terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O caos na Grécia pode ser só o começo

Os anarquistas estão recebendo boa parte do crédito pelos protestos que acontecem na Grécia desde que um jovem de 15 anos foi morto pela polícia, em 6 de dezembro. A revolta popular no país é repleta de novidade, tanto por seus autores, quanto pelos inúmeros motivos que eles argumentam ter para espalhar o caos que já começa a afetar outros países da Europa. 

Num mundo contemporâneo repleto de religião, ideologia e organizações terroristas cheias de disciplina, na virada para 2009 a Grécia nos apresenta a classe média em fúria e disposta a brigar - dentre outras coisas - pelo conceito de "vida boa". Que fique claro, no entanto, o termo é o melhor encontrado para destacar que a juventude grega luta hoje para ter acesso ao que considera justo: melhores salários e oportunidades de emprego. 

O epicentro das manifestações é a Universidade Politécnica de Atenas, uma das principais instituições de ensino do país que forma engenheiros e arquitetos desde 1836. Uma lei assinada após o término de um protesto estudantil em 1973 impede que a polícia entre na universidade, a não ser que tenha sido convocada pelos próprios estudantes. 

Por isso, o local se transformou no abrigo perfeito para o planejamento das ações. E, apesar de intenso e recente, já existe uma explicação teórica para toda esta confusão. 

Apesar de ser um dos Estados fundadores da União Européia e de apresentar taxa de desemprego dentro dos padrões do bloco (7,5%), a juventude grega está profundamente à margem dos benefícios econômicos. 

Cerca de um quarto da população com até 29 anos de idade está desempregada.  Os economistas passaram a chamar essa parcela de Geração 700 Euros, em alusão ao salário médio que recebem. A quantia é mesmo baixa, ainda mais quando se leva em consideração que 21% dos gregos têm diploma universitário. E esse é um dos problemas. 

Apesar da alta qualificação, o acesso ao mercado de trabalho tem sido difícil para os egressos das faculdades. Num ciclo vicioso bastante conhecido por aqui no Brasil, eles acabam tendo de se sujeitar a empregos fora de suas preferências profissionais; funções que pagam pouco, mas exigem muito. E agora, diante deste senso de injustiça, os jovens tomaram as ruas dispostos a chamar a atenção das autoridades do país para a situação que está longe de poder ser solucionada com simplicidade.

Hoje, com a crise financeira mundial transformada em realidade e seus prejuízos socializados principalmente entre aqueles que nada tem a ver com suas causas, existe o real temor de que mais violência esteja a caminho.

A prestigiada revista Time publica nesta terça-feira uma reportagem que considera a possibilidade de as revoltas se espalharem para a França.  Um dos entrevistados é o ex-primeiro-ministro francês Laurent Fabius. 

"Quando existe depressão econômica e desespero social, basta uma faísca", disse. 

Ao mesmo tempo, reformas no setor de educação causam grande controvérsia no país. Neste ano, pouco mais de 11 mil empregos na área foram cortados e outros 13 mil postos de trabalho estão sob ameaça para o ano de 2009. 

O líder estudantil Alix Nicolet resume o que pode ser a próxima "faísca": 

"Como o governo pode argumentar não ter dinheiro para manter a educação pública ao mesmo tempo em que doa bilhões para salvar bancos e grupos financeiros?". 

Vale lembrar 

Não faz muito tempo que um país europeu é tomado pela violência após o assassinato de jovens em protestos. Numa situação muito parecida, o italiano Carlo Giuliani, de 23 anos, morreu depois de ser atingido por policiais numa passeata anti-globalização, em julho de 2001, durante a Cúpula do G8 realizada em Gênova, na Itália. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Trégua entre israelenses e palestinos termina na próxima sexta

Enquanto o noticiário internacional se ocupa em discutir os rumos do par de sapatos atirado em Bush, a situação no Oriente Médio permanece no vácuo de indefinição à espera de Obama. Pela manhã, a libertação por parte de Israel de 227 presos palestinos busca reforçar o governo do presidente Mahmoud Abbas à frente da Autoridade Palestina. Em meio à confusão instalada em Gaza, a região aguarda se o Hamas irá aceitar a prorrogação do cessar-fogo assinado há seis meses previsto para terminar na próxima sexta-feira. 

