quarta-feira, 30 de setembro de 2009

As contradições do mundo na crise em Honduras

Muito interessante o rumo que esta crise em Honduras está tomando. Aos poucos, os personagens vão mostrando seus reais propósitos. Por exemplo, quando o grupo de empresários hondurenhos passa a aceitar a ideia de restabelecer o presidente deposto, levanta a seguinte questão: ora, afinal de contas, o objetivo do golpe era moldar o governo Zelaya de forma a nunca mais ousar fazer qualquer consulta popular?

Estranho mesmo é perceber que no final da primeira década do século 21, um país latino-americano ainda é palco de movimentos políticos ilegais que ressaltam as diferenças de classe. Mas a luta de classes não é um slogan um tanto ultrapassado, de acordo com o próprio liberalismo?

Ora, o liberalismo se mostrou insuficiente para impedir a maior crise econômica desde a década de 1930. O Estado se mostra relutantemente necessário para regular os gastos, investir na sociedade e impedir a mão boba do mercado de fazer o que bem entende.

Mas é para controlar o Estado que a elite hondurenha apoiou o golpe que depôs Zelaya. Um Estado que, se já não serve para muita coisa – afinal, para o empresariado, quanto menos intervenção estatal, melhor –, ao menos ainda detém o monopólio do poder coercitivo – leia-se, polícia e forças armadas.

E o presidente interino Micheletti não pensou duas vezes em lançar mão de medidas coercitivas para calar a oposição. Não conseguiu. A corda foi esticada ao máximo e arrebentou. Afinal de contas, no século 21 parece ser difícil controlar a informação, a rebeldia e – mais ainda – a imprensa internacional. Parece que, aos poucos, a situação vai se ajeitar em Honduras. Mas tem que ser logo. Afinal de contas, um grupo de deputados brasileiros está a ponto de se encontrar com as lideranças hondurenhas e pode pôr tudo a perder.

Mas, num mundo cada vez mais contraditório, o grupo de nobres parlamentares é composto por, dentre outros, Cláudio Cajado (DEM) e Bruno Araújo (PSDB), de partidos que até pouco tempo criticaram a “intromissão brasileira em assuntos internos de outros países”.

Num mundo cheio de contradições, nem nossos deputados haveriam de ficar de fora. Talvez o fato de a crise de Honduras ter sido o assunto mais buscado na internet brasileira na última semana explique em parte o repentino interesse “nos assuntos internos” alheios. Até porque, no século 21, fazer um papel bacana por lá pode render uns votos por aqui.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Extremismo em alta

Em 1981, a força aérea israelense sobrevoou o Iraque e, de uma só vez, destruiu o reator de Osirak, encerrando o projeto nuclear de Saddam Hussein. Hoje, 28 anos depois, quando os olhos do mundo se voltam para a as pretensões atômicas de Mahmoud Ahmadinejad, sabe-se que uma única “viagem” ao Irã não será capaz de interromper o projeto hegemônico da República Islâmica.

Com a divulgação da descoberta de uma segunda e secreta usina em Qum, um breve futuro conflituoso se descortina pela frente. O Irã está militarizado. Mais perigoso do que isso, a alta cúpula do governo de Teerã está promovendo uma corrida armamentista cuja estrela principal é a busca por arsenal nuclear.

Concordo com a suposição publicada hoje pelo canadense National Post de que o extremismo oficial e bélico vem se fortalecendo nos principais postos de poder do país.

“Está cada vez mais claro que o Irã não é mais governado pelo supremo líder, Ali Khamenei, ou pelo conselho de mulás – algo que já seria ruim o bastante –, mas pela Guarda Revolucionária e seus aliados políticos, que compreendem os elementos mais extremistas da sociedade, dos militares e do próprio governo”, diz o editorial.

Já está claro para mim que é isso mesmo o que está ocorrendo. O problema é que tal arranjo configura um caminho sem volta. Afinal, o extremismo não dialoga, mas busca o conflito.

Neste caso, infelizmente, a reunião marcada com as potências ocidentais para esta quinta-feira seria inútil. Não restaria qualquer opção a não ser a aplicação de sanções. Mesmo com este cenário, levando-se em consideração que Teerã já estaria dominada pelo extremismo, o regime sairia no lucro.

