terça-feira, 1 de abril de 2008

A China, o Tibet e Richard Gere

Por Henry Galsky

No dia 14 de março a imprensa internacional passou a dedicar extensa cobertura às manifestações e protestos dos monges tibetanos contra o regime chinês. Desde então, o assunto desperta a mobilização, não apenas de jornalistas e historiadores, mas também de pessoas que não têm qualquer envolvimento direto com a questão. É curioso notar como os debates se tornaram acalorados, transformando a notícia em pauta para as mesas de bar (ícone máximo de nossa medíocre vida cultural) e – fenômeno bastante comum de alguns anos para cá – em apresentações confeccionadas a custo de powerpoint e argumentos emocionados divulgados com urgência pela internet.

A quatro meses das Olimpíadas de Pequim, soa bastante natural que os olhos do mundo se voltem para a agitação política daquela região do planeta. O que não soa – e de fato não é - nada natural é o repentino interesse popular pelo assunto. À exceção de algumas personalidades mundiais – como o Dalai Lama, diretamente envolvido no assunto por ser o líder espiritual e político do Tibet, e o ator Richard Gere, podem acreditar – pouca gente que transita pelo ocidente levantava seriamente a bandeira ideológica da independência do Tibet (ou, como o pessoal gostou de adotar por aqui, “Tibete”). Quanta coisa aconteceu no mundo desde que a China declarou a região parte de seu território, em 1949? Quantos pobres monges se imolaram na tentativa de chamar atenção para a causa e, no máximo, conseguiram alguns poucos segundos divulgados aqui e ali pela massaroca de imagens e informação absolutamente superficiais das grandes agências de notícias?

Esta breve e também superficial reflexão quase me impeliu a apertar o temerário botão de “responder a todos” de meu programa de e-mail quando recebi a corrente virtual que pedia a minha assinatura na mensagem que clamava pela liberdade do Tibet. O objetivo era atingir a marca de um milhão de nomes que de forma uníssona fariam a voz do povo brasileiro ser ouvida pelo Partido Comunista Chinês (o verdadeiro PCC). Gostaria de perguntar a cada um dos signatários por onde haviam andado nos últimos 60 anos. Por que só agora se manifestar a favor dos tibetanos?

Não me parece legítima esta solidariedade de ocasião com qualquer causa – sem entrar no mérito se justas ou não. Não é nada responsável emitir opinião sem fundamento sobre este assunto que afeta a vida real de chineses e tibetanos de maneira direta. Mais ainda, é injusto defender argumentos reproduzindo slogans políticos que assistimos na tevê ou lemos nas manchetes dos jornais.

Olhando com distância para a discussão do momento, é possível constatar com tristeza que muitos dos que julgam estar na crista da onda do pensamento livre nada mais são do que meros joguetes pautados pelos interesses fugazes da imprensa. A roda deve continuar a girar, amanhã novas manchetes virão. E quem estará preocupado em enviar petições pela internet em defesa dos interesses tibetanos? A poeira vai baixar, as Olimpíadas irão terminar e Richard Gere poderá ser novamente o “cavaleiro solitário” em defesa da liberdade do Tibet.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Mesmo

Por Henry Galsky

Nove horas da noite. O metrô nem cheio, nem vazio. No vagão repleto de distrações banais – o reflexo no vidro, a conversa dos outros, a voz da locutora anunciando as estações num inglês relaxado – os rostos não são familiares. Mesmo assim não é difícil se identificar com aquelas pessoas que emanam cansaço, frustração e sono. Após mais um longo e lento dia de trabalho, ninguém parece se importar com as conseqüências de uma vida forjada na dura desesperança repetida a cada nascer do sol: é preciso continuar.

O olhar distante e desatento da mulher de meia-idade traduz o sentimento que parece envolver todos os passageiros. Chegar em casa não é apenas uma obrigação, mas um impulso obedecido quase militarmente pela tropa da classe média embarcada nos trilhos elétricos e bem-aventurados concedidos pela benevolência dos “saudosos” governantes da Cidade Maravilhosa nos idos anos 1980. A mesma década a marcar a áurea juventude da mulher que, neste momento, está ali, sentada e desiludida a poucos metros de mim.

