sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Bibi pode se tornar o próximo primeiro-ministro israelense. Mas nada é tão simples quanto parece

A partir de hoje, o líder do Likud, Benjamin Netanyahu, terá seis semanas para formar a maioria no parlamento israelense e aí sim assumir o cargo de primeiro-ministro do país. Após se encontrar com o presidente Shimon Peres, lançou um apelo por uma coalizão capaz de manter um governo de unidade nacional. Isso pode até acontecer, uma vez que nenhum cenário está descartado de vez.

Na pauta de Bibi a prioridade é a segurança. E para alguém que considera o Irã a principal ameaça à existência de Israel, as notícias divulgadas nesta semana pela Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) são animadoras. Ou desanimadoras, dependendo do ponto de vista.

Segundo comunicado da agência, oficiais da IAEA descobriram que a República Islâmica produziu mais material nuclear do que se acreditava antes. Seria uma tonelada de urânio enriquecido que poderia gerar 20 quilos de material físsil – suficiente para uma bomba.

Em entrevista ao Financial Times, David Albright, diretor do Instituto de Ciências e Segurança Internacional, afirma que a decisão de produzir armamento nuclear está nas mãos dos dirigentes iranianos.

“Se o Irã quiser obter (armamento nuclear), estamos entrando numa era na qual ele pode fazê-lo rapidamente”, diz.

Mas a estratégia de abordagem de Netanyahu ainda é uma simples hipótese. Até porque ele quer contar com o apoio de Livni e das 28 cadeiras do Kadima. Mesmo que ela tenha concordado em se encontrar com o líder do LIkud, é pouco provável que aceite se aliar à direita israelense. 

É interessante, mas Livni tenta agir sem o pragmatismo responsável por sua vitória nas urnas. Os eleitores a elegeram em boa parte para evitar um governo do Likud. Mas ela mesma mantém um discurso ideológico que explica sua aversão a Bibi. É estranho, mas não incoerente.

Em entrevista ao Haaretz, a líder do Kadima disse que não se uniria a um governo que inclui o partido ortodoxo Shas, Habayit Hayehudi e o União Nacional. Mas pode participar de uma coalizão formada apenas por Likud, Kadima e Yisrael Beiteinu.

“Netanyahu nos pediu para aderir a uma coalizão com o Shas – que pede que eu pare de negociar com os palestinos –, além desses partidos e do próprio Bibi, que se recusa a conversar sobre uma solução baseada em dois Estados. Não teria como explicar a meus eleitores qual seria meu papel num governo como este”, diz.

É claro que a ideologia não é a única motivação de Livni. Sem o Kadima, a direita vai manter uma maioria tênue com apenas 65 cadeiras.

Mas nem todo mundo concorda com a oposição da legenda. Para o jornalista Gil Hoffman, do Jerusalem Post, Livni deveria aceitar o convite de Netanyahu e se manter como a mulher forte do governo, possivelmente entrando para a história numa gestão que promete não se abster de lidar com grandes dilemas israelenses. Em artigo publicado nesta sexta-feira, ele compara Shimon Peres e Al Gore como figuras que não venceram eleições, mas tiveram relevância na política internacional recente.

“Peres e Gore podem até ser perdedores, mas ambos são detentores de prêmios Nobel que conseguiram unir seus países mesmo num período tardio da carreira dos dois. Gore mobilizou o mundo para se preparar para os desafios impostos pelo aquecimento global. Israel está diante de uma ameaça por parte do Irã. Livni poderia ajudar Netanyahu a apresentar uma frente unida para combater este perigo”, escreve.

PS: a coluna volta na quarta-feira de cinzas. Bom carnaval a todos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Os Estados Unidos vão à Ásia

Na primeira visita da secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton à Ásia não há nada de muito novo para se ver. A Coreia do Norte continua com ambições nucleares, prepara novos testes de mísseis de longo alcance, e a imprensa internacional especula sobre a saúde de Kim Jong-il. Poucas horas após o desembarque da americana na Coreia do Sul, entretanto, o governo de Pyongyang divulgou um comunicado afirmando que suas tropas estão “completamente prontas para a guerra”. É mais uma reviravolta numa situação que o governo Bush pensava ter controlado. É a derrota retroativa da ex-administração de Washington.

Como negociar parece ser a característica mais exaltada pelo corpo diplomático de Obama, Clinton reforçou esta característica, segundo declaração publicada pela BBC.

“Nosso objetivo é alcançar uma estratégia eficiente para influenciar o comportamento dos norte-coreanos num momento em que a liderança do país parece pouco clara”, diz.

