terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Paquistão joga a toalha

A notícia não teve grande destaque nos jornais brasileiros. Mas, a partir de hoje, o mundo vai ter o privilégio de assistir com segurança e distância qual será o destino do Paquistão. O país foi o primeiro a oficialmente ceder parte de seu território para o extremismo. Tudo em nome da “integridade e da população”, muito embora, contraditoriamente, deixar o Talibã governar parte importante do território noroeste paquistanês seja, em última instância, abrir mão da soberania nacional.

O governo de Islamabad decidiu propor uma singela troca aos talibãs. O exército vai interromper as tentativas – todas infrutíferas – de acabar com as atividades do grupo. Em compensação, haverá uma trégua que permitirá às autoridades paquistanesas realmente se esquecerem de vez da região do Vale do Swat.

A intenção é acabar não apenas com os bombardeios dos Estados Unidos aos membros do Talibã que já dominam cerca de 70% do noroeste do país. O objetivo é concentrar os esforços militares na rivalidade histórica com os indianos na Cachemira, já que, após mais de um ano e meio de luta, incrivelmente os 3 mil talibãs não foram derrotados pelos 12 mil soldados que compõem as tropas oficiais.

Quem perde com a decisão é, no final das contas, os 1,3 milhão de habitantes do Swat, que são absolutamente contrários à presença do Talibã. Nunca é demais lembrar que são esses talibãs os responsáveis por queimar escolas para mulheres e jogar ácido no rosto de meninas que insistem em cometer o abuso de frequentar as aulas.

Por tudo isso, nas eleições legislativas do ano passado, a maioria esmagadora dos moradores de Swat votou no Partido Nacional Awami, legenda que defende ideais laicos. Mesmo assim, o Estado não hesitou em fazer um acordo com os talibãs.

Entrevistado pelo The New York Times, o ministro de informações insistiu em reafirmar a preocupação governamental com a população.

“A vontade popular do povo de Swat está no centro de todos os nossos esforços”, disse.

Se a criação de um Talibastão é mais um enorme desafio para o governo Obama, esse cenário desastroso servirá ao menos para colocar em prática o desejo de muitos daqueles que defendem a teoria de que o terrorismo não é o fim, mas um meio.

Muito embora o terrorismo prove a cada dia não ser motivado ideologicamente por nada além da simples reprodução da violência, ainda há românticos ocidentais que acreditam mesmo que, se o objetivo desses grupos for realizado, o mundo será um lugar tranquilo onde todos conviverão em paz e harmonia. Os objetivos são variados: a libertação da Cachemira, da Chechênia, a deposição da monarquia saudita, a criação de um Estado palestino etc.

Particularmente, sou bastante contrário a esta teoria. Acho que o terrorismo é um fim em si mesmo. Se seus objetivos forem alcançados, outros novos serão inventados para substituí-los.

Afeganistão

A capitulação oficial do Paquistão é anunciada simultaneamente à divulgação de um dado que piora ainda mais a guerra contra o terrorismo. Segundo relatório da ONU, o número de civis mortos no Afeganistão aumentou 39% no ano passado. É a proporção mais expressiva desde a invasão ao país, em 2001.

Os talibãs foram responsáveis por 55% do total de 2.118 mortos; enquanto as forças dos EUA, OTAN e Afeganistão, por 39%.

Um comentário:

Bruno Ruivo disse...

Questiono o uso do termo Talibastão, pois o Talibã já foi o grupo soberano de um país, o Afeganistão. Será que há surpresa no Paquistão ceder parte de sua soberania para o terrorismo? Não foi através de terrorismo, entre outras coisas, que a maioria dos países, senão todos, se fizeram soberanos? Talvez, mas aqueles que só através do terrorismo garantiram sua autonomia política, só através do terrorismo se especializa em fazer política. O Paquistão perdeu a Benazir Bhutto para o terrorismo, e se o governo se mostra apto a reconhcer a legitimidade desse tipo de prática a seu favor, ele jamais poderá negá-la quando usada em seu favor sob auspícios morais. Nem a França nem os EUA puderam superar esse paradoxo. E, de qualquer forma, o que que o terrorismo se propõe verdadeiramente a conquistar que ele efetivamente não consiga?