E assim vão correndo os anos. Um casal discute, um estudante escuta seu MP3, a senhora dorme e o rapaz lê jornal. Eu, que já fui o estudante, o sorridente rapaz com a namorada, hoje sou apenas um observador. Em alguns anos serei o homem cansado que olha o vidro como quem não pensa em mais nada e, finalmente, a senhora que cochila relaxada – que talvez nem pense mais nas frustrações e esperanças de anos anteriores. Talvez ela se sinta de alguma maneira justificada pela experiência anunciada pelos governos, pela imprensa e pelo senso comum. Antes de tudo, é preciso respeitar os mais velhos, aprender, apreender. Seremos como eles. Queiram ou não. O destino pronto e acatado pelo passar do tempo. O mesmo breve tempo de 20 minutos que torna a todos nós membros desta efêmera comunidade de passageiros do metrô.

Já na rua, os passos apressados dos que anseiam por chegar em casa. As ruas refletem suas almas e, já cansadas por mais um dia longo, lento e barulhento, entregaram os pontos. Os carros são poucos e lambem apenas os jornais a voar ao sabor do vento quente e abafado. Mas é preciso chegar em casa. Ver os filhos, cozinhar, contar histórias, ler o jornal já velho a noticiar um dia passado. Amanhã será o mesmo para depois se transformar no mesmo e assim por diante.

Em casa, é preciso comer rápido, falar rápido, amar rápido. O sono consome o tempo, que consome a vida. E eu lembro da senhora do metrô. A única que já conhece a história por ela mesma. Porque a vida dela é a minha vida. E a vida do estudante do MP3 é a minha vida. E eu já fui ou serei cada um deles. Na repetição cansada de todos os dias. A lição que engolimos rapidamente no café da manhã pouco antes de nos tornarmos mais uma repetição, antes de entregarmos nossas vidas à saudável e urgente missão de ganhar dinheiro.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Voluntariamente Levado

Por Henry Galsky

Algo de grandioso aconteceu na noite do dia 2 de julho de 1947, em Roswell, no Novo México. A pequena cidade do meio-oeste americano pode ter sido acidentalmente escolhida como cenário de uma das grandes revelações aguardadas pela humanidade: a existência de vida inteligente fora do Planeta Terra. É a partir desta premissa que o roteirista Leslie Bohem concebeu e escreveu os dez episódios da minissérie Taken (2002), que por aqui foram exibidos sem muito alarde pela Fox e, recentemente, pela Bandeirantes.

Além de contar com um texto impecável, cada um dos episódios foi realizado por dez diferentes cineastas. São dez distintas e criativas visões sobre a idéia original de Bohem. A produção executiva fica a cargo de ninguém menos que Steven Spielberg, confesso apaixonado pelo assunto.

O seriado assume que uma nave tripulada por cinco extraterrestres teria caído no deserto nas proximidades de Roswell. A partir daí, os acontecimentos se assemelham aos conhecidos publicamente. Primeiro, os próprios civis que testemunham a passagem ou mesmo a queda da nave convocam os militares. Alguns viram as luzes no céu, outros foram diretamente afetados pelo disco voador – como a mulher cujo automóvel enguiça por conta da presença da tecnologia não-humana.

É então que o programa toma um rumo próprio. A opção do roteirista – muito bem realizada pelos diretores – é dar um "recorte" no fato e seguir esta linha fielmente até o último episódio. Após o recolhimento dos quatro tripulantes alienígenas – três deles mortos na queda, um capturado com vida e outro dado como desaparecido – o militar Owen Crawford (Joel Gretsch) passa a comandar as investigações.

Ao mesmo tempo, os fenômenos de abdução tornam-se cada vez mais comuns nos Estados Unidos. Somos então apresentados ao capitão da Força Aérea Russell Keys (Steve Burton). Condecorado por salvar todos os seus subalternos durante a Segunda Guerra Mundial, ele passa a ser levado (daí o título da série em inglês) com freqüência pelos discos voadores. Por não conseguir evitar os seqüestros, decide deixar a mulher e o filho recém-nascido.

Sally Clarke (Catherine Dent), a fazendeira abandonada pelo marido, forma o terceiro vértice da trama central. Tendo de criar sozinha os dois filhos pequenos, numa noite de ventania ela é surpreendida pela chegada de um forasteiro que, misterioso e sensível, acaba seduzindo-a. A inocência da mulher permite que o estranho se revele como um ser de outro planeta. Apesar da descrição piegas, a história dos dois convence e Sally se rende aos encantos do alienígena (somos informados que eles têm a capacidade de assumir a forma que quiserem, além de outros poderes interessantes narrados ao longo do seriado).

