segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O projeto palestino e a grande desestruturação regional

Finalmente, começou a semana mais importante do Oriente Médio desde a criação do Estado de Israel, em 1948. No próximo dia 23, os palestinos irão à ONU pedir o reconhecimento de seu país. O que vai acontecer a partir desta iniciativa é mera especulação, mas acredito mesmo numa mudança de paradigmas regional. E quando se fala em algo desta grandeza na região mais problemática do planeta, há uma variedade de opções no meio do caminho entre guerra total – a possibilidade mais extrema – e a completa inércia – a alternativa mais remota e menos provável.

A intenção das lideranças políticas palestinas é mudar a realidade do terreno. Principalmente porque a proposta que devem apresentar à Assembleia Geral das Nações Unidas não se restringe à alteração do nome Autoridade Palestina para simplesmente Palestina. Longe disso.

O texto que vão colocar em pauta de votação é preciso para atingir em cheio o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Será claro e direto ao exigir a legitimação do Estado palestino nas fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias, em 1967. Como certamente esta iniciativa contará com amplo apoio dos 192 países que compõem Assembleia Geral, na prática, a ONU vai dar o seguinte recado a Israel: “mais uma vez e com muito mais força, nós nos opomos que Jerusalém Oriental seja parte do Estado de Israel e, menos ainda, sua capital. Da mesma forma e com o mesmo impacto, nós nos opomos que 400 mil judeus continuem a viver na Cisjordânia”.

Dá para entender o impacto de uma legitimação internacional como esta no conflito de maior impasse do planeta? Os palestinos farão uso dessas palavras como forma de alcançar seus objetivos históricos: criar seu país, acabar com os assentamentos judaicos e, além de tudo, pôr em xeque o destino de Jerusalém Oriental.

Não é à toa que agora não apenas Netanyahu passou a topar negociações sem fazer muitas exigências (antes, exigia que o Hamas não fizesse parte de um governo de coalizão ou que os palestinos reconhecessem Israel como um Estado judeu). Agora, a situação mudou completamente. Qualquer negociação beneficia Israel; o problema para o premiê israelense é que os palestinos estão no controle e não têm mais nada a perder.

Todo mundo sabe da ampla simpatia internacional à causa palestina. E sondagens mostram que a resolução favorável ao Estado palestino passará com folga na Assembleia Geral. Na pior das hipóteses ao presidente Mahmoud Abbas (foto), a pressão sobre Israel será tão grande que forçará o governo Netanyahu a retomar as negociações em profunda desvantagem política. Na melhor das hipóteses para as pretensões palestinas, forçará a queda do atual gabinete israelense.

Essas são apenas alguns dos cenários que podem surgir nesta semana decisiva. Resta saber como as populações irão reagir; até porque ninguém ainda sabe responder como vão ficar – juridicamente e na prática – os 400 mil judeus que vivem na Cisjordânia. Se a Palestina for mesmo aprovada – mesmo que simbolicamente –, esta população judaica entra numa espécie de “limbo” legal. Qual será seu destino nos dias seguintes à votação é uma incógnita de conseqüências dramáticas para ambos os lados.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Semana especial: palestinos em busca de reconhecimento

Caros leitores,

tirei cinco dias de folga, mas retorno já na segunda-feira. A próxima semana será exclusivamente dedicada ao projeto de criação de um Estado palestino reconhecido pela ONU.

domingo, 11 de setembro de 2011

11/9: dez anos depois, a vitória dos EUA sobre a al-Qaeda

Talvez este texto tenha validade muito limitada e pode ser que enquanto escrevo essas linhas tudo tenha mudado novamente. Nesta data que marca a lembrança de dez anos dos atentados de 11 de Setembro, é preciso deixar claro: os EUA derrotaram a al-Qaeda.

Não há nada de polêmico nesta declaração. Dez anos se passaram e durante este período os americanos conseguiram atingir dois de seus principais objetivos para responder aos ataques terroristas: evitar a realização de novos e mortais atentados; impedir que o Afeganistão permanecesse como base do planejamento e treinamento da al-Qaeda. Essas afirmações são incontestáveis. Mas, como escrevi acima, elas são frágeis porque dependem da manutenção do status-quo.

A diferença, agora, é que, ao contrário de dez anos atrás, os EUA estão muito mais vigilantes. É verdade que para se chegar a este ponto três trilhões de dólares foram gastos, é verdade que este dinheiro poderia ter sido empregado na economia americana e áreas como educação, saúde, pesquisa e tantos outros investimentos internos; também é verdade que muitos americanos morreram não apenas nos ataques, mas nas guerras seguintes promovidas para responder ao 11 de Setembro. Mas a al-Qaeda simplesmente fez com que Washington tomasse as medidas necessárias para evitar que este grupo terrorista ou qualquer outro voltasse a agir em território americano.

