacionais com a situação; e a dificuldade de acesso aos traficantes que combatem a polícia. Os grupos armados que atuam nas favelas estão a anos-luz de distância dos paralelos radicais que combatem em outras partes do planeta e que investem pesado na construção de discursos para validar suas posições.

Isso porque há grande diferença entre esses grupos. Se no Oriente Médio, por exemplo, há grande escopo ideológico por trás das ações armadas, por aqui o único interesse é manter o tráfico. Por mais que originalmente parte dos grupos armados cariocas tenha tentado se vincular a movimentos ideológicos, a prática atual deixou claro que, assim como determina a economia ocidental, o mercado é o único ente a ser venerado. Não há espaço ou interesse de misturar qualquer discurso a ele. 

Não é possível dizer se a suavidade quanto ao olhar interpretativo sobre as ações brasileiras neste caso será mantida. Tudo vai depender de como a polícia e o governo – e Brasília deverá ter um papel ainda mais ativo – agirem nos próximos dias. Enquanto isso, é bom que se saiba que os estragos internacionais foram mínimos.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Coreia do Norte: autoestima de Kim Jong-il é esquizofrenia nacional

As incongruências entre as expectativas norte-coreanas e as concessões internacionais podem acirrar os conflitos iniciados ontem. Perceber que Pyongyang pretende se estabelecer como potência atômica planetária reforça o que já escrevi. Para analisar os passos do regime de Kim Jong-il é preciso ter em mente mais uma característica humana transportada às ações governamentais: a autoestima está alta demais.

Na foto: manifestante sul-coreano em Seul queima bandeira da Coreia do Norte

Isso poderia não ser ruim necessariamente. O problema é quando ela passa a denunciar uma boa dose de loucura. Loucura do grande líder transformada em insanidade institucional. Como menciona o texto de ontem, o Ocidente enfrenta grandes dificuldades para entender a Coreia do Norte porque todas as explicações levam em consideração certo bom-senso.

Agora, depois do primeiro impacto causado pelos bombardeios, já é possível estabelecer novos paradigmas de análise. Um dos mais interessantes é o seguinte:

"O que eles (os norte-coreanos) desejam há ano é reconhecimento diplomático de seu país pelos EUA. Eles estão frustrados porque entraram nas negociações de seis partes, fizeram testes nucleares e todo o tipo de ameaças, mas ainda não conseguiram levar os americanos à normalizar relações", diz à CNN Wenran Jiang, cientista político da Universidade de Alberta, no Canadá.

Ora, a premissa apresentada mostra total falta de conhecimento do modo de operação de Washington. Algum Estado que minimamente acompanhe a política externa americana desde o início do século 20 saberá que os EUA não costumam aceitar chantagens em troca de relações diplomáticas. Há três administrações presidenciais americanas – a partir de Bill Clinton, em 1994 – existe um consenso de que é preciso interromper o programa nuclear norte-coreano. Houve muitos erros de análise por parte dos EUA, mas em nenhum momento qualquer presidente do país ou autoridade mostrou a mínima disposição de conviver com a possibilidade de uma Coreia do Norte com capacidade atômica.

Em artigo publicado no Wall Street Journal, Michael J. Green e William Tobey, dois ex-oficiais de segurança dos EUA, informam que fontes da Coreia do Norte dizem que o interesse de seu governo é negociar com os americanos um acordo de controle de armamentos. Isso é tão improvável de acontecer que soa ridículo. Se os EUA enfrentam dificuldades para ratificar internamente um tratado de redução de arsenal nuclear com a Rússia (Start, na sigla em inglês), imagina como os congressistas reagiriam a uma proposta deste tipo para fazer algo semelhante com os coreanos? Não faz qualquer sentido.

Washington está em conversações com Moscou porque no século 20 houve algum paralelo entre a capacidade militar dos EUA e da ex-URSS. Definitivamente, o mesmo raciocínio não pode ser aplicado à Coreia do Norte.

Se Pyongyang deposita na aceitação americana de sua autoestima como forma de dar fim a esta nova série de provocações, é melhor que a Coreia do Sul se prepare para novos ataques. Aliás, os EUA já despacharam para a região o porta-aviões George Washington acompanhado de navios militares para conduzir exercícios com os aliados de Seul. Esta primeira resposta oficial deixa claro que as expectativas estão em patamares muito distintos.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Coreia do Norte manifesta ambiguidade. Mais uma vez

O ataque de hoje promovido pela Coreia do Norte à ilha de Yeonpyeong, no lado sul da disputada fronteira marítima entre as duas Coreias, pode ser interpretado de muitas maneiras. Não há dúvidas de que a escalada de violência na região deixa o mundo todo em alerta. Mas a globalização aponta algumas semelhanças entre países suspeitos de prosseguir com programas nucleares cujos fins seriam militares: quanto mais inconsequente – ou quanto mais parecer inconsequente –, melhor.