E este é um ponto importante. Em algum momento Kim Jong-il vai morrer. E ninguém sabe precisar quem será seu sucessor e, principalmente, quais serão suas prioridades em relação à política externa. Até porque a Coreia do Norte mantém um arsenal nuclear, e as perspectivas podem se tornar assustadoras caso o uso do armamento fique a cargo de um líder mais jovem e de pretensões desconhecidas.

O oficial do Departamento de Estado Philip Zelikow resume a situação a partir de considerações quanto à resolução de mais este nó internacional.

“Como aconteceu em 2006, existe a possibilidade da escalada de um discurso violentocontra a Coreia do Sul. Os Estados Unidos devem considerar sua própria segurança, do aliado Japão e da também aliada Coreia do Sul. Num cenário ideal, todos devemos chegar a um entendimento comum sobre o que deve ser feito para manter o status de segurança em longo prazo”, diz

O problema é que este acordo já foi alcançado no ano passado após seguidas rodadas de negociações. E os norte-coreanos descumpriram a premissa básica do desarmamento. Para piorar, agora recrudescem o discurso e ameaçam atacar Seul. Mais um tremendo pepino para Obama resolver.
EUA e Japão

A visita da secretária Clinton à Ásia foi bastante comentada pela imprensa local. Mais além de interromper as ambições bélicas de Pyongyang, o governo dos EUA pretende reforçar laços importantes na região, como é o caso do Japão, por exemplo.

É curioso com as relações entre os dois países mudaram ao longo do tempo. Já foram inimigos durante a Segunda Guerra Mundial; concorrentes na década de 1980, quando muitos acreditaram seriamente que a economia japonesa estava para desbancar a norte-american; e hoje aliados, muito porque o regime ditatorial de China e Coreia do Norte tornaram o papel de Tóquio evidente para as pretensões americanas na região.

Mas é curioso notar como o foco do editorial de hoje do Japan Times é diferente do resto da cobertura ocidental. Uma das preocupações apresentadas pelo jornal diz respeito aos relações militares entre os países.

“Os Estados Unidos priorizam as relações nipo-americanas por conta de uma estratégia maior na região da Ásia e do Pacífico. Os americanos podem requisitar maior presença japonesa no processo de estabilização de Paquistão e Afeganistão. O Japão deve estudar uma abordagem própria baseada em seus princípios e só então apresentá-la com clareza aos EUA antes que Washington determine o que devemos fazer”, diz o artigo de um dos principais diários do país.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Bola da vez à Obama

Não por acaso, na mesma semana em que o governo do Paquistão praticamente cedeu parte de seu território ao Talibã, o presidente Obama decidiu enviar mais 17 mil soldados para o Afeganistão. Vencer a guerra contra o terrorismo no país não é apenas um fator estratégico regional, mas seria uma vitória pessoal e importante do atual governo americano. Muito embora é preciso deixar claro que os objetivos de Washington hoje são bem mais modestos que os de George W. Bush.

Segundo o jornal USA Today, para o secretário de defesa, Robert Gates, e demais oficiais da área, é preciso diminuir as expectativas no Afeganistão. Isso significa que os EUA se darão por satisfeitos em sua missão no país quando as tropas ocidentais forem capazes de ao menos dar segurança para a população local. A meta é muito mais modesta do que o messianismo de Bush. O ex-presidente americano não escondia de ninguém que segurança não era suficiente. Para ele, o ideal seria manter um Afeganistão seguro, mas também – e principalmente – democrático.

Agora, com a situação se deteriorando também no aliado Paquistão, foi preciso adaptar o discurso ao momento político. E foi esse o recado do comunicado oficial divulgado pela Casa Branca nesta terça-feira.

“O Talibã ressurgiu no Afeganistão, e a al-Qaeda dá apoio aos insurgentes ameaçando os EUA a partir da sua zona de conforto ao longo da região de fronteira com o Paquistão. O aumento de tropas é necessário para a estabilização deste cenário”, diz o informe.

O envio de mais 17 mil soldados é apenas o primeiro passo no plano de aumentar consideravelmente o efetivo no país. Atualmente contando com 36 mil militares, as forças de combate americanas devem ser fortalecidas por mais 30 mil soldados neste ano. Se somados aos já 143 mil militares no Iraque, mais de 200 mil americanos estarão em ação no Oriente Médio.

Longe de ter o único objetivo altruísta de pacificar o Afeganistão, Obama enxerga o conflito como uma oportunidade de vencer uma guerra “sua” no amplo combate ao terror, já que os americanos associam a guerra do Iraque ao ex-presidente Bush.

