quarta-feira, 9 de junho de 2010

Comunidade internacional admite incompetência para lidar com programa nuclear iraniano

Ao contrário do que possa parecer num primeiro momento, o Conselho de Segurança da ONU deu um grande passo favorável a legitimar junto à opinião pública o governo de Mahmoud Ahmadinejad. Ao aprovar novo pacote de sanções contra o Irã, as potências ocidentais prestaram um favor político para o presidente iraniano. Em primeiro lugar, esta é a quarta rodada de punições à república islâmica. Nenhuma das três anteriores foi capaz de impedir o desenvolvimento do programa nuclear de Teerã. E seguramente as novas sanções vão continuar a serem ineficazes.

Somos todos testemunhas de um grande jogo de enganação internacional. O Irã continua a progredir rumo à bomba atômica. E o mundo finge tomar medidas para frear as intenções do regime Khamenei-Ahmadinejad. O sinal mais óbvio disso é a resolução desta quarta-feira ter contado com os votos de China e Rússia, países que mantêm lucrativos negócios com os iranianos. A explicação para a adesão dos dois é simples: as medidas punitivas excluem quaisquer restrições às indústrias de gás e petróleo do Irã. Ou seja, Moscou e Beijing dormirão tranquilas; os contratos de suas empresas com o regime islâmico não sofrerão nenhuma alteração. Vale citar também que a área energética responde por boa parte dos rendimentos econômicos de Teerã.
Ora, a pergunta óbvia que poderia ser feita neste caso é: "por que então adotar novas sanções?". Simplesmente porque, a partir do acordo alcançado por Brasil e Turquia, era preciso dar uma resposta prática internacional capaz de bater de frente com as ambições políticas demonstradas por Erdogan e Lula. Um assunto tão importante estrategicamente não poderia ser conduzido por dois países emergentes.
Na prática, as sanções desta quarta mudam pouco o cenário do ponto de vista de quem realmente quer impedir que o Irã desenvolva um programa nuclear. As punições econômicas serão contornadas por Ahmadinejad; os ganhos políticos do presidente iraniano serão muito mais significativos. Por exemplo, ele continuará a culpar o ocidente por seus problemas internos; irá transformar suas ambições atômicas num projeto nacional, calando a oposição; principalmente, a aprovação de sanções neste momento vai quebrar ao meio qualquer intenção de os opositores protestarem contra o regime, quase exatamente um ano depois das controversas eleições presidenciais realizadas em 12 de junho de 2008.
Como bem admite a BBC, as punições reafirmam que a comunidade internacional corrobora os ganhos nucleares alcançados pelo Irã até hoje, além de excluir a possibilidade de ataques militares contra as instalações da república islâmica por um bom tempo.
Steven E. Miller, diretor do Programa de Segurança Internacional da Universidade de Harvard, é taxativo quanto à incompetência representada pelo momento atual:
"Acho que acabamos optando por sanções porque não sabemos o que mais poderíamos fazer", diz. Não acredito que um assunto tão importante possa ser tratado com tamanho descuido estratégico.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Interesses muito particulares por trás do empenho de Erdogan

A política externa em diálogo com a interna. As ambições internacionais para alimentar pretensões nacionais. As interações entre as duas plataformas de expressão políticas não são novas, mas têm conseguido alcançar patamares interessantes nesta nova crise do Oriente Médio. Três de seus principais atores têm demonstrado exemplos claros desta simbiose - para quem sabe lidar com seu potencial. Mahmoud Ahmadinejad e Tayyip Erdogan são pontas-de-lança adesta estratégia; Benjamin Netanyahu está enrolado com ela. A situação enfrentada por Ancara talvez seja a mais complexa e explica o enorme empenho da maior autoridade nacional no episódio da frota humanitária.

No caso do primeiro-ministro turco, as intenções externas são claras, têm sido expostas sem muito disfarce na última semana. Graças ao patrocíncio velado à frota que tentou furar o bloqueio israelense a Gaza - apoio este que passou à política de Estado quando o próprio Erdogan manifestou o desejo de enviar navios da marinha nacional para escoltar futuras embarcações humanitárias -, o Estado turco transformou-se num mártir político da luta palestina com possibilidade e vontade de defender a causa nas altas esferas de negociação a que tem acesso. Esta sinopse dos acontecimentos dos últimos dias esconde um problema interno latente: enquanto surfa na onda da popularidade, Erdogan trava uma desgastante batalha com os militares de seu país.