Esta é uma forma de manter em permanente estado de alerta aqueles que tentam negociar com potências atômicas. A característica humana da insanidade é propositalmente transportada para governos – por mais estranho que isso possa parecer. Desta maneira, o Irã tem conseguido, bem ou mal, se equilibrar. Desta maneira também está agindo a Coreia do Norte.

Desde o estabelecimento das negociações de seis partes (como são chamadas as seguidas rodadas de conversas entre Pyongyang e potências internacionais), em agosto de 2003, o regime de Kim Jong-il deu muitos passos adiante e outros tantos em sentido contrário.

E assim, sempre aceitando enormes quantias de dinheiro quando promete interromper seu programa nuclear, a situação segue exatamente no mesmo ponto. Aliás, há duas semanas o Ocidente teve uma bela resposta: a Coreia do Norte convidou Siegfried Hecker, ex-diretor dos laboratórios Los Alamos, nos EUA, para conhecer as instalações nucleares do país. Foram três horas e meia de visita às centrífugas de enriquecimento de urânio. No auge do senso de humor, o governo jura que pretende apenas produzir eletricidade.

O ataque de hoje é permeado de explicações muito plausíveis por sinal: seria uma reação norte-coreana aos exercícios militares conduzidos pela Coreia do Sul realizados próximos à chamada Linha de Limite ao Norte, fronteira marítima entre os dois países reconhecida pela ONU, mas que não conta com a aprovação da Coreia do Norte; ou marca o início do processo de sucessão de Kim Jong-il – segundo o pesquisador sul-coreano ouvido pela revista Time Cheong Seong-Chang, Kim Jong Un, o filho do ditador, estaria sob influência de um grupo de generais ainda mais linha-dura.

Acredito mesmo que tais motivos tenham contribuído para os ataques de hoje. Mas acho também que a demonstração de força segue a linha de reforçar ainda mais o perfil inconsequente construído pelo regime mais fechado do planeta. As interpretações sobre os acontecimentos são sempre lógicas demais, muito embora a Coreia do Norte dê repetidas mostras de ambiguidade internacional. Por exemplo, o bombardeio acontece no dia seguinte ao envio de delegados do país à Coreia do Sul para discutir, com o auxílio da Cruz Vermelha, o envio de ajuda a Pyongyang.

A explicação menos politicamente correta e mais compatível com o contexto vem de Praveen Swami, editor de Diplomacia do britânico Daily Telegraph.

"Ao atacar uma ilha sem qualquer valor estratégico, o regime disfuncional – mas eminentemente racional – da Coreia do Norte pretende mostrar ao mundo quanta dor pode causar se não for subornado para se comportar. Ambos os lados querem riqueza, não guerra – e o armamento nuclear é o meio norte-coreano de obter isso", escreve.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O envolvimento do Hezbollah no assassinato de Rafik Hariri e o futuro do Oriente Médio

A Canadian Broadcasting Corporation (CBC) investigou e deu o furo mundial do dia – e, quem sabe, do ano. Segundo o grupo de comunicação canadense, o Tribunal Especial do Líbano estabelecido pela ONU chegou à conclusão de que o Hezbollah esteve diretamente envolvido no assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri (foto). Mais tarde, o atentado à bomba que matou o líder nacionalista libanês culminaria na Revolução de Cedro, movimento popular que conseguiu encerrar a ocupação síria.

A reportagem da CBC mostra que gravações telefônicas apontam contatos frequentes entre oficiais do Hezbollah e os proprietários dos telefones celulares usados na detonação dos explosivos que mataram Hariri. Leia a matéria completa aqui.

Já escrevi em outubro passado sobre a comissão que investigava o caso (leia aqui). As consequências das descobertas podem ser gravíssimas. A posição oficial do Hezbollah – e não poderia ser outra, claro – era de que Israel teria participado do ataque. Os israelenses sempre negaram as acusações.

A divulgação das informações colhidas pela CBC deve mudar profundamente o rumo do Oriente Médio. Como se sabe, a milícia xiita libanesa recebe ajuda financeira e militar iraniana. Acuada, deve reagir muito mal. Isso significa que pode seguir dois caminhos: ou manter o empenho em deslegitimar o tribunal da ONU – o que deve ficar mais difícil agora – ou tentar até mesmo promover um golpe de Estado. Esta não é uma possibilidade remota. Nunca é demais lembrar que as forças do Hezbollah possuem mais armas e são mais preparadas que o exército regular libanês.

