segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O antissemitismo de butique

Uma carta assinada por mais de 50 “intelectuais” ameaça boicotar a Bienal de São Paulo. Os signatários dizem que, por meio do documento, querem expor o repúdio a Israel, em função dos eventos ocorridos em Gaza durante a guerra entre o país e o Hamas. A ideia é exigir a devolução do patrocínio do consulado de Israel em São Paulo, cerca de R$ 90 mil. Há neste movimento algumas questões importantes a serem examinadas. 

Como sempre procuro fazer, acho fundamental entender os propósitos estratégicos que vão além desta ameaça.  Vale dizer também que nem todos que assinaram a carta podem ter refletido sobre tais objetivos, se isso serve como atenuante. Em primeiro lugar, trata-se de uma clara tentativa de importação do conflito ao Brasil. E aí resta saber se é de interesse do país importar conflitos, ainda mais quando se trata de uma guerra que não envolve o Brasil nem sua participação geopolítica direta. 

Agora a questão mais séria. Este tipo de boicote merece um olhar mais amplo. A ideia por trás disso é que Israel – e somente Israel – não teria direito a fazer parte da comunidade internacional. A Israel, então, está negado o direito de patrocinar uma mostra cultural. E isso não tem a nada a ver com o conflito em Gaza, por mais que os signatários da carta queiram dizer o contrário. Se o objetivo do boicote fosse punir países envolvidos em conflitos de qualquer natureza, logo o grupo também deveria repudiar o patrocínio de outros Estados nacionais. A Turquia, pela repressão aos curdos; a Itália, pelas milícias legalizadas para caçar imigrantes ilegais; a Rússia, pela invasão à Ucrânia; a França, pelo tratamento destinado à população islâmica; os EUA, pelas guerras em Iraque e Afeganistão; e assim sucessivamente. 

Mas, obviamente, nada disso acontece. Não se trata de solidariedade aos imigrantes, a populações que vivem em situações de perigo iminente, a grupos cujos direitos humanos são violados. Trata-se de uma tentativa explícita de singularização de Israel. Portanto, Israel seria o único Estado digno de escrutínio, o único cuja participação na comunidade internacional é vedada,  o único Estado que não teria direito de fazer algo tão banal a qualquer Estado quanto patrocinar um evento cultural. A Israel, o judeu entre as nações, estaria negado o direito de ser, simplesmente. E assim, de uma maneira muito gradual, sob o véu da solidariedade aos palestinos, os “intelectuais” da Bienal de São Paulo tentam transformar o antissemitismo em algo normal, angariando até a simpatia de muitos. Criaram uma maneira de normatizá-lo, de transformar uma doença histórica da humanidade num movimento, digamos, de vanguarda, de butique. 

5 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom!

fábio balassiano disse...

Excelente, como sempre. Sabemos bem onde isso vai terminar - ou começar! grande abraço, fábio balassiano

Anônimo disse...

Muito bom; e digamos que essa boutique é bem rastaquera. E se os antisemitas recusam o patrocínio de Israel basta que não participem. Mas o que querem é produzir factóides, especialidade do marketing islâmico anti Israel, poderoso e sustentado pelos petrodólares,difundido pelo mundo inteiro com o controle de agências de notícias, jornais e emissoras que vem sendo compradas há pelo menos 20 anos. Apreenderam com o nazista da propaganda.

Raquel Teles Yehezkel disse...

Parabéns!

Henry Galsky disse...

Obrigado, Raquel.