Fica claro, entretanto, que a trégua é aparente. Fontes deste blog no sul de Israel confirmam que os mísseis Qassam continuam a cair sobre as cidades e comunidades israelenses. A resposta por parte das autoridades do país é a manutenção do isolamento de Gaza. As forças militares não foram autorizadas a tomar qualquer atitude. Pelo menos por enquanto. 

No lado palestino, ninguém sabe ao certo quem detém a palavra final sobre se o acordo será renovado. Khaled Meshal, líder político do Hamas na Síria, já declarou que não tem intenção de se comprometer com um novo período de "calma". Se por um lado este pode ser um sinal de que haverá uma escalada de violência aberta, vale a lembrança de que não existe unanimidade entre o grupo palestino. 

Segundo o jornal israelense Haaretz, o correspondente de Meshal em Gaza, Ayman Taha, deu a entender que o Hamas não tem qualquer obrigação de seguir as declarações de Damasco. Ainda de acordo com a publicação, ao longo dos anos o grupo já tomou decisões contrárias às opiniões do líder exilado. 

Em entrevista ao The New York Times, um oficial israelense que preferiu não se identificar disse que Israel trabalha com duas possíveis interpretações para entender a ambigüidade do grupo: 1) a inexistência de uma liderança única no Hamas de hoje; 2) a busca por termos mais vantajosos durantes as negociações. 

Seja como for, as lideranças políticas de Israel e Autoridade Palestina vivem neste momento situações semelhantes. O primeiro-ministro, Ehud Olmert, apenas conta os dias para deixar o cargo sem ter conseguido qualquer avanço significativo no processo de paz; o presidente Mahmoud Abbas perdeu por completo o apoio da população de Gaza e considera a possibilidade de convocar novas eleições. 

Para tentar reconquistar a popularidade e o efetivo poder em Gaza, Abbas usa a retórica - muitas vezes, vazia. Foi o que aconteceu hoje ao comemorar a libertação dos prisioneiros palestinos. 

"Nossa felicidade não será completa até que todos os 11 mil presos (palestinos em cadeias israelenses) estejam livres. Prometemos trabalhar para libertar prisioneiros de todas as facções", disse. 

Israel costuma libertar palestinos que não tiveram envolvimento direto com a realização de atentatos terroristas - sem "sangue nas mãos", como passaram a ser chamados. 

Além de reforçar a posição do presidente palestino, o outro objetivo de Israel é libertar o soldado Gilad Shalit, seqüestrado pelo Hamas no sul do Estado Judeu em junho de 2006, quando tinha 19 anos de idade. Desde então, Israel promoveu a libertação de 900 presos palestinos, mas ninguém sabe assegurar se Shalit permanece vivo. 

Neste domingo, em comemoração aos 21 de fundação do Hamas, uma grande parada militar aconteceu em Gaza. Cerca de 200 mil pessoas compareceram ao evento, que contou com a presença de Ismail Haniyeh, primeiro-ministro de fato do território. Um dos pontos altos da festa ocorreu quando um rapaz vestido com o uniforme do exército de Israel desfilou como se fosse o próprio Shalit à procura de seus pais. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Fracassa o processo de desarmamento da Coréia do Norte

Na reta final da despedida do governo Bush, um golpe no mínimo curioso foi aplicado no que aparentava ser um dos principais ganhos da atual política externa americana: a retirada da Coréia do Norte da lista dos países acusados de patrocinar o terrorismo.

E a reviravolta aconteceu quando tudo parecia finalmente acertado. No ano passado, o líder Kim Jong-il havia concordado em desmantelar seu arsenal nuclear em troca de um pacote envolvendo ajuda externa. Estados Unidos, China, Rússia, Coréia do Sul e Japão forneceriam combustível, enquanto a Coréia do Norte se desarmaria progressivamente.