O exército da Turquia tentou derrubar o governo em 2003. As revelações são recentes e vieram à tona graças a denúncias da imprensa do país. A ação ocorreria porque as forças armadas acreditam que o atual primeiro-ministro e seu partido de orientação islâmica são ameaças concretas ao caráter laico do Estado. Tradicionalmente, os militares se consideram guardiões ferozes dos ideais de Kemal Ataturk, o fundador da Turquia moderna, em 1923, para quem a religião jamais deveria interferir nos rumos do país. Com o apoio à frota e sua tentativa de furar o bloqueio a Gaza, Erdogan anula o apelo das alegações militares junto às massas. Não por acaso, as autoridades políticas em Ancara determinaram o fim da cooperação entre as forças armadas de Turquia e Israel.

"O confronto com Israel aumenta ainda a popularidade interna do governo e enfraquece a legitimidade dos adversários internos, nomeadamente os militares. Não é difícil imaginar o discurso que se prepara. O governo do AKP (partido de Erdogan) enfrenta Israel em nome dos direitos dos palestinos. Os militares ignoram a luta palestina em nome de uma aliança com os israelenses. Também não é difícil perceber quem terá mais apoio popular", escreve o analista João Marques de Almeida, do Instituto Português de Relações Internacionais.

Dá para entender agora esta enorme boa vontade do primeiro-ministro turco com a frota, certo? O medo de sofrer um golpe de Estado é tamanho que ele considera válido, inclusive, pôr a perder 61 anos de boas relações diplomáticas, econômicas e militares da Turquia com Israel.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Vitória da aliança xiita está garantida

Há novas embarcações internacionais a caminho de Gaza. A notícia mostra um passo prático da aliança xiita que se apresenta no Oriente Médio. O Crescente Vermelho Iraniano decidiu enviar dois barcos de ajuda ainda nesta semana. Segundo a AFP, o diretor da organização no Irã disse que a decisão reflete um desejo "da sociedade de seu país". Pode ser que a retroalimentação político-social na república islâmica esteja em curso, mas não tenho dúvidas de que se trata de um gesto predominantemente de ambições políticas e até militares. Até porque, o próprio diretor da organização iraniana admite que a decisão ocorreu após reunião com o ministro das Relações Exteriores, Manouchehr Mottaki.

A politização regional do bloqueio a Gaza não parou por aí. Na Turquia, o presidente da Síria, Bashar Assad, declarou estar pronto para acatar qualquer decisão tomada por Ancara para pressionar Israel. Damasco ameaçou, inclusive, adotar medidas práticas. A submissão de Assad às determinações turcas mostra que os líderes do Oriente Médio estão dispostos a tudo para atingir seus objetivos. É claro que o mantra humanitário continua a ser repetido. Isso agrada aos ouvidos ocidentais e permite ganhar tempo. Mas a meta é mesmo reequilibrar a balança de poder na região. E se os israelenses perderem bastante neste processo, ainda melhor - acreditam.

A estratégia marítima de agora representa uma tremenda "evolução" aos mísseis lançados pelo Hamas nas cidades do sul de Israel. Não me espantaria se centenas de barcos tentassem furar o bloqueio. Do ponto de vista de relações públicas, a tática é vitoriosa em alguns aspectos: ganha enorme cobertura de imprensa, e o regime de Ahmadinejad conquista humanidade e simpatia - inversamente proporcional a Israel, claro.

Qualquer resposta israelense é arriscada. Se prender ativistas, o governo irá continuar a sofrer com as críticas internacionais. Por outro lado, como permitir que iranianos enviados pela cúpula de Teerã desembarquem em Gaza? Se isso acontecer, Ahmadinejad, Bashar Assad e Tyyip Erdogan capitalizarão o acontecimento como grande vitória política, aplacando, inclusive, as vozes opositoras internas. A liderança deste grupo de países na região será quase um fato consumado. E as sanções contra o programa nuclear iraniano estarão cada vez mais distantes, é claro. A mudança de percepção sobre o Oriente Médio já está em curso. Os presidentes de China e Rússia, ambos com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, afirmaram que este não é o momento para acelerar a decisão de aplicar sanções a Teerã.