Entretanto, ao saber que as autoridades estão em seu encalço, ele vai embora. Mas – e aí aparece um dos poucos lugares-comuns de Taken – , como poderia ser imaginado, Sally está grávida e seu filho, mais tarde, será o alvo das investigações do obstinado Owen Crawford.

Além de muito bem realizada, a série assume um tom de seriedade que difere de outras produções do gênero. Longe de tratar o assunto com maniqueísmo, os seres que nos visitam não são julgados genericamente pelo seu caráter, mas por suas ações. Assim, a Sally Clarke do parágrafo anterior realmente é seduzida por um extraterrestre que a trata com amor, preenchendo seu vazio existencial. Mas Russell Keys e toda a sua linhagem (o filho e o neto cujas histórias são contadas ao longo da trama) parecem predestinados a constantes e involuntárias abduções. Ao contrário de Clarke, eles não enxergam nos alienígenas seres afáveis ou dignos de qualquer tipo de admiração. Mas o oposto.

Da mesma forma, os militares norte-americanos são apresentados sem nenhum glamour. À frente do projeto mais secreto do governo em todos os tempos, seus representantes parecem tão desinformados quanto os civis seqüestrados. Para piorar tudo, dez anos são desperdiçados no que se mostra uma improdutiva tentativa de desvendar o funcionamento do disco voador capturado em Roswell. Assim, no auge da Guerra Fria, as verbas destinadas às investigações são reduzidas. Aliás, este é um outro ponto interessante da série. Os fatos políticos reais contornam as buscas por esclarecimentos quanto às aparições dos ets.

Somos levados a crer – sem negar a possibilidade real disso – que o episódio conhecido como a Crise dos Mísseis (Estados Unidos e Cuba, em 1962, quase protagonizaram uma guerra aberta em virtude da instalação de mísseis soviéticos na ilha caribenha) foi apenas um fato menor se comparado às freqüentes e inexplicáveis expedições extraterrestres à Terra. O seriado também nos revela a origem de curiosas e historicamente recentes descobertas humanas. Desta maneira, algo tão simples como o velcro passa a ter sua descoberta associada às pesquisas militares no interior da nave capturada.

A produção executiva de Steven Spielberg pode ser percebida em momentos-chave da trama, como na seqüência em que militares fecham uma estrada sob a alegação de vazamento de um produto químico numa cidade da região. Na verdade, o isolamento ocorre porque os militares pretendem atrair um disco voador ao local. O mesmo artifício já havia sido usado por Spielberg no clássico Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1978), quando Roy (Richard Dreyfuss) é impedido por uma barreira na rodovia ao tenta se aproximar da montanha escolhida pelos seres que abduziram seu filho para o primeiro encontro programado com os humanos. Na ocasião, a justificativa escolhida fora uma falsa contaminação do ar que poderia matar quem estivesse nas proximidades.

Não é surpreendente que, por tudo isso, Taken tenha recebido 18 indicações e sete troféus, inclusive na premiação mais importante da televisão norte-americana. Em 2003, o seriado levou o Emmy como melhor minissérie, além da indicação ao Globo de Ouro de melhor produto feito para a tevê.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Não Gosto do Leblon

Por Henry Galsky

Nascido e criado no Rio de Janeiro, eu corro sério risco de ser classificado como persona non-grata na cidade. Não por cometer crime de qualquer natureza, mas simplesmente por proferir uma frase que deve soar como heresia não apenas aos cariocas: não gosto do Leblon.

Segundo dados do município, o Leblon possui apenas 46.670 moradores. As estatísticas mostram que quase a totalidade é alfabetizada. Ao contrário do resto do país, simplesmente não há registro de mortalidade em nenhum dos critérios analisados (infantil, neonatal precoce, neonatal tardio e pós-neonatal). Mas isso é motivo de comemoração. Aliás, gostaria muito que esses números se repetissem nas demais regiões brasileiras. Entretanto, sei que as taxas altamente positivas não se devem de maneira nenhuma à ação do Estado. Ao contrário, são assim por sua completa ausência.