O processo ficou conhecido como a Negociação dos Seis Lados e vinha se arrastando lentamente desde 2003. Em 2006, mesmo após Pyongyang realizar testes nucleares em segredo, as conversações continuaram. Os Estados Unidos, inclusive, deslocaram um negociador especial para cuidar do assunto - Christopher Hill - que nesse período viajou dezenas de vezes para Seul, Pyongyang, Tóquio e Beijing.

Mas, nesta semana, todos os esforços parecem ter ido por água abaixo. Os norte-coreanos informaram que não concordam com os procedimentos de verificação de seu programa nuclear. O argumento é que o combinado era permitir a inspeção dos principais complexos atômicos de Yongbyon, mas não o recolhimento de amostras de terra e ar nos arredores das instalações para serem examinadas no exterior.

A grande confusão jurídica por parte dos Estados Unidos é que, como a decisão de retirar a Coréia do Norte da lista do terror foi tomada há dois meses, Sean McCormack, porta-voz do Departamento de Estado, explica que não existe qualquer previsão de quando ou se, de fato, o país seria novamente incluído entre aqueles que patrocinam o terrorismo.

Até porque seria um tremendo atestado de incompetência - mesmo que nada disso tenha ocorrido por um erro de abordagem - voltar atrás no anúncio de que a Coréia do Norte havia sido convencida de se aliar ao eixo do mal, como ficaram conhecidos os Estados acusados - e muitas vezes assumidos mesmo - de figurar, admirar, fornecer armamento ou manter programas para o desenvolvimento de armas de destruição em massa, além de dar abrigo a terroristas.

No caso da Coréia do Norte, a complicação é ainda maior. Além do país asiático, Cuba, Irã, Síria e Sudão aparecem dentre aqueles Estados considerados pelo EUA como "foras-da-lei". O problema específico do regime de Pyongyang é seu isolamento do resto do planeta. Raros cidadãos podem deixar e retornar para suas fronteiras, não há imprensa além da estatal e, menos ainda, liberdade de expressão ou acesso à internet. Os norte-coreanos são governados por mão-de-ferro pelo tresloucado Kim Jong-il, ridicularizado pelo ocidente, mas profundamente hábil do ponto de vista político.

Tanto que o nó tático dado por ele nos Estados Unidos hoje já havia sido antecipado pelo escritor Michael Breen, autor do livro Kim Jong-il: Ditador Norte-coreano. Em entrevista à AFP, em julho de 2006, ele deu a seguinte opinião sobre o processo de desarmamento do país.

"Eu não acho que ele (Kim Jong-il) esteja disposto a abandonar seu arsenal atômico. Isto o obrigaria a confiar nos Estados Unidos e na Coréia do Sul", disse.

Hoje mesmo foram liberadas fotografias de Kim Jong-il em bom estado de saúde, embora ninguém saiba afirmar a data precisa de quando elas foram tiradas. É mais uma tentativa de desmentir as especulações sobre a substituição do líder máximo da Coréia do Norte. Entretanto, é possível que o regime se torne ainda mais fechado neste caso.

"Provavelmente uma junta militar linha dura assumiria o poder. E, para piorar, contando com um arsenal atômico. Será que eles levariam adiante as táticas de chantagem do atual comandante? Ou decidiriam pôr fogo no planeta?", questiona o site de política Real Clear World.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Mais um momento decisivo para os países da União Européia

Assinado em Lisboa, em dezembro de 2007, o tratado que tinha como objetivo substituir a derrotada tentativa de estabelecer uma constituição européia corre mais uma vez o risco de ser rejeitado. Dos 27 países-membros, três se mostram contrários à carta ou pouco empenhados em aprovar o novo documento: Irlanda, República Tcheca e Polônia. E a armadilha está no próprio princípio que rege a União Européia desde 1992. Para ser aprovada, a decisão precisa se aceita de forma unânime.