De qualquer maneira, o menor dos impactos impõe grande derrota a Israel. Jerusalém já pode contabilizar um gol contra. Afinal, sem a menor dúvida, a situação atual vai mudar. Não há qualquer chance de o bloqueio - agora contestado em todo o mundo - permanecer em mãos israelenses. Aliás, talvez este seja o melhor dos cenários, mas irá representar uma vitória para o Hamas e a aliança de países xiitas que estrategicamente o apoiam.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A vitória de Irã, Turquia e aliados. E como fica o posicionamento do Brasil

A Turquia anuncia nesta sexta-feira que vai reduzir significativamente seus laços diplomáticos com Israel. Os Estados Unidos, por outro lado, declaram que a operação de abordagem à Frota da Liberdade foi legítima. Fica evidente que o episódio se tornou um polarizador importante no conflito árabe-israelense. Mais do que isso, a semana se encerra com a vitória da aliança xiita na nova guerra travada através da imprensa e da opinião pública.
Vale ressaltar que esta mudança de paradigma foi, provavelmente, a mais rápida em toda a história de enfrentamentos no Oriente Médio. Em menos de sete dias, o foco das expectativas e cobranças mudou completamente. As discussões sobre o programa nuclear iraniano se tornaram apêndices. O bloqueio israelense a Gaza - assunto esquecido há pelo menos três anos - substituiu as pretensões nucleares do Irã como o grande "impedimento à pacificação da região". Por si só, como escrevi anteriormente, a empreitada das embarcações já pode ser considerada um case de sucesso.
Essa grande mudança de paradigma não foi construída apenas graças à tentativa da flotilha de furar o bloqueio. Ela é simplesmente sua expressão midiática mais bem sucedida. Há exatamente uma semana, as nações aliadas de Turquia e Irã conseguiram uma considerável vitória política.
No meio desta confusão, é compreensível que pouca gente se lembre do que dizia o documento final aprovado na conferência de revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). O texto exige a adesão de Israel ao acordo e conclama o país a pôr fim a suas instalações nucleares. A ambiguidade fica por conta de o programa atômico iraniano sequer ter sido formalmente mencionado. O Irã é signatário do TNP, o que, teoricamente, impediria a república islâmica de desenvolver um programa nuclear militar.
Agora, com dois pontos importantes obtidos pela aliança xiita (Turquia, Irã, Síria, Hezbolah e Hamas) em sequência na arena internacional, resta saber como os demais países irão se comportar. Fica claro que o mundo terá de se posicionar. Este é um desafio também para a política externa brasileira, uma vez que o Itamaraty argumenta preferir o diálogo à confrontação. No caso do incidente envolvendo a Frota da Liberdade, Celso Amorim, Lula e Marco Aurélio Garcia condenaram Israel publicamente.
Ao fazer isso, o Brasil se alinha principalmente à Turquia. Resta saber o que isso poderá significar para as relações bilaterais com Israel - com quem o Mercosul possui um acordo de livre comércio - e Estados Unidos - que, apesar de terem condenado a ação num primeiro momento, mostram-se agora favoráveis a uma investigação liderada pelos próprios israelenses.
Se o Brasil subir o tom, certamente irá agradar à aliada Ancara. Mas Washington pode tomar como um segundo golpe recente desferido por Brasília - o acordo mediado por Brasil e Turquia com o Irã pode ser considerado o primeiro ponto de atrito profundo nas relações entre brasileiros e americanos.
Acredito que, após o grande impacto internacional dos acontecimentos desta semana, o Itamaraty vai preferir esperar o desenrolar dos fatos. Se Irã e Turquia optarem por bancar mais discussões nas Nações Unidas, o Brasil vai enfrentar um grande problema de identidade. Ao mesmo tempo em que o país pretende exercer maior protagonismo internacional, não admite romper com o Ocidente. Até porque, o livre trânsito entre atores tão antagônicos é um dos principais argumentos defendidos pela diplomacia brasileira de que Brasília pode exercer um papel mais relevante mundialmente. Se passar a adotar medidas opostas demais a Estados Unidos e seus aliados, correrá o risco de perder esse "passaporte" político.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

