segunda-feira, 3 de novembro de 2008
A vida dura do próximo presidente americano
Seja quem for o eleito, o próximo presidente vai receber de bandeja uma dívida federal de 1 trilhão de dólares. As últimas notícias mostram a queda de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB) no pior resultado desde o índice negativo de 1,4% no terceiro trimestre de 2001, depois dos atentados de 11 de setembro.
O próximo governante americano terá em suas mãos a situação econômica mais grave dos Estados Unidos em 80 anos. O preço da gasolina caiu, mas esta não é uma novidade a ser comemorada. Ocorre devido à queda no consumo, e as rodovias registraram redução no tráfego de 3,6% em relação ao ano passado.
No campo das relações externas, os desafios são enormes. Por menos piores que tenham sido as últimas estatísticas de baixas americanas no Iraque, o efetivo militar dos Estados Unidos enfrenta grande dificuldade para controlar a situação no Afeganistão. No total, até o final do dia 3 de novembro, 4.775 soldados americanos perderam suas vidas nas duas ofensivas.
Além disso, a diplomacia e os serviços de segurança dos Estados Unidos terão de lidar com a possibilidade de um Irã nuclear, a retomada das sensíveis relações com a Rússia, a crescente onda de terrorismo na Índia e no Paquistão, a ameaça econômica e militar da China, a provável sucessão na Coréia do Norte, além de encontrar uma maneira de frear a influência de Chávez na América Latina e suas alianças com Síria, Irã e Rússia. E, é claro, a tentativa de costurar um acordo de paz definitivo entre israelenses e palestinos.
Curiosamente, esses dilemas podem ser colocados diante de Obama, cujo perfil internacionalista se contrapõe ao do atual presidente George W. Bush. Vale lembrar, entretanto, que foram os atentados de 11 de setembro os responsáveis por forçar este último a se aventurar além das fronteiras. Para refrescar a memória, Bush não tinha qualquer interesse de se tornar um grande estadista ou fazer um governo marcado pela política externa - como de fato ocorreu.
Apesar disso tudo, a Presidência americana é disputadíssima. Até porque, a oportunidade de mostrar trabalho é enorme. Portanto, quem conseguir resolver metade das complexas questões que o momento apresenta, terá feito seguramente um ótimo governo e poderá terminar este primeiro mandato com um índice de popularidade semelhante ao de Bill Clinton, que, em 2001, deixou a Casa Branca respaldado por uma taxa de aprovação de 67%.
domingo, 2 de novembro de 2008
O continente que não existe
A África é o maior continente do planeta. Mas poderia ser o menor. Talvez seja mesmo. A morte de milhões de seus habitantes não é, não foi e aparentemente nunca vai ser uma preocupação dos governos dos países mais poderosos do mundo.
A atual crise da República Democrática do Congo - que já foi Congo Belga, Zaire e voltou a ser Congo - mereceu uma certa preocupação da ONU. Para proteger a população civil, a instituição cujo objetivo era garantir a paz no planeta deslocou para o país um efetivo de 17 mil soldados. É deles a missão de impedir mais uma tragédia humanitária.
Irã, Rússia, China, dentre outros nove países, continuam a fornecer armas para a milícia árabe Janjaweed, organização responsável pela morte - até o momento - de cerca de 300 mil negros não-muçulmanos desde 2003 em Darfur, no Sudão. Segundo a ONG britânica Oxfam, mil pessoas são forçadas a abandonar suas casas a cada mês. Mesmo assim, dos 26 mil soldados das forças de paz da ONU previstos para combater a violência na região, apenas um terço foi enviado.
E nenhum país se opõe de fato ao massacre diário em Darfur. Pelo contrário. Afinal, ninguém quer deixar de comerciar com a China ou abre mão de estreitar laços com o Irã. Os discursos são sempre vazios quando se trata de evitar mais um massacre no continente. A cada dia, fica claro que o mundo se lembra da África apenas quando se trata de admirar rostos tristes e sofridos na capa da National Geographic. Biafra, Somália, Ruanda, Serra Leoa, Sudão, Congo e tantos outros são simplesmente nomes de tragédias que o mundo fez muito pouco para evitar.
Abaixo, a reportagem mostra que muitos civis têm atacado os comboios da ONU demonstrando revolta pelo que consideram descaso das Nações Unidas com o genocídio iminente. A ONU argumenta que o papel das Forças de Paz é apenas o de tentar proteger civis, e não se envolver em conflitos diretos com os rebeldes.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Atentado à universidade
Um detalhe importante: a Universidade de Navarra foi fundada em 1952 por Josémaria Escrivá, fundador do Opus Dei, corrente católica conservadora cujas práticas são ainda bastante controversas mesmo dentro do catolicismo.
Vale lembrar que o Jornalismo brasileiro está profundamente ligado à Universidade. Ela promove no Brasil o curso master em Jornalismo realizado em São Paulo e freqüentado por profissionais da área que ocupam - em grande parte - cargos de chefia em importantes veículos de imprensa.
Essa estreita relação entre a Universidade de Navarra e a nata do Jornalismo brasileiro já foi alvo de bastante polêmica, justamente pelos elos entre o Opus Dei, a própria Universidade e o diretor do Master em Jornalismo, Carlos Alberto Di Franco.
Para relembrar o caso, clique aqui e aqui
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
O terrorismo está mais vivo do que nunca
Muitas vezes equivocadamente interpretado como a luta daqueles que não dispõem de outros meios para levantar bandeiras, defender causas ou demandar decisões políticas, o terrorismo é também associado apenas ao Oriente Médio. Errado, como 30 de outubro vem nos provar novamente.