Referendos realizados em França e Holanda, em 2005, já haviam colocado por água abaixo o projeto de constituição única do bloco. O Tratado de Lisboa surgiu, dois anos depois, como forma de reorganizar algumas importantes instituições políticas, além de alterar pontos fundamentais, como a atual rotatividade de seis meses da presidência da União Européia. 

Firmado na capital portuguesa em 13 de dezembro de 2007, o documento previa a ratificação ao longo deste ano. O objetivo é que entrasse em vigor a partir de 1 de janeiro de 2009. Mas nada disso aconteceu. 

A Irlanda se mostra a maior resistência à aprovação. Os motivos são variados, mas mostram bem a dificuldade de reunir países tão culturalmente diferentes numa única entidade política. No plebiscito realizado no ano passado, o "não" recebeu 53,4% dos votos. 

Alguns questionamentos ficam por conta do conservadorismo que teme possíveis atitudes inconcebíveis para a maior parte dos irlandeses. É o caso, por exemplo, da legislação relativa ao aborto. Tema polêmico em qualquer lugar, a direita do país acredita que, caso o tratado fosse aprovado, cedo ou tarde haveria a necessidade de se discutir o assunto. E, na existência de um documento único, a Irlanda teria de acatar a decisão conjunta, mesmo que ela fosse contrária aos princípios católicos que regem o país. 

No campo específico das relações internacionais, a oposição interna da Irlanda não gostaria de ver os militares integrando uma força oficial do bloco no caso de uma intervenção externa. Eles argumentam que, se isso ocorresse, a neutralidade irlandesa estaria comprometida. Um outro fator importante é que o crescimento econômico do país - absolutamente estrondoso nos últimos anos tendo chegado à casa dos 9% ao ano - poderia ser afetado, uma vez que as taxas baixas são o grande atrativo aos investimentos estrangeiros. 

O dilema do bloco reflete os desafios impostos pelo sistema internacional dos dias de hoje. Ao mesmo tempo em que é preciso se expandir para ter poder de barganha no cenário global, os países se mostram resistentes a abrir mão de suas diretrizes, características culturais e econômicas em nome do fortalecimento externo da União Européia. 

Cada novo Estado incorporado à UE torna mais difícil a tomada de decisões conjuntas que realmente reflitam uma improvável unanimidade. Entretanto, para ser ainda mais forte, o bloco não pode - e mostra não pretender - se opôr a novas adesões capazes de incrementar seu poder político e econômico. 

O jornalista britânico Adrian Hamilton defende que uma resposta conjunta aos desafios contemporâneos é a única alternativa para os países do continente. E não apenas em relação à crise financeira, mas também às mudanças climáticas. 

"Dê dois passos para trás e veja como todos os caminhos e necessidades de nosso tempo são favoráveis a uma resposta regional européia, e não a uma abordagem nacionalista. Há cinco anos - ou mesmo há um ano -, este não era o cenário. Os governos de França e Alemanha estavam enfraquecidos, e a Inglaterra de (Tony) Blair estava preocupada com Washington. A Europa estava estigmatizada pelos conceitos de "velha" e "nova", de acordo com as demandas dos Estados Unidos pela criação de uma nova ordem mundial em sua Guerra contra o Terror", escreveu em artigo publicado no jornal The Independent. 

Para ler o texto na íntegra, clique aqui.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O discurso do novo Prêmio Nobel da Paz; a frugal polêmica no Cairo

Na manhã desta quarta-feira, o ex-presidente finlandês Martti Ahtisaari recebeu, em Oslo, na Noruega, o Prêmio Nobel da Paz pelos 30 anos dedicados às mediações de conflitos internacionais na Namíbia, Kosovo e na turbulenta região de Aceh, na Indonésia. Curiosamente, no discurso proferido após a entrega da premiação, ele quase não mencionou o trabalho ao qual dedicou boa parte de sua vida. Preferiu falar sobre o processo de paz no Oriente Médio. 