As novas velhas estratégias no Oriente Médio

Todo o processo em curso no Oriente Médio pode ser compreendido através dos próprios acontecimentos da história recente da região e, mais especificamente, do conflito árabe-israelense. A estratégia usada para acabar com o bloqueio israelense a Gaza não se trata de nenhuma novidade. Basta analisar como foram conduzidos outros episódios similares cujas resoluções terminaram por representar vitória árabes - ou melhor, ganhos políticos expressivos da aliança xiita sobre a qual já tratei algumas vezes.
O primeiro caso: em 1978, Israel invadiu o sul do Líbano para combater guerrilheiros da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) que usavam o território para atacar comunidades da região norte de Israel. Durante 22 anos, as forças israelenses ocuparam 1.200 Km2 do território libanês no que chamaram de "zona de segurança". Em maio de 2000, após grande clamor interno em Israel exigindo a retirada unilateral das tropas - por conta dos mais de mil soldados mortos em confrontos com o Hezbolah, milícia xiita criada para combater a presença israelense -, Jerusalém decide, finalmente, deixar a região.
Seis anos mais tarde, o Hezbolah ultrapassa a fronteira norte de Israel, sequestra dois militares e mata mais oito. O então primeiro-ministro, Ehud Olmert, decide contra-atacar. Entre 12 de julho e 14 de agosto, ocorre a Segunda Guerra do Líbano. O conflito resulta na morte de 1.200 libaneses e 120 israelenses. A milícia xiita surpreende pelo armamento apresentado e lança cerca de quatro mil mísseis contra o território israelense. Há uma grande condenação internacional de Israel, e o confronto termina após a aprovação da resolução 1.701 pelas Nações Unidas. A ONU envia 13 mil soldados de diversos países para patrulhar o sul do Líbano.
Israel declara ter alcançado a vitória. O Hezbolah faz o mesmo. Seja como for, a atuação da milícia faz com que ela se torne um ator importante no jogo político regional. Em maio deste ano, durante as comemorações pelos dez anos da retirada israelense, o xeque Hassan Nasrallah, líder do Hezbolah, declara que "a próxima guerra irá alterar todos os parâmetros do Oriente Médio". Israel acusa a Síria de ter fornecido mísseis Scud para a milícia. Nasrallah afirma possuir hoje dez vezes mais armamentos do que em 2006. Todas essas novidades aconteceram desde que a ONU estacionou suas tropas para impedir a violência mútua. A presença da força internacional, no entanto, tem servido apenas como garantia de que Israel não pode impedir a transferência de armas para o Hezbolah. Por isso, o grupo radical sequer contesta a atuação dos 13 mil soldados das Nações Unidas no território libanês.
Talvez não fosse necessário fazer um paralelo com a situação atual, mas não me custa nada. Israel passou a controlar Gaza e Cisjordânia a partir de 1967, quando emergiu vitorioso da Guerra dos Seis Dias. Durante 38 anos, o país ocupou Gaza - ainda ocupa a Cisjordânia -, inclusive mantendo no território colônias com população judia. Após grande embate político interno em Israel, o então primeiro-ministro Ariel Sharon decide, em 2005, encerrar unilateralmente a presença israelense no território. Os críticos acreditam que a medida permitiria que Gaza se transformasse numa base do grupo terrorista Hamas. Sharon banca a decisão assim mesmo.
Em 2006, o Hamas disputa as eleições legislativas palestinas. O grupo se consolida como maior vencedor do pleito. No ano seguinte, após uma guerra interna, os membros do Hamas expulsam de Gaza os militantes do Fatah, grupo que majoritariamente forma a Autoridade Palestina - instituição criada nos Acordos de Oslo, de 1993, para representar oficialmente os interesses nacionais palestinos. Simultaneamente, o Hamas passa a lançar mísseis de curto alcance contra Israel. A quantidade é estimada em dez mil ao longo de quase quatro anos. Egito e Israel impõem um bloqueio ao território para impedir a entrada de armamento. Entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, israelenses e membros do Hamas travam nova guerra em Gaza por conta do lançamento de mísseis. Cerca de 1.400 palestinos morrem no conflito. Há uma nova condenação internacional à ofensiva de Israel. O Hamas alega ter vencido a guerra. Alguns países, inclusive o Brasil, acreditam que o grupo deve ser incluído na busca por uma solução para o conflito no Oriente Médio.
Agora, há novo clamor internacional contra a ação israelense em alto-mar. Da mesma maneira como ocorreu com o Hezbolah, no sul do Líbano, não tenha a menor dúvida de que, para o Hamas, o estabelecimento de uma força multinacional liderada pela ONU para controlar a entrada de bens e pessoas em Gaza seria uma excelente opção. No final das contas, os soldados estrangeiros não serão capazes de impedir a entrada de armamento no território. Para responder ao clamor popular mundial, a solução envolvendo as Nações Unidas parecerá a mais justa. Israel não poderá mais inspecionar o tráfego de bens e pessoas no território. Não por acaso, Hezbolah e Hamas estão do mesmo lado do atual jogo de poder no Oriente Médio. Melhor ainda do que no final da Segunda Guerra do Líbano, em 2006, o grupo conta atualmente com a Turquia, um importante aliado para representar os interesses da aliança xiita - a nova, emergente e poderosa força da região.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Frota da Liberdade: um golpe de mestre da Turquia