“É bastante claro que o Partido Democrata tornou o Afeganistão um símbolo de sua luta contra o terrorismo”, diz o cientista político Richard Eichenberg.

Vale tudo

É triste decepcionar tanta expectativa, mas a administração Obama revelou – meio às escondidas, é verdade – que não pretende descartar de vez todos os métodos de combate ao fundamentalismo empreendidos por Bush.

Figuras importantes do governo endossaram a abordagem da CIA de transferir prisioneiros para outros países sem necessidade de terem seus direitos legais exercidos. Além disso, a agência poderá manter reclusos suspeitos de participação em atos terroristas sem que eles tenham sido julgados.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Paquistão joga a toalha

A notícia não teve grande destaque nos jornais brasileiros. Mas, a partir de hoje, o mundo vai ter o privilégio de assistir com segurança e distância qual será o destino do Paquistão. O país foi o primeiro a oficialmente ceder parte de seu território para o extremismo. Tudo em nome da “integridade e da população”, muito embora, contraditoriamente, deixar o Talibã governar parte importante do território noroeste paquistanês seja, em última instância, abrir mão da soberania nacional.

O governo de Islamabad decidiu propor uma singela troca aos talibãs. O exército vai interromper as tentativas – todas infrutíferas – de acabar com as atividades do grupo. Em compensação, haverá uma trégua que permitirá às autoridades paquistanesas realmente se esquecerem de vez da região do Vale do Swat.

A intenção é acabar não apenas com os bombardeios dos Estados Unidos aos membros do Talibã que já dominam cerca de 70% do noroeste do país. O objetivo é concentrar os esforços militares na rivalidade histórica com os indianos na Cachemira, já que, após mais de um ano e meio de luta, incrivelmente os 3 mil talibãs não foram derrotados pelos 12 mil soldados que compõem as tropas oficiais.

Quem perde com a decisão é, no final das contas, os 1,3 milhão de habitantes do Swat, que são absolutamente contrários à presença do Talibã. Nunca é demais lembrar que são esses talibãs os responsáveis por queimar escolas para mulheres e jogar ácido no rosto de meninas que insistem em cometer o abuso de frequentar as aulas.

Por tudo isso, nas eleições legislativas do ano passado, a maioria esmagadora dos moradores de Swat votou no Partido Nacional Awami, legenda que defende ideais laicos. Mesmo assim, o Estado não hesitou em fazer um acordo com os talibãs.

Entrevistado pelo The New York Times, o ministro de informações insistiu em reafirmar a preocupação governamental com a população.

“A vontade popular do povo de Swat está no centro de todos os nossos esforços”, disse.

Se a criação de um Talibastão é mais um enorme desafio para o governo Obama, esse cenário desastroso servirá ao menos para colocar em prática o desejo de muitos daqueles que defendem a teoria de que o terrorismo não é o fim, mas um meio.

Muito embora o terrorismo prove a cada dia não ser motivado ideologicamente por nada além da simples reprodução da violência, ainda há românticos ocidentais que acreditam mesmo que, se o objetivo desses grupos for realizado, o mundo será um lugar tranquilo onde todos conviverão em paz e harmonia. Os objetivos são variados: a libertação da Cachemira, da Chechênia, a deposição da monarquia saudita, a criação de um Estado palestino etc.

Particularmente, sou bastante contrário a esta teoria. Acho que o terrorismo é um fim em si mesmo. Se seus objetivos forem alcançados, outros novos serão inventados para substituí-los.

Afeganistão

A capitulação oficial do Paquistão é anunciada simultaneamente à divulgação de um dado que piora ainda mais a guerra contra o terrorismo. Segundo relatório da ONU, o número de civis mortos no Afeganistão aumentou 39% no ano passado. É a proporção mais expressiva desde a invasão ao país, em 2001.

Os talibãs foram responsáveis por 55% do total de 2.118 mortos; enquanto as forças dos EUA, OTAN e Afeganistão, por 39%.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Chávez pra quem fica

Num mundo cada vez mais conectado, a revolução bolivariana de Chávez ganhou uma batalha importante. O presidente venezuelano poderá concorrer a reeleições indefinidas. O problema é que os mercados não gostaram nem um pouco desta notícia. E prometem dificultar ainda mais as ambições socialistas, sob a perspectiva econômica.

Na prática, a situação é bem simples. A Venezuela é a maior exportadora de petróleo do continente americano. O óleo cru responde por 93% das vendas internacionais do país. O problema é que o próprio Chávez criou uma sinuca em suas estratégias políticas.

