quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Os interesses geopolíticos na Síria estão ainda mais claros

É importante ficar atento às muitas movimentações estratégicas a partir do episódio em torno da violência na Síria. Como escrevi na terça-feira, a região é importante demais para imaginar que apenas uma eventual – e legítima – preocupação com os direitos humanos seria o bastante para mobilizar as potências ocidentais e do Oriente Médio. Obviamente, há muito mais o que se dizer.

Um dos pontos fundamentais é a aliança de Bashar al-Assad com os iranianos. Não se trata somente disso, mas ela explica parte da intenção dos atores de depor o presidente sírio. Ele mesmo um membro de uma minoria religiosa foi esperto o bastante para se cercar de outros membros das muitas divisões étnico-religiosas do país. Deu cargos importante a cristãos e xiitas para mandar um recado claro: ou as minorias se uniriam ou seriam relegadas ao segundo escalão em qualquer configuração envolvendo a tomada do poder pela maioria sunita.

A aliança com o Irã nasceu a partir disso. Ter o mais importante país xiita do Oriente Médio como suporte foi uma via de mão-dupla. Ao clã Assad, legitimidade, comércio e barganha política. Ao Irã, sua única aliança no mundo árabe. E este mundo árabe que cerca a República Islâmica tem uma agenda bastante diferente. Como disse, é impossível ignorar a rivalidade entre xiitas e sunitas em qualquer análise regional. A própria Liga Árabe se transformou na expressão política mais relevante dos Estados sunitas. E, agora, com a Síria mergulhada no caos – correndo o risco, inclusive, de se esfacelar como entidade política unitária –, a oportunidade que todos esperavam para dar o golpe fatal que pode decretar a vitória sunita. Acabar com a união entre sírios e iranianos é quebrar o vínculo principal do chamado eixo “xiita” (formado também por Hezbollah e Hamas).

Não por acaso os supostos principais articuladores e financiadores do Exército Livre da Síria seriam a Arábia Saudita e o Catar. O problema para os sunitas é que igualmente interessada em tomar sua própria parte dos escombros da Síria está a Turquia, a potência emergente da região e que deseja nada menos do que a liderança do Oriente Médio. É estranho classificar como “problema” ter um ator tão importante do mesmo lado. Mas é preciso entender que este é um daqueles momentos muito breves em que a união é construída unicamente como forma de derrubar o opositor, e não por semelhanças ou eventuais interesses futuros. Muito pelo contrário.

A base do Exército Livre da Síria está neste momento em território turco. E o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, o líder político mais sagaz do Oriente Médio, quer usar a seu favor a luta popular dos sírios contra o regime de Assad. Depois que ele cair – e isso deve acontecer mais cedo ou mais tarde – a luta deverá ser entre sauditas e turcos pela liderança regional. A Turquia vai usar o máximo que puder a popularidade de seu primeiro-ministro e a balela de que é um exemplo para a região de como islamismo, democracia e livre mercado podem se conciliar (eu digo balela porque, até agora, isso ainda não se repetiu nos outros países). Quem deve sair perdendo mesmo são os russos, como aponta o analista Leon Hadar, da consultoria geoestratégica Wikistrat. A análise é interessante e por isso acho que vale compartilhá-la:

“Trabalhando em conjunto com os membros da Liga Árabe, os turcos devem buscar uma solução (...) que envolva a remoção da família Assad e de sua comitiva do poder. Seu exílio em Moscou seria seguido pelo envio de tropas de paz de árabes e da Turquia”, escreve. Acho que deve ser bem por aí mesmo. Se os russos estão de tal forma engajados em sua aliança com Bashar al-Assad, é capaz de morrerem abraçados com ele.

3 comentários:

Anônimo disse...

Nao seria o Hamas sunita?

Henry Galsky disse...

O Hamas é sim sunita, e por isso coloquei xiita entre aspas. Muito embora exista uma identificação religiosa, o eixo "xiita" se alinhou também como forma de se opor política e ideologicamente aos interesses dos estados sunitas, moderados e mais próximos aos EUA

Gomes disse...

A oposição síria está sendo inflada pelo ocidente. Dizem inclusive que existem mercenários estadunidenses comandando facções rebeldes. A Rússia e a China já vetaram medidas radicais do trio EUA-Inglaterra-França no Conselho de Segurança da ONU para não se repetir a farsa da "ajuda humanitária" que assassinou o líder líbio. A queda da Síria seria uma porta aberta para atacar também o Irã, o que contraria interesses geopolíticos da Rússia. Penso que o único meio de deter os EUA, sua ponta de lança (Israel) e seus asseclas e evitar mais guerras naquela região é o Irã ser detentor de bomba atômica, pois só assim se fará respeitado através do equilíbrio de forças.