terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Eleições em Israel põem em xeque pragmatismo de Netanyahu


Quando não conseguiu aprovar o orçamento israelense para 2013, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu optou por convocar eleições. Como de costume, o pleito em Israel é repleto de ansiedade em virtude não apenas dos impactos regionais óbvios, mas também das grandes divisões sociais e políticas que, para variar, tomam conta do país. Apesar disso, o atual líder do governo tentou uma manobra porque considerava ter a capacidade de prever o destino político, imaginando que sua coalizão poderia aumentar sua porção no Knesset, o parlamento, o que lhe permitiria permanecer no cargo por ainda mais tempo. A ideia é que o bloco formado pelos partidos Likud e Israel Beiteinu alcançasse maioria confortável, subindo de 42 para quase 60 cadeiras. 

Mas Israel é um cenário tão complexo que mesmo alguém com a experiência de Netanyahu pode estar errado. As últimas pesquisas mostravam um total de 50 parlamentares que o bloco iria emplacar. Esta redução de expectativas é positiva porque dilui o poder entre as muitas variáveis ideológicas que de fato existem no país. Para se ter ideia, qualquer partido que obtiver ao menos 2% dos votos conseguirá estar representado no Knesset. E nas eleições atuais sobram divisões, visões distintas e, principalmente, projetos diferentes para o país. Dá para dizer que o próprio primeiro-ministro Netanyahu é um dos menos transparentes em sua forma de enxergar perspectivas para Israel em longo prazo.

Seu partido, o Likud, quer estar na liderança. Isso todos sabemos. O que ninguém sabe ao certo é que país o Likud quer governar. Sabe-se que o partido se orgulha da administração econômica que vem fazendo – responsável por um crescimento de 14,7% nos últimos três anos –, mas que também foi responsável por uma das situações mais incômodas aos israelenses: o aumento da distância entre ricos e pobres que não apenas asfixia a classe-média com um custo de vida altíssimo mas também joga para as páginas da história as origens socialistas do país, uma das democracias menos desiguais no Ocidente durante os anos da Guerra Fria. Ao mesmo tempo, em relação ao processo de paz, Bibi fez um discurso histórico na Universidade Bar-Ilan se comprometendo com a solução de dois Estados. Agora, está aliado aos elementos mais conservadores – no pior sentido do termo -, gente como Moshe Feiglin, que defende a anexação da Cisjordânia (medida que, na prática, não seria somente absurda sob o ponto de vista humanitário, como também acabaria com a realidade atual de um Estado de Israel judeu e democrático, assunto que abordei por aqui tantas vezes e que voltarei a examinar mais profundamente em posts futuros). 

Está muito claro que Netanyahu está disposto a articulações, alianças e mutações de todas as formas em nome do pragmatismo. E isso poderia até ser muito positivo, caso o objetivo fosse enfrentar as muitas questões que estão em jogo em Israel. Até porque os grandes temas do momento são segurança, economia e os gastos do Estado com os ortodoxos e se estes devem ou não continuar a receber incentivos financeiros e ainda permanecerem isentos do serviço militar obrigatório. O problema é que Bibi parece usar esta grande capacidade pragmática somente em nome de sua permanência no cargo. Quem pode se beneficiar disso é, curiosamente, a oposição. Partidos de centro e centro-esquerda tem tudo para formar o principal ponto de equilíbrio diante da aliança Likud-Beiteinu. Se os mais de 60% dos israelenses favoráveis ao processo de paz forem às urnas, Yesh Atid, Avodá e HaTnuá devem conseguir uma boa base. Como Netanyahu é pragmático, é capaz de pensar numa maneira de se voltar para este grupo. Se isso acontecer, haverá uma esperança igualmente pragmática. 

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