Seus discursos inflamados e o alinhamento com parceiros como Irã e Síria acabaram por deixar os investidores internacionais – não tem jeito, todo o mundo depende deles – receosos de colocar dinheiro ou fazer negócios com o país. Soma-se a isso a desvalorização de 74% do valor do óleo cru desde julho do ano passado. Hoje, a Venezuela tem a maior taxa de inflação – cerca de 30% ao ano – dos países latino-americanos.

O quadro econômico mostra grande dificuldade de Caracas saldar seus 46 bilhões de dólares em dívidas. Segundo a agência Bloomberg, os gastos do governo aumentaram de 23%, em 1998, para 36%, em 2007.

Mas, como reduzir as análises ao campo econômico é ingenuidade, é preciso apresentar outros números. A vitória apertada de Chávez (54,4% a 45,6%) mostra uma sociedade polarizada ideologicamente em termos que, curiosamente, lembram o maniqueísmo da era Bush. Entretanto, a aprovação do “sim” ratifica os ganhos sociais dos últimos dez anos.

Os partidários do governo lembram a democratização ao acesso à saúde e educação empreendida por Chávez. Segundo dados do Ministério da Informação, houve uma redução substancial na taxa que mede a pobreza extrema: ela era de 42%, em 1998, e passou a somente 9,5%, no ano passado.

A Venezuela de Chávez investe cerca de 4,2% do PIB em saúde (no Brasil, a média não passa de 3,5% por ano) e o governo se comprometeu a aumentar esta taxa ainda mais. Fora isso, há a bem-sucedida campanha de erradicar o analfabetismo.

A BBC ouviu os dois lados da moeda. Os chavistas lembraram todos os benefícios do governo já citados. A oposição declarou que, segundo dados da ONG Transparência Internacional, a Venezuela é hoje o país mais corrupto da América Latina – atrás somente do Haiti.

Direcionismo

O jornalista Venezuelano Francisco Toro critica a própria campanha que mobilizou o país. Segundo escreveu em coluna publicada no jornal inglês The Guardian, Chávez transformou o Estado venezuelano num apêndice da campanha do “sim”.

“A propaganda do ‘sim’ decora os espaços públicos, inclusive escolas, hospitais, agências governamentais, pontos de coleta de impostos, O Instituto Nacional de Treinamento para o Trabalho e até mesmo os assentos do Congresso Nacional. Quase todos os sites do governo exibem o banner do ‘sim’”, diz.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Mais problemas a caminho

O jornal árabe publicado em inglês Al-Hayat informa em sua edição de hoje que o Hamas estaria pronto para assinar um acordo com Israel já na próxima semana. O grupo se comprometeria a devolver o soldado Gilad Shalit, sequestrado em 2006, em troca da libertação de mil palestinos presos em Israel. Mas, quanto mais informações vêm à tona, menor é o ânimo em relação à possibilidade de um período de tranquilidade na região.

O negociador egípcio Omar Suleiman diz que ainda há quatro obstáculos para a obtenção de uma trégua de longa duração entre as partes: o lançamento de mísseis qassam que perdura apesar do cessar-fogo; a construção de uma barreira entre Gaza e Israel; o compromisso do Hamas de respeitar a trégua; e a interrupção do contrabando de armas para Gaza.

Parece piada, mas infelizmente não é. Fica difícil acreditar que um acordo será assinado quando o principal articulador afirma que simplesmente as premissas básicas não foram aceitas. Como a trégua de “longa duração” – 18 meses é tempo demais para a paz – está para sair quando uma das partes afirma não estar sequer disposta a respeitá-la?

Mesmo que apesar das circunstâncias um acordo seja obtido, Israel viveria a situação conhecida como “cobertor curto”. É esta a denúncia de Tony Karon, da revista Time, dos Estados Unidos.

Segundo suas fontes, existe hoje uma grande insatisfação por parte dos militantes do Fatah, de Mahmoud Abbas. Eles acreditam que é chegada a hora do grupo romper as negociações com Israel. Por dois motivos: o presidente da Autoridade Palestina acabou enfraquecido e marginalizado a partir do momento em que a realidade forçou Israel a negociar trocas de prisioneiros e acordos de cessar-fogo com o Hamas. Justamente porque foram os extremistas do grupo que conseguiram criar problemas graves para Israel resolver.