Afinal, nada melhor do que a opressão das sanções internacionais e a ameaça de um ataque para unir a insatisfeita população iraniana – pelo menos a da capital – a um contestado governo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Irã contra a parede

A grande notícia do dia é a divulgação feita por Barack Obama de que a inteligência americana sabia há anos sobre a existência de uma usina nuclear iraniana secreta. O comunicado foi seguido por um aviso corajoso e conjunto dos líderes de EUA, França e Grã-Bretanha. Os três reafirmaram estar dispostos a aplicar sanções a Teerã de forma a acabar com o jogo de gato e rato, morde e assopra de Mahmoud Ahmadinejad.

Nicolas Sarkozy foi mais além ao estabelecer um limite de dois meses para o Irã começar a cooperar com as demandas internacionais ou então encarar sanções profundas.

Já debati inúmeras vezes o assunto por aqui. No caso da gravidade do programa nuclear da República Islâmica, publiquei exatamente há uma semana denúncia pouco repercutida da Associated Press quanto a um anexo de um documento onde técnicos da IAEA (Agência Internacional de Energia Atômica, em inglês) concluem que o país planeja a obtenção de armamento nuclear.

O fato de hoje não é novo. A novidade é a mudança de postura dos três mais importantes líderes mundiais justamente às vésperas do primeiro encontro entre o Irã e potências ocidentais em 30 anos. A intenção é mesmo causar constrangimento a Ahmadinejad e colocá-lo na delicadíssima situação de estar sem saída.

Afinal, o presidente iraniano chega nu à reunião após a revelação de hoje. E, se desistir do encontro – o que não considero improvável de ocorrer –, ficará claro que não há qualquer alternativa ao ocidente senão aplicar mesmo as sanções.

O ocorrido hoje foi um movimento estratégico coordenado entre Obama, Brown e Sarkozy – e muito possivelmente com o conhecimento prévio de Ângela Merkel e Silvio Berlusconi. O Irã agora está pressionado contra o muro a apenas seis dias de se reunir com seus acusadores. A reunião da próxima quinta-feira ganha contornos ainda mais espetaculares.

Quem acabou passando por inocente foi a Rússia. Segundo agências de notícias locais, a porta-voz do presidente Dmitri Medvedev classificou a informação de “perturbadora”. Fiquem à vontade para acreditar que Moscou foi a última a tomar conhecimento da existência desta usina.

O interessante nessa história toda é o que ainda está por vir. Mas o tom de gravidade com que os três líderes levaram a público a descoberta dos serviços de inteligência americanos talvez sejam a esperança de uma abordagem mais firme das intenções nucleares de Teerã. Por si só, este é um fato positivo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Expectativas para o G20

O Brasil já conseguiu uma vitória importante no caso de Honduras: o reconhecimento mundial de que o país é o porta-voz da defesa da restituição do presidente deposto. Ou seja, caso encerrado. Uma missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) parte para resolver a situação e o embate – sangrento e por ora com poucas chances de resolução – entre Zelaya e Micheletti neste final de semana.

Acho que é chegada a hora de pular fora deste barco. O Brasil pode até tomar parte na mediação das conversas entre os partidários do presidente eleito e os golpistas. Mas fica claro que o papel principal agora passa a ser exercido pelo secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza.

Cabe lembrar que, após conseguir destaque durante a Assembleia Geral da ONU, o Brasil tem a partir de amanhã um encontro muito mais relevante para seus interesses neste novo mundo que se configura: a reunião do G20 em Pittsburgh, nos Estados Unidos.

Como país em desenvolvimento e cada vez mais presente no cenário internacional, é fundamental que o Brasil consiga apresentar suas demandas durante a cúpula. E é bem possível que isso aconteça, uma vez que é inegável que, após a crise financeira global, as grandes economias que não fazem parte do primeiro mundo precisam ser ouvidas.

“O consumidor americano não pode mais ser o ‘motor’ da demanda. Europa e Japão tampouco. A China pode ajudar, (...) mas com acesso a financiamentos, outros países em desenvolvimento talvez possam alavancar uma recuperação global”, diz editorial do Financial Times.

Ou seja, é preciso aproveitar o momento com soluções criativas para a crise. Possivelmente, o Brasil vai expor os dados importantes de baixos índices de desemprego e a redução da desigualdade como exemplos que legitimam o país como interlocutor importante da nova ordem global. É claro, Lula deve reafirmar a posição contrária à autorregulação indiscriminada dos mercados como ponto de partida para qualquer discussão.

O presidente brasileiro já apresentou esta visão em artigo assinado por ele e publicado na quarta-feira no Los Angeles Times.