Indianos e bascos muito provavelmente foram os agentes das ações desta quinta-feira. No caso da Universidade de Navarra, os atentados foram cometidos por europeus, supostamente civilizados e muito possivelmente cristãos.
O terrorismo deve ser repudiado em todas as suas facetas, não apenas a do extremismo islâmico.
Mais ainda, o atentado cometido na Espanha tem um significado bastante profundo. O carro-bomba foi detonado no estacionamento da universidade. Por definição, a universidade é aberta, democrática; é um centro que irradia conhecimento, cultura e, obviamente, tolerância. E são justamente esses os valores que o terrorismo - em todas as suas formas - combate.
Não é a primeira vez que um centro de ensino é atacado. Em 31 de julho de 2002, a Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, sofreu um atentado terrorista que deixou sete mortos e mais de 70 feridos. O ataque matou alunos judeus e árabes e sua autoria foi assumida pelo Hamas.
Sudeste asiático em alta explosiva
O sudeste asiático passou a preocupar o planeta desde que, em 2001, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão após os atentados de 11 de setembro. O objetivo era capturar o confesso autor dos ataques, o terrorista saudita Osama bin Laden. Sete anos depois, ele ainda não foi encontrado, ninguém sabe ao certo seu estado de saúde ou a localização precisa de seu esconderijo.
Enquanto o número de baixas americanas no Iraque vem caindo, a situação no Afeganistão está longe de ser controlada. Os talibãs continuam a dominar vastas áreas no país e o próprio governo americano admite a necessidade de adoção de uma nova estratégia. Por isso escalou o General David H. Petraeus - responsável pela virada no Iraque - para o cargo de Comandante Geral do efetivo no Afeganistão. Para mudar o jogo com os talibãs, ele recomenda "operações de contra-terrorismo, aproximação com a organização tribal local, reconciliação com militantes que não são 'hard-core' e mobilização dos demais Estados da região, incluindo a Arábia Saudita", explicou em entrevista ao The New York Times.
É urgente também a adoção desse tipo de estratégia nos países vizinhos. Índia e Paquistão, principalmente, cada vez mais sofrem com o crescimento de grupos extremistas e ações como as desta quinta-feira que resultaram na morte de mais de 50 pessoas e deixaram outros 150 feridos
sábado, 11 de outubro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
As muitas faces da Assembléia Geral da ONU
Por Henry Galsky
No discurso de abertura da 63ª Assembléia Geral da ONU, em Nova Iorque, o secretário geral da organização, o sul-coreano Ban Ki Moon, lembrou aos 192 países-membros que o mundo de hoje enfrenta problemas graves e pediu união entre os Estados. "Os desafios estão mais ligados à cooperação do que ao confronto. As nações não podem mais simplesmente pensar em proteger seus interesses ou avançar no bem-estar de seus cidadãos sem estabelecer parcerias entre si. E com uma liderança global forte, vamos conseguir atingir esses objetivos", disse.
Depois dos aplausos, o presidente Lula fez seu discurso e lembrou a atuação da Unasul durante a crise política na Bolívia, criticou a especulação financeira e voltou a pedir a reforma do Conselho de Segurança, onde o Brasil pleiteia uma vaga.
O presidente George W. Bush reafirmou o esforço norte-americano no combate ao terrorismo internacional e pediu sanções à Coréia do Norte e Irã pelo desenvolvimento de seus programas nucleares.
O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, disse, por sua vez, que Israel está prestes a desaparecer e a economia dos Estados Unidos, próxima de ruir.
Em pouco tempo, as palavras de Ban Ki Moon já haviam sido esquecidas. Muito porque todos os países têm direito de discursar e não existe uma pauta que determine os assuntos a serem abordados. É claro que pega muito mal um membro da ONU – instituição cujo objetivo primordial é manter a paz no planeta – pedir o fim de outro, como o Irã vem fazendo sistematicamente em relação a Israel. Mais do que isso, a prática é proibida pelo estatuto das Nações Unidas.
Mas, além desses discursos que geram manchete nos jornais de todo o mundo, cada país aproveita a oportunidade para reafirmar a própria agenda internacional. Pedro Pires, presidente de Cabo Verde, por exemplo, defendeu a segurança alimentar do continente africano.
Sinalizando união interna, o presidente do Sri Lanka, Mahinda Rajapaksa, foi o primeiro chefe de estado a discursar no idioma tamil no palanque da Assembléia Geral – a guerrilha separatista da etnia tamil luta desde os anos 1970 pela independência da região norte do país em confrontos que já mataram mais de 60 mil pessoas.
Entretanto, até o dia 1 de outubro, quando terminaram os debates, a política de bastidores foi a responsável pelas decisões mais importantes. E aí alguns esforços diplomáticos mereceram destaque, como o empenho dos oficiais norte-americanos para convencer os russos a concordar com novas sanções ao Irã e à Coréia do Norte. Na quarta-feira,
Além das tensões políticas envolvidas, a ONU promoveu um encontro para debater as Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDGs, em inglês). O objetivo era estabelecer e discutir medidas concretas para a erradicação da pobreza no mundo até 2015. O fórum permitiu aos líderes dos governos a análise do progresso de iniciativas e a identificação de obstáculos que impedem o acesso das camadas da população mais desfavorecida do planeta a uma vida digna.
Ao final da reunião, foram arrecadados 16 bilhões de dólares. Apesar do otimismo com este número, vale uma comparação que mostra bem qual o peso do combate às desigualdades no orçamento mundial: os países desembolsam 6 bilhões de dólares em gastos militares. Em pouco menos de um dia e meio.