Os menos de 50 mil moradores do Leblon pouco se utilizam do aparato público. Às exceções dos acidentes de trânsito – não tem jeito, a primeira remoção obrigatoriamente é para um hospital do governo – queixas na delegacia ou passeatas contra aumento do IPTU, não há motivos para lembrar do falido ente estatal. Os dados mostram também que, em 2004, dos partos ocorridos no bairro, 105 foram vaginais e 249, cesarianas. Mas nada disso me fez implicar com o Leblon.

São os nativos que me incomodam em minhas caminhadas pela praia ou na disputa por um suco de limão num de seus diversos bares. Ninguém caminha impunemente pelas calçadas. Falta espontaneidade. Os despojados fingem, os metidos atuam e até os cachorros passeiam com ar blasé. Dizem que a coisa piorou depois que o bairro virou cenário constante das novelas de Manoel Carlos. O resultado disso é um ambiente tão opressor, que o ar só começa a ficar menos pesado ali pelas imediações da Lagoa (já a caminho de Botafogo ou do túnel Rebouças).

Nada é por acaso no Leblon. Se os filhos da classe alta começam a andar de skate, pronto. Já é moda. Se andam de esqui na neve, é atitude. E pensar que todas aquelas cesarianas e partos vaginais de 2004 em breve estarão protagonizando e ditando o destino do bairro cujo metro quadrado é o mais caro do país: R$ 12 mil. Para se ter idéia, a mesma metragem na área nobre de São Paulo – a cidade mais rica do Brasil – custa 33% menos.

Mas minhas lembranças não são de todo ruins. Numa época em que a água lembrava menos canjica com canela, era ali – já quase no Mirante – que meu avô me levava para nadar. Ele parecia um boto, tamanha sua desenvoltura (onde quer que você esteja, vô, isso foi um elogio, viu?). Apesar de não gostar de sair tarde da praia (hábito herdado geneticamente), encontrava ânimo de ir à padaria comprar um pão que nunca chegava inteiro em casa.

Também foi ali, especificamente na Cupertino Durão, que experimentei as primeiras ansiedades da pré-adolescência. Nas festas com hora marcada para começar e terminar (sempre de 17h às 21h), dei meus primeiros e derradeiros passos de dança. Parece que foi ontem, mas eu achava o máximo imitar as coreografias de Michael Jackson (eu e ele já apresentávamos sinais de decadência) naquelas tardes de sábado nas pistas da Mikonos ou da Vogue. Todo mundo vibrava com Billy Idol e Information Society. Aos 11 anos de idade, a grande expectativa daquelas crianças era pelos acordes iniciais de Paula Abdul e Bruce Springsteen. A música lenta marcava a oportunidade de dançar nem tão coladinho assim com aquela garota da fileira da frente ou, na pior das hipóteses, com a vassoura (símbolo máximo da humilhação vespertina).

E no final da tarde desta sexta-feira pensei nisso tudo ao mesmo tempo. Caminhando pelo calçadão da praia pouco movimentado num dia chuvoso, percebi que o glamour ficou um pouco distante. O meu avô já não está mais aqui pra me levar à praia ou às festinhas. Os tempos de escola já se acabaram há quase dez anos. Os problemas são bem mais sérios e complicados do que a vergonha por ser interrompido numa coreografia oitentista pela surpreendente aparição da minha mãe vindo me apanhar. Mas acho que devia este texto ao Leblon, um bairro que nunca foi meu mas que mesmo assim faz parte do que eu sou hoje.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

A verdade sobre a nostalgia

Por Henry Galsky

Acabou. Infelizmente, é esta a mais pura e absoluta verdade. Após sete anos e meio e mais de 125 textos o meu blog VivaVoz teve sua falência decretada. Confesso que deveria usar uma palavra mais apropriada para isso. Sei exatamente qual é, mas tenho um medo extremamente infantil dela e por isso optei pela praticidade do termo “falência”. Estou oficialmente impedido de publicar novos textos. O culpado tem nome, endereço, razão social, advogados e milhões de reais em lucros.

Segundo um amigo que trabalha por lá, a culpa foi minha. Compreendo sua explicação. Afinal, o último texto foi postado em 25 de maio passado. Segundo ele, a política oficial da empresa é acabar com o livre acesso de quem deixa seu blog “entregue às moscas virtuais” por tanto tempo. Para voltar a ter acesso a tudo o que você mesmo criou, só sendo assinante (!). Como todos os criadores de blogs, compradores de eletrodomésticos e moradores de condomínios do planeta não fiz o básico: ler os termos dispostos ou, nos casos listados, o manual de usuário e a convenção do prédio, respectivamente. Nada mais chato do que isso.