“A mudança climática e a competição global por fontes energéticas e mercados confirmam o que já sabíamos: a globalização nos tornou mais dependentes uns dos outros. No ano passado, o Brasil tomou a dianteira na defesa da consolidação do G20 como fórum de líderes capazes de trazer racionalidade no gerenciamento da crise. Chegou o momento de mostrar vontade política para fazer ajustes fundamentais de estrutura”, escreve.

Vale prestar atenção também aos resultados dos diálogos entre China e EUA. Os dois gigantes do comércio internacional devem entrar em choque. Há pouco tempo, Washington decidiu tarifar os pneus exportados por Beijing. Em compensação, os chineses passaram a investigar as práticas comerciais americanas. É bem capaz de essa disputa se tornar ainda mais acalorada a partir de amanhã.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O preço que se paga

Alguns valiosos leitores deste espaço vieram me questionar pessoalmente sobre o texto de ontem. Em respeito a eles, sinto-me na obrigação de tentar me explicar ainda mais. Tudo o que escrevi teve como objetivo final procurar entender a lógica da atual política externa brasileira e como ela funciona no mundo. Apenas isso.

De qualquer maneira, um dos aspectos discutidos após a publicação foi relativo à interferência brasileira em assuntos internos alheios e quanto o país pode perder com isso.

Acho que cada caso deve ser analisado isoladamente. No exemplo hondurenho, mesmo com toda a crise que ocorre neste momento em Tegucigalpa, penso que o Brasil sai ganhando. Afinal, como escrevi ontem, consegue se transformar no porta-voz de uma “bandeira” justa apresentada durante a Assembleia Geral da ONU: a luta pela democracia e pela restituição do estado de direito.

Hoje mesmo, ao discursar em Nova Iorque, Lula tratou de capitalizar a atitude brasileira ao defender a decisão de abrigar Zelaya. Além disso, ao abrir as portas para o presidente deposto, o Brasil dá um salto – até arriscado, de certa forma – onde deixa a postura passiva de simplesmente defender o respeito à democracia e passa a atuar diretamente no conflito.

Existe sim a possibilidade de haver um desgaste brasileiro graças ao episódio em Honduras. Mas e daí? É preciso colocar na balança perdas e ganhos de todas as decisões.

Fica cada dia mais claro o quanto o governo atual pretende figurar no escalão principal das relações internacionais. Ao sair de cima do muro e se posicionar, é óbvio que Brasília não conseguirá obter unanimidade, seja internamente ou mesmo entre os países vizinhos. Este é o preço que se paga quando se decide entrar de cabeça no jogo.

Ao abrigar Manuel Zelaya na embaixada em Tegucigalpa, o Brasil simplesmente expressa na prática uma peça importante do discurso apresentado nesta manhã por Lula na ONU, quando o presidente brasileiro defendeu “uma nova ordem internacional sustentável, multilateral, menos assimétrica, livre de hegemonismos e dotada de instituições democráticas”.

A questão que se coloca é bem simples: o Brasil prefere ser avaliado positivamente pelos demais países ou escolhe o caminho de defender interesses próprios que necessariamente entram em choque com este ou aquele Estado? As atitudes que o Itamaraty vem tomando mostram qual foi a opção escolhida.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A simbiose entre Brasil e Manuel Zelaya

Não é por acaso que a crise em Honduras voltou a tomar conta das manchetes nesta terça-feira. Tampouco foi ocasional o abrigo de Manuel Zelaya pela embaixada brasileira em Tegucigalpa. A retomada do assunto neste momento serve a ambos os lados – o do presidente deposto e o das ambições internacionais brasileiras.

Antes de entrar no mérito da questão, entretanto, acho válido lembrar que é natural que os países tenham planos e pretensões para a área de política externa. Portanto, nada de errado quando o Brasil reafirma suas intenções. Pelo contrário.

No caso da crise em Honduras, é útil a Zelaya e a Brasília que a comunidade internacional se volte para o assunto justamente quando representantes dos 192 estados-membros das Nações Unidas estão reunidos em Nova Iorque na véspera do pontapé inicial de uma das sessões da Assembleia-Geral mais aguardadas em muito tempo.

Ao receber Manuel Zelaya em sua embaixada na capital hondurenha, o Brasil se aproveita do momento para reafirmar aos olhos do mundo sua posição: é favorável ao Estado de direito e à democracia.