Ahtisaari pediu empenho ao presidente-eleito americano, Barack Obama, na resolução dos conflitos entre israelenses e palestinos. E, de preferência, logo em seu primeiro ano de mandato. 

Em entrevista concedida à Associated Press, ninguém foi poupado de críticas. 

"A comunidade internacional e aqueles que detêm o poder estão sentandos enquanto ambos os lados se dedicam à destruição mútua. As vidas (de israelenses e palestinos) se tornarão ainda mais complicadas no futuro", disse. 

É bastante interessante notar como todo mundo tem uma opinião definitiva sobre o processo de paz no Oriente Médio. Embora o ex-presidente finlandês jamais tenha tido qualquer participação no conflito árabe-israelense em geral, e no israelense-palestino em particular, no momento que marca a coroação do trabalho de toda a sua vida, ele decide se lembrar do assunto.  

A cada dia me parece que o conflito entre israelenses e palestinos se tornou uma válvula de escape capaz de legitimar qualquer discurso sobre a paz. Talvez por ele ser o mais midiático, mas sem dúvida não o mais mortífero. 

Justamente por isso, por que não aproveitar a oportunidade em que todos estão atentos ao discurso para pedir a intervenção no Sudão, no Congo, na Somália ou no Zimbábue, onde se mata muito mais e a condição de vida das pessoas é bem inferior à de palestinos e israelenses? 

Esses apelos também subestimam a inteligência de autoridades de ambos os lados, como se eles mesmos não tivessem a capacidade de resolver por si só e como se já não houvesse muita gente empenhada em solucionar a questão. No caso, além de Israel e da Autoridade Palestina, os Estados Unidos, a ONU, a Rússia, o Japão e a União Européia estão debruçados sobre a redação de propostas para a paz.

Com todo o respeito às opiniões do Prêmio Nobel da Paz de 2008, o discurso dele teria sido bem mais útil se fosse direcionado a outros conflitos que matam mais gente e para os quais ninguém dá a menor importância. Até porque, creio mesmo que israelenses e palestinos não estão muito preocupados com o que pensa o ex-presidente finlandês. 

Aliás, por falar em Oriente Médio, uma grande polêmica toma conta da imprensa egípcia. Tudo por conta de um simples cumprimento entre o xeque Mohammad Sayyid Tantawi e o presidente israelense, Shimon Peres. 

O encontro ocorreu durante uma conferência sobre tolerância religiosa em Nova Iorque, no último mês de novembro. Desde então, o maior jornal independente do Egito comanda uma campanha para que o xeque se demita do cargo de reitor da Universidade al-Azhar, a mais respeitada autoridade  sunita do país - não é incomum essa hibridez entre instituições de ensino e religiosas - e uma das mais antigas universidades do mundo. 

Como se sabe, Egito e Jordânia são os únicos Estados da região a manterem acordos de paz e relações normais - nem tão normais assim, como essa situação demonstra - com Israel. Segundo a interpretação de alguns analistas, o aperto de mão entre as autoridades pode ser visto como a normalização - por parte do xeque e da instituição sunita - das relações com Israel. Mais ainda, uma associação ao regime do presidente Hosni Mubarak, liderança bastante impopular em alguns setores da sociedade egípcia. 

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Mudança de estratégia no Afeganistão

Ponto fundamental da política externa do futuro presidente Barack Obama, o Afeganistão se mostra cada vez mais difícil de apaziguar. É por isso que a Casa Branca atendeu aos pedidos do general David D. McKiernan, o alto comandante americano no país: no próximo ano, mais 20 mil soldados serão enviados para combater o Talibã. 

Apesar das negativas do governo dos Estados Unidos, a situação na porta de entrada da Guerra contra o Terror é crítica. Ao contrário dos dados positivos do Iraque, os talibãs estão longe de serem derrotados, como mostram os últimos acontecimentos. Nesta segunda-feira, mais de 100 veículos da OTAN foram destruídos numa complexa operação de sabotagem às provisões destinadas às tropas ocidentais. 