Aos poucos, mais informações relevantes têm sido publicadas sobre a empreitada do comboio que tentou furar o bloqueio a Gaza. Fica cada vez mais claro o objetivo geopolítico da iniciativa. A Turquia se tornou um dos principais atores envolvidos. A participação da elite política e econômica do país no episódio é tema da principal reportagem da edição desta quarta-feira do New York Times.

A classe comerciante religiosa é a maior doadora de recursos para o IHH, grupo à frente da chamada "Frota da Liberdade". Não por acaso, esse mesmo setor da sociedade turca forma a principal base de apoio popular que sustenta o partido do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan. Ou seja, financiar o IHH é uma espécie de troca de favores interna que atende aos interesses de todo mundo. Para o grupo – cujos laços com o Hamas passaram a ser investigados –, representa o ápice de sua existência. Para Erdogan, ajuda a contemplar parte de seus objetivos políticos internacionais.

Nesta quarta-feira também, o Ministério das Relações Exteriores turco declarou que as relações diplomáticas com Israel poderiam ser retomadas se Jerusalém suspendesse o bloqueio a Gaza. Para completar, o Hamas disse que não se interessa em receber a ajuda humanitária enviada pelo comboio enquanto todos os ativistas presos não forem libertados. O que menos importa nisso tudo parece ser a carga de alimentos, remédios e combustíveis. Tudo passou a ser usado em nome da guerra de propaganda. Ao mesmo tempo, Israel se encontra numa situação política complicada. Após a operação de tomada dos navios, restam poucas opções diante da grande pressão internacional: se mantiver o bloqueio, continuará a sofrer condenação global. Se suspendê-lo – o que, particularmente, não acredito que irá ocorrer –, terá confirmado a eficácia do comboio, abrindo o precedente para novas ações do gênero.

Um novo dilema se apresenta, diante da possibilidade de que em algum momento fique claro o envolvimento do Estado turco no episódio. Israel responderia diretamente à Turquia? Seria uma resposta militar ou um pedido de retratação? Como agiria o Conselho de Segurança da ONU neste caso? E a Otan, da qual o país faz parte?

Acho mesmo que isso vai acontecer. Mas possivelmente o assunto já não vai causar mais comoção internacional. Seja como for, a Turquia só tem a ganhar. Além de se posicionar como um importante ator regional, a atuação do país agrada à opinião pública muçulmana, uma vez que o patrocínio à iniciativa é visto quase consensualmente como medida corajosa para interromper algo que, num estágio quase psicológico, é avaliado como uma injustiça contra os muçulmanos em geral. Ou seja, a liderança política da Turquia no Oriente Médio passaria a ser legitimada pelas próprias populações dos demais países da região. Mesmo que seus governos não tenham a mesma opinião, seria difícil sufocar tamanho clamor popular. Sem a menor dúvida, bancar a Frota da Liberdade – cujo navio Mavi Marmara foi comprado por 1,8 milhão de dólares de uma companhia pertencente ao governo municipal de Istambul – foi um golpe de mestre.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Os objetivos estratégicos da guerra de propaganda no Oriente Médio