Além disso, é muito provável que, se optar por esta decisão, a milícia conte com ainda mais apoio dos aliados Irã e Síria. Não é difícil imaginar que os dois países ratifiquem apoio ao grupo em nome de uma suposta defesa dos interesses nacionais libaneses em confronto com Israel e EUA. Este discurso mobiliza parte considerável da opinião pública interna, além de muitos setores em todo o Oriente Médio.

Tampouco é improvável imaginar que o Hezbollah volte a adotar estratégias militares do passado recente. Acredito que, se de fato a ONU bancar as conclusões reveladas pela CBC e decidir indiciar membros do Hezbollah até o final deste ano, a milícia xiita opte por voltar a lançar mísseis sobre o norte de Israel. Como o líder Hassan Nasrallah declarou muitas vezes, o grupo teria se rearmado desde a guerra contra os israelenses de 2006 e hoje estaria em situação ainda melhor do que naquele período.

Envolver Israel num novo confronto militar atende a alguns interesses importantes: une internamente o país e mobiliza seus aliados regionais. Por outro lado, há uma grande parcela da população libanesa que não está mais disposta a pagar por tal decisão. Será preciso encontrar um modo de atacar Israel sem deixar evidente que se trata de uma retaliação às evidências apresentadas pelo tribunal das Nações Unidas. E será muito difícil levar este projeto adiante.

Travar uma nova guerra com Israel pode também precipitar um ataque israelense às instalações nucleares iranianas. Se isso acontecer, Jerusalém poderá contar com o apoio de Washington – o que não interessaria ao Irã neste momento. Por tudo isso, acho que este é o pior momento da história do Hezbollah.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Como a epidemia de cólera no Haiti pode afetar as posições internacionais brasileiras

Revoltas populares, barricadas, queima de pneus e represálias policiais não são incomuns. Curioso é quando o alvo da ira é a ONU. No caso, os soldados da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) chefiada pelo Brasil. Talvez este seja o primeiro grande desafio internacional de Dilma Rousseff. Na verdade, como já escrevi tantas outras vezes, era apenas uma questão de tempo para que o Brasil deixasse de ocupar o posto de "queridinho" mundial. Este é o preço natural que se paga quando se assume um papel mais arrojado na política externa. Na prática, é muito simples: lutar por espaço certamente incomoda muita gente - ou, no caso, os muitos países concorrentes que se acotovelam na briga por protagonismo neste novo mundo em formação.

 
Vai ser no mínimo curioso entender como Brasília reagirá a partir desta mudança de cenário. O governo brasileiro, pela primeira vez desde a Guerra do Paraguai (1864-1870), pode estar mudando de lado na bancada. Não necessariamente os conflitos no Haiti vão se encaminhar desta forma, mas é uma possibilidade. Se o clima hostil entre a Minustah e a população piorar ainda mais, poderemos testemunhar mortes de civis e, por consequência, o comando militar brasileiro local - em coordenação com o Itamaraty - tendo de explicar suas ações.

 
No entanto, é bom deixar claro que o Brasil não é o causador desta revolta popular. A epidemia de cólera que já registra mais de 18 mil doentes e mais de mil mortos é a origem dos distúrbios. A população acredita que soldados nepaleses que compõem a Minustah são os responsáveis por levar a doença ao país. Ainda não há uma posição final quanto a isso, mas já se sabe que o vírus presente ao Haiti é o mesmo em circulação no sul da Ásia e que chegou ao país através de uma única fonte ou evento.

De qualquer maneira, a epidemia é a gota d'água numa sociedade atingida pela fome, miséria e falta de acesso a recursos básicos de higiene. Se antes do terremoto devastador de janeiro somente 17% dos haitianos usufruíam de saneamento, hoje a situação é muito pior. E não é por falta de dinheiro, mas pelo caminho tortuoso que a ajuda financeira segue. Há hoje no país 10 mil Organizações Não-Governamentais (ONGs). Segundo Allyn Gaestel, jornalista do Atlantic baseado em Porto Príncipe, menos de 38% dos recursos captados após a tragédia do início deste ano foram aplicados na construção de infraestrutra.

E aí cabe dizer que há um erro fundamental na alocação do dinheiro: o Estado haitiano ficou em segundo plano. O principal destino do montante é este amontoado de ONGs instaladas no país. O processo é descentralizado, gerando ainda mais dificuldades de regulamentação, fiscalização e aplicação prática dos recursos. Fora que, agora, o Haiti pode estar pagando um valor altíssimo pelas estratégias da política externa americana recentes.