Uma vez mais, o Paquistão foi o palco das ações por um motivo muito mais logístico do que ideológico. É através de um terminal que serve de depósito de contêineres nos arredores de Peshawar que os soldados da aliança comandada pelos EUA recebem armas e alimentos. 

Em oposição ao que vem acontecedendo em Bagdá, a situação nos arredores da capital afegã está longe de ser controlada. Por isso, o alto comando americano - em conjunto com a OTAN - optou por uma mudança de estratégia nas atividades militares: o deslocamento de mais tropas para Cabul e seu entorno. Segundo o The New York Times, é a primeira vez que a inteligência militar aprova a decisão de enviar mais combatentes para as regiões que cercam a cidade. 

Nas províncias próximas a Cabul os ataques do Talibã aumentaram consideravelmente. Em Wardak, o crescimento foi de 58 porcento no último ano; em Logar, de 41 porcento. 

Esta mudança envolve a avaliação de uma série de fatores. Afinal, o contingente militar - mesmo de alguns dos exércitos mais poderosos do mundo - é limitado. E, a cada dia que passa, a opinião pública cobra resultados efetivos. Talvez esta seja a grande lição das últimas eleições americanas, ainda mais num momento de crise financeira. Os contribuintes dos Estados Unidos - que em última instância sustentam o esforço militar - sabem dos altos custos envolvendo as operações no Oriente Médio e exigem uma satisfação com dados e números claros. 

O grande dilema fica por conta justamente da diferença nos resultados dos dois principais cenários da guerra no Oriente Médio. Se por um lado - como já escrevi antes - já se considera uma estabilização no número de baixas americanas no Iraque, Obama deixa claro que está definitivamente interessado em acabar com a infra-estrutura terrorista no Afeganistão. O problema, entretanto, é que a resistência Talibã ainda é considerável, e os EUA vivem um momento de reflexão antes do início do próximo governo. 

"A administração Obama vai precisar pesar qual será o pior risco: diminuir com rapidez o contingente de soldados no Iraque e potencialmente sacrificar os ganhos obtidos por lá; ou não aumentar o número de tropas no Afeganistão, onde os esforços de guerra ainda estão em xeque, uma vez que a segurança se deteriora", escreve o jornalista Kirk Semple.

Dados ilustram os novos planos

Alguns números importantes sobre a ofensiva no Afeganistão: cerca de 62 mil militares estrangeiros lutam atualmente no país. Desse total, 32 mil são americanos. 

Os 20 mil novos soldados devem chegar aos poucos, num período que pode variar entre 12 e 18 meses.  O exército afegão hoje é composto por 70 mil soldados. Estados Unidos e OTAN planejam aumentar este contingente para 134 mil nos próximos quatro ou cinco anos. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Água Negra do Governo Bush

Notícia publicada hoje no The New York Times informa que cinco soldados da Blackwater aceitaram se render às autoridades americanas. Eles são acusados pela morte de 17 civis iraquianos, num tiroteio em Bagdá, em 2007. Tudo isso pode parecer muito estranho. E é mesmo.

Nem todo mundo sabe o que é a Blackwater. Portanto, vale uma breve descrição. Trata-se de uma empresa privada - propriedade de Erik Prince, ex-fuzileiro naval dos Estados Unidos - contratada para prestar serviços de segurança no Iraque e no Afeganistão. Pode também parecer estranho - e novamente, é mesmo -, mas é um exército privado. E, mais curioso ainda, ela não é a única força militar particular a atuar especificamente no Iraque: DynCorp International e Triple Canopy, americanas, e Aegis, britânica, também não são parte do corpo estatal dos dois países. Além delas, outras 25 firmas de segurança particulares estão presentes no Iraque.