A organização de Osama Bin Laden dispunha de uma única bala. A partir do “disparo”, todo a dinâmica mudou. Até porque, conceitualmente, a situação não poderia ser outra mesmo. E, claro, o próprio Bin Laden sabia muito bem disso. De um lado, a maior potência do planeta, um orçamento milionário, os maiores e melhores recursos militares do mundo. De outro, uma entidade que não era um Estado nacional, com tecnologia bélica limitadíssima e provida somente de disposição ideológica. Ninguém poderia imaginar que esta balança assimétrica poderia ser minimamente equilibrada.

Apesar disso e de tamanho desequilíbrio, pesquisa do Instituto Gallup mostra resultados surpreendentes: assim como em outubro de 2001, os americanos continuam ainda hoje divididos quanto a quem está vencendo a chamada “Guerra ao Terror”: 46% dizem – em 2011 – que os EUA e seus aliados estão vencendo; 42% afirmam que nem os americanos ou os terroristas venceram a guerra. Pois é, a dúvida é certamente muito favorável à al-Qaeda – organização que, na realidade, além de ter perdido seu líder está cada vez mais enfraquecida. Não apenas estruturalmente, mas também porque seu discurso simplesmente não colou entre a população árabe e muçulmana.

O resultado desta pesquisa reflete uma sensação muito natural e humana. A de que aquele momento pontual trágico vai perdurar pela História. Explico: meses após o 11 de Setembro, o mundo foi varrido pela “novidade” do terrorismo em escala global. E aí o imaginário da humanidade – e principalmente da população ocidental – foi preenchido por teorias, livros, reportagens sobre o fundamentalismo islâmico. E a força deste discurso não deixou espaço para virar a página.

Mas a página foi virada. A al-Qaeda perdeu, os EUA venceram militarmente – muito embora tenham perdido demais por conta da crise econômica que atravessam – e, enquanto a situação permanecer como está, o poder do fundamentalismo islâmico sobre as decisões da maior potência do planeta terá representado apenas um capítulo mínimo da trajetória dos EUA.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A mudança política nos EUA pós-11/9

A grande imprensa daqui não mostrou grande interesse pelo debate entre os pré-candidatos republicanos à presidência dos EUA. E fez muito bem. O encontro dos que pretendem derrotar Barack Obama no ano que vem foi um circo dos horrores. Desculpem a expressão, mas os diálogos beiravam a loucura. Pelo menos sob o ponto de vista de qualquer cidadão brasileiro, é difícil entender a agenda deste novo Partido Republicano.

A mudança de prisma de um dos principais partidos políticos americanos pode ser considerada também uma das consequências mais reveladoras dos atentados de 11 de Setembro. A legenda está cada vez mais radical em seus ataques não apenas ao partido Democrata, mas a alguns dos principais pilares dos EUA: o bem-estar social, os investimentos do governo em educação e saúde, por exemplo. Isso se deve, em boa parte, a este crescimento incompreensível – novamente, sob o ponto de vista dos cidadãos comuns brasileiros, que fique claro – do Tea Party. Já escrevi isso muitas e muitas vezes, mas sempre vale repetir: estruturar o discurso político baseado somente no corte de gastos governamentais e na redução de impostos é de tal forma simplista que é difícil entender que, a partir de agora, é em torno disso que giram quase todas as discussões políticas americanas.

Os EUA pós-11 de setembro se fecharam em muitas questões. Uma delas diz respeito aos gastos em segurança. Também houve uma espécie de repúdio a um “mundo essencialmente antiamericano”. E este mundo insiste em discussões que os republicanos consideram como destinadas a derrubar o país. É o caso, por exemplo, das conversas para a redução da emissão de poluentes – rapidamente interpretadas pelos republicanos como uma fantasia paranoica que vai frear o crescimento econômico. Se as indústrias pisarem no freio, haverá ainda menos empregos num momento que já é de crise. Os membros do Tea Party bebem desta fonte. Ou seja, os trabalhadores americanos estão em risco graças a ideias de ambientalistas estrangeiros extravagantes.

Este é um ponto interessante que compõe o painel de boa parte dos partidários republicanos. O cenário é ainda pior porque se alinha a outras certezas mais radicais, muitas delas repetidas no debate desta quarta-feira.