O expediente consegue elevar o capital da política externa brasileira e está sendo usado como forma de apresentar em igualdade de condições as questões que são caras ao governo Lula ao lado de tantas outras (programa nuclear iraniano, retomada do diálogo entre Israel e os palestinos, escudo antimísseis americano etc) que estarão em discussão em Nova Iorque nos próximos dias.

Trata-se de um golpe de mestre. Para Zelaya é igualmente útil, obviamente, uma vez que ele voltará ao foco depois de meses de esquecimento e notinhas de pé de página nos jornais.

Para mim fica claro, no entanto, que os ganhos servem mais ao Brasil, já que, mais uma vez, o assunto mostra o potencial de liderança regional exercida pelo país e lembra aos membros da ONU a principal reivindicação de Brasília: a reforma do Conselho de Segurança e a inclusão permanente do país.

O troféu cara de pau da vez vai para o presidente interino Roberto Micheletti, que, em artigo publicado na edição de hoje do Washington Post, tentou amenizar a característica não democrática intrínseca a seu governo.

“Diante de todas as reclamações (internacionais) que ocorrerão nos próximos dias, o ex-presidente (Zelaya) não irá mencionar que o povo de Honduras seguiu em frente desde os eventos daquele dia (o golpe de final de junho) e que nossos cidadãos estão à espera de eleições livres, justas e transparentes que ocorrerão em 29 de novembro”.

Quer dizer que o mundo todo deve esquecer que o presidente eleito do país foi retirado à força e nenhum país deve se manifestar diante deste fato? O povo hondurenho que “seguiu em frente” é o mesmo que tem sido punido diariamente com toques de recolher e violência policial? É melhor nem comentar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ahmadinejad se opõe a um Estado palestino

Eu ainda não decidi se considero Mahmoud Ahmadinejad estúpido ou um grande estrategista. Ou melhor, é bem provável que eu mesmo não saiba se a estupidez é um termo que se aplica a mim. Porque quando o presidente iraniano volta a repetir que o Holocausto é uma mentira, na verdade ele presta um grande desserviço aos palestinos que diz defender.

Ao dizer com todas as letras pela milésima vez que o Estado de Israel deve ser varrido do mapa, Ahmadinejad reafirma o argumento do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de que o maior desafio de seu governo hoje é combater a ameaça nuclear iraniana.

Ao convencer seu gabinete, a opinião pública interna e mesmo a Casa Branca, Bibi consegue adiar a retomada dos difíceis diálogos de paz com a liderança palestina.

Na prática, ao manifestar suas crenças absurdas sobre a inexistência do Holocausto para logo em seguida reafirmar o plano de acabar com Israel, Ahmadinejad assina embaixo da doutrina de segurança de Bibi.

Vale lembrar, entretanto, que, ao fazer tais declarações – o dia em que os iranianos são conclamados às ruas para gritar “morte a Israel” –, uma outra manifestação tomava conta de Teerã: novamente os opositores ao atual governo iraniano saíram para protestar contra o resultado das eleições de junho passado.

Este é um “case” em tempo real que prova o quanto o conflito entre israelenses e palestinos favorece alguns setores – geralmente, os dominantes – do mundo muçulmano. É sempre uma válvula de escape capaz de unir vozes dissonantes em torno do ódio a Israel.

Na prática, entretanto, ele desfavorece os maiores interessados: os palestinos que permanecem sem discutir abertamente com o atual governo israelense questões-chave para a constituição de seu Estado.

Fica claro também que a solidariedade aos palestinos é apenas mais uma peça do discurso de Ahmadinejad. Mas ela não amolece seu coração quando é colocado na balança ao lado de seu projeto hegemônico regional.

Enquanto isso, Barack Obama se reúne amanhã em Nova Iorque com o próprio Bibi e também com o presidente palestino, Mahmoud Abbas. Sobre isso, matéria publicada na edição de hoje do New York Times trata de baixar as expectativas sobre o encontro:

“A Casa Branca informa que não espera alcançar qualquer grande avanço (nos diálogos entre os lados). Mas oficiais de Washington afirmam que Obama optou por manter as reuniões de forma a mostrar sua determinação em retomar o processo”.

Ou seja, o objetivo é sair bem na foto. Interessa ao presidente americano – que enfrenta uma baixa de popularidade –, ao próprio Netanyahu – que vai arrastando o assunto enquanto pode –, mas não aos palestinos – que deveriam “agradecer” todo o empenho de Mahmoud Ahmadinejad.