A Blackwater, entretanto, é a maior delas. É difícil precisar quantos soldados-funcionários a empresa mantém, mas, segundo relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso Americano (CSA, em inglês), é possível que o total de empregados trabalhando sob contratos firmados com o governo dos EUA chegue a 180 mil pessoas.

As acusações que pesam sobre a empresa são graves, até porque, durante o episódio que causou a morte dos 17 iraquianos, os soldados teriam atirado uma granada num colégio para meninas.

O caso, entretanto, é ainda mais controverso porque envolve um grande debate sobre o controle governamental de tropas particulares. Por exemplo, até outubro do ano passado, os funcionários da Blackwater eram privilegiados com imunidade no Iraque. Em casos de crimes como o que está sendo julgado agora, simplesmente retornavam para os Estados Unidos com a certeza da impunidade.

Somente em agosto deste ano, o ex-combatente José Luis Nazario Jr. foi o primeiro membro da empresa a ser julgado pelo assassinato de prisioneiros na cidade de Fallujah, em 2004. Diante de um tribunal civil de Riverside, na Califórnia - ele não podia ser julgado como um militar americano, afinal de contas não era parte das forças oficiais dos Estados Unidos -, foi absolvido de todas as acusações.

Além disso, a atuação dessas empresas na Guerra contra o Terror levanta novo debate acerca dos contratos firmados entre o governo Bush e parceiros da iniciativa privada. No caso específico da Blackwater, que atua no Oriente Médio desde o início da empreitada americana em 2001, a parceria foi renovada por mais um ano no último mês de abril.

A questão é tão polêmica que nem para o corpo governamental americano está claro se o Estado deve ou não confiar nas empresas de segurança privadas. O FBI é o responsável pela investigação dos assassinatos cometidos pelos soldados-funcionários. O próprio Congresso americano criou um comitê específico para investigar os contratos firmados pelo presidente Bush para atuação de empresas americanas no exterior, e, especificamente, sua relação com a Blackwater.

As conclusões são reveladoras. Alguns números importantes: a empresa esteve envolvida em pelo menos 195 episódios violentos no Iraque desde 2005; um soldado da Blackwater custa ao Estado 1.222 dólares por dia, e o valor anual chega a 445 mil dólares - mais de seis vezes o custo de um soldado regular do exército americano; de 2001 a 2006, a Blackwater recebeu mais de 1 bilhão de dólares em contratos federais, inclusive mais de 832 milhões de dólares em dois contratos com o Departamento de Estado.

A relação entre a administração Bush e a empresa é bastante próxima, como mostra o estudo: a primeira parceria entre o governo e Erik Prince rendeu aos cofres da Blackwater, em 2001, pouco mais de 736 mil dólares. Num crescimento absurdo, o contrato assinado entre as partes, em 2006, chegou à casa de 1 bilhão de dólares. Em um período de somente cinco anos, a empresa teve um aumento no valor dos contratos firmado com a Casa Branca superior a 80 mil porcento.

A amizade entre a família Bush e os Prince talvez explique de certa maneira os benefícios concedidos à Blackwater. O estudo do Congresso chega a essa conclusão:

"No final dos anos 1980, Erik Prince foi estagiário da Casa Branca durante a gestão de George H.W. Bush (
o pai do atual presidente). O pai de Prince era um proeminente homem de negócios de Michigan e um doador (de dinheiro) para causas conservadoras. A irmã de Prince, Betsy DeVos, foi negociadora do Partido Republicano de Michigan e ganhou o título de "pioneira" da campanha da chapa Bush-Cheney por angariar 100 mil dólares em fundos para a campanha presidencial de George W. Bush em 2004. Seu marido, Richard DeVos, é um ex-CEO da Amway e, em 2006, foi o candidato do Partido Republicano ao governo de Michigan. O próprio Erik Prince é doador financeiro do partido - foram 225 mil dólares em doações de dinheiro, sendo mais de 160 mil dólares para o Comitê Nacional Republicano e para o Comitê Nacional do Congresso Republicano".

Para ler o relatório completo, clique
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