Considerado o vencedor da noite, o governador do Texas, Rick Perry (foto), caminha a passos largos rumo à vitória. Lembram que escrevi sobre Michele Bachmann na semana passada? Ela agora ficou para trás, figurando abaixo da terceira colocação nas pesquisas. Mas esta não é nenhuma notícia animadora. Principalmente porque Perry compartilha muitas de suas ideias. Por exemplo, considera a intervenção federal em tragédias como o furacão Irene ou o Katrina fora de propósito. Para ele, Washington não deve gastar dinheiro com isso. Por conta de um discurso como este que escrevi neste mesmo texto que é difícil para os brasileiros entender a agenda do Tea Party. Imagina quem por aqui iria defender uma eventual omissão de Brasília em catástrofes como as causadas pelas chuvas em Santa Catarina ou no Rio de Janeiro?

Para piorar, Perry concorda com Bachmann. Para ambos, o Seguro Social não é apenas ruim, mas se trata de uma “monstruosidade”. Para Perry, o fato de seu adversário de partido e também pré-candidato Mitt Romney – ex-governador de Massachusetts – ter investido num plano de saúde para virtualmente todos os moradores do estado é o ponto mais fraco de sua candidatura. Ou seja, Romney é um alvo fácil nos próximos debates por ter ampliado a cobertura de saúde oferecida aos cidadãos. Este é o ambiente atual da disputa republicana. Deu para entender o que quis dizer com a expressão “circo dos horrores”?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

11/9 mudou o eixo da política externa americana

Dez anos depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001, o mundo é um lugar muito diferente. Esta frase verdadeira encerra o ciclo de repetições desta efeméride. De fato, há muitas e muitas transformações ocorridas a partir dos ataques da al-Qaeda aos EUA. Algumas muitos importantes, mas que sempre acabam periféricas nas muitas análises publicadas. Não apenas o planeta mudou seu foco, mas – tão fundamental quanto – sua principal potência voltou os olhos para além de suas fronteiras de uma maneira como não se via há bastante tempo.

Antes de 2001, quantos americanos sequer sabiam que o Afeganistão existia? Parte deles tinha uma lembrança dolorosa do Iraque, mas a relação construída a partir da ofensiva de 2003 passou a ser uma realidade para todos os cidadãos. Mais americanos morreram nesta segunda guerra do Iraque do que nos próprios atentados de 2001. Isso é circunstancial, mas explica muito pouco. O que quero dizer é até bastante simples: involuntariamente, a al-Qaeda transformou os EUA num país com olhos voltados para o Oriente.

Este fato acabou respingando por aqui de forma diferente. Se até meados da primeira década deste século 21 a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) polarizava partidos e paixões políticas no Brasil, este assunto agora se resume a uma lembrança turva, como de um passado muito distante. Washington mudou prioridades e abriu mão de sua atuação histórica na América Latina. A Casa Branca deixou de lado articulações no continente em nome de medidas de segurança. Afinal, qual a importância de construir um relacionamento especial num espaço que não costuma ser grande fonte de problemas quando os cidadãos americanos correm riscos dentro do próprio país?

Durante esses dez anos, o objetivo tem sido o mesmo, algo até palpável e perceptível visualmente: Bush e, posteriormente, Obama não poderiam se permitir errar como erraram naquele 11 de setembro. Não haveria formas de justificar internamente a repetição das mesmas falhas – falhas amplamente divulgadas pela comissão interna que investigou e apontou todas as brechas e vacilos nacionais.

Ao mesmo tempo em que olharam para fora estupefatos, os americanos se voltaram para as questões de segurança interna. E gastaram dinheiro. Muito dinheiro. Estimativas publicadas pelo jornal Washington Post apresentam números impressionantes. Nesses dez anos foram investidos 3 trilhões de dólares para que 854 mil pessoas divididas em 1,2 mil organizações governamentais e 1,9 mil empresas dessem conta de prover informações, vigiar, checar dados e interromper qualquer tipo de atividade terrorista nos EUA. E, assim como na vida da maior parte dos trabalhadores, os EUA entenderam que não há limites para o buraco quando se fala da vida financeira. Sempre dá para piorar. Os trilhões de dólares gastos com segurança são simultâneos à maior crise do país desde os anos 1930.