O outro ponto é que, com Olmert no poder, o Fatah não conseguiu alcançar seus objetivos. As eleições israelenses evidenciam que o próximo governo deve ser ainda mais cauteloso ou mesmo resistente às negociações.

“Sob a perspectiva palestina, os oito últimos anos à espera de conversações com Israel deixaram Abbas de mãos vazias, enquanto o recente conflito em Gaza colocou o Hamas numa posição mais privilegiada do que nunca diante da opinião pública interna”, diz.

Com alguns dos membros do Fatah apresentando como alternativa o início de uma terceira intifada, o jornal Haaretz informa que Abbas vem conduzindo uma campanha internacional nas últimas semanas de forma a isolar internacionalmente um possível governo do Likud. 

De acordo com uma fonte de Jerusalém, os líderes de França, Grã-Bretanha e Itália prometeram ao presidente palestino que não permitirão ao próximo governo israelense “congelar” as negociações de paz.

“Vocês se recusaram a cooperar com o Hamas porque ele não se enquadra nas condições do Quarteto (grupo mediador do processo de paz formado por UE, Estados Unidos, Rússia e ONU) de combate ao terrorismo e reconhecimento de Israel. Vocês terão de adotar a mesma postura em relação a um governo israelense que se oponha à criação de um Estado Palestino e a negociações sobre questões fundamentais”, teria dito. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O mal em estado puro

Há pouco recebi um email de uma colega jornalista convocando para uma manifestação em frente ao consulado da Suíça no Rio de Janeiro. A ideia é demonstrar o quanto nós, brasileiros, deploramos o ataque neonazista sofrido pela advogada Paula Oliveira.

Não houve qualquer resposta à convocação da colega. Cada um tem sua vida, trabalho e preocupações. Mas não me lembro de nenhum episódio recente que merecesse uma resposta proporcional à barbaridade cometida contra a brasileira. Até nosso pacato povo precisa se mobilizar de vez em quando. Que não seja contra a corrupção – porque essa já passa despercebida mesmo, ao que parece – que nós todos nos levantemos contra um ato sórdido como este.

Paula não foi apenas vítima de uma desumanidade atroz, como também teve seus dois filhos assassinados antes mesmo de nascerem.

Tragicamente, a violência sofrida por ela ocorre num momento em que o Papa reabilita membros da Igreja que negam o Holocausto. Não faz muito tempo, o presidente iraniano promoveu um concurso de caricaturas para caçoar do Holocausto. 

O fato é que ataques neonazistas continuam a acontecer. No caso da Suíça, especificamente, a participação política do SVP – o partido nacionalista cujas iniciais foram marcadas à estilete no corpo de Paula – vem crescendo nos últimos anos. Dentre os objetivos da legenda, estão a oposição à presença de imigrantes e refugiados e também a proposta de isolar o país. O SVP defende, por exemplo, a exclusão da Suíça da ONU e da União Europeia.

Entretanto, o extremismo na Europa não é exclusividade Suíça. Pelo contrário. Nos últimos anos, atos neonazistas têm aumentado no continente. Mais do que simplesmente ser palco de ataques a imigrantes, a crise financeira fortalece opiniões que andavam em voga nos anos 1930 e foram fundamentais para a concretização do Holocausto.

Pesquisa realizada pela Liga Antidifamação, dos Estados Unidos, mostra que parte importante da população europeia partilha de uma mentira que se tornou verdade no período anterior à ascensão do nazismo. O estudo – realizado em sete países do continente entre 1 de dezembro de 2008 e 13 de janeiro de 2009 – mostra que 31% dos entrevistados acreditam que os judeus são culpados pela crise financeira global.

Diante das incertezas econômicas, os preconceitos se reinventam para continuar a existir. E a culpa é socializada entre todas as minorias que não compõem a imaginária e inexistente pureza europeia.

Histórico suíço

A relação entre a Suíça e o nazismo é mais estreita do que muitos podem pensar. Um estudo sobre o papel do país durante o nazismo composto por 26 volumes de documentos mostra que as relações das autoridades suíças com a Alemanha ajudaram a prolongar a guerra.

Mais ainda, a pesquisa conclui que cerca de 110 mil refugiados judeus que tentaram entrar no país tiveram acesso negado, mesmo com o conhecimento por parte do governo suiço de que seriam enviados para campos de concentração.

No campo financeiro, os bancos suíços confiscaram o dinheiro de 500 mil judeus que, antes da guerra, tinham conta nas instituições. Posteriormente, os bancos se recusaram a devolver a quantia aos parentes dos mortos sob a alegação de que eles não possuíam as certidões de óbito dos campos nazistas.