"Em 2000, um empréstimo de 54 milhões de dólares do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) deveria ter sido repassado ao governo haitiano como forma de reabilitar seus sistemas de saneamento urbanos e rurais. Mas os EUA queriam desestabilizar o governo democraticamente eleito de (Jean-Bertrand) Aristide. Fontes sugerem que o governo americano teria pedido ao BID que bloqueasse o envio deste dinheiro, assim como outras remessas totalizando 146 milhões de dólares que seriam investidos em educação, saúde e infraestrutura santiária (...)", escreve Isabeau Doucet, correspondente do Guardian no Haiti.

Esta é uma denúncia gravíssima que precisa ainda ser provada. Mas é pouco provável que tal investigação ocorra agora, até porque colocaria Washington em posição muito delicada. O fato é que esta bomba-relógio de graves consequências humanitárias está no colo do Brasil, de certa forma. E talvez configure o primeiro grande desafio internacional de Dilma. Dependendo de como a situação irá transcorrer, o Haiti pode ter um papel determinante na história política brasileira, marcando o momento em que o Brasil passaria de pedra a vidraça.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Crise na Irlanda: todo mundo é culpado, mas caberá somente ao povo o ônus da austeridade

A confusão econômica europeia atinge em cheio a Irlanda. A discussão sobre se vale ou não a pena aceitar o pacote monetário de resgate oferecido pela União Europeia gira em torno também das variáveis políticas. Os irlandeses se sentem especialmente incomodados com a possibilidade de a Grã-Bretanha ser uma das principais agentes de salvação. É interessante que o debate de ideias tenha seguido por este caminho.

Ao que parece, Dublin deve ceder às fortes pressões. Segundo o dirigente do Banco Central Irlandês, Patrcik Honohan, o país vai receber um empréstimo bastante substancial, muito embora o governo da Irlanda negue mesmo ter pedido a ajuda.

No centro deste imbróglio está o Fianna Fáil, partido no comando do país desde a criação do Estado nacional irlandês. Não seria espantoso se a crise econômica levasse junto o movimento. Ou ao menos revigorasse a oposição, o que seria bastante natural. O que tem dificultado, inclusive, a possibilidade de a Irlanda aceitar o pacote de resgate é justamente a posição adotada pelo Fianna Fáil de que a soberania do país está em jogo.

Este discurso não é completamente inválido, na medida em que todo mundo conhece as pesadas contrapartidas exigidas pelo FMI - um dos protagonistas da injeção monetária - em troca da suposta "salvação" econômica. Talvez o partido político irlandês não esteja comunicando corretamente sua posição. Ou esta seja uma estratégia proposital de forma a evitar alarmismos. De qualquer maneira, a diretriz oficial está longe de ser unanimidade.

"Em certo ponto, a intervenção de UE e FMI não é necessariamente ruim. Signfica que as decisões de como podemos viver de acordo com as nossas condições serão forçadas goela abaixo dos interesses competitivos que bloquearam qualquer resposta nacional genuína à crise", defende editorial do Irish Times.

Enquanto as conversas teóricas mantêm passo firme, a situação econômica do país é cada vez mais catastrófica. O déficit já alcançou a incrível marca de 32% do PIB. Se parece não haver mais tempo para decidir, é preciso que o governo seja muito cuidadoso com o caminho que irá escolher. Acho que isso explica a aparente inércia de Dublin diante do caos iminente. Se for isso, seus dirigentes apresentam comportamento ético único em todo mundo. Não se poder atribuir o ônus à população.

Esta guerra verbal capitaneada pela Alemanha se enquadra bem neste dilema. Como escrevi ontem, Berlim tem usado seu status econômico como prerrogativa para desancar os demais países. Isso é contraditório hoje, na medida em que, de certa maneira, se não fosse a "irresponsabilidade consumista" dos tempos de vacas gordas em boa parte do Estados europeus hoje na penúria, as empresas alemãs - e por consequência o país inteiro - não estariam entre as mais "saudáveis" e lucrativas do continente. Por isso tendo a concordar com a posição de Alan Posener, comentarista da Die Welt e um dos mais influentes blogueiros alemães.

"São os gregos e irlandeses que não podem encontrar uma saída (...) e estão encarando anos de austeridade para compensar as extravagâncias do passado. Um passado em que você não escutava Mercedes, Siemens e companhia reclamarem que essas pessoas compravam um monte de coisas com as quais não poderiam arcar; um passado em que bancos, que supostamente deveriam monitorar o mercado e avisar sobre eventuais crises, permaneceram estranhamente silenciosos", escreve.