O 11 de Setembro moldou uma nova visão de política externa que tende a se sofisticar com a passagem do tempo. O tal “Eixo do Mal” popularizado pelo presidente Bush hoje soa ainda mais simplório. Até porque os atores se tornaram menos maniqueístas e suas ações e realidades não necessariamente evidenciam intenções. Vale um exemplo interessante: Irã, Turquia e Rússia enfrentam, cada um com sua particularidade, movimentos contestadores aos respectivos governos centrais. São grupos que bombardeiam alvos nacionais com objetivos distintos, mas que, em comum, estão no lado oposto à administração central. Alguém é louco de dizer que, por conta disso, esses países estão de alguma maneira alinhados aos EUA?

Essas são apenas algumas das complexidades provocadas pelos ataques de 11 de Setembro. Ao longo desta semana em recordação aos dez anos dos atentados escreverei mais sobre o assunto.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Turquia rompe com Israel em nome da liderança regional

O esfriamento das relações políticas entre Turquia e Israel era uma barbada. O distanciamento entre os países é um movimento político turco iniciado não agora, mas em dezembro de 2008, desde a guerra entre israelenses e palestinos em Gaza. O que era um sinal muito evidente se transformou em medida formal. O gabinete turco ordenou o retorno do embaixador em Tel Aviv e a expulsão de Gabby Levy, embaixador de Israel em Ancara.

Foto: crianças curdas protestam contra bombardeios promovidos por Irã e Turquia 

Todo este estremecimento atual se deve ao vazamento do chamado “Relatório Palmer”, documento que reúne uma série de investigações conduzida de maneira independente pela ONU sobre um dos mais graves e interessantes episódios políticos recentes do Oriente Médio: a abordagem ao navio Mavi Marmara, em 2010, quando a embarcação tentava furar o bloqueio israelense a Gaza. Os resultados, obtidos antecipadamente pelo New York Times, são ambíguos. Parecem matematicamente construídos de forma a agradar e desagradar os envolvidos quase simetricamente.

Segundo a comissão das Nações Unidas, Israel tem o “direito a exercer o bloqueio a Gaza devido a preocupações de segurança legítimas”. No entanto, o relatório também conclui que, especificamente sobre a abordagem ao Mavi Marmara, “os israelenses usaram de força excessiva e irracional”. A partir de agora, ambos os governos estão se esforçando internacionalmente para divulgar suas próprias versões do dilema que por aqui no Brasil chamamos de “copo meio cheio, copo meio vazio”.

Ou seja, para o governo de Jerusalém vale a posição oficial de um instrumento da ONU de que o bloqueio a Gaza é legítimo. Depois de muito tempo, as Nações Unidas apoiam Israel, mesmo que parcialmente. Este é um lado da moeda. Em Ancara, o discurso é completamente diferente: os israelenses abusaram da força e devem ser punidos por isso.

No fundo, acho que a Turquia está mais preocupada com a questão. Israel já não conta com grande apoio internacional. Portanto, a mínima vitória retórica já vale demais. Principalmente sob o ponto de vista de um governo como o do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu – cujo ponto mais fraco é justamente a articulação de alianças internacionais. Já a Turquia tem muito a perder. Foi o partido do premiê Recep Tayyip Erdogan quem patrocinou a ousada empreitada marítima de 2010. É este mesmo líder carismático – e que pesquisas mostram ser o mais admirado pela população dos países muçulmanos e árabes – que está fragilizado. Ainda mais neste momento difícil que a Turquia atravessa.

Vamos a eles: os turcos estão sob pressão porque, apesar de todo o poder do país, não conseguiram frear o ímpeto violento de Bashar al-Assad, na Síria. Esta era uma grande oportunidade para o país mostrar toda a sua capacidade de liderança regional e suas intenções positivas a partir deste poder de barganha. Até agora, nada aconteceu. Para piorar, há um problema corrente interno: os curdos. O Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) continua a atuar na Turquia, expondo toda a ambiguidade do discurso de Erdogan. Para amarrar isso e dar uma volta nos curdos, Ancara fez alianças com o Irã e com a administração curda autônoma do norte do Iraque. O acordo permite, inclusive, que forças militares iranianas atuem a partir do norte do Iraque em operações conjuntas para bombardear posições do PKK.