E, assim, eu, que ao longo deste tempo com o já saudoso VivaVoz (pelo menos pra mim) tentei transmitir minhas idéias livremente, fui punido pela indisciplina de não ler a política oficial do novo dono do Blogger (cujo nome não revelarei pois não faço publicidade gratuita).

Mas como costuma repetir quem gosta de consolar os amigos que perdem empregos, namoradas, têm os carros roubados e blogs confiscados, toda e qualquer mudança é positiva (tenho sérias dúvidas sobre este ditado, mas por hoje não darei maiores explicações). E aqui estou eu insistindo em escrever. Com a lição aprendida, prometo nunca mais prometer ficar tanto tempo sem publicar meus textos.

E por falar neles, retorno ao assunto de meu saudoso VivaVoz. Graças ao amigo cujo emprego pretendo manter e por isso sua identidade permanecerá incógnita, consegui ao menos entrar em meus antigos arquivos virtuais. Salvei em meu computador cada um dos textos. E sou obrigado a abrir o jogo. Poucas vezes passei por experiências tão emocionantes. Reli cada um deles e também os respectivos e sinceros comentários de meus fiéis amigos-leitores (é bem verdade que mais amigos que leitores).

Passei por um processo de recuperação de memórias e lembranças num turbilhão só. Involuntariamente, o exercício de copiar, colar e salvar tudo o que escrevi ao longo destes últimos sete anos e meio me permitiu pensar sobre mim mesmo em cada um dos momentos em que – nem sempre diante do computador – encarei a folha em branco. Há muita coisa sofrível, principalmente daquele já longínquo outubro de 2001. Mas, mesmo meu primeiro texto foi importante. Lembro-me de tê-lo escrito na redação do GNT numa noite em que o trabalho já havia terminado e decidi arriscar a criação do blog.

Pude relembrar cada momento de alegria e tristeza desta década tão importante em minha vida. O fim do estágio, a busca pelo primeiro emprego, a dor da perda de dois avós muito significativos, a solidão após um término inesperado. Mas coisas boas também. O encontro com os amigos e a volta por cima em todas as dificuldades pelas quais passei.

Em 2006, consegui me lembrar de todos os textos escritos em Israel. Como não tinha computador pessoal disponível a qualquer instante, revivi a redação silenciosa na biblioteca da universidade ou na casa de meus tios, e a dificuldade de escrever num caderno durante a dura, fria e longa estadia no centro de absorção.

É claro que não poderia deixar de mencionar a vontade que ainda tenho de terminar o romance envolvendo meu personagem, Renato Viana. Além da intenção de transformar tudo isso e mais os textos deste novo blog em livro. Afinal, como Raul Seixas já cantou em “A Verdade sobre a Nostalgia”, “Na curva do futuro muito carro capotou / Talvez por causa disso que a estrada ali parou / Porém, atrás da curva / Perigosa eu sei que existe / Alguma coisa nova / mais vibrante e menos triste”.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Celebração da vida comum

Por Henry Galsky

Assistir ao documentário Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, não é simplesmente se emocionar com a intimidade e a beleza dos relatos presentes no filme. É, mais do que isso, desenvolver a capacidade de se enxergar na realidade das personagens. O longa-metragem coroa a produtiva série do diretor desde a realização, em 1999, de Santo Forte. De lá pra cá, Coutinho foi responsável por Babilônia 2000 (2000), Edifício Master (2002), Peões (2004) e O Fim e o Princípio (2005).

Mas Jogo de Cena é diferente. A simplicidade e originalidade da idéia surpreendem. A produção publicou um anúncio no jornal convocando mulheres a partir dos 18 anos de idade para contar suas histórias de vida. Foram selecionadas 23 das 83 que se apresentaram. Todas sabiam que seus depoimentos seriam filmados e, num futuro próximo, usados na produção de um longa-metragem.

No Teatro Glauce Rocha, no Rio, cada uma dela se mostra de peito aberto diante das câmeras, do diretor e da equipe de produção. Desde o momento em que a primeira pisa o palco, suas trajetórias repletas de dor, fracasso, esperança e recuperação desfilam ao longo dos nada cansativos 103 minutos de duração da obra.