Há mais pontos importantes por trás da abordagem de Israel à frota de embarcações que tentou furar o bloqueio a Gaza. Fica claro que hoje há uma mudança de mentalidade capaz de transformar significativamente o conflito árabe-israelense. A grande aliança xiita que pretende se firmar como força hegemônica no Oriente Médio percebeu que os embates militares podem até voltar a ocorrer, mas crê de forma clara que a guerra de propaganda é atualmente muito mais fundamental para que alcance seu objetivo. E este é um ponto central em todo o imbróglio envolvendo a invasão israelense ao comboio marítimo.

Para recapitular e entender o raciocínio estratégico desse grupo de países e organizações (Irã, Turquia, Síria, Hezbolah e Hamas): desde que Israel declarou independência, em 1948, houve três grandes conflitos armados entre o Estado Judeu e seus vizinhos árabes – a própria Guerra de Independência, a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e a Guerra do Yom Kipur, em 1973. Em todos esses confrontos físicos, os exércitos dos países árabes se envolveram diretamente. Em todas as ocasiões, foram derrotados. Pior, a partir desses eventos, Israel se tornou a maior potência militar regional e conseguiu aumentar seu território. Ou seja, em todos os conflitos, os países vizinhos perderam muito e não ganharam nada.

A verdade é que a causa palestina nunca foi prioridade entre os árabes. No entanto, Irã e Turquia – que são Estados islâmicos não-árabes, diga-se de passagem – perceberam uma grande oportunidade a partir da popularidade internacional palestina. Como os dois países pretendem liderar o grupo de novas potências no Oriente Médio, eles notaram que os palestinos podem representar o trampolim necessário para que alcancem seus objetivos. E de formas diferentes: primeiro porque este é o único tema capaz de mobilizar a opinião pública árabe e islâmica de todo o mundo. Segundo, isolar Israel pode representar, além do óbvio, uma espécie de garantia de que o governo israelense será condenado internacionalmente se decidir dar qualquer passo militar. Para ser mais claro, alguém imagina neste momento que algum país relevante iria apoiar uma ação militar do Estado Judeu para frear o programa nuclear iraniano?

O momento não poderia ser mais propício para pôr em prática esta nova estratégia de guerra da informação. Vale lembrar que foi a Turquia quem convocou a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para debater a abordagem à frota. Vale lembrar também que Ancara ocupa hoje assento rotativo neste mesmo conselho.

Para o Irã, a aliança com os turcos é fundamental. Graças a ela Ahmadinejad vai conseguir dar um nó na comunidade internacional usando de seus próprios mecanismos. Por exemplo, a Turquia não vai permitir qualquer ataque ao Irã, seja um confronto armado, seja a aplicação de sanções enquanto permanecer no Conselho de Segurança. Ao mesmo tempo, os turcos fazem parte da OTAN, a aliança militar ocidental, cujo pacto fundamental deixa claro que um ataque a um dos membros deve ser interpretado como um ataque a todos eles. Ou seja, os demais países devem partir em defesa do país atacado. Já deu para entender o que isso significa, certo?

Essa estratégia de mudança do eixo de poder internacional envolve também, é claro, o enfraquecimento diplomático de Israel. Afinal, com o país ainda mais isolado, os Estados Unidos perdem sua única ligação importante com o Oriente Médio. Quem poderia ser um interlocutor fiel aos americanos na região? Síria, Irã, Turquia? Creio que não. As peças todas se encaixam para permitir que a aliança silenciosa xiita alcance todos os seus objetivos estratégicos. Somente o governo de Israel comandado por Benjamin Netanyahu não percebe isso. Enquanto os demais países têm tomado decisões estratégicas baseadas em relações públicas e propaganda, o atual gabinete israelense prefere continuar a responder de maneira estomacal, como aconteceu há pouco. Se essa diretriz permanecer – e não há sinais de que haverá qualquer modificação –, Israel vai novamente contribuir ingenuamente para levar a cabo as grandes mudanças políticas no Oriente Médio.