Para jogar todos esses planos para debaixo do tapete, a Turquia decidiu fazer uso de uma fórmula de sucesso no Oriente Médio: o desgaste com Israel. Não apenas porque esta é uma opção para esconder os próprios problemas do país, mas também porque me parece que não há outras alternativas após os resultados apresentados pelo Relatório Palmer. Afinal, acatar suas conclusões é o mesmo que aceitar a legitimidade do bloqueio a Gaza. E, neste caso, os prejuízos para os turcos seriam muito piores. Até porque Anacara tem forjado alianças mais próximas com os atores regionais. Silenciar seria dar adeus a qualquer pretensão de liderança no Oriente Médio.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Eleições presidenciais nos EUA: Deus, impostos e gastos governamentais

Pelo menos 46 pessoas morreram em 11 estados Americanos devido à passagem do furacão Irene. Apesar disso, a candidata a candidata (é isso mesmo) do partido Republicano Michele Bachmann não deixou de brindar o público com toda a sua verve “humorística”. Vou reproduzir exatamente o que ela disse em discurso de pré-campanha: “eu não sei o quanto Deus deve fazer para conseguir a atenção dos políticos. Nós tivemos um terremoto; tivemos um furacão. Ele disse: ‘vocês vão começar a me escutar por aqui? Escute o povo americano porque o povo americano está rugindo exatamente agora’. Eles (sic) sabem que o governo está numa dieta de obesidade mórbida e nós precisamos controlar os gastos”. Quem achou graça levante a mão.

Há consenso – principalmente fora dos EUA – de que os republicanos nunca foram lá grandes humoristas. E, pelas declarações de Bachmann, continuam a não ser. No entanto, há alguns sinais importantes em suas palavras.

O primeiro deles diz respeito à campanha presidencial americana. Para usar o termo apropriado, testemunharemos cada vez mais este cruzamento bizarro entre religião e política. Se um candidato simplesmente republicano ainda oferecia alguma esperança de debates em alto nível e discussões interessantes, com um representante do Tea Party esta expectativa vai por água abaixo. Possivelmente, as propostas do político que vai se esforçar para derrotar Obama irão variar entre Deus, gastos governamentais e impostos. E com direito a toda sorte de combinações entre esses três itens. Haja paciência.

Quando Bachmann insiste na ideia de que o governo é grande demais e faz gastos demais é por uma questão política. O Tea Party se resume a isso. É um grupo minoritário, mas com cada vez mais força no cenário político americano e que chega até a incomodar algumas alas do próprio partido Republicano. No entanto, por mais que faça muito barulho, não tem propostas. É um grande aglutinado de políticos astutos a serviço de parte de empresários espertos que se aproveita da inocência popular ao levantar como bandeira a redução de impostos. Que cidadão de qualquer país do mundo não quer pagar menos taxas?

Mas não se trata somente disso. O Tea Party é formado primordialmente por toda a sorte de aproveitadores (com o perdão do termo, não vejo outra forma de qualificá-los). Os fundadores do movimento são empresários do ramo da indústria química muito insatisfeitos com os impostos cobrados pelo governo e pela fiscalização imposta devido ao uso desmedido do meio ambiente. O pulo do gato que encontraram foi fazer de sua luta a luta de milhares de pessoas ingênuas. Para isso, passaram a contestar qualquer forma de atuação governamental, mas também a própria ciência. Foi assim que conseguiram a adesão de grupos religiosos contrários ao evolucionismo, por exemplo. E, juntos, acreditam que, com certeza, este negócio de aquecimento global é uma besteira. Essa gente já esteve e pode voltar a estar no comando da maior potência do planeta. Particularmente, não creio que se trata de uma boa notícia.

E aí entra o interesse internacional no Tea Party. A Casa Branca chefiada por um presidente do grupo irá jogar às favas qualquer discussão em torno da redução de gases poluentes. No caso específico do Brasil, certamente haverá retrocessos nos debates sobre o fim dos subsídios aos produtores americanos. Esta é uma péssima notícia ao agronegócio brasileiro que se vê impedido de disputar em condições de igualdade no maior mercado consumidor do mundo.

Para os próprios cidadãos americanos, o Tea Party é uma má notícia. Principalmente se falarmos dos cidadãos pobres, que não têm dinheiro para arcar com planos de saúde privados. Uma das principais propostas do grupo é acabar com qualquer projeto de auxílio nesta área em nome da redução de custos ao governo. E redução de custos diminui impostos. Pode parecer incrível, mas muita gente desprovida apoia esta lógica torta.

Ah, para finalizar em grande estilo, o discurso de Bachmann sobre o furacão Irene mirava justamente nos planos de Washington de auxiliar nos resgates da população e na reconstrução das cidades atingidas. Para Bachmann e o Tea Party esta não é a função do governo, mas dos Estados. O problema é que nenhum Estado pode pagar sozinho os custos de um furacão sem a ajuda financeira da Casa Branca. A conta simplesmente não fecha. Mas esta definitivamente não é uma preocupação do Tea Party.