Coutinho pouco intervém nos depoimentos. Unindo os relatos, apenas a coragem de se expor a um estranho como um paciente em sua primeira sessão de terapia. E isso emociona, comove e conquista o espectador. Assistir à Jogo de Cena é estar diante de um espelho que nada esconde. Os dramas são reais e destoam do padrão cada vez mais fora do comum de mulher bem-sucedida emocionalmente. No documentário, casar, ter filhos e ser feliz em família ao lado do marido é definitivamente apenas uma sombra de um passado apagado pela dor.

Ao invés deste padrão, histórias de “gente de verdade”: a jovem de classe média cujos sonhos foram interrompidos pela gravidez originada na primeira relação sexual; a mãe solteira que se apega à religião para atenuar a dor da morte do filho recém-nascido; a mulher cujo maior objetivo é reconciliar-se com a filha que vive nos Estados Unidos, etc.

Entrecortando os depoimentos, Marília Pêra, Andréa Beltrão, Fernanda Torres, além de atrizes menos conhecidas, interpretam alguns dos relatos reais. Assim, em pontos-chave do documentário, o espectador é levado a questionar a veracidade de parte das entrevistadas. Para tornar ainda mais sofisticado este exercício de questionamento do público, as próprias atrizes contam episódios marcantes de suas vidas.

Coutinho ainda acrescenta à complexidade do filme depoimentos das atrizes conhecidas sobre a dificuldade de interpretar um texto de uma personagem real. Num desses momentos, Marília Pêra faz uma leve crítica aos atores de televisão. “Quando o choro é verdadeiro, o ímpeto natural é esconder as lágrimas. Mas hoje na tevê todo mundo gosta que elas saiam aos borbotões”.

Sem recorrer a nenhum recurso técnico-dramático – como trilha sonora, por exemplo – a produção termina em silêncio com uma longa tomada fixa das cadeiras vazias no palco – as mesmas que ora foram usadas por entrevistador e entrevistado. Não há mais nada além delas. O espectador então é levado a refletir sobre como a simplicidade do cotidiano pode ser tão criativa como este Jogo de Cena. Uma celebração à vida comum.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A breve paz que invadiu meu coração

Por Henry Galsky

Foram apenas quatro dias. No entanto, este pequeno intervalo de tempo incapaz de ser classficado nas mínimas divisões temporais (nem chega a uma semana) serviu para me esclarecer bastante. Cercado pela natureza, longe dos telefones celulares e dos computadores, mas muito perto do que há mais de significativo: amizade e a confortável sensação de estar envolto num mundo seguro. Um mundo sem violência, conflitos, competição, inveja e tudo o mais que deveria ser banido da vida humana.

Assim foi o meu pequeno recesso de reveillón. Como de costume, passei ao lado de meu tradicional grupo de amigos. Nem todos estavam lá, é claro. Mas parte importante de meu ciclo de amizades que, felizmente, costuma organizar as viagens conjuntas de fim de ano. O local escolhido para este encontro foi um sítio em Albuquerque, bairro afastado de Teresópolis.

Longe de tudo, pude mais uma vez comprovar a teoria de que a riqueza da vida está na simplicidade e nas relações desinteressadas (no que esta palavra compreende de melhor) com as pessoas.

Ao lado da piscina, durante as refeições coletivas, ao sentir o primeiro respiro da noite, a sensação era de... pena. Pena por quatro dias como aqueles serem simplesmente a exceção, a curva fora da reta burocrática em que nossas vidas se enquadram desgraçadamente ao longo de quase todo o ano.

Observar um céu estrelado deveria ser regra, não motivo de comemoração embasbacada. Da mesma forma, temos sim o direito de torcer para que o dia se arraste saudável e preguiçosamente. Mas, ao contrário, contamos os segundos para que ele voe diante de nossos olhos preocupados com ansiedades que, daqui a alguns bons anos, perceberemos inúteis e insalubres.

O corpo pede um pouco mais de calma. E é por isso que meu coração é invadido pela enorme tristeza de constatar que estamos à deriva, na dependência de um punhado de dias de folga e da força de vontade de amigos que compartilham deste sentimento.

Se houver um paraíso, ele deve estar diluído por esta tranqüilidade, por esta paz de espírito, pelo enorme e infinito amor que emana de meus amigos. E eu sou um privilegiado de estar cercado por essas pessoas.